A semana seguiu normal e pareceu passar até rápido demais, quando percebi já era sexta e eu me joguei na cama garantindo que esse fim de semana vou apenas descansar.
Acordo um pouco depois das onze da manhã, praticamente me arrasto até o banheiro e quase durmo debaixo do chuveiro, mas quando saio de lá me sinto mais desperta, saio do quarto e escuto a música tocando, a sala está vazia e Vinny vem saindo da área de serviço.
— O que você tá fazendo?
— Lavando meus tênis e como sou um amigo foda lavei o seu também...
— Eu já disse que te amo hoje? – pergunto segurando o rosto dele com as mãos.
— Não, aliás, tem dito muito pouco...
— É por que eu tenho te visto muito pouco...
— Achei que não tivesse mais com ciúmes
— Não é ciúmes – ele me encara duvidando – É sério, eu até que gosto dela e ela tá fazendo feliz, tá na sua cara isso – ele sorri daquele jeito que parece estar flutuando entre nuvens de algodão doce, eu reviro os olhos, mas acabo sorrindo também.
— Mas?
— Não tem um mas, é só que vocês saem, você dorme fora, eu tenho o trabalho, os treinos, então a gente tem se visto um pouquinho menos, só isso...
— E isso te incomoda?
— No começo sim, era bem irritante você tá fora o tempo todo, mas agora não — falo sinceramente – Agora eu até que gosto de ver você assim todo feliz, babão e amarrado em alguém, principalmente alguém como ela, eu sei que tive minhas implicâncias mas ela é legal, é divertida e o melhor de tudo... Tá fazendo você feliz, então eu só quero que vocês continuem juntos por todo tempo que quiserem, se ela te faz bem, então vocês já são meu casal favorito... Quer dizer, pelo amor de Deus, a Lia não pode nem sonhar que eu disse isso... – ele ri.
— Será nosso segredo – ele garante e me abraça.
— É muito importante pra mim você pensar assim... Você sabe que é minha irmã, minha melhor amiga, então eu não quero que de jeito nenhum que as coisas mudem entre a gente...
— Ei! Isso não vai acontecer, ok? Você é o Vinny, eu sou a Dani, isso não tem como mudar! Eu te amo, não importa mais nada...
— Eu também te amo – ele me abraça apertado.
— Então pronto, resolvido, agora cadê o Rafa?
— Ele ganhou direito a apelido? – ele me olha curioso.
— Depende do que ele ainda pode aprontar...
— Ele saiu, tava todo arrumado, disse que tinha um encontro...
— E a sorte está lançada – eu falo desejando que ele não estrague as coisas, o tal encontro é com a Melissa e ela realmente é legal.
Passo o dia com Vinny, como antigamente fazíamos, nós lavamos algumas roupas, ele faz um macarrão rápido e comemos jogados no chão assistindo a um programa de música, depois eu lavo a louça enquanto ele apenas fica enchendo meu saco pela cozinha e me ensina a cantar a música da banda, Bernardo, o baterista, quem escreveu e a letra é realmente muito bonita, fala sobre um amor que se perdeu no tempo, mas que acaba sendo reencontrado durante um desses acasos da vida, eu falo pro Vinny que ele deveria escrever uma música pra Bianca e ele diz que não leva jeito, mas acaba ficando tentado a arriscar, ele me conta que a banda vai se inscrever para um festival de música que tem fora da cidade, o festival é famoso e acontece em uma rede de resorts simplesmente incríveis, eles sempre abrem espaço para bandas que estão começando e seria uma ótima oportunidade pra eles, então ele tenta controlar a ansiedade, mas no final, já estamos fazendo altos planos pro caso deles serem convidados. A noite nós pedimos um pizza e comemos assistindo um filme, depois ele vai ligar pra Bianca e eu vou pro meu quarto.

Acordo antes do despertador tocar, vou pro banheiro, tomo banho, me arrumo e saio do quarto pronta pra ir trabalhar, Vinny está saindo de casa e apenas me manda um beijo e grita que está atrasado, eu me divirto vendo ele enrolado com a mochila e os livros, vou até a cafeteira e xingo ele mentalmente quando vejo que só fez café pra ele, coloco o café pra fazer enquanto termino de olhar uns documentos que irei precisar entregar assim que chegar, faço algumas anotações na agenda de coisas que preciso fazer hoje e logo o café fica pronto. Saio do apartamento com alguns minutos adiantadas, então não tenho pressa, o metrô está cheio como sempre e eu acabo ficando quase esmagada entre algumas pessoas. Chego no prédio e corro até o elevador que já ia fechando as portas mesmo estando vazio, comemoro minha vitória e a porta já ia se fechando de novo quando vejo a figura correndo na minha direção, coloco a mão no momento exato que o elevador ia fechar e ela sorri aliviada.
— Ai obrigada – Melissa está com um sorriso largo e agradecido.
— Acabei de passar por isso – eu falo sorrindo também.
— Nem acredito que já é segunda-feira de novo, o fim de semana passou voando – ela fala mas está com um sorriso bem satisfeito, na verdade ela parece ótima, sempre a achei muito bonita, com essa pele marrom chocolate e os olhos estreitos e verdes, mas hoje tem algo a mais neles.
— É o tempo tem passado rápido mesmo – ela sorri e me olha de um jeito curioso.
— Eu sei que isso vai parecer estranho mas você mora com o Rafael, certo?
— Dividimos o apartamento com mais um amigo, sim – deixo tudo bem claro.
— E ele falou alguma coisa de mim? Quer dizer, não que esteja acontecendo alguma coisa, por que não está, é só que... Ontem nós saímos e foi muito legal, ele é tão inteligente e engraçado e cavalheiro... – pra minha sorte a porta do elevador abre no andar dela.
— Ainda não vi ele, mas posso procurar saber – ela sai com um sorriso animador, as portas se fecham e eu ainda fico na dúvida sobre ela ter acertado em todas aquelas qualidades.
Chego no meu andar e vou direto pra minha mesa, mal tenho tempo de soltar minha bolsa e meu celular toca, é o Dr. Leones, avisando que vai se atrasar e que preciso remarcar algumas reuniões, fico em uma correria pra reorganizar tudo e quando ele chega já estou com os clientes na sala de reuniões adiantando alguns documentos, sou dispensada e volto pra minha mesa, quando a reunião acaba Dr. Leones me chama até a sala dele e me passa mais trabalho pra fazer o que acaba em rendendo coisa para o dia inteiro, pauso pro almoço, mas acabo pedindo pra entregar e como enquanto digito um documento, até que o telefone toca e é o que ele usa pra falar comigo, me enrolo um pouco mas consigo atender sem quebrar nada.
— Pois não?
— Daniele, assim que o Rafael chegar peça pra ele vir até aqui...
— Algum problema?
— Só preciso ter uma conversa com ele...
— Ok, assim que ele chegar eu o anuncio – desligo mas dessa vez sim fico preocupada tentando descobrir o que será que ele aprontou, não escutei nenhuma reclamação, pelo contrário, todo mundo aqui parece gostar dele, então mesmo com muita imaginação a única explicação que encontro é ele ter saído com a Melissa, mas como ela nem é daqui do escritório, acabo não ficando satisfeita com minha conclusão e espero pra saber o que realmente aconteceu, até que quase uma hora depois Rafael aparece, ele está rindo a toa e vem até a mim trazendo uns envelopes que ele coloca cuidadosamente em cima da mesa, depois faz uma leve mensura.
— O que você aprontou? – pergunto diretamente e ele me olha confuso – O Dr. Leones quer ver você – ele abre um sorriso misterioso.
— Então acho melhor você me anunciar logo...
— Só se você disser que besteira que você fez. Você lembra que eu confirmei que você era um bom candidato né?
— Eu não fiz nenhuma besteira! Por que você sempre pensa o pior de mim?
— Então o que é?
— Pela sua péssima confiança em mim, não digo – ele sorri, pega o telefone que uso pra me comunicar com Dr. Leones e me estica – Anda, me anuncia... – eu pego o telefone e faço uma careta pra ele.
— O Rafael já está aqui...
— Pode mandar entrar
— Ok! – desligo o telefone e reviro os olhos – Pode entrar...
— Você não vai na frente pra abrir a porta, nem nada assim?
— Você prefere que eu te mande pro inferno antes ou depois de você falar com ele? – ele solta uma risada divertida.
— Tudo bem, eu sei o caminho e pode ficar tranquila que eu não vou reclamar com ele – ele dá uma piscada e sai, eu olho a porta se fechar e passo os 40 minutos seguintes quase tendo um ataque de curiosidade, até que finalmente ele sai com um sorriso grande e vem andando até a mim.
— Já posso ligar pro RH?
— Já! E peça pra separar todo documento para o novo Trainee do chefão...
— Você? Como assim? Conta logo...
— Agora não dá, minha promoção só vale a partir de amanhã, ainda preciso pegar uns documentos lá na MR... Faz assim, paga a pizza de hoje a noite e eu te conto tudo...
— Eu tenho treino
— Depois do treino...
— Eu tô de dieta – ele me olha duvidando e ri – Eu tô começando hoje – explico revirando os olhos e ele ri mais ainda.
— Começa amanhã então – ele me dá uma piscada e corre pra entrar no elevador.
Quando o expediente acaba não o encontro no prédio e acabo indo pro apartamento, troco minha roupa e vou correndo pra academia, vejo Vinny com um pessoal por lá mas vou direto pro meu treino. Termino completamente destruída e jurando pra mim mesma que nunca mais fico tanto tempo parada e que vou levar mais a sério e com mais disciplina, mesmo sabendo que esse juramento todo só vai durar enquanto estou com dores.
— Consegue andar? – Vinny me estica a mão, eu estou jogada no chão e ele em pé ao meu lado, balanço a cabeça negando e ele ri, agarra minha mão e me puxa pra ficar em pé – Tô indo pra casa, eu te levo...
— Achei que fosse ver a Bianca...
— Hoje não, ela tem uma prova na faculdade amanhã e tá com a cara nos livros...
— Tá certa, esse rostinho lindo não vale uma nota baixa – em resposta ele morde minha bochecha, dou um tapa no ombro dele e então saímos da academia.
Eu abro a porta rindo do Vinny que imita um cara puxando peso na academia e estava tão distraída que acabo levando um susto quando vejo Vítor parado encostado no balcão da cozinha com uma garrafa de cerveja na mão.
— Não sabia que tínhamos visita – Vinny fala primeiro do que eu, mas vai cumprimentar Vítor.
— Estamos comemorando – Rafael fala levantando uma garrafa de cerveja também.
— Comemorando o quê?
— Fui promovido!
— Sério? Parabéns – Vinny dá a volta e dá um abraço nele.
— Agora sou o novo trainee do chefão...
— E ainda não disse como isso aconteceu
— Eu gosto de mistérios...
— Eu não! – o encaro e então ele sorri.
— Bom, no sábado enquanto você estava enchendo a cara, eu acabei encontrando um conhecido que por acaso está envolvido com a rede de hotéis que vai inaugurar, a gente conversou, ele comentou que estavam com alguns problemas pra agilizar uns processos e eu indiquei o escritório, no domingo falei com o Dr. Leones e hoje de manhã eles tiveram uma reunião que parece ter sido muito boa, então... – ele abre ligeiramente os braços.
— Você é um puxa-saco – falo dando de ombros e ele me encara fazendo cara de ofendido.
— Nem um parabéns? – reviro os olhos mas acabo sorrindo, vou até ele e lhe dou um abraço que ele acaba exagerando e quase quebrando meus ossos.
— Mas eu ainda não vou receber ordens suas...
— Nunca diga nunca – ele sorri e então me viro pro Vítor.
— Você não disse que vinha...
— Quis fazer uma surpresa – ele dá de ombros e libera um sorriso, eu me aproximo mais dele – Surpresa boa ou ruim?
— Boa! Muito boa – garanto e então ele me abraça, o rosto afunda no meu pescoço e sinto sua respiração na minha pele.
— Já pedimos as pizzas, só falta o seu cartão Dani – Rafael fala e me olha com aquele sorriso vitorioso, eu mostro o dedo do meio pra ele.
— Quero te mostrar uma coisa – eu falo já oferecendo a mão pro Vítor, ele sorri e a segura firmemente, então tento sair discretamente.
— Deixem a porta aberta – Vinny avisa quando já estamos no corredor para os quartos, nós rimos mas ignoro, abro a porta do quarto e entro, ele vem logo atrás, vou até a lateral onde fica as estantes e paro em frente aquela em que ficam minhas coleções de CD’s do Bruno Mars, ele solta uma risada.
— Não acredito – ele pega a caixa estilizada e parece impressionado.
— Eu sempre adorei as músicas dele, tenho todos os Cd’s mesmo já tendo todas baixadas no celular
— Mas é melhor ouvir no rádio...
— Muito melhor – concordo e ele sorri concordando, então os olhos dele se arregalam e ele levanta lentamente o álbum Doo-Wops & Hooligans, eu sorrio orgulhosa.
— Tá autografado! Isso é de verdade? – ele aponta para o post-it amarelo colado por dentro da capa do Cd.
— Claro que é, tá me achando uma falsificadora de autógrafos? – ele ri.
— Como você conseguiu isso? Esse foi o primeiro álbum dele num estúdio, pra mim é o melhor até agora...
— Tenho que concordar, é o meu preferido também, embora esse 24K tenha me pego de jeito – ele ri ainda olhando para a letra torta na capa do Cd – Meu pai teve um congresso... Coisas de medicina... Em Boston, ele ficou lá por uns 5 dias, então um dia ele estava almoçando no hotel e tcharam, lá estava o Bruno Mars no bar do hotel onde ele estava, então ele correu até ele, tirou o post-it do bolso e conseguiu um autografo antes dos seguranças botarem ele pra correr e esse foi meu presente de aniversário, ele guardou por 4 meses...
— Isso é... incrível! – ele fala sorrindo impressionado.
— Agora me entrega por que você tá com um olhar muito suspeito
— Eu não queria dizer nada, mas... Meu aniversário está chegando – ele faz uma cara triste.
— Cara, isso é golpe baixo
— Golpe baixo? Por que? Eu só fiz um comentário totalmente livre de segundas intenções...
— Totalmente?
— Totalmente! – eu solto um riso e ele também.
— Bom e quando seria essa data tão especial?
— No fim do ano... – ele faz careta e eu rio – É, mas onde será que você irá conseguir um presente tão lindo e incrível pra alguém tão legal como eu? – ele faz uma cara de pensativo e eu não me controlo e acabo rindo.
— Eu vou dar um jeito, mas essa belezinha aqui... – balanço o cd que já está na minha mão – Não sai desse quarto...
— Acho que posso pensar em uma solução...
— Ou pode escolher outra coisa...
— Engraçado, agora que você me deu essa opção, acho que ficaria feliz abrindo mão do cd por... Não sei, talvez um jantar a dois na próxima sexta...
— Seu aniversário é só no fim do ano...
— Tudo bem, pode ser todas as sextas até lá – eu solto uma risada divertida.
— Na verdade eu achei que você fosse escolher algo mais... Imediato – levanto a sobrancelha e sorrio dando de ombros – Mas tudo bem, sexta feira que vem – eu coloco meu cd de novo na estante e antes que eu me vire pra ele de novo, suas mãos encontram minha cintura e me puxam pra mais perto dele, eu o olho e então sem precisar dizer mais nada, nós nos beijamos.
— Com certeza imediato é melhor – ele afirma sorrindo e me beija de novo, dessa vez ele me encosta na mesa e segura na minha nuca aumentando a intensidade do beijo, minha mão sobe por cima da camiseta dele e eu a agarro na altura do seu peito, minha mão se forçando nele e sentindo o músculo definido e a respiração forte, assim como a minha, mas as batidas na porta nos distraem, ele vira pra trás rapidamente e Vinny está sorrindo parado na porta.
— Foi mal! – ele levanta as mãos em inocência – Mas as pizzas chegaram e o Rafael disse que não vai calar a boca até todo mundo tá lá na sala comendo e comemorando... – eu reviro os olhos mas acabo rindo.
— Ele anda muito carente ultimamente...
— Vou deixar vocês... Se acalmarem... – Vinny fala e sai rindo, olho pro Vítor e ele continua virado pra mesa.
— Que houve? – pergunto mas assim que falo percebo o que está acontecendo, ele ri dando de ombros e me olha de um jeito divertido – O banheiro é bem ali e água é bem gelada – ele solta uma risada alta, mas ao invés de ir para o banheiro ele me puxa pra ele de novo e volta a me beijar antes que eu pense em dizer mais alguma coisa e eu não reclamo, apenas o beijo de volta e dessa vez quando ele me aperta junto do corpo dele, sinto-o reagindo a mim e acabo sentindo algo muito parecido com orgulho próprio, quando o beijo para ele ri e recua um passo.
— É bom que seja bem gelada mesmo – ele fala e vai pro banheiro, eu ainda rio sozinha e antes que ele saia do banheiro e comecemos tudo de novo, eu volto pra sala, Vinny já me olha rindo.
— Não diga uma palavra – eu aviso assim que me aproximo.
— Melhor a gente começar a comer, alguma coisa me diz que o Vítor vai demorar...
— Eu posso levar um balde de gelo pra ele – Rafa fala mas não parece achar tanta graça quanto Vinny.
— Eu quero muito ouvir sobre o encontro com a Melissa – mudo de assunto.
— Nada a declarar – ele dá de ombros e pega um pedaço da pizza assim como eu.
— Escuta essa – falo parando ao lado do Vinny – Ela disse que o Rafa é muito simpático... – ele faz uma cara de aprovação – Engraçado...
— É, confere...
— E... Um cavalheiro – assim que falo Vinny finge se engasgar.
— Um o quê?
— Um cavalheiro! CA VA LHEI RO...
— O Rafa? Quer dizer, esse Rafa? Tipo... Esse daqui mesmo?
— Eu sei, pensei em chamar um psiquiatra pra ela ou algo assim...
— Eu estou bem aqui – Rafa fala balançando as mãos.
— Então me explique como você foi chamado de cavalheiro? – Vinny pergunta e nós dois ficamos olhando pro Rafa.
— Ele me pediu umas dicas, então – Vítor fala enquanto se aproxima de nós, eu e Vinny nos olhamos desconfiados.
— Umas dicas? Pra pegar uma garota?
— A gente tá mesmo falando desse Rafael?
— Eu gosto de aprender coisas novas...
— A como paquerar e enganar uma pobre coitada? E você ajudou ele? – eu o olho desacreditada.
— Você realmente não sabe o que significa “isso fica entre nós” né?
— Ainda está entre nós... Só que um nós com mais pessoas... – Vítor fala dando de ombros e parece achar graça.
— Eu não sei se acredito nessa história de você realmente afim dela...
— Ah droga, que pena, queria te convencer do contrário, mas é uma pena que não dá, então... – ele pega a caixa da pizza e leva pro sofá – Melhor a gente comer, beber e falar sobre outra coisa – Vinny me olha curioso, mas acaba dando de ombros e vai pro sofá, já pegando pizza da caixa que Rafa abre em cima do sofá.
— Vai manchar o sofá e os dois vão comprar um novo – aviso e eles fazem caretas e me ignoram – Você acredita nisso?
— Acredito, o sofá de lá de casa tem uma mancha horrível – Vítor fala fazendo uma cara de impressionado, mas ri quando eu o encaro – Sei lá, ele parecia nervoso em encontrar com ela, então... Ele pediu ajuda e eu ajudei...
— Que tipo de ajuda?
— Basicamente o que se pode fazer com uma mulher sem ser levar ela pra um motel – eu acabo rindo por que isso é bem a cara dele.
— Então você disse?
— Que ele devia ser ele mesmo...
— Mas isso seria levar ela para o Motel – ele ri.
— Foi exatamente o que ele me disse...
— Vocês vão ficar aí cochichando ou podem fingir que estão felizes com a minha promoção?
— Mas eu estou feliz! – falo já indo pra perto deles – Isso significa que você vai ganhar mais, ou seja, vai poder comprar seus próprios iogurtes e parar de pegar os meus – eu me jogo no sofá de dois lugares e dou uma piscada pra ele que em resposta me manda um beijo no ar, Vítor se senta do meu lado e Vinny coloca umas músicas e nós finalmente fazemos o que Rafa tanto quer e comemoramos sua promoção.
Rafa foi transferido para o seu novo cargo e para o meu azar Dr. Leones quer ele por perto, o que significa que agora, a menos de 2 metros da minha mesa, tem a mesa dele.
— Eu sei que você tá empolgada, não tente disfarçar – ele empurra a cadeira dele pra perto da minha – Eu estarei sempre aqui – ele sussurra de um jeito assustador, em resposta eu empurro a cadeira dele para a sua mesa de volta e ele quase bate na quina.
— Rafael – Dr. Leones chama por ele enquanto volta para sua sala, entra e deixa a porta entreaberta para ele.
— Tomara que te mandem pro porão – eu sussurro juntando minhas mãos, ele ri e vai.
Continuo meus trabalhos, acabo saindo da minha mesa e quando volto ele está sentado na cadeira dele com um sorriso largo e convencido, eu reviro os olhos antes que ele fale o motivo.
— Adivinha quem vai poder assistir a audiência do caso dos hotéis...
— Humildade! Essa é a palavra chave – aponto o dedo pra ele e ele ri.
— Vou tentar, é que não tô muito acostumado a isso...
— Jura? Nem percebi – ele ri e eu tento esconder um riso também, me ocupo com minhas coisas e ele também começa a se organizar.
Quando acaba o expediente ele se apressa pra juntar as coisas e logo está se despedindo.
— Uau, que pressa pro primeiro dia ein?
— É que eu marquei com a Melissa e ela já tá livre...
— Hummm, com a Melissa é? Que lindo! – ele faz uma careta e acena um adeus.
— Leva ela na sorveteria, é bem romântico...
— Posso te garantir que vou dar um cascão pra ela – ele sorri daquele jeito maldoso e pisca um dos olhos.
— Você é ridículo e nojento – ele entra no elevador rindo.
Passo no apartamento só pra trocar de roupa e vou pra academia, vejo Vinny assim que chego e mando ele me esperar pra ir embora, por isso quando acabo meu treino ele já está me esperando na cadeira da lanchonete e com um pote de açaí.
— Eu amo você – falo segurando o rosto dele com as duas mãos, ele ri e me entrega o pote com um aviso pra eu não deixar cair no banco do carro.
Quando chegamos no apartamento Rafa já está lá.
— Ué, e o encontro?
— Eu sou rápido, achei que já tínhamos comentado sobre isso – ele sorri e pisca, mas eu o encaro sem acreditar – Ela tinha que ir pra casa cedo, por que tava levando trabalho pra amanhã – ele confessa meio decepcionado e eu dou uma risada.
— Sabe o que é mais engraçado? – ele dá de ombros enquanto abre a porta da geladeira – Ela tá te fazendo de cachorrinho... Eu já adoro essa garota
— A gente vai sair amanhã!
— Então amanhã você me conta qual vai ser a nova desculpa – eu saio rindo pro meu quarto e ele manda eu me ferrar, meu celular toca assim que bato a porta do quarto e sorrio quando vejo o número do meu pai, ele avisa que vão fazer um churrasco no sábado por que é o aniversário dele, como se eu pudesse me esquecer disso, eu garanto que vou e ele já está todo bobo por que sempre gostou de comemorar esse dia, eu aviso que vou passar lá na sexta para deixar algumas coisas e isso só o deixa ainda mais empolgado, eu sorrio contente em ver ele assim e quando desligo saio do quarto e volto pra sala – Sábado é aniversário do meu pai, então não marquem nada pra esse dia, vai ter um churrasco lá...
— O MELHOR churrasco do ano – Vinny avisa pro Rafa.
— Eu posso levar mais uma pessoa? – ele pergunta me olhando já sorrindo.
— Se ela não te der um pé na bunda até lá... – dou de ombros e ele me mostra o dedo do meio – Ah e leve um presente, meu pai adora presentes – pisco e viro de costas enquanto aceno um adeus, entro no quarto e mando uma mensagem apenas pra lembrar a Lia e ela me responde quase que imediatamente confirmando e reclamando por eu pensar que ela precisava de lembrete, eu mando vários corações em resposta e a crise está terminada, eu sorrio e dou uma olhada nos outros contatos do Whatsapp, paro no contato do Vítor e fico olhando alguns segundos, tentando decidir o que fazer, eu sei que se eu chamar ele pra ir minha mãe não vai deixar esse detalhe passar despercebido e eu vou acabar me estressando com ela do mesmo jeito que aconteceu quando Rafa foi lá a primeira vez, mas ao mesmo tempo eu realmente gostaria de ter ele por perto e acho que meu pai e ele se dariam bem, além do mais nós somos apenas amigos mesmo, então quando percebo já estou enviando a mensagem, fecho os olhos mordendo a boca, bloqueio a tela e deixo o celular no criado mudo ao lado da cama, bato a cabeça algumas vezes no travesseiro me arrependendo e então o celular vibra, eu pego rapidamente mas me obrigo a esperar uns segundos, quando abro a mensagem é quase automático o sorriso que aparece.

VÍTOR: Um churrasco de aniversário do seu pai que vai me dar um sábado inteiro com você? Eu realmente preciso responder?
EU: É, imaginei que você não fosse querer
VÍTOR: Não me obrigue a rastrear o endereço e aparecer lá como um perseguidor maluco
EU: KKKKKKK Ok, ok, está convidado!
VÍTOR: Obrigado! :D
EU: Tenho que dormir, amanhã acordo cedo!
VÍTOR: Tô começando meu turno agora, meu patrão não quis me dar a noite de folga.
EU: Ele parece uma pessoa horrível :O
VÍTOR: Até que ele é bem bonitão!
EU: Só acredito vendo...
VÍTOR: Talvez você tenha uma chance com ele
EU: Não sei, eu meio que tô enrolada com o entregador dele...
VÍTOR: FDP sortudo!
EU: Na verdade ele é meio exagerado
VÍTOR: Vai ver você deixa ele nervoso...
EU: KKKKKKK eu tenho mesmo que dormir! Beijos
VÍTOR: Beijos, até sábado!

Eu bloqueio a tela do celular e ainda sorrio quando o devolvo para o criado mudo, sinto umas borbulhas estranhas no estômago e fecho os olhos me obrigando a dormir.

Sábado amanhece com o céu claro e eu sorrio já imaginando a alegria do meu pai, ontem passei lá e ele estava todo preocupado por que o dia estava nublado e ele estava com medo que hoje chovesse e ninguém fosse, eu e mamãe tentamos acalmar ele mas ele já estava meio pra baixo, mas com certeza esse céu azul e limpo vai deixar ele dando pulos de alegria, me visto, pego minha mochila com uma roupa extra, o presente dele e saio do quarto, Vinny também está saindo do quarto dele, mas ainda está com a toalha enrolada na cintura.
— Eu ainda tenho que pegar a Bianca, mas se você quiser visto um short e te levo lá rapidinho...
— Não precisa, eu vou de ônibus, ainda sei como se faz isso – mando um beijo no ar, já saindo do apartamento.
Chego na casa dos meus pais e uso minha chave pra entrar, antes de abrir a porta da sala ouço as risadas deles dois e paro, minha mãe ri alto de um jeito que apenas o meu pai consegue fazer acontecer, ele também está rindo e eles cochicham e riem mais ainda, então por um minuto eu apenas fico ouvindo eles e apreciando essa coisa que eles tem, a maneira como de algum jeito eles sempre se completaram, eu cresci vendo eles dois e não conheço nem um casal que continua tão apaixonado quanto eles, essa era uma coisa que eu queria pra mim, que eu sempre quis, achei que fosse ser o meu futuro e do Lipe, mas infelizmente não existe mais essa opção. Sinto um nó na garganta e antes que eu deixe esses pensamentos ficarem mais fortes, eu respiro fundo e abro a porta.
— PARABÉÉÉÉÉÉÉNS! – entro gritando e abrindo os braços, ele ri e se levanta do sofá onde estava com a minha mãe, nos abraçamos forte e ele me gira tirando meu pé do chão do mesmo jeito que fazia quando eu era pequena, porém não tão rápido – Eu te amo muito, muito, muito, muito e você sempre vai ser o homem da minha vida, meu primeiro amor, meu super herói... O homem mais lindo e gostoso do mundo – eu falo e dou vários beijos espalhados no rosto dele – Eu espero que você goste – falo quando entrego o presente dele – Fala sério, quem eu quero enganar? Eu tenho certeza que você vai gostar – eu falo empolgada e ele ri.
— Meu gosto mudou bastante desde que você nos abandonou – ele fala fazendo charme.
— Tenho certeza que não tanto assim – eu sorrio e ele começa a rasgar o pacote curioso, então os olhos dele se arregalam e ele solta uma risada já pegando o presente nas mãos, uma caixa personalizada e com a coleção dos filmes “Exterminador do futuro” em blu-ray e com cenas excluídas, entrevistas e vários outros extras, além de um livro, um chaveiro e um boné – Então?
— Eu vou voltar a te dar mesada – ele fala rindo e já me abraçando.
— Gostei disso! Vamos conversar sobre isso mais tarde...
— É lindo! É incrível! Eu adorei!
— Eu sei, sou a melhor filha do mundo...
— Só quero vê no meu aniversário ...
— Ah que mãe ciumenta, meu Deus – eu falo mas vou abraçar ela que tenta não rir – Eu vou comprar todos os filmes melosos e dramáticos pra você chorar bastante – ela ri e então nós três tomamos café juntos e eu ajudo a arrumar todas as coisas para o churrasco na parte de trás da casa.
Aos poucos os amigos do meu pai chegam, tio Cláudio e tia Betty também chegam e ela se junta a minha mãe pra reclamar de mim e da Lia, eu invento uma desculpa de algo pra fazer e saio de perto delas, mando uma mensagem pra Lia mandando ela se apressar ou vou jogar as duas na piscina e então Vinny chega junto com a Bianca.
— Ai graças a Deus! Vocês dois estão proibidos de sair de perto de mim – aviso já indo até eles.
— Achei que não viesse – meu pai fala já abrindo os braços pro Vinny, ele ri e abraça meu pai.
— E perder o melhor churrasco do ano? Não mesmo! – papai sorri todo orgulhoso e Vinny o apresenta a Bianca como sua namorada, seria impossível não reparar na surpresa dele com a revelação, não sei se apenas por Vinny finalmente estar namorando ou se por não ser comigo, Vinny me olha rindo provavelmente com o mesmo pensamento, mas papai abraça e cumprimenta Bianca com um sorriso largo e cheio de simpatia como sempre, Vinny entrega o pacote com o presente pra ele que agradece dizendo que não precisava se incomodar, eu vou com eles para a parte de trás da casa onde estão os outros e ficamos conversando e bebendo uma cerveja até que Lia e Bruno também chegam, eles vão falar com meus pais, com os pais dela e depois se juntam a nós, meu pai coloca uma música alta e está todo cheio de sorrisos, cantando, dançando e bebendo junto com os amigos, até minha mãe está se divertindo, mas quando Rafael chega acompanhado da Melissa ela me olha como se tivesse vendo algo sem explicação, eu sorrio por que isso vai provar a ela que não tinha nada entre a gente, então eu mesma faço questão de receber eles com o maior sorriso e animação que consigo enquanto ela ainda parece confusa.
— Que bom que você veio – eu falo abraçando-a, ela sorri de um jeito meio tímido e ele me dá uma piscada de agradecimento, eles fazem questão de cumprimentar meu pai e depois eu os junto com os outros.
— Ela é muito gata – Lia fala já vindo atrás de mim na cozinha, eu sorrio.
— Eu disse...
— Ela parece legal, o que é uma pena...
— Ah sei lá, acho que ele meio que tá gostando dela e ela meio que tá bancando a difícil e ele tá ficando louco... – ela ri e nós paramos na porta da varanda olhando eles, ela realmente é muito bonita, a pele negra, os cabelos cacheados que caem pelos ombros dela e com o vestido laranja que combinam perfeitamente com ela a deixam ainda mais bonita e eu tenho que admitir que ele tem bom gosto.
Rafa vai até meu pai com uma sacola de presente.
— Não precisava, filho – ele fala dando um abraço nele.
— Acho que você vai gostar... – meu pai sorri e abre a sacola, puxa de dentro uma camisa do Chicago Bulls, papai já arregala os olhos sorrindo como um bobo, vira a camisa e então logo abaixo do nome Michael Jordan gravado, tem o autógrafo do próprio Michael e eu sinceramente tenho medo que meu pai tenha um ataque do coração com o tanto que ele pula, comemora e abraça o Rafael que ri orgulhoso me olhando como se soubesse que não importa o que eu tenha dado pra ele não chega nem aos pés do seu presente, quando meu pai o solta e sai mostrando pra todo mundo seu presente ele sorri do meu lado.
— Você não precisava ter gastado toda grana – ele dá de ombros.
— Eu ganhei num show que eu fui, consegui o autógrafo quando meio que invadi a fileira dele e implorei...
— E você deu de presente assim? – ele dá de ombros.
— Seu pai é maneiro... Você deve ter puxado sua mãe – ele fala e mesmo que eu acabe rindo, dei um empurrão nele.
— Olha quem chegou... – Lia fala já agarrando meu braço com um sorriso que quase rasga o rosto dela enquanto aponta pro Vítor que parece meio sem graça enquanto entra pelo quintal, o portão está aberto e ele deve ter escutado a música, Rafa vai ao encontro dele e ele parece mais relaxado – Anda, vai lá... – Lia praticamente me empurra e eu mordo a parte interna da minha boca tentando me controlar e parecer natural para não demostra todas as dezenas de borbulhas que parecem se espalhar na minha barriga.
— Você veio – ele se vira rápido pra mim, com um sorriso que seria impossível não sorrir de volta, ele se aproxima e me abraça, aquele tipo de abraço que te faz sentir no lugar certo.
— Claro que eu vim – ele para o rosto próximo demais do meu, fazendo aquelas borbulhas aumentarem ainda mais e meu coração disparar de um jeito irritante.
— Que bom – é tudo que eu consigo dizer de forma segura.
— Eu trouxe uma coisinha pro seu pai – ele fala e levanta uma sacola.
— Não precisava!
— É, eu sei... Mas – ele dá de ombros, eu sorrio e levo ele comigo pra apresentar meu pai, ele está perto da churrasqueira mostrando a camisa, rindo junto com tio Cláudio, pai da Lia.
— Pai... Esse é o Vítor... Um amigo! – eu olho pro Vítor e ele sorri já esticando a mão pro meu pai.
— É um prazer e meus parabéns – meu pai sorri e transforma o aperto de mão em um abraço – Espero que o senhor goste...
— Senhor tá no céu – meu pai fala mas pega a sacola – Eu também espero gostar – ele brinca e Vítor ri, meu pai abre a sacola e solta uma risada, tira de dentro uma garrafa de cachaça artesanal – Isso é golpe baixo – papai fala e dá um tapa no ombro dele já olhando pra garrafa todo bobo, Vítor me olha e sorri orgulhoso de si mesmo, eu apresento o pai da Lia a ele e já estávamos saindo quando mamãe aparece.
— E quem é o seu novo amigo? – o sorriso dela é o mesmo que ela usa quando acha algum solteiro pra empurrar pra cima de mim, eu respiro fundo e tento não me estressar.
— Mãe, esse é o Vítor... Vítor, minha mãe – ele a cumprimenta com dois beijos na bochecha.
— Vocês trabalham juntos?
— Ah não, nós nos conhecemos por acaso, mas sua filha é uma ótima pessoa...
— Ah eu sei, é um verdadeiro presente – ela me puxa pra um abraço meio de lado e passa os dedos pelos meus cabelos – Agora tenho que confessar que fico feliz que vocês não trabalhem juntos, por que isso significa que ela tem saído mais e eu já não aguentava mais ela presa naquele apartamento...
— Mãe, menos... – eu peço já sabendo o que está por vir.
— É a verdade... Eu sempre digo a ela pra sair, conhecer gente nova, que bom que ela começou a me ouvir – ela sorri olhando pro Vítor.
— Vocês tem que ver isso – Vinny fala já puxando eu e Vítor com ele – Dá licença, tia – minha mãe sorri e não se opõe, então ele nos larga e sorri pra mim.
— Tô te devendo uma!
— Eu não sou cruel pra deixar vocês com ela né – ele dá de ombros e nos juntamos aos outros.
Passo praticamente o tempo todo evitando que minha mãe se aproxime do Vítor, mas por muitas vezes pego ela nos olhando de longe e sorrindo, ignoro e volto a atenção na conversa e acabo rindo e me divertindo bastante, e quando chega a hora de cantar parabéns eu saio de perto deles e me junto ao meu pai, abraçando e o beijando várias vezes, fazendo ele rir e ficar todo bobo, continuo ao lado dele durante a música e mamãe também se junta a nós dois, ele corta o primeiro pedaço do bolo e como tradição ele mesmo come para não haver ciúmes de ninguém, então ajudo minha mãe a cortar os pedaços e servir, embora a maioria venha até a mesa pegar o seu, eu me junto ao pessoal de novo e todo mundo está elogiando o bolo e já querendo outro pedaço, nós repetimos e rimos quando o Vinny suja o nariz com o chantilly, até que em um movimento rápido eu acabo derrubando cerveja em mim mesma e sou o novo alvo das risadas, embora eu acabe rindo junto com eles.
— Eu preciso trocar de roupa, esse cheiro fica mais forte a cada segundo – eu falo fazendo uma cara de nojo – Já volto! – aviso e corro até dentro de casa, subo as escadas, pego minha mochila e vou pro banheiro, me limpo e troco de camiseta, como o short não sujou deixo o mesmo, saio do banheiro e deixo a mochila no que era meu antigo quarto, então desço as escadas, mas a voz da minha mãe me faz parar, eu faço silêncio e quase prendo a respiração pra continuar ouvindo o que ela diz.
— Deus sabe o quanto eu esperei por isso e você viu? Ele é lindo, jovem, não parece ser de bagunça, é perfeito pra ela... – minha vontade é gritar pra ela parar de fazer isso, se meter na minha vida desse jeito, mas antes que eu faça isso ouço a voz da tia Bethy.
— Eu sei que você está empolgada mas acho melhor você se controlar, você sabe como a Dani é... Ela não vai gostar de ouvir você falando assim...
— Eu sei, eu sei, mas é tão bom vê que finalmente ela está esquecendo o Felipe, eu... Eu rezei tanto por isso... Eu sei que ela o amava, mas ele tá morto, ela não podia ficar nisso pra sempre... Eu estou tão feliz que ela virou essa página... – então eu não aguento mais ouvir isso e apenas desço a escada ficando parada de frente pra elas – Dani, eu... Eu não quis di... – eu passo por ela sem me preocupar em desviar, saio pela porta de trás, mas não vou para onde está todo mundo, faço o caminho contrário e vou para o portão – Dani, Dani, por favor... – ela corre atrás de mim e segura meu braço, eu me viro pra ela e apenas a encaro – Me desculpa, não era pra você ouvir nada daquilo, eu só... Estava desabafando com uma amiga... – eu puxo meu braço pra me soltar dela e continuo andando.
— DANI! – ouço a voz da Lia me gritando e mesmo assim não paro, abro o portão e saio, não sinto vontade de chorar, só quero gritar, gritar até perder minha voz, gritar até que o mundo inteiro entenda que não é possível esquecer algo assim, você não perde alguém e simplesmente esquecer, isso é impossível.
— O que houve? – a mão segura meu braço e logo ele está na minha frente, meu pai parece realmente preocupado e toda aquela alegria e sorriso que ele estava desapareceram enquanto ele me encara daquele jeito de quem não vai desistir sem uma resposta.
— Eu não quero estragar sua festa, eu tô bem, só quero ir embora...
— Não me interessa minha festa. O que aconteceu?
— Nada, eu só... Não tô me sentindo bem – dou de ombros e forço um sorriso.
— Você nunca conseguiu mentir pra mim, mesmo quando você só tinha 10 anos e jurou que não tinha quebrado o controle do rádio... – ele fala e eu acabo sorrindo de verdade.
— Não é nada, eu só quero ir embora, amanhã a gente se fala? – ele me olha tentando decifrar alguma coisa, então Vítor nos alcança, mas para a dois passos como se pedisse permissão, eu e meu pai olhamos pra ele no mesmo instante, então meu pai volta a me olhar como se tivesse entendido tudo.
— A gente só quer que você seja feliz, só isso... Não me importa como, só... Seja feliz! – ele fala com um sorriso então segura meu rosto e beija minha testa – Eu sempre vou estar aqui
— Eu sei! – ele sorri e beija minha bochecha, então me solta.
— Eu não posso acompanhar ela até o apartamento – ele fala olhando pro Vítor.
— Eu faço isso – ele garante e eles apertam as mãos, meu pai me dá uma ultima olhada e então volta o caminho pra casa, Lia está no portão junto com Vinny, eu apenas dou um aceno pra eles e volto a andar, Vítor vem logo ao meu lado.
— Você quer mesmo ir pro apartamento? – ele pergunta e dá de ombros – Se você aceitar, eu queria te levar em um lugar... – ele me olha esperando resposta.
— Tudo bem! – ele sorri e faz sinal pra um táxi que ia passar por nós dois, o carro para e ele abre a porta de trás pra mim, eu entro e escorrego para o outro lado.
— No Campus da Federal, por favor – ele fala para o motorista e eu o olho confusa – Eu não sou um serial killer – ele levanta as mãos em inocência e isso me faz rir.
— Fico mais aliviada!
— Além do mais não sei se escaparia da Lia caso você aparecesse com um arranhão...
— Provavelmente não, ela tem aquele tamaninho mas é bem habilidosa – ele ri e eu também.
— Você acha que seu pai gostou do presente?
— Se ele gostou? Meu pai é apaixonado por essas cachaças artesanais... Além do mais, tenho certeza que o Vinny te disse isso, não? – ele sorri de um jeito suspeito.
— Eu posso ter pedido alguma dica...
— É, desconfiei que sim
— Isso não é trapaça, é?
— Um pouquinho!
— Eu teria levado um daqueles aventais com touca pra churrasqueiro – eu faço uma careta.
— Ainda bem que trapaceou – ele ri – Ele acha meio... Como eu posso dizer...
— Cafona!
— Exatamente!
— Viva a trapaça – ele fala fingindo comemoração.
— Mas eu tenho certeza que ele ia gostar de qualquer coisa, ele não liga muito pra presente desde que a casa esteja cheia de gente comendo, bebendo e puxando saco dele...
— E não é pra isso que servem os aniversários?
— No caso dele, com certeza!
— E no seu caso? – ele pergunta me olhando curioso.
— Bom, eu não sou a pessoa mais ansiosa do mundo por essa data, mas no fim do dia tudo termina com festa, eu querendo ou não...
— E por que você iria não querer? Festas são demais...
— É, são... É só que... – eu paro tentando encontrar um jeito de dizer que na verdade há quatro anos eu não vejo a mesma graça em celebrar esse dia por que era sempre no meu aniversário que Lipe estava mais animado, ele me acordava cedo, fazia uma lista de todas as coisas que iriam acontecer no dia e sempre me surpreendia, não importa o quanto eu esperasse ser surpreendida.
— Entendi – Vítor fala e me força um sorriso.
— É complicado, quer dizer, Vinny, Lia, meu pai, eles fazem tudo do jeito mais perfeito do mundo, eu só... Não fico ansiosa esperando essa data...
— Eu sei como é – ele fala com o sorriso triste, então o carro para na entrada do Campus, ele paga, nós descemos e ele vai andando na frente pelo campo verde e imenso que se estende até onde nossos olhos alcançam, o prédio principal fica no centro e é muito parecido com uma daquelas mansões de época e mais adiante tem mais dois prédios, um pouco mais modernos, porém ele anda para o lado oposto, na direção do lago, passamos por um banco de madeira, alguns arbusto e ele contorna o lago até alcançarmos um tronco de madeira velho que fica logo abaixo de uma grande mangueira que está bastante carregada, ele se senta no tronco e bate a mão no espaço ao lado dele.
— Tem certeza que não vamos ser atingidos? – pergunto apontando pra cima, ele sorri.
— É um ótimo jeito de testar sua sorte...
— Não sei se isso é uma boa ideia, mas... – dou de ombros e me sento ao lado dele, assim que olho pra frente solto um sorriso já sentindo a calma desse lugar, o lago está refletindo a luz do sol, a grama absolutamente verde em volta dele deixa o lugar parecendo um verdadeiro oásis e eu mal me lembrava como esse lugar é bonito – Nossa! Tinha um bom tempo que eu não vinha aqui... Eu... Eu acho que a ultima vez foi quando o Vinny esqueceu o livro que tinha que entregar na biblioteca e eu tive que trazer pra ele, há uns... 2 anos atrás, eu acho... É lindo!
— É, eu também acho... Eu também não vinha aqui há algum tempinho... – nós dois ficamos apenas encarando a vista por alguns segundos – Eu costuma vir muito aqui com meu pai... Ele sempre me trazia aqui, ele estudou aqui e também era um grande admirador dessa vista, então sempre que ele queria conversar, me dar algum conselho ou simplesmente dividir uma bebida comigo depois que eu fiz 16 mas sem que minha mãe nos desse uma bronca interminável – ele dá de ombros e solta uma risada abafada – Esse era o nosso lugar especial – agora ele me olha com um sorriso nostálgico.
— É um ótimo lugar especial – ele concorda pensativo.
— Eu passei um ano vindo aqui todos os dias... – ele confessa e arranca um punhado de grama ao lado do seu pé – Eu vinha aqui apenas pra me perguntar por quê tudo aquilo tinha acontecido, por que com eles dois. Por que Deus, ou seja lá que outra força da natureza me tirou os dois, assim, sem nenhum motivo, apenas pra provar alguma coisa que nunca fez nenhum sentido pra mim... Então eu... Apenas ficava aqui odiando cada pessoa que existia no planeta – ele me olha e eu sei que ele sabe que eu entendo cada uma das palavras dele, por que eu me senti exatamente assim e as vezes ainda me sinto – Depois disso, eu voltei a me relacionar com a minha irmã, eu fui tentando voltar a minha vida, mas continuei vindo aqui todos os dias, só que aí eu apenas sentava aqui e dizia o quanto eu estava tentando, o quanto era difícil ou o quanto eu ainda odiava responder a todas as pessoas que me perguntavam como eu estava me sentindo depois daquele ano...
— Como se alguém realmente fosse entender – ele concorda com um aceno de cabeça e depois dá de ombros.
— Então eu comecei a fazer outras coisas, eu comprei o restaurante e tinha tantos documentos pra resolver, pessoal pra contratar, tinha também as coisas da revista da minha mãe, relatórios e mais relatórios, além disso eu acabei reencontrando alguns colegas, comecei a sair, tive alguns encontros... Desastrosos, mas encontros... E então, eu não vinha mais, eu simplesmente parei de vir até aqui, assim, do nada... E quando a minha ficha caiu, quando eu percebi isso eu me odiei, me senti culpado, me xinguei e tentei me convencer do quanto eu era uma pessoa horrível e por isso merecia sofrer e nunca mais ser feliz de novo, até que eu tive um acesso de raiva e quebrei metade do meu quarto... Não estava tendo um bom dia – ele dá de ombros – Eu quebrei um monte de coisa e no meio da bagunça eu achei uma foto minha e do meu pai aqui, nesse mesmo lugar, nesse mesmo tronco... Tínhamos tirado há umas duas semanas antes do acidente e como num passe de mágica eu lembrei de tudo que sobre aquele dia, cada palavra, cada risada, cada piada, era como reviver aquele dia e eu juro que essa lembrança tinha apenas ficado perdida em algum lugar da minha mente, mas naquele momento foi como se ele estivesse tentando me dizer alguma coisa, eu não sei, mas eu me lembrei que um pouco antes da gente levantar e ir embora, ele colocou a mão no meu ombro e disse que ele não se arrependia de nada que já tinha feito na vida, e que se tivesse que repetir tudo ele repetiria, mesmo as coisas que mais o causaram dor, por que tinha sido graças a tudo aquilo que ele tinha tudo que tinha, então ele disse não sabia tudo que ainda iria acontecer, mas que eu teria muita alegria e teria também alguma dor, mas que ele esperava que eu vivesse intensamente cada um desses sentimentos... Se eu quisesse gritar de alegria, que eu gritasse. Se quisesse correr e nadar pelado, que fizesse. Mas se eu quisesse gritar e chorar, eu também deveria fazer. Se quiser me trancar e não vê mais ninguém, tudo bem. Ele só me fez um pedido, que nunca deixasse ninguém palpitar nos meus sentimentos, não importa quem fosse, se fosse ele ou minha mãe, ele me disse e deixou bem claro isso, que eu nunca deveria ter como base o que alguém me diz pra sentir ou não, ele exigiu que eu nunca diminuísse o que estivesse sentindo por que talvez fosse o certo e nem que me culpasse se esses sentimentos mudassem, por que a vida muda e eu iria mudar também, então tudo que eu deveria fazer era ser fiel a mim e aos meus sentimentos, não importa se me dissessem que eu estava sentindo errado... – eu sinto o nó na garganta se formando e é como se eu realmente precisasse escutar cada uma dessas palavras – Foi quando eu entendi que parar de vir aqui ou não ficar mais afogado em raiva e ódio, não me faziam um filho horrível ou um ser humano desprezível, só me fazia... Ser fiel a mim. Por que por mais que ainda me doa e eu sinta tanta falta deles quanto antes, eu só... Não suportava mais me sentir tão vazio e sozinho, com tanta raiva de todo mundo, eu só aceitei que não está mais nas minhas mãos, nunca esteve, só cabe a mim aceitar e tentar honrar tudo que eles significaram pra mim, então isso é o que eu tenho feito desde então... Quando eu quero rir eu rio, quando quero chorar, eu choro, quando vejo uma garota bonita no metrô, eu banco o perseguidor maluco até conseguir ficar amigo dela...
— Espero que a moral da história não seja que você realmente é um serial killer – ele ri.
— Não, não é... A moral da história é... Eu entendo você – ele confessa e me olha com um sorriso compreensivo – Eu sei exatamente o que é perder alguém que você nunca imaginou viver sem, eu sei o quanto é sufocante ter que convencer a todo mundo que você está bem e é ainda pior convencer a você mesmo que tudo ficará bem... Então, eu só quero dizer que você não precisa fingir comigo, se quiser gritar... – ele dá de ombros – É só gritar!
— E o que você diria se eu disser que não sei o que quero fazer ou o que estou sentindo?
— Eu diria que é perfeitamente normal – ele me força um sorriso – E talvez te daria um conselho, se você aceitasse...
— Conselho aceito!
— Eu perdi meus pais e embora seja um clichê clássico, só depois disso que eu comecei a entender tudo que eles realmente significam e percebi que todas as nossas brigas e puxões de orelha que eu recebi não eram nem de longe tão ruins quanto ficar sem eles... Eu daria tudo, qualquer coisa, só pra ter a chance de ter mais uma discussão com eles, por que agora eu enxergo que cada vez que eles faziam isso era o modo deles dizerem que me amavam e que por mais que eu não visse eles viam o perigo e se fosse preciso serem os chatos e irritantes, eles seriam, mas eles tentariam me alertar... Então aproveita isso, por mais que pareça horrível...
— Eu... Eu sinto muito mesmo, mas é só que... É diferente!
— Eu sei que é diferente, mas a base é a mesma...
— Eu e minha mãe, nós... Simplesmente não conseguimos nos entender, quer dizer, nem sempre foi assim, mas depois de tudo, depois que eu saí de casa, ela simplesmente entrou nessa obsessão de querer me ver com alguém, como se isso fosse resolver tudo, mas não vai e ela não enxerga isso. Ela não enxerga o quanto eu odeio ela me pressionando o tempo todo ou como ela sempre me joga pra cima de todos os caras solteiros que se aproxima de mim... Foi assim com Rafael e foi assim com você hoje, ela simplesmente não entende que eu não preciso disso, eu não preciso dela me pressionando... Eu cansei dela. Eu... Realmente tô cansada...
— Você já parou pra pensar em como ela vê as coisas? – ele pergunta e eu olho confusa – Escuta, você passou por algo horrível, perdeu seu namorado, o amor da sua vida, todos seus planos, sonhos, tudo... Só que você não perdeu sozinha... Ela é sua mãe, você é a única filha dela, quando você perdeu o seu namorado, ela perdeu o genro dela, o cara que a filha dela mais amava, quando seus sonhos e planos foram interrompidos, os planos dela de ver você feliz com ele também, quando você passou cada dia se perguntando como voltar a vida, ela passava se perguntando como fazer você querer voltar a vida. Então eu não estou dizendo que ela está certa, que você deve aceitar todos os palpites dela e que ela deve te empurrar pra qualquer cara, não é isso, eu só estou dizendo que por maior que seja a sua dor, ela não é exclusiva sua... – eu olho pra ele ainda sem saber o que dizer, eu já reclamei da minha mãe um milhão de vezes antes, com Vinny, com Lia, Bruno, mas nenhum deles nunca me deu esse ponto de vista e por mais que eu queira negar e continuar apenas me sentindo vitima, eu não posso ignorar isso, por que é verdade, eu nunca pensei desse jeito, mas é verdade – Posso fazer uma pergunta? – eu apenas aceno sem conseguir dizer nada – Você já foi clara com ela? Já disse o que você sente?
— Um milhão de vezes ou mais...
— Então você se sentou com ela e disse o quanto te magoava e te machucava cada vez que ela age desse jeito... E que tudo que você precisa é apenas do apoio dela e não que ela tente controlar e ajeitar sua vida amorosa? – eu não respondo e ele balança a cabeça algumas vezes como se estivesse avaliando algo – Posso te dar outro conselho? – eu aceno que sim – Acho que essa conversa já passou do tempo de ser feita e minha intuição diz que sua mãe deve estar no mesmo lugar em que você a deixou, então... – ele se levanta e me oferece a mão dele, eu olho pra ele e depois pra sua mão, respiro fundo fechando os olhos por alguns segundos, então coloco minha mão em cima da sua e me levanto, ele me dá um sorriso confiante e nós saímos.