SuperHero
3 Capítulo 2 - O Menino Pálido
Notas iniciais
—você tá bem? Nada quebrado?
—já é a terceira vez que você me pergunta, Anna, e já é a terceira vez que eu te digo que não, não quebrei nada e que eu estou bem!
—mas isso foi sério!
Elsa e Anna tomavam café na varanda do apartamento de Anna. Elsa tinha um jornal na frente de seu narizinho perfeito e empinado (tanto no formato quanto na atitude) que tinha a matéria GUARDIÕES SALVAM CIVIL DE MAIS UM MEMBRO DA GANGUE DO PESADELO estampado na primeira página, em itálico, negrito e em letras maiúsculas.
—sete da manhã e eles vêm aqui te entrevistar, esses malditos abutres... – Anna diz, em tom de reprovação. – sinceramente, você já não passou por coisa o bastante?
—é só o trabalho deles Anna. E, por acaso, o meu também. – Elsa diz, bebericado de sua caneca.
—uia, é verdade, né? Foi mal, mana! Força do hábito!
Elsa solta uma risadinha discreta. A manhã está nublada e fria, do jeitinho que Elsa gostava. Ela estava relativamente tranquila depois de sua experiência de quase morte, mas ela sempre fora assim. Sempre soube como manter seus sentimentos sob controle.
—falando em emprego, eu sei que nossos pais deixaram pra gente fortuna o bastante pra nos sustentar como princesas por umas cinco vidas, mas eu sei também que você é uma workaholic compulsiva, então onde você pretende procurar emprego?
—hmmm... – Elsa murmura. – talvez em um dos pequenos jornais desta cidade. Não gosto de viajar muito, sou caseira, e jornais grandes me mandariam para grandes matérias...
—ah, mas as grandes matérias estão por aqui mesmo! – Anna diz, afanando o jornal da irmã. – não dá pra ver? O país inteiro está de olho nos misteriosos “Guardiões”!
—sim, deu pra notar. – Elsa diz, retomando o jornal e passando pelas páginas da matéria sobre seus salvadores. – estranho. Aqui não fala nada sobre o garoto que me salvou...
—hm? Garoto? – Anna pergunta. – nananinanão, mana. Não tem garotos entre eles, de acordo com os reportes só há homens adultos e uma mulher, também já adulta!
—Anna, eu estava lá. – Elsa diz, arqueando uma sobrancelha para a ruiva. – eu fui levada para longe da batalha por um rapaz de mais ou menos dezoito anos. Ele usava roupas azuis e marrons, além de uma máscara no rosto!
—máscara? – Anna se vira subitamente. – era uma máscara de mergulhador?
—sim, e um lenço cobrindo sua boca. – Elsa confirma.
Os olhos de Anna se esbugalham.
—Elsa, deixa isso pra lá, tá me escutando? – Anna subitamente fica séria. – isso é assunto perigoso, perigoso demais pra nós duas.
O relógio cuco na parede toca, e Anna retoma seu ar brincalhão.
—bem, hora de ir pra o trabalho! – ela diz, pegando sua bolsa em cima da bancada da cozinha. – tchau mana! Boa sorte na procura de emprego!
Elsa nem responde, ainda confusa com a seriedade súbita de sua irmã. Ela se pergunta o que estaria acontecendo de tão sério para assustar até mesmo Anna, que fazia piada de qualquer coisa que não se parecesse com uma barata gigante.
Elsa decide dar uma passeada pela cidade, agora já ativa, e tentar dar um jeito de encontrar uma boa cafeteria que não incluísse Starbucks, cujo café a traumatizara de tão mal feito (café de rede nunca é bom). Ela põe sapatos de caminhada, uma saia confortável e sai de asa com nada além de um guarda-chuva e sua bolsa, muito bem segura por suas mãos firmes.
Sai do apartamento às oito e meia, trancando apenas a porta da frente, esquecendo-se das janelas.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~///~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Eram nove e vinte da manhã. Elsa andara por um bom tempo antes de finalmente encontrar uma boa cafeteria. Mas no final seu esforço valeu a pena, ela encontrou literalmente o lugar perfeito.
Uma pequena cafeteria que ficava de frente para uma enorme praça, cheia de árvores e barracas, com vendinhas e pistas de skate, além de ciclovias, mimetizando o Central Park de NY. Perto da cafeteria havia também uma loja de informática que vendia câmeras profissionais por um ótimo preço, e Elsa já havia colocado em sua agenda uma visita à loja. Além disso, a cafeteria ficava muito perto de um dos maiores e mais importantes jornais da cidade, o Linha Reta, com seu enorme e imponente prédio de muitos andares, e seu letreiro pra lá de chamativo. Elsa estava em uma das mesinhas do lado de dentro da cafeteria, em um cantinho vazio e meio abandonado dali, perto da janela enorme de estilo antiquado, mas ainda bonita. A mesinha era de aço enegrecido com o tampo de madeira, assim como as cadeiras, que apesar disso ainda eram confortáveis. Elsa estava apreciando o rock leve dos anos 80 que tocava baixinho, como um som ambiente, e o leve aquecimento do local, que não deixava o lugar ficar muito frio nem muito quente. Elsa estava bebendo um chá gelado que finalmente agradara seu gosto, olhando para o lado de fora com um ar tranquilo. Havia uma escola ali perto também, então Elsa podia ouvir do lado de fora o leve barulho de risadas de crianças, fazendo-a sorrir.
De repente, algo chama sua atenção: um rapaz de azul passou praticamente voando pela janela. Ele fez uma curva brusca, e passou pela janela de novo, desta vez um pouco mais longe. Ele parecia estar com problemas para se equilibrar. Foi só aí que Elsa notou que ele estava de patins, escorregando com a água da chuva. E que estava gritando mais fino do que Anna quando se assustava.
—sai da frenteeeeeeeeeee!— ele virou novamente, desta vez uma curva de 180°, indo na direção da janela.
E bateu com o nariz no vidro, fazendo a mesinha de Elsa tremer e os olhos dela se esbugalharem de surpresa.
—céus! – Elsa exclama, correndo para o lado de fora.
Ele ainda estava ali caído, a cara enfiada no chão, murmurando:
—não foi um bom começo pro meu dia...
—você está bem? – Elsa pergunta, ajudando o rapaz a se levantar.
O rapaz aceitou a ajuda de bom grado, lutando para se equilibrar em cima das rodas dos patins.
—mais ou menos... Acho que tanto meu nariz quanto meu orgulho estão quebrados...
Elsa solta uma risadinha.
—bem, ao menos você não se machucou muito. – ela diz.
Foi só aí que ele olhou para Elsa.
—ah! – ele exclama, soltando-se da mão de Elsa. – o-oi! Obrigado por, ahn... Me ajudar a levantar!
Elsa diria que ele estava admirado por sua beleza (como já era normal para ela), mas não havia rubor no rosto do rapaz. Na verdade, não havia cor nenhuma no rosto dele. Elsa nunca vira ninguém tão pálido, nem mesmo na Noruega. O único tom natural de cor nele eram os círculos roxos embaixo de seus olhos (olhos de um azul tão profundo quanto safiras), olheiras enormes, como se ele estivesse se recuperando de um nariz quebrado ou se tivesse passado muitas noites em claro. Ele usava um moletom azul-marinho, e calças cáqui rentes às pernas, além de botas de cano longo da all-star que podiam ter rodinhas de patins acopladas à sola e ter uma mochila estufada de coisas nas costas, que parecia estar muito pesada.
—não há de quê, senhor...
—Jack! Jackson Overland!
—Jack. – ela diz, assentindo. – tem certeza de que não quebrou nada?
—absoluta! Obrigado por, ahn, me ajudar (de novo). Até mais! – ele diz, se afastando com pressa.
Elsa não espera muito para vê-lo se afastar, voltando à cafeteria para pegar seu chá gelado (já pago) e voltar para casa, depois passar o dia inteiro procrastinando na internet.
Mas é claro que ela não é tão sortuda.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~///~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
—opa! Me desculpa, foi sem querer!
—vê se presta mais atenção, garota!
Anna anda de cabeça baixa de volta para a cozinha da lanchonete onde ela trabalha.
—cabeça cheia, Anna? – seu amigo, Kristoff, pergunta.
—ai, kris... – Anna diz, se encostando à parede. –tô tão preocupada com a minha irmã.
—Elsa? Por quê? – Kristoff pergunta, terminando de descascar as frutas para fazer o suco.
—ela foi atacada por um dos membros da Gangue do Pesadelo ontem. – Anna diz, sua testinha enrugada.
—ah, eu vi no jornal. Então foi ela?
—foi sim. Ela pediu sigilo, é óbvio.
—ela foi um alvo deliberado? – Kristoff pergunta.
—duvido muito. Ela acabou de chegar no país!
—então oque há de errado? Ela não foi marcada, foi?
—não, Deus me livre! – Anna diz, fazendo o sinal da cruz com a mão. – mas algo de ruim aconteceu.
—o que houve?
—ela foi salva pelo Frostbite.
Kristoff quase derruba a jarra inteira de suco no chão.
—não!
—sim! Ela nem sabia com quem estava lidando, achou que ele era membro dos Guardiões!
—santo pai...
—sim, e o pior é que, bem, você sabe. Frostbite não salva ninguém sem motivo. Eu imagino o que ele poderia querer com a Elsa...
—talvez dinheiro? Eu sei que vocês são muito ricas.
—duvido muito, e é essa dúvida que está me matando!
—ei, garotos! – o chefe aparece. – eu não pago vocês pra namorar!
O rosto de Kristoff fica muito vermelho e Anna só se assusta, surpresa.
—desculpe senhor! Vamos Kristoff, temos trabalho a fazer!
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~///~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Fale com o autor