Uma vez eu estava vendo um programa onde as pessoas contavam suas experiências de “quase morte” envolvendo ataques de animais, e um dos caras estava falando sobre quando ele foi atacado por um urso, ele disse que a principio lutou com o animal pela sua vida, por que era o instinto de sobrevivência, até que o urso deu um rugido muito forte, tão forte que o fez perder as forças, e ele apenas ficou ajoelhado, olhando pro urso enquanto o animal rugia, ele disse que a mente dele sabia que deveria levantar, correr, lutar ou qualquer outra coisa que salvasse sua vida, mas ele não conseguia, seu corpo estava paralisado e por mais que ele quisesse se mover, parecia impossível, era como se ele estivesse anestesiado de medo. Eu lembro que quando ouvi aquilo achei um exagero sem fim e fiquei lá dizendo o quanto o cara é fraco e covarde, mas se eu o encontrasse agora, pediria desculpas, por que hoje eu entendo perfeitamente o que ele sentiu naquele dia.
Desde o segundo em que a mãe do Rafa saiu do escritório eu sinto como se meu corpo tivesse simplesmente se desligado, não a minha mente, ela continua intacta e fervendo, mas eu não consigo mexer um único músculo do meu corpo, é como se eu estivesse de fora, apenas assistindo alguém jogada no chão, eu não sinto meus pés, minhas mãos, nada. Só um medo incalculável e uma dor que dilacera cada pedaço da minha alma.
Eu já me senti perdida, já senti medo, já achei que nada mais na minha vida fizesse sentido, e achei que por já ter passado por tudo isso, tivesse acostumada e nunca mais me sentiria assim de novo, acontece que agora além de sentir tudo isso, ainda parece pior que antes. Eu não sei como vou ter coragem de fazer o que ela quer, terminar com o Rafa é algo que eu nunca me preparei, por que eu tinha certeza que isso nunca aconteceria, é estranho, por que talvez eu devesse ter pensado nisso em algum momento, mas não, estar com ele é a coisa mais certa da minha vida e de certa forma eu sempre soube que desde o segundo que assumimos o que sentíamos nada poderia nos separar, ou pelo menos era isso que eu acreditava. O Rafa tem sido a melhor parte da minha vida, é como uma recompensa da vida, um presente incalculável e eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo por poder estar perto dele e agora eu vou ter que abrir mão disso, não apenas desistir dele, mas destruí-lo, por que eu sei que é isso que vai acontecer quando terminarmos, não por que eu seja muita coisa, mas por que eu sei o quanto o sentimento dele por mim é forte, pois eu sinto o mesmo, eu sei o quanto ele abriu mão e mudou por nós dois e eu sei que fazê-lo acreditar que por culpa dele ou do seu passado nós terminamos, irá destruí-lo e eu me odeio por isso, odeio a mãe dele, mas eu não posso arriscar, por mais que eu o ame, por mais que eu destrua a nós dois, eu não posso arriscar destruir a Lia, não posso arriscar destruir o Vinny, sua carreira, a vida que ele está começando agora, não posso fazer Bianca passar por tudo isso grávida, eu simplesmente não posso. Não posso arriscar e só existe uma coisa que eu possa fazer pra evitar isso.
Eu respiro fundo, engulo a lagrima que quer escapar e não sei de onde, tiro forças pra me levantar, eu olho no relógio e já se passaram 20 minutos que ela saiu, o que quer dizer que eu só tenho 40 minutos.
40 minutos.
Em 40 minutos eu irei destruir uma das pessoas que eu mais amo no mundo e irei junto com ele.
Saio do escritório e mal dou um passo ele vem na minha direção, meu coração se aperta tanto que eu tenho a certeza que ele pode não sobreviver a esse dia.
— Onde você tava? Tô te procurando a maior tempão... – ele parece preocupado e ansioso e eu só consigo olhar pra ele, pro seu rosto, pra maneira como suas sobrancelhas se desenham logo acima dos olhos escuros brilhantes que sempre me fascinaram, desde a primeira vez em que eu os vi debaixo de um boné num aeroporto acompanhado de várias piadinhas idiotas – MÔ? – ele balança a mão na frente do meu rosto enquanto a outra mão encaixa na minha cintura – Cê tá bem? Tá me olhando estranho... – ele sorri, um sorriso que me faz querer gritar, agarrá-lo e fugir daqui, mas a figura que entra no corredor e o puxa pelo ombro me lembra que eu não posso fazer isso.
— Quando é que vão começar a servir comida de um tamanho decente? – Vinny implica com ele que revira os olhos.
— Isso é uma noite de degustação. Você deveria ter jantado antes de vir... – Rafa dá de ombros, se esquiva dele e vem pra perto de mim de novo.
— Vai deixar ele falar assim comigo, é?
— Acho que vocês já estão bem grandinho...
— Ah eu estava mesmo te procurando – a mãe do Rafa aparece e eu preciso me controlar pra não pular em cima dela – Finalmente achou a namorada perdida – ela fala com ironia e me dá um olhar que revira meu estomago – Estão te chamando pra umas fotos – ela agarra o braço dele e tenta arrastá-lo.
— Eu preciso de 5 minutos, quase não fiquei com a Dani e já tirei muitas fotos...
— Ai Rafa, por favor, é o seu dia, você tem a vida inteira pra ficar do lado dela, não estou certa, querida? – ela me olha com um certo sorriso vitorioso e de deboche e eu não me lembro de nenhuma outra vez em que eu tenha sentido tanta vontade de chorar e gritar ao mesmo tempo quanto eu sinto nesse momento, eu só gostaria de ter a coragem de falar tudo que aconteceu naquele escritório, como ela me ameaçou e como está disposta a destruir o próprio filho, apenas por orgulho e egoísmo, mas tudo que eu faço é engolir tudo que sinto e com a voz mais neutra possível dizer.
— Claro, vamos ter muito tempo – ela sorri satisfeita, ele me olha meio duvidoso, mas me inclino e beijo seus lábios, rápido demais para uma última vez e então quando ela o puxa novamente, ele se vai e eu sei que essa foi a ultima vez em que eu o vi ainda inteiro.
— A Lia tava te procurando, ela não para de falar da tal festa que vai ter semana que vem... – Vinny começa a falar, mas eu apenas paro de prestar atenção e o acompanho até onde os outros estão, eles também falam, falam e falam, e eu não ouço nada, apenas sorrio, finjo uma leve gargalhada e concordo, enquanto isso meus olhos sempre escorregam para onde o Rafa está, até que depois de quase 10 minutos, eu o perco de vista, fico nervosa e começo olhar ao redor, então encontro a mãe dele olhando pra mim e ela logo faz um sinal com a cabeça para que eu me aproxime, no mesmo segundo meu corpo começa a tremer, o copo que estava na minha mão eu coloco na mesa e respiro fundo.
— Já volto – é tudo que eu consigo dizer pra eles e então saio, vou até ela e disfarçadamente ela coloca uma chave na minha mão, levo um segundo pra entender, é a chave do escritório.
— Não me diga que eu preciso explicar o por quê você deve fazer isso, de novo... – ela me encara, e mesmo querendo voar em cima dela, eu fecho a chave na minha mão e me afasto. Eu vou pro corredor e paro encostada na parede tomando fôlego, mesmo que nada nunca me prepare para o que eu estou prestes a fazer, quando encosto na porta já consigo ouvir as vozes antes mesmo de abri-la, coloco a chave na fechadura, puxo todo ar que consigo, giro e abro a porta, a primeira cena que vejo é do Rafa caindo no chão, ele leva metade das coisas que estavam em cima da mesa junto com ele, seus olhos se arregalam quando me vê, olho para a garota, ela está com o zíper frontal do cropped que estava usando aberto então está praticamente com os seios pra fora, mas estranhamente não é isso que me deixa pior e sim o fato que ela não faz o “tipo” do Rafa, sei que isso é a ultima coisa que deveria passar pela minha cabeça no momento, mas se passa, por que eu apenas não consigo acreditar que a mãe dele o desconhece tanto assim, quer dizer nem mesmo qual tipo de mulher o filho dela se interessaria ela sabe e ainda assim aqui estou eu, abrindo mão dele, abrindo mão de nós dois, da nossa vida perfeita juntos por uma mulher que não sabe absolutamente nada sobre o filho, isso é ridículo, e é apenas agora nesse único segundo em que esse filme se passa pela minha cabeça que eu entendo que não posso fazer isso, não posso entregar a direção da vida do homem que eu amo nas mãos de alguém que não tem noção nenhum do homem que ele é.
— Dani, eu posso explicar, eu juro que posso explicar – ele se levanta rápido, quase tropeça em umas canetas que caíram no chão e tenta me alcançar.
— Não precisa! Eu sei...
— Que porra tá acontecendo aqui? – eu mal tenho tempo de olhar pra trás quando Vinny avança pra dentro do escritório já empurrando Rafa pra parede.
— Não é o que você tá pensando...
— Eu te avisei naquela vez da Priscila...
— Eu não toquei nela, eu juro... – Vinny não diz mais nada, apenas encaixa a mão no pescoço do Rafa e é então que eu consigo reagir e vou pra cima dele, eu agarro seu braço.
— Solta ele, Vinny, Solta ele agora...
— Não! – ele nem olha pra mim, seus olhos estão fixos no Rafa e posso ver pelos seus músculos que ele já começa a apertar a mão em volta do pescoço dele e isso começa a me desesperar por que eu sei que o Rafa realmente não fez nada.
— Vinny, solta! – nada – Solta! – as lagrimas começam a rolar pelo meu rosto quando vejo o Rafa ficar vermelho – Vinny, por favor, por favor, por favor... – então não só por que eu sei que é a única coisa que o faria parar, mas também por que estou completamente desesperada, eu apenas me jogo no chão, meus joelhos batem com toda força, mas a dor não é nada comparada a que está rasgando meu peito, assim como eu pensei, Vinny se abaixa imediatamente junto comigo e logo está me envolvendo em seus braços e como sempre, não importa a situação, mesmo que ele não saiba a verdade do que está acontecendo, ainda assim ele é o meu porto seguro e quando seus braços me envolvem e ele me encosta em seu peito eu apenas choro mais ainda, meu corpo não demora a tremer e o soluços me impedem de tentar dizer qualquer coisa, ele continua me abraçando, eu afundo meu rosto em seu peito e aperto minhas mãos em seus braços, eu sinto minhas unhas enfiando na sua pele, mas eu não paro, não posso, por que é o que ainda está me mantendo “de pé”, eu escuto sua voz, não sei ao certo o que está dizendo, mas é a mesma voz que ele sempre usa pra me dizer que está ali comigo e que não estou sozinha, por mais que isso me acalmasse, faz doer mais ainda, por que agora sim eu entendo, agora sim eu me lembro, eu não podia fazer o que estava prestes a fazer, não posso abrir o jogo pro Rafa, não posso falar a verdade pra ninguém por que eu sei que eles não iam me deixar fazer o que tem que ser feito e eu não posso arriscar a vida do Vinny, não posso destruir todos os sonhos dele, não posso fazer a Bianca passar por tudo isso grávida, não posso ver ele sendo acusado ou até mesmo preso por algo que eu sei que ele jamais cometeria. Eu não posso. Então por mais que doa, por mais que pareça injusto, eu não vou destruir a pessoa que abriu mão da própria vida por tanto tempo só pra me ajudar a ficar de pé e é quando eu finalmente entendo isso que me forço a parar de chorar e me desencosto do peito dele.
— Eu tô aqui, ok? Eu sempre vou tá aqui – ele me conforta segurando meu rosto com as duas mãos e limpando minhas lagrimas.
— Eu sei – minha voz sai rouca, nem sei se ele escutou, mas ele balança a cabeça e beija minha testa, então eu me preparo pra ficar em pé, só então olho em volta e vejo que a garota não está mais aqui, mas o Rafa sim, ele está no canto oposto nos olhando de um modo que eu nunca vi antes, quando fico realmente de pé e o Vinny também, ele dá um passo na nossa direção, mas o Vinny entra na minha frente.
— Você não encosta nela até me explicar que porra aconteceu aqui...
— Eu não encostei nela, eu juro, você precisa acreditar em mim, nós já tivemos essa conversa antes e nada mudou desde aquele dia, eu juro, eu não encostei nela... Ela que entrou aqui e veio abrindo...
— Eu sei o que eu vi – eu o interrompo e minha voz soa firme, mesmo que eu esteja despedaçada, ele para de falar imediatamente e assim como o Vinny ele me olha.
— Amor, eu juro...
— Que ela entrou aqui foi pra cima de você e você não conseguiu fazer nada e inacreditavelmente eu apareci na hora mais errada possível? – ele não diz nada, parece confuso e surpreso pelo meu modo de falar, então aproveito e continuo – Acontece que eu já escutei exatamente a mesma história, Rafael, eu acho que... Sei lá, talvez esteja na hora de mudar um pouco o roteiro...
— Eu não tô mentindo, eu juro...
— Eu vi!
— E o que você viu? – dessa vez eu perco um pouco da coragem, mas ele logo emenda – Vamos conversar, ok? Cinco minutos, só isso que a gente precisa... Cinco minutos – ele olha pro Vinny como se pedindo que nos deixasse sozinhos, mas eu não posso, não posso perder o Vinny de vista e sendo egoísta, não posso passar por isso sozinha, não teria coragem, eu preciso dele aqui pra me lembrar do por que eu estou fazendo isso.
— Ele não vai sair daqui – eu aperto minha mãos no braço do Vinny e ele não se move nem um único centímetro.
— Dani, eu só quero falar com você...
— Então, fala – eu reprimo qualquer outro sentimento e tento apenas manter a raiva e ódio que estou da mãe dele.
— Eu nunca trairia você! Você sabe disso...
— Sei? Será que sei mesmo? – seus olhos parecem não apenas surpresos como decepcionados.
— Eu nunca estragaria nossa vida por uma... Aventura idiota
— E de aventuras idiotas você entende muito bem, não é mesmo? – sua boca abre pra dizer algo, mas o choque das minhas palavras o paralisa e mesmo me odiando, eu me obrigo a aproveitar esse momento e garantir que não tenha mais volta – Sabe o que eu acho engraçado? – dou um segundo de pausa – Como eu posso ter sido tão burra, tão idiota, tão... Imbecil! De um dia ter acreditado que você realmente mudaria...
— Eu mudei – sua voz é quase um sussurro e ele me olha como se não entendesse nada do que está acontecendo.
— Você é o mesmo que era quando chegou aqui... O mesmo riquinho babaca, mulherengo e egoísta de sempre e só precisou de uma pequena lembrança da sua vida antiga pra você finalmente se mostrar de verdade, sabe o que me deixa com mais ódio de mim mesma? É um dia ter achado que você poderia ser pelo menos um cara decente – dessa vez até o Vinny se vira pra me olhar, é quando eu tenho certeza que já estou ultrapassando os limites, então respiro fundo e decido terminar logo com isso antes que eu perca a coragem. Eu solto o Vinny e dou um passo pra mais perto do Rafael – Eu me arrependo do dia que deixei você entrar na minha vida e se eu pudesse voltar no tempo, eu nunca teria entrado naquele carro no dia da cachoeira, eu nunca teria deixado você se aproximar de mim, eu nunca teria me apaixonado por você, eu achei que eu tivesse muita sorte por ter encontrado o amor de novo... mas agora, mais do que nunca, eu sei que só existiu um homem que realmente mereceu todo meu amor... E nunca foi e nem nunca será você – eu vejo as lagrimas nos olhos dele e meu peito se dilacera de dor, eu não me dou tempo de pensar, nem de avaliar os estragos do que eu acabei de dizer, apenas saio do escritório e mesmo que ele tenha me olhado surpreso a um minuto atrás, os braços logo me envolvem – Me tira daqui! – é tudo que eu consigo falar e Vinny logo está me carregando pelo corredor do escritório para a saída dos fundos, quando ele abre a porta e nós saímos, meu corpo que já estava tremendo perde o pouco das forças que havia juntado e eu caio meio encostada na parede, meu corpo escorrega e sinto meu braço ardendo, mas é algo tão distante da dor que rasga meu peito que eu ignoro, apenas começo a chorar, um choro de dor, desespero e culpa.
Está feito. E eu tenho certeza que não tem mais volta.
A sensação que eu tenho é que estou sendo dilacerada, é uma dor realmente física, eu sinto meu corpo doer de um jeito que nunca senti antes, nem mesmo depois do acidente quando minhas costelas estavam quebradas, o que sinto agora é muito mais doloroso e incapacitante, eu tento respirar, mas não consigo, é como se meu pulmão não funcionasse e isso começa a me apavorar, eu agarro nos braços do Vinny, eu tento dizer que dói, que não consigo respirar, eu tento pedir ajuda, mas nada sai, eu apenas o aperto e choro e tudo fica escuro.
Abro os olhos num susto, com a mesma sensação que sinto quando sonho que estou caindo de um lugar muito alto. A mão logo alcança a minha e a outra meu rosto.
— Tá tudo bem, eu tô aqui – Vinny está pálido, os olhos azuis meio arregalados e todo despenteado, mas além disso o sangue na camisa dele me faz me levantar rápido demais, um sentimento de pavor me atinge.
— Você foi atrás dele? – o segundo que ele demora pra me responder faz minha mente viajar pra lugares que me apavoram – Vinny, o que você fez? – ele respira fundo e nega, sua mão desce do meu rosto, ele estica meu braço e quando olho está com um curativo que vai do meu punho até quase o meu cotovelo – O que... – a pergunta se perde enquanto eu toco lentamente o curativo.
— Você desmaiou. Tinha uma tábua idiota com um prego e você se cortou – eu sinto pelo menos uma parte minha respirar aliviada, por que eu nunca me perdoaria se além de tudo que eu falei, Rafa ainda tivesse levado uma surra, por algo que ele não fez.
— Como ela tá? Ai, graças a Deus! – Lia logo está me abraçando e eu mal tenho tempo de falar alguma coisa, só então percebo que ao lado dela uma mulher de branco nos olha com um leve sorriso.
— Eu só preciso verificar os sinais vitais dela, mas ela já está liberada – seu tom de voz é suave, mas me deixa alerta, quando Lia me solta, olho em volta apenas pra confirmar que estamos na sala de emergência do hospital.
— Como eu vim parar aqui?
— Eu disse... Você desmaiou, tinha muito sangue, eu te trouxe, mandei mensagem pra Bianca e eles vieram pra cá...
— Eles quem? – meu coração dispara com a hipótese dele estar lá fora.
— Bruno, Bianca e o Vítor – não sei se sinto alivio ou decepção.
— O Vinny me contou o que houve, eu... Eu não acredito nisso. Você viu mesmo ele se pegando com outra?
— LIA! – Vinny a repreende e ela recua um pouco.
— Eu quero ir pra casa – Vinny concorda, a mulher avisa que irá verificar minha pressão e logo em seguida me libera, depois de avisar que precisarei voltar em uma semana pra retirar os pontos, levei 8 pontos.
Quando saio para o corredor do hospital, Vítor, Bianca e Bruno logo vem até a mim, todos preocupados, eu não digo nada, apenas me deixo ser levada e eles não perguntam mais nada, nem ao menos sei que carro eu entro, mas sei que a Lia está ao meu lado, me abraçando e acariciando meu cabelo.
— Hoje nós vamos ficar aqui. Eu e o Bruno – ela avisa quando saímos do carro na garagem do prédio, eu concordo e vamos para o elevador, Vítor não está mais, mas não pergunto nada.
Entramos no apartamento e eu vou direto pro meu quarto, assim que entro sei que não posso ficar aqui, o cheiro dele está impregnado em cada canto do quarto e eu não suportaria ficar nem um minuto aqui sentindo esse cheiro e sabendo que nunca mais o terei de novo, eu esbarro no Vinny quando recuo pro corredor, antes mesmo que eu fale ele balança a cabeça.
— Pode ficar no nosso quarto, a gente fica no que tá vazio – eu nem ao menos penso em negar, apenas balanço a cabeça confirmando e vou pra lá, ele vem junto comigo – Você precisa de alguma coisa? – me viro de frente pra ele, pra ter certeza que ele não irá mentir.
— Jura pra mim que você não vai atrás dele – consigo ver ele lutando contra a vontade de discordar de mim – Jura! – eu exijo, sabendo que era exatamente isso que ele estava pensando em fazer – Vinny... – sua mandíbula contrai e seus olhos se apertam – É isso que preciso, eu preciso que você jure...
— Eu juro – ele não está nem um pouco satisfeito, mas eu sei que irá cumprir, nunca quebramos um juramento, eu me viro pra cama e me jogo nela, apenas querendo nunca mais sair daqui, quando ouço a porta se fechando, volto a chorar, fecho os olhos e ainda consigo ver perfeitamente o jeito que ele me olhava enquanto eu dizia as maiores mentiras da minha vida, mas as únicas que fariam com que ele não tentasse retrucar, eu sei que cada palavra minha o feriu como nada mais conseguiria fazer e mesmo que eu tenha motivos pra ter feito isso, a culpa me corrói, ela é maior do que ódio que eu sinto pela mãe dele, por que por mais que ela tenha arquitetado tudo isso, a pessoa que o feriu fui eu, não ela, foram minhas palavras que destruíram ele, não as dela e eu sei que nada nunca irá reparar isso, eu o perdi pra sempre, perdi a pessoa que trouxe o amor de volta pra minha vida, aquele que me fez me sentir inteira outra vez.
Acordo pela manhã e mal consigo abrir meus olhos de tão inchados que estão, fico cama encarando o teto até que me lembro que não estou no meu quarto, olho em volta e as fotos ao lado me trazem um certo conforto, me lembram de que o que eu fiz não foi em vão, nas fotos estão Vinny e Bianca, uma dela sozinha com a barriga já aparecendo, a deles segurando o primeiro presente do bebê e um quadro onde está a primeira ultra sonografia, eu o pego e a sombra de um sorriso passa pelo meu rosto, em breve teremos um bebê por perto e independente da dor que me escolha me cause, esse bebê terá o pai dele ao lado dele em cada segundo.
— Posso entrar? – Lia coloca a cabeça pra dentro do quarto, eu balanço a minha confirmando e me arrasto pra sentar – Como você tá? – eu solto o ar sem saber o que responder – Foi uma pergunta idiota...
— Eu vou ficar bem – respondo mesmo sem parecer nenhum pouco otimista.
— O Vinny me proibiu de falar sobre isso e eu sei que talvez você não queira falar, mas Dani, eu não entendo... – eu não posso culpa-la por querer saber, e eu sei que uma hora ou outra terei que falar alguma coisa, então decido acabar logo com isso e depois apenas guardar minha dor pra mim.
— Eles estavam no escritório. Eu vi. Não foi um mal entendido...
— Mas ele te amava, Dani, eu sei que ainda ama – as lagrimas ameaçam descer.
— Ninguém muda tanto assim... Eu deveria saber disso...
— Mas Dani...
— Lia, você queria saber o que eu houve, eu disse, agora se você não acredita eu já não posso fazer nada... Eu sei o que eu vi e fim da história.
— Me desculpa, eu acredito em você, é só que...
— Lia! – ela para de falar e concorda, então a porta se abre, Vinny entra com um olhar meio desconfiado pra Lia.
— Eu vou ver o que tem pro almoço – ela avisa e sai, ele se aproxima e se senta na cama.
— Promete que não vai me odiar? – ele pergunta fazendo uma cara de quem aprontou algo.
— O que você fez? – ele desvia os olhos um pouco e depois volta a me olhar.
— Eu não tive muitas escolhas... Seu pai ligou, queria saber se vocês iam almoçar lá...
— Merda – eu me jogo com a cara no travesseiro sabendo que posso até correr da Lia, mas quando minha mãe souber ela não vai ser tão fácil de ser controlada.
— Desculpa! Mas eu não saberia mentir assim pra ele...
— Eu sei – levanto um pouco o rosto do travesseiro e ele me olha como se pedisse desculpas.
— Como que foi a noite? – dou de ombros.
— Já tive piores – tento forçar um sorriso, mas ele sai um tanto quanto deprimente.
— E o braço? – olho pro curativo e dou de ombros.
— Tudo bem!
— E você? – dessa vez eu o olho e não respondo – O que eu posso fazer por você?
— Nada, eu vou ficar bem – ele me olha desconfiado, então antes que ele pergunte mais alguma coisa, eu afasto a coberta e me levanto da cama – Daqui a pouco eles devem estar aqui... Vou tomar um banho! – não dou tempo dele me perguntar mais nada, apenas passo por ele e saio do quarto, vou para o meu e apenas o fato de entrar e ver as coisas dele ainda por aqui me deixam angustiada, mas tento ignorar isso, abro o guarda roupa sem nem olhar muito para as roupas, puxo qualquer coisa pra vestir e fecho as portas, então vou pro banheiro, paro na frente do espelho e a figura que me encara parece digna de pena e por dentro não me sinto muito diferente disso, por isso desisto de me olhar no espelho e entro debaixo do chuveiro. Já estava terminando de me vestir quando ouço a voz dela, meu estomago se retorce sabendo com o que irei lidar, respiro fundo, prendo meu cabelo num coque desajeitado e saio do quarto, quando alcanço a sala já vejo papai parado e nossos olhares se encontram no mesmo segundo e eu não preciso nem pensar no que fazer, por que no segundo seguinte estou me jogando nos braços dele, o lugar que sempre me acolhe quando tudo em volta está em caos, e como sempre ele nunca me decepciona, mesmo sem nem entender nada do que está acontecendo ele me abraça forte e beija minha cabeça.
— O que aconteceu? É verdade que você e o Rafa terminaram? – mamãe pergunta agitada e nervosa, tomo folego e sem desgrudar do meu pai concordo balançando a cabeça – Onde ele está? – ela olha em volta, Vinny e Bianca estão no sofá, Bruno e Lia na cozinha.
— Ele não tá aqui e se tiver um pouco de amor aqueles dentes não volta mais – Vinny ameaça ainda com a mesma tensão que estava quando o mandei jurar não procurar ele.
— Como assim?
— Como assim que aquele babaca, desgraçado, nunca mais chega perto da Dani de novo...
— Vocês brigaram foi isso? Tenho certeza que logo estarão bem... Ele te ama!
— Mas tava agarrado com outra...
— O que? – poucas vezes eu vi minha mãe tão surpresa com algo – Isso é impossível! Ele nunca te trairia – ela avisa me olhando.
— Eu vi – é tudo que eu consigo dizer, e dessa vez solto meu pai, ele também me olha desconfiado.
— Ele te ama! Eu sei disso. Ele nunca te trairia. Você tá cometendo um erro...
— Vocês conversaram? – papai pergunta também parecendo não acreditar muito.
— Nós terminamos, ponto, acabou! – dou de ombros e começo a sentir vontade de chorar.
— Pois eu não acredito nisso e vamos resolver isso agora – ela avisa e abre a bolsa procurando por algo, então acha o celular – Eu vou mandar ele vir e esclarecemos...
— Não! – eu pego o celular dela e ela me olha surpresa – Eu não quero ele aqui, eu não quero ver ele...
— Não se termina um namoro assim, sem ter realmente certeza do que houve
— Mas eu tenho!
— Eu não – ela tenta pegar o celular de volta, mas eu recuo.
— Você não tem esse direito!
— Eu sei que você pensa que estou contra você, mas não estou, você vai ver... Ele te ama, Dani, eu vou ligar pra ele, nós conversamos e eu tenho certeza que tudo ficará esclarecido... Um amor como o de vocês só acontece uma vez na vida, ele não desperdiçaria, eu sei que não... – as palavras dela e a certeza com que ela as diz só me deixa ainda mais com vontade chorar, por que eu concordo com tudo, mas não posso mudar nada.
— Você não vai ligar!
— Mas Dani...
— CHEGA – eu grito e ela se assusta – Chega! Eu... Eu não consigo lidar com você agora – entrego o celular pro meu pai – Eu não posso – falo pra ele como um pedido que eu sei que ele vai entender, ele balança a cabeça, passa a mão na minha e beija minha testa.
— Nós já vamos, qualquer coisa é só ligar... – minha mãe já ia abrir a boca pra falar algo, mas ele a interrompe – Nós voltamos outro dia – ela parece contrariada, mas concorda. Quando eles saem ninguém toca mais no assunto durante o restante do dia, embora esteja óbvio que todos tem algo a dizer.
A noite o Vítor aparece no apartamento, eu estou na sala sentada no sofá com a Bianca e a Lia, enquanto Vinny e Bruno estão jogados no chão, é Vinny quem abre a porta e logo Vítor vem até a mim.
— Preciso falar com você – ele é direto e parece preocupado, meu coração dispara e eu logo me levanto, ele me segue até meu quarto, assim que entramos ele fecha a porta – O que tá acontecendo? – eu fico realmente surpresa pelo modo como ele fala.
— Do que você tá falando?
— Eu quero que você olhe nos meus olhos e diga que você viu o Rafael te traindo...
— O quê? Por quê isso?
— Olha nos meus olhos e diz...
— Não – eu cruzo os braços a frente do corpo.
— Fala!
— Eu não tenho que te convencer de nada...
— Ele não traiu você. Traiu?
— Sinceramente, Vítor, me desculpa, mas isso não tem nada a ver com você...
— Nada a ver comigo? – ele me questiona ficando sério de novo – Ele é meu amigo e você é uma das pessoas mais fodas que eu conheço então sim, tem a ver comigo e eu não vou sentar e ver vocês jogando isso fora assim... Então, você vai me dizer ou não o que está acontecendo?
— Eu não tenho mais nada a dizer...
— Não? – ele questiona meio duvidoso e irônico, dou de ombros.
— Não! – ele concorda.
— Sabe onde eu passei a madrugada? – meu peito aperta, por que antes dele falar eu já sei a resposta, mas não tenho coragem de falar – Eu estava com ele...
— Que bom! Agora eu preciso voltar pra sala – ele interrompe minha passagem.
— Ele tá destruído, Dani – isso me faz parar – Eu nunca o vi assim... Eu acho que nunca vi ninguém assim... Ele tá mal, Dani, mal de verdade, ele não se parece em nada com aquele Rafa que a gente conhece, é como se... Como se ele tivesse perdido qualquer prazer na vida. Foi horrível ver ele daquele jeito... Ele não vai aguentar isso, Dani, não vai suportar ficar longe de você – cada palavra dele me faz estremecer de dor, mas eu não posso mudar isso sem destruir a vida do Vinny e da Lia, não posso arriscar, então por mais que saber de tudo isso me destrua, eu respiro fundo e o encaro.
— Eu sinto muito, mas isso não tem mais nada a ver comigo – dessa vez quando passo, ele não me impede, alcanço a sala e ele vem logo atrás de mim, mas passa direto até a porta e sai sem se despedir de ninguém.
— O que deu nele? – Lia que pergunta meio confusa.
— Ele tá com pressa – dou de ombros e vou pra cozinha, abro a geladeira apenas pra ter o que fazer, enquanto as palavras dele se repetem na minha cabeça.
Eu o destruí!
Fale com o autor