Sunset.
2 Capítulo 2 - Madness
Notas iniciais
Clara ficou ali parada sem saber quanto tempo fazia que Marina havia saído por aquela porta. Completamente desorientada e sem chão tentando absorver tudo aquilo que tinha saído da boca da única pessoa que conseguiu resgatar a vida e a leveza que o tempo tinha lhe tirado. Clara amaldiçoou a realidade que vivia, queria que as coisas fossem mais simples. Havia machucado Marina de uma maneira que jamais se perdoaria e pior, a decepção por não ter conseguido dizer o que ela precisava ouvir iria assombra-la por toda a vida. E mesmo assim, mesmo sabendo da quantidade de sofrimento que viu nos olhos de Marida, Clara ainda sentiu uma pontada de raiva pela fotógrafa ter tomado essa atitude.
No momento mais egoísta da sua vida, Clara pensou “Porque as coisas não poderiam continuar como estavam?”. Por que Marina teve que pedir por respostas, mesmo tão pequenas, que desencadearam tudo aquilo que acontecera naquela sala?. De repente todas as coisas que sempre tivera vergonha de assumir, como por exemplo, sua vaidade sendo alimentada por todos os olhares e carinhos de Marina que sempre massagearam seu ego tão bem, das vezes que não atendeu o celular por saber que ela ligaria de novo e de novo, até que fosse atendida, Clara se perguntou se era de fato, uma pessoa boa. Respirou profundamente e em um momento de lucidez percebeu como aqueles pensamentos a tornavam uma pessoa que merecia sim, ter sido deixada para trás. Uma pessoa que não era digna do amor que lhe fora oferecido.
– Marina... – Clara dizia em um gemido inaudível. – Desculpa. – Encostou a testa na mesma porta pela qual a viu sair e passou as mãos na madeira como quem acaricia um rosto. – Droga! – Ela gritou quando de punhos cerrados bateu os nós das mãos contra o batente – Sua idiota! – Sentiu outra dor além daquela que sentia dentro de si e isso a ajudou a voltar pra realidade. Há quanto tempo estava ali? E o Cadu? A inauguração? Sacodiu a cabeça para os lados e rodou a maçaneta saindo para o corredor. Como Marina havia previsto: de cabeça baixa.
Desceu as escadas meio cambaleando e tonta, segurando no corrimão para que suas pernas sentissem o suporte na descida. Começou a procurar algum rosto familiar e teve medo de achar os olhos de Marina no caminho. Não se passara dez minutos e só de pensar no nome “Marina” Clara já conseguia ouvir as palavras “Eu não vou voltar”. Clara parecia desorientada, perdida dentro da própria cozinha, não havia achado ninguém. Silvia olhava de longe a mulher de Cadu e quase não a reconheceu, parecia uma pessoa completamente diferente, ela estava assustadoramente triste. Então caminhou até ela com um olhar de quem queria ajudar e se aproximou.
– Clara, tudo bem?
– Oi Silvia. Tudo bem, claro. – Olhava para os lados sem saber quem realmente procurava – Cadê o Cadu? O Ivan?. Cadê todo mundo? – Pensou em Marina de novo e involuntariamente colocou a mão na boca do estomago.
– Cadu já foi embora, Clara. Ele já estava tão cansado, mas pediu pra te pedir desculpas pelo o que disse. – Silvia se inclinou para frente e baixou a voz colocando uma mão perto da boca – E, cá entre nós, eu particularmente prefiro a sua torta – Sorrio e passou as mãos nos ombros de Clara – Mas não conta pra ele, por favor.
– Ele quem, Silvia? – Clara estava pálida.
– O Cadu... Clara, tem certeza que está tudo bem?
Clara não respondeu. Saiu andando e deixou Silvia pra trás sem se despedir. Passou pela funcionária mais responsável do Bistrô e disse algumas frases monótonas pra ela, sobre limpar o lugar antes de sair, trancar a porta dos fundos e levar a chave embora. Então saiu pela entrada principal.
~
O sol entrava pela janela do quarto e fez com que Clara acordasse devagar. Estava quente e seco, abriu os olhos lentamente querendo acreditar que noite passada fora apenas um sonho. Observou Cadu dormindo e respirando pesadamente. Passou a mão na testa do marido, soltou o ar aliviada, estava tudo bem. Esse medo constante de que Cadu fosse piorar rondava aquela cama toda manhã, quando Clara checava sua respiração e temperatura.
Tateou a cama em busca do seu celular com certo desespero, sabia que Marina podia ter retornado as dezenas de chamadas perdidas que havia deixado em seu celular, ou até mesmo mandado uma mensagem tentando entrar em contato. Achou aquela capinha vermelha gigante em baixo dos travesseiros e desbloqueou o celular. Nada. Checou sua conexão com a internet, seu sinal de rede e ligou em sua caixa postal; mas tudo funcionava perfeitamente. Marina não respondeu nada, não retornou, não mandou mensagens, ela estava mantendo com sua palavra.
Clara jogou a cabeça para trás e preencheu com ar os pulmões. Queria acreditar que talvez Marina estivesse brava demais por não ter ouvido o que queria e só disse aquelas coisas para canalizar a frustração que vinha sendo a vida dela. Clara quis acreditar que quando acordasse naquele dia haveria alguma notificação pedindo pra que ela fosse até o estúdio conversar melhor, mas não havia absolutamente nada. Deixou cair o celular no macio do colchão e se arrastou para um banho. “Ela vai voltar” Ficou repetindo para si mesma querendo acreditar que se dissesse vezes o suficiente, se tornaria verdade.
~
Marina ainda estava acordada, não conseguia dormir e nem sequer tirar as roupas que vestia naquela noite. Sua blusa ainda tinha o cheiro de Clara, quando fechava os olhos ainda conseguia sentir as mãos da Clara nas suas costas, quando respirava fundo o suficiente podia sentir seu corpo sendo abraçado por Clara. Clara. Clara. “Por que, Clara?” Quando não pensava em Clara só conseguia pensar no por que. Por que ela não conseguia dizer? Por que doía tanto? Por que não disse que havia uma chance, uma misera chance de que um dia, mesmo que muito distante, ela iria conseguir. “Droga, Clara”. Marina havia se apaixonado pelo jeito simples daquela mulher, como a vida era simples e pura aos olhos dela. Era como se tudo o que Marina havia vivido até aquela exposição tivesse sido apenas um ensaio, um preparo para aquela vida que ela sonhou ao lado de Clara. Todas as futilidades da vida foram desaparecendo quando descobriu que não precisava de muito pra ser feliz. “Alegria feliz”. Tudo ao lado de Clara parecia sinceramente perder a importância. A vida havia mudado de uma maneira que Marina desconfiou nunca mais poder voltar a um mundo sem Clara. Mas ela tentaria. Já dissera que não tinha talento para sofrer, mas nesse momento não era mais questão de talento e sim necessidade. “Sobrevivência”. Seria engraçado de não fosse trágico como já havia usado essa palavra antes, quando achou que não sobreviveria com a ausência da presença de Clara. Mal sabia que agora não seria mais uma questão de escolha.
Marina parou pra pensar em como realmente havia deixado sua vida no aguardo. O estúdio, suas fotos, suas responsabilidades, quantas vezes isso tudo foi substituído nas suas prioridades, por Clara. Lembrou-se de todas as discussões que tivera com Vanessa, e mesmo sabendo que tinham sim um fundinho de ciúmes ali, ela não deixava de estar certa. “E o que que eu faço com esse amor?” Onde Marina iria colocar todo o amor, todo o carinho, as lembranças dos quase-beijos e as flores roubadas por Clara?. “Vai passar.”
Era obvio que tudo doía, obvio que não seria fácil, mas não existia motivo lutar por uma guerra perdida. Marina se afastou da janela e entrou no banheiro, se despiu e deixou a agua cair sobre o corpo. O dia seria longo.
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Clara estava pegando a bolsa para sair de casa quando ouviu Cadu entrando na cozinha. Ele ainda estava de pijama e andava com dificuldade. Claro tentou ir em sua direção para ajuda-lo a caminhar mas ele logo fez um sinal com a mão para que parasse, e se sentou na ponta da mesa.
– Onde você tava quando eu fui embora? Não te vi mais.
– Tava lá no Galpão ué. Resolvendo umas coisas – Colocou a bolsa a bolça em cima do sofá e foi se sentar a mesa – Como você tá, Cadu?
– Cansado né, Clara. Parece que os remédios não estão ajudando em nada.
– Cadu! Para. Silvia disse que ia ser assim mesmo, pô, tem que ter paciência.
– Ei! Calma, Clara. Quem ta precisando de paciência aqui é você. – Disse tentando se defender. – Eu sei que ficou chateada pelo o que eu disse. Me desculpa, eu sei o quanto você tá se esforçando.
– Sabe mesmo? Tem certeza? – Falou com mais magoa na voz do que gostaria – Ah, deixa isso pra lá, cara. Eu já tava de saída. – Se levantou da mesa e foi em direção à porta.
– Onde você vai assim tão cedo? Galpão não abre hoje, Clara.
– Eu sei, Cadu. Mas eu tenho uma vida fora daquele Bistrô, sabia?
Cadu disse alguma outra coisa, mas Clara já estava batendo a porta.
~
Clara estava no meio do caminho para Santa Tereza quando percebeu que não fazia muita ideia do que falarei pra Marina. Sabia que precisava vê-la, que precisava ouvir sua voz, mas o que exatamente iria dizer, não tinha noção alguma. Quando entrou pelos portões da casa e estacionou o carro e viu o carro de Marina com o porta malas aberto e algumas malas pequenas dentro dele. Não entendeu o que estava acontecendo quando viu o motorista chegando com um frasqueira e uma mala um pouco maior.
– Oi Roberto, quem que ta indo viajar?
– Bom dia, dona Clara. Ah, dona Vanessa pediu pra eu carregar essas malas no carro, ninguém me disse pra onde vamos ainda.
– Ah sim, obrigado. – Sorriu e pediu licença pro motorista. Como assim viajar? Vanessa ia viajar? Marina estava saindo da cidade?
Antes de entrar empurrar a porta da entrada, Clara olhou para a sua esquerda e viu aquele jardim, onde já roubou tantas flores, então decidiu pegar um punhado de florzinhas roxas que estavam perto da pilastra. Sorriu sozinha quando se lembrou das vezes que apareceu daquele jeito na mansão de Marina. “Vai dar tudo certo”. Clara abriu a porta da entrada da casa e passou pela sala de TV vazia. Colocou a mão no corrimão da escada quando ouviu alguém falar.
– Ela não quer te ver, Clara. – Vanessa disse cruzando os braços e parando a alguns metros da escada.
– Vanessa... – Clara disse sem se virar.
– Eu nunca gostei muito de você, Clara. Mas eu to falando isso para o seu bem... não sobe.
– Quem é você pra me falar o que fazer, Vanessa? – Clara se virou e olhou nos olhos de Vanessa. Desceu o pé do primeiro degrau e encarou a ruiva.
– Eu, pra você? Ninguém. Mas eu sou alguém que ama a Marina. E sinceramente eu não sei como você teve a cara de aparecer aqui. – Olhou para as mãos de Clara, viu as flores todas seguradas em um pequeno buque e fez uma cara indignada – Ainda mais assim...
– Vane... – Clara tentou dizer, mas foi interrompida.
– Não! Eu não to aqui pra ouvir suas desculpas, mesmo porque eu nunca acreditei nelas. Eu to aqui pra dizer que você está machucando ela! Você vem, deliberadamente, machucando ela a MESES, Clara! – Vanessa andava na direção de Clara – Você ta brincando com ela. Eu sei disso, você sabe disso e graças a Deus agora Marina também sabe! Eu não sei o que aconteceu naquele Galpão, mas o que quer que seja, fez ela abrir os olhos... finalmente.
– Você não sabe do que esta falando! – Clara deu alguns passos pra trás, como se não suportasse lembrar-se do que realmente havia acontecido.
– Posso não saber de nada, Clarinha – Disse com certo desprezo – Mas eu sei que se realmente a amasse como ela ACREDITAVA... – Deu ênfase na conjugação do verbo no passado – iria ter a decência de dar meia volta e deixar que ela tenha uma chance REAL de ser amada.
– Você não sabe nada do meu amor! – Clara apontou o dedo na cara de Vanessa – Você não vai mais abrir a boca pra falar do MEU AMOR! – Gritava.
Vanessa não se moveu um centímetro sequer. Olhou pra cara de Clara com uma indiferença mortal e lentamente abaixou o dedo dela. Deu alguns passos pra frente com o peito erguido mostrando que naquela conversa Clara não tinha o mínimo direito de falar alto.
– Amor? Que amor? – Vanessa tentava ao máximo não levantar a voz – Do amor que você sente pelo seu maridinho? Porque desse amor a gente já tá cansada de saber, você não deixa a gente esquecer, não é?! – Andou mais alguns passos – Mas do seu amor pela Marina? Para. O que você chama de amor, eu chamo de vaidade! – Vanessa ia avançando conforte Clara ia dando pequenos passos pra trás – Mas eu não te culpo. Ela é linda, carinhosa e quando ela te olha você acha que é a única pessoa que importa no mundo, né? Mas escuta o que eu to dizendo. – Baixou o tom de voz – Você nunca vai poder oferecer o que ela precisa, muito menos o que ela quer... E você sabe por quê? Porque você não tem coragem! – Vanessa se inclinou pra frente e falou categoricamente no ouvido de Clara – Por que o seu amor, de tão covarde que é, nunca será suficiente. – Vanessa pegou as flores da mão da Clara – Nunca!
Clara estava sem reação. Era como se tivesse num sonho, num transe em que a voz de Vanessa a colocou. Não conseguiu debater nenhum daqueles argumentos, Vanessa estava assustadoramente certa em tudo.
– Eu vou levar isso de volta pro jardim, Clarinha. – Vanessa cheirou as flores – Não é dessa vez que isso vai funcionar.
Vanessa sem avisar deu as costas e foi embora, deixando Clara com os olhos cheios d’agua. Ainda com a mão que segurava as flores levantada, Clara se imaginou indo atrás de Vanessa e lhe dizendo tudo sobre o seu amor. Gritar com ela sobre todos seus sentimentos, mas percebeu que talvez não houvesse nada o que se falar, o que de fato ela tinha pra falar? “Eu amo a Marina” Mas o que isso significava? “Eu quero a Marina” Mas ela faria alguma coisa a respeito? “Eu to com saudades da Marina” Mas isso não lhe dava o direito de estar ali.
Clara colocou as mãos na cabeça e fechou os olhos sentindo que estava perdida no mundo. Olhou pra porta atrás de si, olhou para a escada, pensou nas coisas que Vanessa havia dito... Olhou pra escada de novo. “Chance real de ser amada”. Soltou um gemido por sentir que já havia tomado sua decisão e lentamente rumou a porta, arrastando seu corpo. Quando Clara girou a maçaneta da porta, ouviu Vanessa chegando por trás dela.
– Vanessa, chega. Eu não quero mais ouvir, você já disse tudo o que queria dizer. E além do mais, eu já tô de saída. – Clara disse sem fazer questão de se virar.
– Disse o que, Clara? – Marina disse com uma frieza surpreendente.
– Marina! – Clara se virou e viu a fotografa parada no pé da escada, segurando sua bolsa em uma mão e seus óculos na outra.
– O que a Vanessa te disse?
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