Superando o passado
32 Capítulo 32
Eu gostaria de não ter que sair da cama hoje, na verdade, nem hoje, nem nunca mais, mas eu não posso me dar esse luxo, por que embora minha vida pareça destruída, ela não se trata apenas de mim e é só por isso que eu me obrigo a me levantar da cama.
Dormi no meu quarto dessa vez, apenas pra descobrir que foi ainda pior do que eu pensei que seria, por que cada centímetro desse lugar tem ele, tem nós. E dói. Abro a porta do guarda roupa e tento ignorar os cabides que enchem mais da metade dele, assim como os pensamentos de “ como será que ele tá se virando sem as coisas dele?”. Pego minha roupa e vou pro banheiro, saio de lá arrumada, mas ainda sem nenhuma animação.— Bom dia! – Vinny e Bianca que estavam na cozinham falam ao mesmo tempo e parecem surpresos em me ver de pé e arrumada.— Achei que fosse tirar o dia de folga – Vinny que arrisca falar, eu dou de ombros.— Pelo que eu saiba ainda não ganhei na loteria – sei que fui grossa e que ele não fez nada pra merecer isso, mas me dou o direito de não me desculpar, pelo menos por hoje.— Tem café! – Bianca fala tentando ser gentil.— Obrigada, tô sem fome – pego minha chave de cima da mesinha e já estava abrindo a porta.— Quer carona? — Obrigada – em resposta abro a porta e saio. Uma parte minha está me achando uma vaca egoísta por tratar eles assim, mas sinceramente, outra parte ainda maior, não está nem aí, claro que eu ainda os amo, mas por enquanto eu não quero ter que ser gentil, nem me desculpar, nem me preocupar em parecer bem, eu só quero que tudo isso passe. Paro numa cafeteria e como estou com tempo escolho uma mesa de canto, me sento e peço um café e um queijo quente, não que eu esteja com fome, nem nada assim, mas eu sei que preciso me alimentar, puxo meu celular e entro na agenda virtual pra ver tudo que tenho que fazer hoje e agradeço quando percebo que o dia será agitado. Tomo meu café e vou andando sem pressa até o escritório, quando chego ainda estou no horário. Fabiana que é a secretária que entrou no meu antigo lugar me recebe com um sorriso, eu gosto dela, ela tem feito um ótimo trabalho e sempre está disposta a ajudar, mas hoje eu apenas queria não ter que sorrir pra ninguém.— Assim que a pauta da reunião estiver pronta você me avisa, por favor, preciso rever algumas coisas... – forço um sorriso que sai quase como um robotizado.— Já está na sua mesa, é que eu cheguei cedo – ela fala toda orgulhosa e mesmo sem nenhum bom humor, dessa vez me forço a ser um pouco mais educada.— Você nunca decepciona – forço outro sorriso, ela sorri mais ainda e então vou pra minha sala. Na verdade não é nada muito grandioso, apenas uma sala com uma mesa, duas cadeiras e uns pequenos móveis de escritório, tudo por que o escritório está passando por algumas mudanças e duas mesas na recepção estava atrapalhando o caminho, então eu meio que fui transferida para essa sala, assim que entro vou olhar a pauta e preparar tudo para a reunião. Na hora do almoço já estava terminando de digitar um documento quando Fabi aparece, ela está com um sorriso diferente, meio animado e ao mesmo tempo nervoso demais.— Tem um cara que tá te procurando lá fora – meu coração dispara tão rápido e tão forte que eu penso que ele pode simplesmente rasga meu peito e minha blusa e sair por aí, mas me obrigo a me controlar, e em apenas um segundo várias coisas passam pela minha cabeça, a primeira delas é que pode ser ele, mas logo em seguida, o fato dela dizer que tem “um cara” me faz descartar a ideia, por que ela conhece o Rafa, ele já veio me buscar várias vezes aqui no trabalho, então não pode ser ele, no momento que chego a essa conclusão, sinto como se tudo perdesse o sentido de novo, agora meu coração já não dispara de ansiedade e sim de dor.— Ele disse o nome? – o sorriso dela aumenta.— Vítor – então entendo o motivo do sorriso nervoso dela.— Pode mandar entrar – respiro fundo já que nossa ultima conversa não foi nada boa. Ele entra na sala fazendo uma cara de impressionado.— Agora você tem uma sala e uma secretária, tá importante mesmo ein – ele brinca com o mesmo sorriso brincalhão que ele sempre usou comigo e eu respiro um pouco aliviada, por que sinceramente, mais uma dose do que foi a nossa conversa eu não sei se suportaria.— Ela não é minha secretária e só tô nessa slaa por que estava atrapalhando lá fora – dou de ombros e ele ri.— Ainda assim é uma sala só sua!— É, não posso reclamar – olho em volta e mesmo pequena ela é aconchegante – E então? Quem você quer processar? – ele ri, mas não um riso muito divertido e isso me deixa alerta, ela me estica um envelope que estava nas mãos e eu o olho confusa.— Melhor irmos direto ao ponto logo – eu pego o envelope sem saber do que se trata, mas o abro assim mesmo, várias folhas estão dentro e antes de puxá-las, olho pra ele esperando uma explicação – Eu estive com o Rafa ontem – meu coração volta a disparar mesmo com a simples menção do seu nome – Ele me pediu que te entregasse isso e se tiver alguma dúvida... – ele abre os braços como se indicasse que pode resolver, tiro os papéis do envelope e começo a lê-los. O primeiro deles é sobre o food truck, ele passou a parte dele para o nome do Vinny e ler isso é como uma facada certeira no meu coração, por que quer dizer que ele não quer mais nada com nenhum de nós, as lagrimas ameaçam descer pelo meu rosto, mas me seguro por que por pior que seja, de certa forma era algo a se esperar, eu sabia que a mãe dele fez tudo que fez para afastá-lo de nós e não perderia tempo em fazer a cabeça dele pra largar tudo que nos mantivesse ligados, então passo para os outros papéis, são receitas, todas as receitas que ele mesmo fazia no food e que se recusava a passar para mais alguém, engulo a vontade de chorar mais uma vez e passo para o último papel, esse é da hamburgueria e o que mais me deixa sem reação.
— O que... Eu não vou assinar isso – eu aviso abaixando os papéis e olhando pro Vítor que esta sentado a minha frente.— Ele disse que você ia dizer isso...— Isso é... é... Eu nem sei o que isso é, eu só sei que eu não vou assinar isso, não vou. Não tem menor condições... Leva isso de volta – eu estico pra ele, mas ele se recusa a pegar – Eu não quero nada dele – eu falo dividida entre a dor de saber que o perdi e a raiva por ele achar que eu aceitaria que ele passasse a hamburgueria dele pro meu nome. — Ele disse que não vai voltar atrás...— Nem eu! Eu não vou aceitar isso! — Dani, ele tá indo embora, não tem mais nada pra ele fazer aqui – ele me fala com certa tristeza e por mais que isso também me deixe arrasada, não posso aceitar, é o sonho dele, ele construiu, ele conseguiu, mesmo que a história da traição fosse verdade, eu nunca aceitaria nada assim e isso me deixa irritada.— Então é isso? As coisas não dão certo entre nós e ele sai correndo e volta pra vida que ele tanto odiava? – deixo a minha raiva falar mais alto.— Nós dois sabemos que você era o único motivo pra ele não ser aquele cara...— Não! Não era. Ele odiava aquela vida muito antes da gente se conhecer...— Mas só teve coragem de fazer alguma coisa depois que te conheceu...— E tá abrindo mão de tudo assim? Tão rápido? Isso é ridículo! Você não pode deixar ele fazer isso, fala com ele, conversa, sei lá, mostra pra ele a besteira que ele tá fazendo jogando tudo pro ar... Vocês são amigos, não são? Então, faz alguma coisa... – eu peço desesperada, por que ele precisa fazer algo, precisa convencê-lo a não desistir de todos os sonhos dele, ele estava indo tão bem, ele precisa continuar, precisa ser feliz e eu não suportaria que ele abandonasse tudo por minha culpa, eu não posso deixar que isso aconteça.— E do que ele tá desistindo, Dani? – ele para e me olha confuso – Do food? Da hamburgueria? Do dinheiro que ele tirava delas? Você acha mesmo que era isso que fazia ele querer continuar, que era isso que fazia ele querer ser melhor? – não respondo – Era você, Dani, sempre foi você! E se não tem você – ele dá de ombros – Eu não tenho como argumentar com ele... Ninguém tem... — Você nem tentou— Nem tentei? – ele agora parece meio ofendido – É tudo que eu tenho feito desde que soube o que aconteceu, por que eu sabia que ele faria isso, eu sabia que sem você ele não ia nem sequer tentar... Eu passei a madrugada toda tentando convencer ele do contrário, a continuar por aqui, até a tentar te reconquistar, mas não adianta, ele já se decidiu, ele disse que não vai mais estragar sua vida, que você merece mais e me pediu pra cuidar de você, é por isso que eu estou aqui e não um advogado qualquer – ele explica mais só uma coisa continua se repetindo na minha cabeça.— Ele vai embora? – o rosto dele parece realmente triste e decepcionado.— Ele já foi! Hoje de manhã – meu corpo se afunda na cadeira, qualquer mera esperança que pudesse estar passando pela minha cabeça se desmancha e agora o término é algo concreto. Ele se foi. Já não estamos mais nem na mesma cidade. Ele se foi. A certeza disso dissolve qualquer força que eu tenha e qualquer controle sobre mim, e então as lagrimas descem – Eu sinto muito, eu não vim aqui pra te fazer sentir mal, nem nada assim, eu só estou dizendo a verdade...— Eu quero ficar sozinha – eu peço com a voz já embargada, e as lagrimas ainda rolando, por mais que eu tente evitar, ele não diz nada, apenas se levanta e sai da sala, eu me afundo na cadeira e me deixo chorar sem reservas, a dor rasgando meu peito junto com a culpa e a saudade. Quando finalmente consigo parar de chorar, me recomponho, me levanto e saio da sala, Fabi está na mesa dela e vou até lá.— Eu preciso falar com o Dr. Leones – eu peço e ela me olha meio preocupada.— Tá tudo bem? – provavelmente minha cara deve estar horrível, mas eu minto.— Tudo, só preciso falar com ele...— Ele tá sozinho, só vou avisar que você está indo – ela pega o telefone e me anuncia – Pode entrar – ela fala quando desliga e eu vou até a sala dele, dou apenas uma batida e logo entro, ele estava escrevendo algo, mas para assim que eu entro.— Desculpa atrapalhar, mas... Eu queria saber se posso sair mais cedo, é que eu não estou me sentindo muito bem – tento forçar um sorriso, ele me olha preocupado, se levanta e vem até a mim.— Precisa de atendimento? Podemos chamar alguém...— Não, não, eu... Eu só não estou muito disposta, minha cabeça está explodindo, não conseguiria formular uma única linha de nada – mesmo preocupado, ele sorri um pouco aliviado.— Você foi uma ótima secretária e tem sido uma ótima estagiária, então esse é um pedido que eu nunca negaria, aliás, não tenha pressa, se amanhã você ainda se sentir mal, não tem problema, você treinou a Fabiana muito bem... — Obrigada, eu... Realmente não estou com cabeça hoje, mas amanhã estarei melhor...— Eu espero que sim – ele sorri e eu forço um sorriso, mas antes que eu saia ele completa – Me desculpe se eu estiver sendo muito intrometido, mas... Você e o Rafael... – ele não termina a pergunta, mas eu entendo.— Nós terminamos – dou de ombros enquanto as lagrimas ameaçam de novo.— É, eu desconfiei assim que eu vi as notícias – isso chama a minha atenção e não disfarço a cara surpresa.— Notícias? — Ele acabou de assumir as empresas do avô dele, é a noticia mais comentada da tarde – minha vontade é de sair correndo, mas me contenho.— Eu não sabia – ele concorda e passa a mão pelo meu ombro.— Bom, melhoras e se não melhorar procura um médico, não se preocupe com nada aqui – eu apenas aceno com a cabeça e saio da sala segurando a lagrima que desce assim que eu fecho a porta, vou direto pra minha sala e pego minha bolsa e os documentos que o Vítor deixou aqui, então saio, Fabi fala algo quando passo pela mesa dela, mas não ouço e apenas ignoro e entro no elevador. As lagrimas escorrem pelo meu rosto mesmo quando tento segurar quando um homem de terno entra no elevador.— Posso ajudar? – ele parece preocupado, mas eu nego.— Obrigada – prendo o choro e assim que as portas se abrem de novo, eu saio. Do lado de fora, paro na calçada, respiro fundo, fecho os olhos e solto o ar lentamente, abro os olhos de novo e volto a andar, pego um táxi que estava parado na frente do prédio e vou direto pra casa. Assim que entro no prédio, Seu João acena pra mim.— O menino Rafael deixou isso aqui – ele me entrega um envelope e pelo volume sei que são as chaves do apartamento – Ele saiu com umas malas... Ele tá indo embora?— Voltou pra casa do avô – ele faz uma cara triste.— É uma pena, vocês formavam um belo casal – as lagrimas ameaçam cair de novo – Mas vocês dois parecem tão tristes, tem certeza que foi o único jeito? – não respondo, apenas abaixo a cabeça e saio, dessa vez nem tento pegar o elevador, subo de escadas mesmo, querendo adiar o máximo de tempo possível a hora em que eu entrar no apartamento e não ver mais nada dele lá, por isso assim que alcanço a porta ainda fico alguns longos segundos parada tomando coragem e quando finalmente faço e a porta se abre meu coração se aperta, entro e vou direto pro meu quarto. As fotos que formavam um coração na parede não estão mais lá, no lugar apenas os vestígios de algo que foi arrancada, na prateleira já não tem mais nenhum dos seus livros, nem os CD’s que compramos em uma ida a feira, no guarda roupa os cabides estão vazios e as gavetas nunca tiveram tanto espaço como tem agora, tudo parece grande demais sem ele, e ao mesmo tempo em que a tristeza me invade, o cansaço também, então apenas me jogo na cama, agarro o travesseiro que ainda tem o cheiro dele e fico parada, totalmente imóvel.— Dani? – não sei quanto tempo se passou, mas quando abro meus olhos Vinny está me balançando levemente, parece preocupado – Não era pra você tá no trabalho?— Sai mais cedo – agora ele parece ainda mais nervoso.— O que houve? – eu poderia dar um milhão de motivos para não estar bem, mas estou cansada de falar, de pensar ou simplesmente de existir, então apenas volto a me encolher e o ignoro – Dani? – fecho os olhos e me obrigo a me desligar dele, até que sua voz é apenas algo distante, tão distante que eu já nem ouço mais. Quando volto a abrir os olhos estou sozinha no quarto e já está escuro, me levanto, vou até o banheiro, acabo tomando um banho e mesmo sem nenhuma vontade minha barriga ronca e eu saio para procurar algo pra comer, saio do quarto e a luz acesa me mostra que tem alguém na cozinha, penso em voltar pro quarto, mas minha barriga ronca novamente e sinto um vazio no estomago, então respiro fundo e vou assim mesmo.
Pra minha sorte é a Bianca, ela me vê e abre um pequeno sorriso.— Também foi atacada pelo monstro da fome da madrugada? – mesmo sem estar no menor clima para brincadeiras, eu forço um sorriso.— É, acho que sim – ela me empurra o prato onde ainda tem 4 triangulos de sanduiches.— A gente não queria mesmo comer sozinhos, mas o Vinny parece uma pedra dormindo – ela reclama com a mão na barriga, mas não parece brava, me sento no banco ao lado do dela e aceito um dos sanduiches – Ele tava preocupado com você...— Só não queria falar com ninguém – dou de ombros, evitando olhar pra ela.— Eu vi o noticiário – não preciso perguntar do que se trata, por que eu sei o que é, apenas fico em silêncio, pra quem sabe ela entender que não quero falar disso, mas parece que não funciona, por que ela continua – Eu sei que não tenho nada a ver com isso e que talvez eu nem devesse abrir minha boca pra opinar ou falar qualquer coisa que fosse, mas... Eu vi ele hoje nas entrevistas, vi as fotos, vi as filmagens... Ele não tá bem e você também não está... Eu sei que parece cruel falar essas coisas justo agora, mas é por que ainda dá tempo, você ainda pode voltar atrás, as coisas ainda podem se resolver... – como continuo em silêncio, ela toca minha mão que estava em cima do balcão.— Eu já tomei minha decisão – tiro minha mão debaixo da dela e mordo meu sanduiche.— Posso te perguntar uma coisa? – levanto os ombros indicando que pode – Você tem certeza que isso não tem nada a ver com a visita da mãe dele? – tento disfarçar minha reação e evito olhar pra ela.— Não sei como pode ter a ver com ela. Ele me traiu, fim da história...— Esse é o problema... Eu não consigo acreditar que ele te traiu, Dani, não faz o menor sentido. Ele te amava! Ele realmente te amava, sabe? Eu cansei de acordar cedo e encontrar ele aqui na sala suspirando por você, imaginando algum jeito de te surpreender... Eu cansei de ouvir ele me pedindo conselhos sobre como ser um cara melhor pra você, cansei de ouvir ele falando de você, e era lindo ver isso, os olhos dele brilhavam, ele ficava sorrindo que nem bobo, e era tão real, tão forte, era o tipo de amor que só acontece uma vez na vida e ele valorizava isso... Eu realmente não consigo acreditar que ele trairia você, por que eu conheço ele, talvez não tanto quanto você, mas eu sei que ele é meio arrogante, mauricinho, que odeia admitir que está errado, é teimoso e meio genioso também, mas ele não é mau caráter, não é um mentiroso, e ele nunca, nunca mesmo faria algo que sabia que te machucaria... Além disso, eu não consigo tirar da cabeça que isso tudo só aconteceu quando a mãe dele apareceu, quer dizer, vocês estavam bem, estava tudo bem, até ela aparecer inventar aquela recepção sem sentido e do nada o Rafa aparecer se agarrando com alguma qualquer, isso é no mínimo suspeito, ela some a vida inteira e agora aparece e quando aparece tudo dá errado entre vocês? Não faz sentido, ou melhor, faz todo sentido do mundo...— Chega! – eu a corto antes que ela continue com a sua teoria e consiga chegar a algum lugar, não posso correr esse risco, por isso abandono o sanduiche e me levanto – Eu sei que você quer ajudar, mas não dá, não teve nada a ver com ela, foi uma decisão que já está tomada, então, só esquece isso, ok? Por favor... Eu... Eu não aguento mais remoer isso toda hora – ela parece concordar, mas a maneira como ela me olha só parece ter reforçado a teoria dela então antes que eu piore as coisas eu me afasto – Eu vou dormir, você deveria ir também – viro as costas e volto por quarto. Entro no quarto, fecho a porta e me jogo na cama, Bianca foi a primeira a sacar que a mãe dele apareceu por um motivo suspeito e agora começou a juntar as peças, eu preciso disfarçar melhor e manter ela pensando em outras coisas, se não logo ela convence todo mundo e eles vão começar a suspeitar e isso não pode acontecer, por isso decido que a partir de amanhã eu vou pelo menos parecer bem. Na manhã seguinte percebo que será ainda mais difícil parecer bem, por que assim que chego na sala, a tv está ligada e a voz dele faz meu coração disparar, Vinny pega no controle pra mudar de canal, mas Bianca o impede, Rafa está na Tv dando uma entrevista, levo alguns segundos pra entender do que se trata e então quando vejo a palavra funeral embaixo entendo. O avô dele morreu. Como confirmação a jornalista dá os detalhes, ele faleceu na madrugada por parada cardiorrespiratória, ele ainda estava sob cuidados médicos e seu estado era de atenção, quando ela termina de falar pergunta pra ele como estão indo as coisas e ele que está de óculos escuro, e todo de preto responde com a voz que parece tão diferente daquela que eu escutava toda manhã. — É um momento difícil, tanto pra mim, minha mãe e todos os amigos, mas estamos fortes, ele foi bem cuidado, e tenho certeza que agora está descansando, então tudo que posso fazer é prestar minha ultima homenagem a ele...— E quanto a empresa? Você realmente vai se manter no comando? – um outro jornalista pergunta e eu tenho vontade de socar a cara dele por ser tão insensível, mas Rafa não parece surpreso.— Ainda teremos uma reunião com todos os acionistas pra oficializar tudo, mas sim, se não houver nenhuma objeção...— E quanto a sede que está pra ser inaugurada na Alemanha?– outro jornalista pergunta.— Bom, após a reunião do conselho e minha aprovação na presidência, que deve acontecer ainda esses dias, eu mesmo vou pra lá acompanhar tudo de perto... Sinto como se um zumbindo ecoasse pelo meu ouvido e fizesse tudo perder o sentido. Alemanha. Ele vai pra Alemanha. Não é possível, eu não estava preparada pra isso. Eu sabia que iriamos nos afastar, mas Alemanha é longe demais, eu... Eu não sei como lidar com isso e fica ainda mais difícil quando Vinny desliga a tv e me olha.— Tá tudo bem? – levo alguns segundos pra tomar a coragem e fôlego pra responder.— Tá – é tudo que consigo dizer e logo me viro, dando as costas pra ele e indo até a cozinha, ouço os passos atrás de mim e me preparo.— Tem certeza que você não quer conversar com ele antes disso? – a voz não é do Vinny, é da Bianca, me viro pra ela e nego – Eu pensei de novo no que conversamos e...— Eu não quero ouvir mais nada sobre isso...— Mas Dani, só me escuta, vai fazer sentido, nós sabemos que ela odiava você, odiava ele estar morando aqui, é claro que ela ia querer acabar com isso...— Quem ia querer acabar com o quê? – Vinny pergunta vindo logo atrás dela.— Nada!— A mãe do Rafa – ela me corrige e ele para confuso – Eu não te falei nada antes por que você tava todo nervosinho e eu nem podia tocar no nome dele, mas me escuta, eu não acho que o Rafa traiu a Dani – o olhar do Vinny é de reprovação e uma parte minha agradece que ele não leve isso em consideração.— Eu já disse pra ela encerrar o assunto – eu complemento, mas antes que ele fale algo ela levanta a mão pedindo pra falar.— Eu sei que vocês estão odiando ele e de dentro é mais difícil de enxergar, mas pensa bem, estava tudo bem até ela aparecer, até a mãe dele do nada lembrar que tem um filho e aparecer aqui, antes disso eles estavam vivendo a vida perfeita, NÓS estávamos e então ela aparece e assim como um passe de magica, o Rafa, que todo mundo sabe que faria tudo pela Dani, simplesmente trai ela, assim no meio de uma festa que a mãe dele organizou? – agora Vinny não tem mais o olhar de reprovação, pelo contrario ele parece realmente acreditar.— Eu vi! – é tudo que consigo argumentar.— Pode ter visto apenas o que ela queria que você visse... – Vinny fala e Bianca sorri com a ajuda, enquanto eu começo a ficar desesperada e encurralada.— Eu não preciso ouvir isso... Como se fosse uma conspiração. Pois não foi, eu também queria que fosse, mas não é, isso é um caso encerrado pra mim – passo por eles tentando parecer irritada e magoada, puxo minha bolsa do sofá e vou pra porta.— Então tudo bem pra você ele estar indo pra Alemanha sem data pra volta? Você nem sequer quer tentar? – Bianca pergunta e antes que eu acabe ainda mais enrolada, saio sem responder. Hoje eu deveria fazer essa teoria dela morrer e ao invés disso ela conseguiu fazer o Vinny ouvi-la e eu tenho certeza que eles vão falar com a Lia, e tudo vai ficar ainda mais complicado, por que eu sei que ela também vai acreditar e não posso culpar eles, por que se eu estivesse no lugar deles, também acreditaria e também tentaria ajudar, acontece que eles não sabem o perigo que isso envolve, descobrir a verdade ou tentar reatar eu e o Rafa é o mesmo que destruir a vida deles e isso não pode acontecer, eu deveria ter falado algo que fizesse eles desistirem dessa ideia, mas acontece que uma boa parte minha quer que eles duvidem, por que eu não sou tão altruísta quanto achei que fosse, eu os amo e quero protege-los, estou tentando fazer isso, mas acontece que dói demais, e tudo que eu queria era não ter que ser forte, não ter que me sacrificar e sacrificar o Rafa junto, mas eu não posso, agora que comecei tenho que ir até o fim, e vou ter que dar um jeito de fazer eles desistirem dessa ideia. Passo todo o tempo que consigo livre no trabalho pensando no que fazer, mas dividida entre o sentimento de não precisar mais esconder nada, mesmo que isso pareça egoísta, a desconfiança deles consegue me deixar menos deprimida e no final do dia quando não consigo montar nenhuma estratégia, não sei se foi por não ter saída ou pelo simples fato de não querer encontra-la. Eu falto a faculdade mais um dia e vou direto pro apartamento, quando chego lá, Bianca, Vinny, Lia e Vítor estão na sala e eu tenho certeza do que se trata.— A gente precisa conversar – Lia é a primeira a falar e ela parece animada – A Bianca me procurou e ela contou sobre o que pensa daquela desgraçada da mãe do Rafael ter a ver com o término de vocês...— Eu achei que tivesse dito que não queria falar sobre isso – eu tento parecer impassível...— Mas nós somos a maioria e concordamos que vamos falar – eu reviro os olhos, e sem responder viro as costas e vou pro caminho do quarto.— Ele vai estar aqui amanhã – a frase me faz parar, por mais que eu devesse ignorar, já que quero fazer eles desistirem, mas não consigo, me viro pro Vítor e ele repete – Ele vem pra cá amanhã...— O que vocês fizeram? – pergunto entre o medo e ansiedade.— Nada! Ele vem por que tem que resolver algumas coisas... – sinto uma ponta de decepção, mas a escondo.— Essa pode ser sua chance – Lia fala animada – Vocês podem conversar, se entender... — Não tem nada pra ser conversado!— É só uma conversa, Dani, só isso, mesmo que seja verdade que ele te traiu, não é melhor você ouvir isso dele do que ficar a vida inteira se perguntando como seria se tivessem conversado...— Eu já tenho minha decisão...— Então não importa se você vai ver ele ou não – Vinny fala me desafiando.— É só uma conversa, em respeito a tudo que vocês viveram, a toda história de vocês – Vítor apela sabendo que esse é um bom argumento, mas não posso me render.— Eu não vou falar com ele e se vocês não podem respeitar a minha decisão, é vocês quem precisam rever do lado de quem vocês estão – viro as costas e saio da sala. Entro no meu quarto, jogo minhas coisas na cama e fico parada digerindo tudo que acabou de acontecer, ainda estava terminando quando a porta do meu quarto abre, Vinny entra.— Eu sinto muito, você tá certa, eu tô do seu lado, NÓS estamos – ele me dá um sorriso e abre os braços, sem nem pensar duas vezes me jogo neles e me deixo ser amparada.— Obrigada – ele beija minha testa.— Só tenha certeza do que você realmente quer – concordo e então ele sai, e eu me jogo na cama. Passo a noite quase toda acordada, e quando tento dormir me imagino encontrando com Rafa, me jogando nos seus braços e pedindo perdão por tudo que o fiz passar e então nós nos beijamos e eu acordo sozinha na cama. Já está claro e meu coração dispara ao lembrar que ele estará na cidade hoje, mas me obrigo a não pensar mais nisso e me arrumo pro trabalho, garantindo a mim mesma que hoje não me darei o luxo de ter tempo livre pra não fazer nenhuma besteira e é exatamente o que eu faço, deixo o celular de lado e passo cada segundo da manhã trabalhando, adianto todas as minhas tarefas, ajudo Fabi com as dela, faço funções que nem são mais minhas, e faço outras que nunca nem foram minhas, ajudo quem quer que seja e na hora do almoço me recuso a parar pra almoçar, pego apenas alguns biscoitos e continuo lendo e relendo papéis procurando uma brecha para um processo que estamos trabalhando, e continuo assim por toda tarde, quando o fim do expediente chega, decido que vou pra aula, pego meu celular na bolsa apenas pra descobrir que está sem bateria, mas dessa vez não me preocupo, é melhor assim, não quero correr o risco de ter nenhum deles tentando encher minha cabeça e me tentando a encontrar o Rafael.
— OLHA ELAAAAA! Finalmente apareceu – Marilia, uma das meninas da minha sala, vem ao meu encontro assim que entro no corredor da faculdade, Matheus vem logo atrás dela e faz uma cara de surpreso.— Achei que tinha ficado rica – ele fala mas me puxa pra um abraço meio desajeitado.— Eu só faltei dois dias— Quando você ver o tanto de matéria e trabalho que acumulou vai achar que foi um ano – Marilia me assusta e eu quase me arrependo de não ter vindo.— Agora vamos, o professor já entrou – Matheus me leva quase arrastada junto com ele e então assistimos a aula, hoje só temos uma matéria então ainda são nove da noite quando saímos da faculdade.— A gente vai pra um barzinho, tá afim? – Marília me convida e mesmo que eu não esteja no clima, ainda assim tenho menos clima ainda pra enfrentar, Bianca, Vinny, Lia e os outros.— Parece uma boa – Marília e Matheus me olham surpresos.— Você vai mesmo?— Era um convite não era? – eles mantem as expressões, então reviro os olhos – Quer saber, esquece então – antes que eu vire as costas, Matheus me puxa e me agarra nele.— Será uma honra ter uma companhia tão maravilhosa assim – ele exagera, mas acabo rindo enquanto ele me aperta ainda mais nele, então quando quase quebra meus ossos, ele me solta e vamos andando pro tal barzinho. Pelo tempo que ficamos eu me desligo do restante, falamos da faculdade, dos professores, das pessoas que não gostamos e daquelas que gostamos também, algumas garrafas de cerveja se vão no meio do papo, mas quando acabamos me sinto nervosa, ansiosa e cansada novamente, nos despedimos e eles dividem um Uber enquanto eu prefiro ir de metrô, eu ando até a estação e pelo horário não está tão cheia, por isso até consigo me sentar, mas isso só serve pra me dar tempo de pensar, e tudo que eu evitei de pensar durante todo o dia parece explodir de uma só vez na minha mente e como num acesso louco, assim que o metrô abre as portas numa estação antes da minha, eu desço, saio da estação e meus pés já sabem o caminho certo, por que mesmo sem que ninguém tenha me dito onde ele estaria, eu sei, por isso só paro quando estou na frente do principal hotel da cidade, o mesmo em que a víbora da mãe dele ficou hospedada, mas assim que paro na frente do lugar, não sei o que fazer, não posso simplesmente subir, não posso dizer a verdade, não posso abraça-lo pra consolá-lo pela morte do seu avô, nem pedir perdão por fazer ele sofrer, também não posso pedir que ele fique, não posso fazer nada, quando concluo isso, percebo que na verdade eu já sabia de tudo isso, mas ainda assim tem uma coisa que preciso fazer antes de realmente abrir mão dele e o deixar ir, eu preciso vê-lo mais uma vez, uma ultima vez, mesmo que de longe, mesmo sem que ele me veja também, então entro no hotel e vou até a recepção.— Boa noite! O Rafael Viana já chegou? Nós temos um encontro marcado – minto e forço um sorriso, o homem na recepção sorri de volta e olha em algo no computador.— Ele ainda não retornou – bingo, ele está mesmo aqui – A senhora gostaria de aguardar?— Ah não, eu ligo pra ele e marcamos outro horário, obrigada – saio rapidamente antes que ele peça meu nome ou que o Rafa apareça, saio do hotel, vou para a calçada do outro lado onde um bar um pouco mais chique do que o que eu estava mais cedo e ocupo uma mesa do lado de fora onde posso observar a movimentação, os minutos passam e eu começo a pensar que foi um erro terrível, até que um carro preto para na frente do hotel e ele desce da parte de trás, meu coração dispara assim que o reconhece, mesmo sem vê-lo de frente sei que é ele, jogo o dinheiro em cima da mesa e saio do bar, um sorriso aparece no meu rosto, então ele dá a volta no carro e abre a porta do outro lado, uma mulher desce e meu sorriso desaparece, ela usa um vestido curto demais, é loira e logo se pendura nele, inclinando o rosto para o seu pescoço, o carro vai embora e mesmo de longe vejo quando ela passa a boca pela sua pele e isso me enche de nojo e raiva, então sem pensar em mais nada, eu apenas atravesso a rua, corro e quando estou apenas a poucos passos de distancia e eles já estão entrando no hotel, o nome escapa da minha boca.— Rafael! – ele se vira tão rápido que parece que estava esperando por isso, mas não estava, sei disso por que seus olhos se arregalam como se ele tivesse visto algo impossível, ele pisca algumas vezes e parece ainda não acreditar, a mulher que estava com ele me olha de cima a baixo com cara de nojo, mas a ignoro e apenas consigo olhar pra ele, ele parece ainda mais lindo do que eu me lembrava, ele está com uma calça jeans escura, camisa branca de botões abertos até a metade do peito, deixando a mostra uma boa parte do seu corpo e um blazer preto por cima, a barba está feita, sem um único fio de pelo no rosto e seus olhos estão fixos no meu com a mesma escuridão do primeiro dia, e tudo que eu quero é me jogar nos braços dele e dizer o quanto senti sua falta, mas o que acontece é que ficamos apenas parado um olhando nos olhos do outro.
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