Chegamos a casa dos meus pais depois de conseguirmos um outro táxi, ao contrário da ida, a volta foi um silêncio absoluto e tudo que eu conseguia pensar era em como seria a conversa. O som ainda está alto, o que significa que a festa continuou, me sinto aliviada por não ter estragado nada, então como o portão está apenas encostado eu empurro e entramos, passamos pelo corredor para os fundos da casa e Lia é a primeira a nos vê, ela corre até nós.
— O que foi que aconteceu? Você saiu daquele jeito, não disse nada nem pro Vinny...
— Eu só precisava tomar um ar – falo e ela me encara e depois encara o Vítor.
— Eu nem encostei nela – ele levanta as mãos em inocência.
— Então o que houve?
— Minha mãe – confesso e ela suaviza o olhar.
— Eu sabia.
— Achei que você tivesse ido pra casa – Vinny fala já se juntando a nós.
— Eu preciso conversar com a minha mãe...
— Tem certeza? Não é melhor deixar isso pra lá?
— Não, eu já deixei muito pra lá – falo e olho pro Vitor, ele me dá um sorriso e toca meu ombro de um jeito carinhoso e encorajador, eu sorrio em agradecimento e saio deixando-os e indo procurar minha mãe, encontro-a na cozinha sozinha e com os olhos levemente vermelhos – A gente pode conversar? – ela para o que estava fazendo e me olha surpresa – Lá em cima – aponto pra cima e ando na frente, entro no meu antigo quarto que agora é uma espécie de escritório e ela para a minha frente.
— Eu sinto muito que você tenha ouvido aquilo, eu só... Eu não queria dizer aquilo, foi só...
— Você queria sim, mãe, você sabia exatamente o que estava falando...
— Eu nunca quis te magoar!
— Então por que essa é a única coisa que você tem feito nos últimos dois anos? – assim que digo ela parece ter levado algum tapa na cara, por que seus olhos são a mistura de horror com dor.
— Eu... Eu nunca pensei que esse fosse o único sentimento que eu te desperto...
— E o que você esperava? Se tudo que você tem feito, principalmente nesses dois últimos anos é ignorar o que eu digo, me empurrar pra qualquer cara e recriminar tudo que eu faço?
— Eu não faço isso
— Faz! Faz sim e se você quer tanto saber por que eu não venho mais vezes aqui é por isso, é por que eu não suporto mais você reclamando do meu peso, do meu cabelo, da minha pele, dizendo que desde que eu saí de casa eu não me cuido tanto ou ter que responder a todas as suas perguntas sobre se eu tenho saído mais, se já conheci alguém ou contando sobre o filho de alguma amiga sua que terminou um namoro longo e agora está tentando superar, como se... Como se eu tivesse passado pelo mesmo, mas adivinha só, mãe, eu não tive um término, eu não acordei um dia e percebi que estava com a pessoa errada. Eu estava com pessoa certa, só que ele morreu e isso não é e nem nunca será como um término. Eu não escolhi isso, ele não escolheu isso e por mais difícil que seja de você acreditar eu não escolho sentir essa dor todo dia, eu apenas sinto, não importa o quanto eu tente arrancar ela do meu peito, ela apenas continua aqui, doendo e doendo e doendo e ter você dizendo que eu tenho que superar isso, que preciso conhecer outra pessoa, não ajuda em nada, só me lembra o quanto eu detesto tudo isso, o quanto eu gostaria que ele ainda estivesse aqui comigo... – quando percebo estou chorando, soluçando e ela me olha sem reação – Eu tô cansada! – confesso deixando meu corpo escorregar até o chão, me encosto na parede e me deixo chorar, fecho os olhos e abraço minhas pernas, até que sinto o toque no meu cabelo, o calor do seu corpo junto ao meu e quando abro os olhos ela está sentada no chão ao meu lado, me acariciando e me consolando.
— Você sempre foi mais ligada a seu pai do que a mim, sempre adorou assistir os esportes jogada no sofá junto com ele, sempre corria pra ele te ensinar matemática e depois biologia, uma vez você até disse que seria médica, mesmo odiando ver sangue, vocês dois sempre tiveram isso, desde que você era um bebê, por que era só ele te pegar e pronto, você se acalmava – ela me dá um sorriso no meio das lagrimas – Comigo sempre foi mais trabalhoso, eu sempre tinha que achar um meio termo pra termos nossos momentos, mas então você entrou na adolescência e começou a se aproximar de mim por causa de assuntos de mulher, maquiagem, roupas, idas ao shopping, mesmo nossos gostos sendo diferentes, mas eu tinha encontrado algo que você adorava, aí o Felipe apareceu e você ficou ainda mais enlouquecida com tudo isso, nós íamos ao shopping toda semana, você ficava o dia inteiro no SPA só pra me convencer a te dar os tratamentos de graça e sempre que você queria um conselho amoroso ou sobre o que usar numa saída com ele você me procurava e eu adorava isso, adorava ver você tão feliz, adorava que você tivesse encontrado alguém que te amasse tanto, mas então veio o acidente... – ela pausa e enxuga as lagrimas – Eu pensei que fosse te perder e eu nunca senti tanto medo na minha vida, foi horrível, o maior pesadelo foi esperar você acordar, cada segundo era como uma tortura, mas você acordou e eu mal pude agradecer e o Felipe se foi, eu sabia o quanto aquilo ia te devastar, eu tinha certeza que você ia ser destruída de uma forma que eu não poderia impedir e foi o segundo pior momento da minha vida, saber o quanto você estava machucada e saber que eu não poderia fazer nada pra mudar isso, eu só me senti impotente... Eu fiquei do seu lado, eu tentei, eu fiz tudo que pude, mas você só se fechava mais, o tempo passou, você veio pra casa, o Vinny morou aqui, eu tinha esperança que ele te fizesse querer estar viva de novo, mas logo depois você se mudou e eu ainda não conseguia te alcançar, pelo menos não como antes, por que você não me procurava mais pra pedir uma dica de moda ou um conselho amoroso ou simplesmente pra dizer o quanto você ainda sentia dor, você só... Não me procurava mais e isso é horrível, é enlouquecedor, então eu de alguma forma sabia que só teria você de volta se você pudesse ter outra pessoa na sua vida, se você se apaixonasse de novo, mas eu... Eu realmente achei que você estava pronta, eu pensei que seria bom pra você ter alguém de novo... Eu só... Só não suporto mais a ideia de não saber como agir com a minha própria filha, a pessoa que eu mais amo no mundo... Eu nunca achei que isso te machucasse tanto, eu só pensei que... Que você estivesse me excluindo...
— Eu nunca te excluiria da minha vida, mãe – eu confesso chorando e a abraço apertado, nós duas choramos juntas por vários minutos e a cada segundo que se passa eu sinto como se toda raiva, irritação, mágoa ou distância que existia entre nós fosse diminuindo, como se pela primeira vez em muito tempo eu realmente estivesse apenas abraçando a minha mãe, não aquela que me irrita com suas perguntas inconvenientes mas aquela que sempre fazia meus biscoitos preferidos, aquela que estourava o cartão de crédito do papai em nossas fugidas para o shopping, aquela que mesmo eu odiando contos de fada fazia questão de me contar todas as noites e ainda me fazia usar uma coroa pra me sentir “uma verdadeira princesa”, eu sinto que pela primeira vez em tanto tempo eu estou ligada a ela de novo.
— Eu amo você – ela fala beijando minha bochecha, ela limpa minhas lagrimas e segura meu rosto com as duas mãos – Eu amo muito você e nunca foi minha intenção te machucar ou te fazer sofrer...
— Eu também te amo, mãe, muito! Eu... Eu nunca achei que fosse assim que você via as coisas, eu só... Só precisava de espaço, eu nunca, nunca mesmo quis te excluir da minha vida... Você é minha mãe, a mulher que eu mais amo no mundo – ela volta a chorar e me abraça.
— Eu prometo que eu nunca mais vou fazer nada disso, eu não vou mais te forçar ou incentivar a nada, eu só... Estou aqui pro que você precisar...
— Me perdoa, eu... Eu prometo que não vou mais te excluir – garanto e dessa vez sou em quem beijo sua bochecha – Eu senti muito a sua falta! – confesso e ela sorri, segura meu rosto e enche meu rosto de beijos, na ponta do nariz e em cima de cada olho, assim como ela fazia quando eu era pequena e começava a chorar por alguma coisa, eu acabo rindo – Acho que disso eu não senti tanta falta – eu brinco e ela faz uma cara triste – Mas dos tratamentos de graça no SPA sim! – ela ri.
— Bom, então escolha o dia e me avise...
— Sério? Tipo, bandeira verde?
— O que você quiser...
— Eu acho que eu te amo mais ainda – eu brinco e a abraço balançando nós duas de um jeito exagerado, ela ri, então nós duas nos recuperamos, lavamos nossos rostos e descemos.
— Eu só preciso terminar de fazer o suco pra levar lá pra fora – ela avisa e eu a deixo na cozinha e saio pela porta dos fundos, o quintal virou uma verdadeira roda de samba e pagode, Zeca pagodinho toca alto no som e meu pai tá dentro da piscina com a garrafa de cerveja, junto com tio Cláudio e mais dois amigos que tentam cantar a música mas erram cada verso, mas garantem a diversão de todo mundo que olha pra eles, procuro pelo pessoal e os encontro perto da churrasqueira, então quando ele me olha eu apenas ando o mais rápido que consigo até ele e antes que ele tenha chance de dizer alguma coisa eu o abraço forte, ele não me pergunta nada, apenas me aperta ainda mais nele e pela primeira vez em muito tempo eu sinto meu corpo realmente relaxar, como se um peso gigante tivesse sido tirado dos meus ombros, como se pela primeira vez eu estivesse respirando, nós ficamos abraçados, ele afunda o rosto no meu cabelo e eu apenas me deixo aproveitar cada segundo desse momento, quando abro os olhos encontro Vinny parado nos olhando, ele libera um sorriso e então eu percebo que se fosse alguns dias atrás, eu não teria nenhum outro pensamento que não fosse procurar pelo Vinny, por que sempre foi ele quem me deu todo apoio que eu precisava, mas hoje, nesse momento, eu não poderia procurar e abraçar nenhuma outra pessoa, que não fosse ele. Seus dedos passam pelo meu cabelo e eu levanto meu rosto do seu ombro pra olhar pra ele, um sorriso se forma na sua boca da forma mais doce e preocupada que alguém conseguiria sorrir.
— Só não me diz que foi um péssimo conselho – eu solto uma risada pela maneira que ele fala e ele ri aliviado.
— Foi o melhor conselho que eu já recebi nos últimos tempos – ele dá de ombros sorrindo.
— Eu sou um mestre dos conselhos!
— E da humildade!
— Vamos entrar na piscina? Eu trouxe biquíni – Lia fala toda animada só faltando me sacudir, eu nego e ela faz beicinho.
— Tem 5 caras bêbados dentro daquela piscina, eu garanto que 50% daquilo é agua e os outros 50% ... – ela faz uma cara de nojo e Bianca e Melissa concordam comigo rindo – Mas... Estreou ontem o novo filme do Velozes e Furiosos, então... – eu levanto a sobrancelha e os garotos concordam sem precisar pensar duas vezes – Vin Diesel, The Rock, Jason Statham, Tyrese Gibson e o ultimo filme do Paul Walker...
— Vai ser demais, tô dentro – Bianca fala super animada.
— Ei! Disfarça pelo menos – Vinny fala fingindo mágoa.
— Eu sou física e emocionalmente incapaz de negar assistir um filme com homens bonitos e provavelmente sem camisa – Lia fala dando de ombros com um sorriso malicioso.
— Bom, eu não vou ser a do contra né? Eu me sacrifico! – Melissa fala mas sorri animada.
— Perfeito! O Vítor vai pagar pra todo mundo – Vinny fala dando um tapa no ombro dele e quando eu o olho, ele dá de ombros – O cara tem um restaurante – ele fala e Vítor ri.
— Onde eu sou o entregador!
— Por que você não sabe aproveitar o lado bom da vida – Rafa dá de ombros – Eu tô com Vinny, o Vítor paga!
— Vocês dois são dois folgados, isso sim – eu reclamo mas eles não se importam.
— Relaxa, eu pago! – Vitor concorda e eles comemoram.
— Tudo bem, então o dinheiro que vocês economizarem hoje, vai pra caixinha...
— Ah fala sério, nós não deveríamos ter uma votação sobre quando nosso dinheiro vai pra essa caixinha?
— Nós tivemos e eu decidi que será sempre que eu decidir – dou de ombros e Vítor ri.
— Nós somos dois contra um – Rafa rebate me encarando.
— Cara, não fode mais o nosso lado – Vinny fala e dá um tapa na cabeça dele enquanto eu sorrio vitoriosa e mando um beijo no ar pra ele.
— Melhor a gente ir logo por que as sessões devem lotar – Vítor alerta e como já está no finalzinho da tarde, nós concordamos. Nos despedimos do meu pai e ele fica todo bobo quando me vê de novo e mais ainda quando digo por que nós vamos sair mais cedo, embora eu tenha quase certeza que todas as risadas dele são por causa de todas as garrafas de cerveja que ele já bebeu, mas mesmo assim ele parece realmente feliz, me despeço da minha mãe com um abraço e ela apenas diz para nós nos divertirmos e pra não vermos nada muito violento, eles riem e ela nos manda ter juízo, então conseguimos pegar o ônibus com ar condicionado, o que é bem difícil e explica toda a comemoração que fazemos, mas quando chegamos no cinema quase temos que entrar numa luta física pra conseguir os ingressos e mesmo assim não conseguimos lugares juntos, mas ninguém desiste então compramos a pipoca, Lia e Bruno sentam junto comigo e com Vítor, já Rafa e Melissa conseguem um lugar no meio da sala e Vinny e Bianca pegam os dois últimos lugares da fileira mais alta, num canto e pelo jeito que eles comemoram duvido muito que irão mesmo assistir ao filme, mesmo assim todos parecem animados.
— Filho da mãe – eu xingo já revirando minha bandeja.
— Que foi? – Lia pergunta.
— O Rafa pegou meu m&m!
— Como você sabe que foi ele? Pode ter caído – Vítor pergunta e como resposta aponto a mão no meio da sala que sacode no ar um saco dos melhores amendoins cobertos de chocolate do mundo, ele ri.
— As vezes eu nem sei por que tento defender ele...
— Por que você é o cara legal!
— É, eu sou mesmo, sou o cara legal e incrível...
— Cara, você precisa trabalhar urgente nessa coisa de auto-elogio – eu falo e ele ri e então por alguns segundos enquanto ele ri eu sinto aquela coisa no meu estomago que só aparece quando fico perto dele, então as luzes principais se apagam e a tela acende, ainda vejo o sorriso dele antes que ele se vire pra olhar o telão, os trailers começam e junto com eles a briga que tenho com Lia pra ela parar de pegar minha pipoca.
— Vocês tem pipoca aí... – eu reclamo mostrando o pote grande que Bruno comprou.
— Mas ele esqueceu a manteiga – ela revira os olhos já enfiando a mão de novo no meu pote.
— Então me dá um chokito! – ela faz uma cara de espanto e eu estico minha mão, ela revira os olhos de novo, mas pega o chokito e coloca na minha mão, eu sorrio e deixo que ela pegue mais pipoca.
O filme começa e cada vez que The Rock aparece Bruno e Vítor se divertem com nós duas quase tendo um ataque do coração e quando aparece uma cena dele no hospital quebrando o gesso do próprio braço, nós realmente não conseguimos nos controlar.
— CASA COMIGO? PELO AMOR DE DEUS – Lia fala esticando as mãos como se fosse tocar nele.
— Vou tentar não me ofender – Bruno fala, mas ri.
— Cara, é o The Rock, o sonho de todo marido é ter a mulher o traindo com ele – eu falo e eles riem.
Pra nossa sorte o filme ainda teve muitas outras cenas dele e quando acaba Bruno quase agradece por ter acabado nossa histeria.
— Melhor esperar o pessoal descer e depois a gente sai – Bruno sugere e nós concordamos e então ele e Lia entram em uma disputa pelo ultimo gole do refrigerante.
— E aí? Gostou? – Vítor pergunta e eu sorrio.
— Cara, eu não vejo tanto homem bonito assim desde... Na verdade não, eu nunca vi tanto homem bonito assim – ele ri.
— Eu também gostei... Não a parte de muito homem bonito mas de todo o resto – ele sorri de um jeito meio fofo que me faz sorrir também.
— Aliás, eu não falei antes, mas... Obrigada...
— A ideia do filme foi sua, eu que agradeço.
— Não por isso, quer dizer, não só por isso, por todo o resto – ele faz uma careta como se isso fosse desnecessário – É sério, obrigada mesmo, as coisas que você disse, o conselho... Eu nem sei como retribuir...
— Você já retribuiu! E além do mais eu não fiz isso por que tava esperando alguma coisa, eu só... Gostaria que alguém tivesse me dito aquelas coisas ou que sei lá, você não se sentisse sozinha...
— Obrigada!
— Você já disse isso e eu não quero mais ouvir essa palavra – ele fala e sorri, então não sei por que mas eu apenas me inclino sobre ele e o beijo, ele parece surpreso, demora alguns segundos, mas logo ele se vira pra mim me beijando de volta, quando paramos ele me olha direto nos olhos, mas está sério.
— Isso não foi um agradecimento, eu só... Queria mesmo fazer isso – eu falo e então ele abre um sorriso largo, encaixa a mão na minha nuca e me beija novamente, dessa vez mais firme e decidido, quando para eu mesma estou sorrindo.
— É, acho que já tá pra gente descer – Bruno fala tentando esconder um sorriso, coisa que Lia faz sem tentar disfarçar, Vítor também está se divertindo e nós descemos e saímos da sala, encontramos Melissa e Rafa logo a frente da saída.
— Cadê o Vinny?
— Ele pegou as duas poltronas do canto... Eles só saem de lá expulsos – Bruno fala dando de ombros e nós rimos, esperamos alguns minutos comentando sobre o filme e então Vinny e Bianca saem, ela está endireitando o cabelo e ele ainda está com marca de batom no queixo, eu sorrio, vou até ele e esfrego meus dedos limpando, ele ri e dá uma piscada.
— A gente tava pensando em dar uma esticada em algum barzinho – ele fala tentando convencer a gente e funciona perfeitamente, nós concordamos e saímos do shopping andando mesmo. O resto da noite foi excelente e quando me deitei na cama uma sensação de alegria não conseguia se diminuir dentro do meu peito e eu tive um longo e revigorante sono.

As coisas no trabalho estão ótimas, tirando o fato que agora eu tenho o Rafa o tempo todo me perturbando ao lado da minha mesa, estamos numa fase muito boa no escritório e tenho que confessar que mesmo sendo um mala as vezes, Rafa tem me ajudado bastante por aqui, ele adianta alguns trabalhos meus, me ajuda a organizar a agenda e ainda tem me encaixado em umas boas reuniões, ele inclusive tem começado um papo de que eu deveria iniciar a faculdade, embora eu ainda não esteja convencida disso, talvez ele tenha razão. As coisas com Vítor vão bem, nos falamos bastante por mensagem, as vezes ele me liga a noite e rimos bastante, de um jeito ou de outro estamos nos entendendo. Vinny e Bianca são aquele casal irritante de tão apaixonados e eles nem ao menos tentam disfarçar isso, pelo contrário eles mal se desgrudam quando estão perto e vivem de risinho e suspiros, eu implico com ele, me junto ao Bruno e a Lia nas zoações mas eu estou tão feliz que ele tenha encontrado alguém especial que nem me importo se já fazia uma semana que nós não sentamos de bobeira e jogávamos conversa fora, por que ele realmente está feliz e eu realmente estou feliz por ele, mas hoje finalmente conseguimos nos reunir e viemos pra casa da Lia e do Bruno, Rafa acaba na cozinha preparando as pizzas, eu corro até o som enquanto Vinny e Lia reclamam que eu não sei escolher música, mas Vítor me defende dizendo que meu gosto musical é perfeito, eles fazem uma rodada de vaias e Vítor ri quando se inclina e me dá um beijo rápido, Melissa sai discretamente e vai atrás do Rafa na cozinha e quando eu dou o play em “Cheguei” da Mc Ludmila, Lia e Bianca comemoram dando gritinhos e já balançando a cabeça e os corpos no ritmo da música, eu acabo rindo e Lia vem até a mim me levantando do chão e me fazendo dançar com elas, Vinny, Bruno e Vítor, se ajeitam sentados no chão e riem, cochicham e fazem caras e bocas enquanto dançamos, Lia puxa Bruno e ele se levanta todo sorridente, copiando a ideia dela Bianca puxa Vinny e os dois casais começam a dançar, então sorrio e estico a mão pro Vítor, ele sorri ainda mais e se levanta, a mão logo se solta da minha mão pra minha cintura e nós dançamos com os corpos bem colados, emendamos quando começa “Te ensinei certin” e depois caio no sofá rindo, Vítor se joga ao meu lado, o corpo junto demais do meu, seus olhos desviam para minha boca e antes que eu consigo pensar em algo ele me beija, um beijo longo e demorado.
— Primeira rodada pronta – a voz do Rafa anuncia e todo mundo corre pra cozinha.
Dois tabuleiros estão espalhando um aroma maravilhoso em cima da mesa, mas levamos as coisas para a varanda perto da piscina, mais dois tabuleiros estão assando e ficamos sentados, rindo e comendo, os outros dois tabuleiros ficam prontos e nós voltamos a nossa bagunça e a noite parece passar rápido demais. Eu entro pra ir no banheiro, já que todo o vinho da noite começa a fazer efeito e já estava voltando pra varanda quando vejo Rafa e Melissa numa pegação no corredor quase debaixo da escada, prendo uma risada e tento sair sem ser percebida, mas acabo tropeçando e solto um pequeno grito de dor, eles param e me olham, Melissa sorri sem graça e abaixa o vestido que já estava bem alto e embora eu esperasse um sorriso orgulhoso no rosto do Rafa, ele acaba parecendo sem graça e isso me faz rir.
— Eu não queria atrapalhar – peço me desculpando e colocando a mão na frente da boca, eles se afastam.
— Não atrapalhou – ele garante e passa o braço pela cintura dela que sorri de um jeito bobo quando olha pra ele – Eu vim pegar mais vinho que acabou – ele fala, beija a bochecha dela e sai passando por mim sem me olhar, eu estranho, mas depois eu falo com ele por que logo Melissa se aproxima de mim.
— Eu não queria mesmo atrapalhar – me desculpo e ela dá de ombros.
— Tudo bem – mas pelo modo que ela fala não parece tudo bem.
— Tem certeza? – ela morde o lábio e olha na direção da cozinha onde Rafa entrou, eu olho pra trás e me certifico que ele não vem – Se precisar falar com alguém... – levanto os ombros me oferecendo, ela ainda parece pensativa.
— Vocês são amigos né? – concordo com um sorriso de quem achou que isso fosse impossível algum dia – Ele fala de mim? – sorrio ainda mais quando entendo a preocupação dela.
— Fala – ele realmente me fala dela, não suspira, mas fala – Eu acho que ele realmente tá gostando de você, quer dizer, ele tem esse jeito dele todo, mas ele é uma pessoa legal – ela sorri como se soubesse exatamente do que eu estou falando.
— É, ele é... É bem diferente do que eu achei que ele fosse... Mas eu gosto dele – seus olhos ganham um brilho diferente e eu sorrio.
— Você não precisa ficar insegura, ele tem andado na linha...
— Até demais – ela deixa escapar e então me olha como se tivesse falado demais e isso me deixa curiosa.
— Como assim? – ela troca o peso da perna e morde o lábio novamente.
— É que... Sei lá... Desde que a gente começou a sair, esse foi o mais longe que fomos... – eu demoro alguns segundos pra entender, então quando entendo devo ter me enganado.
— Vocês nunca... Quer dizer... Vocês nunca? – ela balança a cabeça negando – OH! – é a única coisa que me escapa, por que eles já saem há um mês e eu não conheço um mundo onde Rafael fique tanto tempo sem sexo.
— Quer dizer, as coisas estão legais... Eu acho... É só que ele não parecia muito o tipo de cara que se guarda pro casamento – eu ainda não consigo acreditar nisso, a ultima vez que conversamos ele me disse que ela era uma loucura na cama e que ele nunca tinha tido uma mulher assim, eu me viro pra olhar pra cozinha de novo e ainda não acredito que ele mentiu pra mim – Só não conta nada pra ele, sabe? Isso não é um problema, eu só... Foi só um comentário bobo – ela se conserta meio nervosa.
— Tudo bem, não vou falar nada – eu minto pra que ela fique calma, mas ele vai ter que me explicar isso muito bem, por isso quando ela sai voltando pra varanda junto dos outros, eu vou pra cozinha, ele está colocando uma garrafa de vodca dentro de um balde com gelo.
— O vinho acabou, mas achei uma velha amiga – ele sorri e levanta a garrafa, eu fecho o sorriso e vou até ele, parando a menos de um palmo de distância.
— Você mentiu pra mim – encosto o dedo no peito dele e ele me olha confuso.
— Eu nunca minto pra você – mesmo parecendo sincero eu sei que é mentira então o encaro sem acreditar.
— Eu achei que nós fossemos amigos – viro as costas já saindo da cozinha.
— E nós somos! – ele avança e para na minha frente.
— Não somos, não! Amigos não mentem dizendo que estão transando com a mulher da vida deles mas na verdade ainda nem passaram da segunda base – ele arregala os olhos como se realmente tivesse sido pego no flagra, eu o encaro esperando explicação, mas ele não diz nada – Você disse que vocês tinham transado – ele balança a cabeça.
— Depois nós homens que ficamos comentando de intimidades né? – ele tenta me fazer rir, mas eu continuo séria.
— Por que você mentiu pra mim? – ele dá de ombros.
— Saiu sem querer
— Saiu sem querer? Essa é sua defesa?
— Não preciso me defender, o que eu fiz não é nenhum crime...
— Você mentiu pra mim! – seus olhos perdem um pouco da arrogância e ele toca meu rosto.
— Desculpa, ok? Eu só... Não sei lidar com isso, quer dizer, eu sei que é estranho com tudo que eu fazia antes e se eu te falasse que eu queria fazer diferente, você nunca ia encerrar esse assunto assim rápido...
— Claro que não! Você evitar o sexo não é algo comum, você tem que concordar comigo – ele revira os olhos.
— Exatamente por isso que não disse nada...
— E por que você tá fazendo isso, quer dizer, não está fazendo isso? – minha irritação por ele já desapareceu, ultimamente ela sempre some rápido demais e eu só estou curiosa, ele dá de ombros.
— Sei lá, tô fazendo do jeito certo?!
— Isso é uma pergunta ou afirmação
— Os dois – eu acabo rindo e ele novamente parece daquele jeito meio perdido.
— Bom pelo menos você tá tentando né – eu sorrio e o abraço, ele logo passa os braços ao redor do meu corpo – Mas ser o cara certo não significa que vocês dois não podem se divertir...
— Então você e o Vítor... – eu olho pra cima sem acreditar que ele tenha dito isso, mas ele realmente parece curioso.
— Não, nós não chegamos a isso ainda...
— Ainda? – eu me afasto do abraço de ele e dou de ombros – Então você pensou sobre isso?
— Bom, se eu tô tentando de verdade, acho que eu tinha que parar pra pensar né?
— E o que decidiu? – dou de ombros.
— Sei lá, a gente já tá saindo há um tempo mas as vezes eu ainda tenho que ficar repetindo pra mim mesma que não é errado e mesmo assim as vezes não consigo e isso só com alguns beijos, não acho que tô pronta pra mais do que isso – ele balança a cabeça pensativo e passa a mão no meu cabelo.
— Você não precisa fazer nada que não quiser...
— Eu sei – sorrio pela preocupação dele – E você pode fazer o que mais gosta de fazer...
— Implicar com você? – seu sorriso é divertido e eu acabo rindo, mas nego.
— Transar loucamente todos os dias da semana – falo rindo, mas ele não ri.
— Essa não é a coisa que eu mais gosto de fazer...
— Aham!
— É sério, eu tenho outros gostos agora...
— Tá bom, Rafa, tá bom...
— Por que é tão difícil acreditar?
— Por que você basicamente é feito de sexo, tirando isso eu nem sei direito o que sobra – solto uma risada, mas só quando olho pra ele que vejo o choque das minhas palavras nele, qualquer sombra de diversão desaparece do seu rosto e ele me encara sem muita reação.
— Então é isso? Eu sou só o cara que transa com um monte por aí?
— Não, eu não quis dizer isso...
— Você quis dizer exatamente isso, Daniela – pela primeira vez ele me chama pelo meu nome e não pelo meu apelido e ele nunca fez isso, nem quando nos conhecemos, eu mal tenho tempo de falar mais alguma coisa e ele vira as costas e me deixa parada no meio da cozinha me sentindo uma imbecil completa, levo alguns segundos ainda tentando entender o que aconteceu, eu só fiz uma brincadeira, achei que ele fosse rir, reverter a situação, falar alguma besteira e então sairíamos rindo, ao invés disso, ele parece extremamente magoado e eu começo a me sentir culpada, por isso quando me desperto vou correndo pra varanda pra poder me desculpar por qualquer coisa que tenha magoado ele, mas quando chego lá ele e Melissa estão acenando um adeus pro pessoal.
— Onde você vai? – ele me olha, seus olhos são furiosos.
— Mostrar todo potencial que você acha que eu tenho – ele fala sem nem parar.
— O quê? Rafa, eu... – Melissa ainda olha pra trás, mas ele não, apenas coloca a mão na cintura dela e eles saem.
— Pelo jeito que ele chegou pegando ela aqui, acho melhor você dormir aqui hoje – Lia fala rindo enquanto eu ainda tento entender o que aconteceu.
— Espero que ele não use o sofá – Vinny fala rindo também.
— Aconteceu alguma coisa? – Vítor é o único que percebe minha falta de reação, ele para ao meu lado me olhando meio preocupado.
— Eu... – balanço a cabeça sem entender, mas me sentindo extremamente mal, tanto que começo a sentir um enjoo – Eu acho que bebi demais – desvio os olhos do corredor que vai pro portão, Vítor sorri e toca meu rosto colocando um beijo rápido na minha boca.
— Vou pegar um copo de agua pra você
— Não, eu... Eu acho que prefiro ir embora – ele parece surpreso.
— Sério? Agora? – concordo e ele volta a me olhar preocupado – Tem certeza que não aconteceu mais nada?
— Tenho, é que eu tenho que acordar cedo amanhã também – ele suaviza o olhar.
— Eu levo você então – sorrio agradecendo e quando anunciamos que estamos indo, Lia faz uma cara triste, mas quando falo sobre acordar cedo no dia seguinte, ela entende, me abraça apertado e me manda usar tampões no ouvido essa noite, eu forço um sorriso, me despeço do Vinny que vai pra casa da Bianca e então Vítor pega na minha mão e saímos, ele está de carro e assim que eu boto o cinto encaro o lado de fora, sinto a mão dele na minha perna e o olho forçando um sorriso, ele começa a dirigir e apenas a musica que toca que quebra o silêncio, quando paramos na frente do prédio, solto meu cinto e ele o dele, antes que eu saia ele sai e corre até minha porta abrindo com um sorriso, acabo sorrindo também – Eu adoro cada momento que eu tenho com você – ele sorri de um jeito tão fofo que acabo esquecendo de tudo por alguns minutos enquanto o puxo pra mim e o beijo, ele espera eu entrar no prédio e então sai com o carro.
Quando abro a porta e entro no apartamento escuto as risadas, fecho a porta e vou direto pro meu quarto, um grito meio exagerado seguido de outra risada me faz bater a porta.
Não acredito que eu estou aqui cheia de culpa por ter dito algo que o magoasse e ele está no quarto do lado se divertindo como se nada tivesse acontecido.
Burra. Burra. Burra.
Vou pro banheiro, tiro minha roupa e entro debaixo da agua morna, tomo meu banho ao som de gemidos, risadas e gritinhos histéricos e ao invés de sair relaxada, saio irritada e estressada, visto meu pijama e me jogo na cama bufando de ódio.
Mais gemidos. Eu vou matar ele. Um grito abafado. Não é possível que eles não consigam fazer isso em silêncio. Um gemido, dessa vez é dele. Babaca. Barulhos na parede e uma risada. Eu juro que nunca mais falo com ele.
A diversão deles durou quase que a madrugada inteira e eu tenho certeza que pelo menos metade do prédio deve ter escutado, talvez por isso quando abro os olhos com o som do despertador sinto que só dormi alguns minutos, xingo mentalmente o relógio, saio da cama e tomo um banho gelado pra me despertar o que só me deixa ainda mais irritada, me arrumo e saio do quarto pronta pra ir trabalhar, ouço a risada vindo da cozinha, reviro os olhos me preparando pra cena e quando chego na sala vejo ela sentada no banco do balcão, Rafael está falando algo no seu ouvido ou talvez esteja apenas beijando-a e isso me deixa ainda mais mal humorada e com vontade de vomitar, então quando olho o que ela está comendo sinto meu sangue ferver.
— É o meu iogurte – o que era pra ser só um pensamento sai da minha boca com som e um som bem irritado, eles me olham, Melissa parece meio assustada e Rafael não se importa com a minha presença, ele apenas se afasta dela, dá a volta no balcão e serve um copo de suco de laranja.
— Eu não sabia... O Rafa me deu – odeio ouvir o som animado da voz dela e odeio ainda mais o fato dela chamar ele pelo apelido, não por que seja algo intimo, mas por que ele é um idiota e não merece.
— Relaxa, não é o dela – ele fala me ignorando completamente, então isso é a gota d’agua, avanço até a cozinha parando na frente dele.
— Por que você tá sendo tão babaca? – a pergunta não arranca nenhuma reação dele, seus olhos me encaram, mas é como se ele olhasse pra uma parede qualquer, Melissa no entanto parece meio em choque.
— Eu acho que já vou indo – ela fala e ele desvia os olhos, passa por mim e vai até ela, eles se beijam sem tentar manter nenhum pudor, ele a acompanha até a porta e não me viro pra olhar, mas escuto a risada dela, então a porta fecha, espero ele voltar, mas os passos se afastam, quando olho pra trás ele está entrando no corredor pros quartos, eu fico irada com a infantilidade dele e vou atrás, ele entra no quarto e eu seguro a porta antes que se feche.
— Qual seu problema?
— O meu ou o seu? – eu o olho confusa – Eu transei com ela, não transei, então, tá aí todo meu potencial, o que mais você quer de mim? – nós ficamos nos olhando em silêncio e eu mal consigo acreditar no que ele disse.
— Você transou com ela pra me provar alguma coisa? – ele puxa a calça que estava pendurada numa cadeira e começa a vestir.
— Só fiz o que você já esperava que eu fizesse...
— Você o quê? – não consigo entender e me sinto ainda mais confusa.
— Não foi você que disse pra eu fazer a única coisa que eu sei fazer – meu rosto deve expressar o horror que eu sinto quando entendo.
— Você só pode tá brincando comigo! Não é possível. Qual seu problema? É sério. Qual seu problema? Esse showzinho da madrugada inteira foi por causa do que eu falei ontem? Por que se for, você é um completo babaca, por que se você tivesse me deixado explicar, teria entendido o que eu disse, mas não você tinha que ser o Rafael né?
— EU SOU O RAFAEL! – o grito dele ecoa quase tão alto quanto todo barulho da madrugada – Pele visto sempre fui... É só isso que eu sei fazer né? Merda e sexo! – sua voz sai mais baixa, mas já não consigo mais olhar pra ele.
— Você é um babaca, sabia?
— Sabia, foi assim que essa conversa começou – ele anda sem se abalar até o guarda roupa, pega uma camisa e começa a vestir.
— Eu saí de lá ontem a noite me sentindo uma imbecil, me sentindo culpada por ter falado algo errado e quando eu chego aqui você tá quase derrubando o prédio com ela e agora quer bancar o ofendido pra cima de mim? Ah por favor, Rafael, vai se ferrar – viro as costas e saio, alcanço a sala quando ele aparece atrás de mim.
— Você não vai virar o jogo, ok? Não vai – seu dedo está apontado pra mim e eu nunca o vi tão nervoso e irritado antes – De todo mundo você era a ultima pessoa que eu esperava ouvir isso... Eu não estaria nem aí se fosse o Vinny, nem o Vítor, nem a Melissa, mas você sim... Depois de tudo que a gente já conversou, de tudo que eu já ouvi seu e você meu, você era a ultima pessoa que eu esperava ouvir o que eu ouvi... Por que se pra você, isso é tudo que eu sou, então não faz mais sentido ser melhor que isso... Por que é isso, não é? Eu sou só o cara que faz sexo com qualquer uma por aí – eu não entendo o acesso de raiva dele, mas isso me deixa ainda mais furiosa.
— Isso é o que você fez a vida inteira, me desculpa se isso pesa mais do que o fato de você ter aguentado algumas semanas sem sexo – as palavras tem efeito imediato nele, seus olhos não tem mais fúria, só magoa, profunda e infinita, então ele apenas sai, passa por mim, abre a porta do apartamento e o barulho dela batendo forte faz meus ossos tremerem, eu encaro a porta sem entender o que acabou de acontecer, o jeito que ele me olhou, primeiro furioso e depois magoado, não faz sentido e pior ainda quando percebo que isso tudo foi só por causa de uma frase idiota que era pra ser só uma brincadeira, eu realmente não entendo por que ele fez tudo isso, mas quando me desperto já estou quase atrasada pro trabalho então também saio do apartamento.
Chego cinco minutos atrasada, ele já está na mesa dele, mas não olha pra mim, me sento no meu lugar ainda tentando entender nossa briga, por sorte logo estou cheia de trabalho e não tenho tempo de pensar muito, embora cada vez que eu olhe pra mesa ao lado sinta que tem algo muito errado, mesmo assim balanço a cabeça e volto ao trabalho, na hora do almoço pela primeira vez desde que ele começou a trabalhar aqui, ele não vem até a mesa me encher o saco pra ir almoçar logo, invés disso, ele se levanta e passa direto pela minha mesa e vai pro elevador, nossos olhos se encontram por menos de um segundo e ele desvia, a porta do elevador se fecha e eu me afundo na cadeira, perco qualquer fome que eu pudesse ter e fico pela minha mesa adiantando meus trabalhos, quando ele volta passa por mim direto e se senta na cadeira dele, passamos o resto do expediente assim e quando acaba, ele sai primeiro que eu e eu volto pra casa sozinha, desisto de ir pra academia e me jogo na cama tentando entender o que está acontecendo, minha cabeça já estava começando a doer quando meu celular toca, pela primeira vez no dia libero um sorriso quando vejo o nome do Vítor e uma foto dele fazendo uma pose ridícula que ele colocou no contato dele, atendo e com apenas alguns minutos de conversa me sinto menos estressada e consigo até rir, quando desligo, me levanto e tomo um banho demorado me convencendo que eu não fiz nada de errado, se alguém surtou sem motivos, foi ele e não eu, então ele que resolva isso ou não, eu apenas não vou me importar mais.
Volto a me jogar na cama e quando fecho os olhos a imagem do Lipe aparece. Ele saberia exatamente o que fazer, ele sempre sabia, era incrível como ele conseguia terminar com qualquer briga, não só as nossas mas até as minhas e da Lia ou de qualquer outra pessoa, ele sempre teve o dom de olhar para os dois lados e entender os dois, sem julgar, sem querer ter razão, ele apenas sentia o mesmo que a pessoa e tudo parecia simples quando ele explicava, talvez se ele estivesse aqui poderia me explicar o que aconteceu entre eu e o Rafael e talvez eu entendesse o que fiz de tão errado assim. Mas ele não está. Ele nunca mais vai estar. Respiro fundo deixando a dor que já é familiar se assentar e quando isso acontece, puxo a coberta e me obrigo a dormir.