Summer Love
4 Piper, a filha de Afrodite

Jason as vezes conseguia ser muito tagarela. Sabe aquela expressão “fala até pelos cotovelos”? Sorte que o loiro não tinha bocas lá, ou se tornaria algo realmente insuportável. Naquela tarde, uma chuva de verão das fortes impediu que eles saíssem de casa, então passaram o dia vendo filmes aleatórios na televisão. Um deles, o qual Percy e Nico acharam o mais chato, se chamava Um Amor Para Recordar. Os adultos realmente gostam desse tipo de filme?
Primeiro: pra que ver se já sabem que a tal garota vai morrer? Para chorar? Lamentar pelo tal garoto que perdeu o amor de sua vida?
Segundo: por que mulheres gostam tanto de romances?
Bianca e Thalia tinham se apaixonado pelo filme. Estavam enchendo a paciência dos pais para comprarem todos os livros do tal Nicholas Sparks – o cara que escreve todas essas histórias de amor dramaticamente lindas. Um fato curioso é que o clímax desse gênero são todos iguais: uma doença, uma briga séria, um acidente. Tudo tão clichê e desinteressante aos olhos infantis dos garotos.
Mas não é nesse ponto que queremos chegar. A grande questão é que Jason cismou que queria uma namorada. Percy, que era o mais velho, ainda nem sonhava com isso. E o garoto de nove anos estava disposto a conseguir uma. Desde que os créditos subiram na tela, falava sobre como a garota seria perfeita e de todos os encontros românticos que teriam. Queria até construir um telescópio para que ela pudesse ver cometas. Pais, mantenham seus filhos longe de romances.
– Vocês vão ver, ela será a melhor! – dizia o loiro, sonhador.
– Ok, Jason. Já entendemos. – Thalia resmungou.
– Uma garota engraçada, simpática e bonita como Afrodite, a deusa do amor.
– As vezes acho que essa coisa de mitologia grega persegue nossa família por causa do vovô. – Nico comentou.
– Pelo menos seu nome não é Perseu.
– Perseu não é um nome ruim. – disse Bianca.
– Prefiro quando me chamam de Percy.
– Como vocês podem se importar com nomes quando estou falando do amor da minha vida?
– Jason, vou falar isso porque sou sua irmã e gosto de você, — Thalia começou, colocando as mãos nos ombros do menor – ninguém liga. Agora fica quietinho.
– Não seja assim só porque não encontrou alguém até hoje, Thalia.
– Uma garota de quinze anos não tem a obrigação de arranjar namorado.
– Não mesmo! – Zeus, que até agora se manteve alheio a conversa, mais interessado ao jogo de poker, se intrometeu – Não invente de aparecer com um namorado antes dos trinta, Thalia Grace.
– Pai!
– Isso não vale pra mim também, não é, pai?
– Você espere pelo menos até os quatorze, Jason. Mas tenho certeza de que será um conquistador. O que posso dizer? Está em seu sangue. – sorriu de forma orgulhosa.
– É sua vez, Sr. Conquistador. – Grace disse e Zeus deu as cartas.
– Jason é irritante, uma garota não o aguentaria.
– O amor é cego, mudo e surdo. – Bianca brincou.
– E você, dona Bianca, também não se atreva a aparecer com um namorado antes dos trinta. – Hades disse.
– Isso é constrangedor, pai...
– Além dos da família, homens não prestam. Então fiquem longe. – Poseidon acrescentou.
– Imagino como seria se você tivesse uma filha. – Hades passou a mão pelo queixo, pensativo.
– Ela viveria em um convento.
– Como se eu fosse deixar você mandá-la para um. – Sally desafiou.
– Eu gostaria de ter uma irmã. – Percy murmurou.
– Acredite, não gostaria.- Jason mal terminou de falar e levou um soco da irmã.
– Não sei do que você tanto reclama.
– Sério mesmo que não sabe? – questionou enquanto massageava o local atingido.
– Retiro o que disse. – o dono dos olhos verdes riu.
– Crianças, esta tarde, hora de ir para a cama.
No meio de resmungos e protestos, os quatro subiram, indo para seus quartos. Thalia foi a única que ficou na sala, vendo algum seriado. Jason, mesmo sendo o que mais relutou para não subir, foi o primeiro a dormir. Nico estava sem sono, e queria conversar.
– Percy?
– Que foi, Nico? – o maior resmungou, sonolento.
– Ta acordado?
– Não. – Nico fez uma careta e olhou pro primo, que mantinha os olhos fechados.
– Você tem namorada?
Percy riu e se virou na cama para conseguir olhar pro primo.
– Não, não tenho.
– E você gosta de alguém? – perguntou, mordendo o lábio inferior, nervoso.
– Não, acho que não. – respondeu – E você? – Nico não respondeu – Sabe, quando eu tinha sua idade, tive uma paixonite pela minha professora de artes. Mas ali ela saiu da escola e uma velha chata entrou no seu lugar. Lembrando agora, até que foi engraçado.
– Se você começar a namorar, vai parar de falar comigo?
– Por que eu faria isso?
– Você ficaria muito ocupado. Talvez não tivesse tempo...
– Para, Nico. Sempre vou ter tempo pra você. Não te trocaria por nada nesse mundo, ok? Agora dorme.
Nico sorriu e fechou os olhos, se entregando ao sono.
~*~
Percy queria dormir. Realmente queria dormir.Tentava ignorar tanto a claridade do quarto branco quanto a discussão dos primos. Pegou o celular que estava ao lado do travesseiro e checou o horário, 7:46 da manhã. Ah, qual é. Isso são horas de discutir?
– Onde você colocou? – Nico perguntou pela milésima vez.
– Não sei do que você esta falando. – Jason continuava indiferente ao assunto.
– Quando eu encontrar o maldito carregador, vou te enfocar com ele.
– Então vamos torcer para que você não encontre-o. – riu – Relaxa um pouco, Nico. Esquece esse vídeo game.
– Não é como se eu ficasse o dia inteiro com ele.
– Qual o problema?
Os dois se viraram para o mais velho que coçava os olhos e tinha uma expressão totalmente frustrada. Percy olhou para Nico, e se sentiu muito constrangido quando se lembrou da noite anterior. Queria que aquilo tivesse sido algum tipo de sonho –quem sabe pesadelo- ou surto de sua mente. Nunca, nunca mesmo, imaginou que um dia o menor teria algo além de amizade com Luke. Se sentia incomodado com isso. Muito incomodado. A vontade que teve na hora foi de ir até lá, socar Luke e puxar Nico para dentro.
– Nico acha que eu escondi o carregador do jogo dele.
– Eu não acho, eu sei.
– Então prove.
– Eu vou. – o mais novo bufou e saiu do quarto pisando duro.
– Que ótima maneira de começar o dia. – Percy ironizou.
– Eu que o diga. Ah, sei que você não vai fazer isso, mas não levante seu colchão ou tire ele daí, ok?
Curioso, Percy deu uma espiada e encontrou o cabo negro enrolado. Ok, demoraria um pouco para Nico pensar em olhar debaixo de seu colchão. Jason jogou-se sobre sua própria cama, digitando algo no celular. O mais velho tinha certeza que ele sabia algo sobre o segredo debrokeback mountain. Não custava nada perguntar.
– Ei, Jason.
– Fala.
– Ontem você meio que disse para não me importar com o fato do Nico ficar lá fora sozinho, mas... Por que ele faz isso?
– Sei lá.
– Não sabe mesmo?
– O que você viu? – o loiro deixou o celular de lado e encarou o primo de forma avaliativa.
– Você sabe... Luke e tal...
– Oh, eu falo pro Nico tomar mais cuidado com isso. – resmungou.
– Então eles realmente estão juntos? E isso é meio que um segredo?
– Eu e Bianca sabemos. Thalia desconfia e nossos pais nem imaginam. E eu não diria juntos. Eles tem todo esse lance no verão a uns dois anos.
– Dois anos?! – questionou, exaltado.
– Algum problema?
– Não, claro que não. – respondeu, recompondo-se.
Era obvio que havia um problema. Dois anos atrás Nico tinha treze anos. Tre-ze! Como Luke, um cara já adulto, que viu o menor crescer, se atreveu a fazer algo assim? Sabem aquela vontade de socar a cara do outro? Pois é, aumentou. Seu maior incomodo não era descobrir que o primo era gay, até porque ele podia muito bem ser bissexual. Quem come de tudo não passa fome, se é que me entendem. Mas vê-lo com o loiro era totalmente inadmissível.
– Meio que temos que “agradecer” Piper por isso. – Jason fez uma careta – Não gosto muito de ver os dois juntos, mas não há nada que possa fazer.
– Quem é Piper?
– Ok, podemos não ter nos falados nos últimos anos, mas somos amigos no Facebook. – Percy continuava sem entender – Piper McLean, minha namorada. E, de quebra, melhor amiga de Luke. Ela cresceu aqui então se conhecem desde sempre.
– Sua namorada mora na Califórnia? Você a vê uma vez por ano?
– Pais divorciados. Ano letivo em Nevada, férias na Califórnia.
– Ah sim... E ela juntou os dois?
– Meio que sim. Luke, aparentemente, tinha certo interesse. Mas não iria tentar nada até mesmo por questão de princípios. Isso não queria dizer que Piper não podia se intrometer.
– Então ela convenceu Luke a...
– Na verdade, foi o contrario. Ela não convenceu Luke a tentar, convenceu Nico a querer algo com ele.
– Ela deve ser uma pessoa bem convencedora.
– Piper adora dar uma de cupido. Mas foi no meio dessas situações que a conheci. – sorriu.
– Ultima pergunta: os dois já fizeram... ah, você sabe.
– Já fizeram o que?
– Aquilo.
Jason pareceu confuso, e quando a ficha caiu, olhou para o outro totalmente incrédulo.
– Como eu saberia algo assim, Perseu Jackson?
– Sei lá, vocês dois são tão amiguinhos agora, achei que ele te contaria. – deu ombros.
– Oh, isso é ciúmes?
– Vai se ferrar. – Jason riu.
– Se quer tanto saber, pergunte para ele.
– Ah, claro. To indo.- ironizou.
Percy realmente saiu do quarto, mas no intuito de ir tomar café. Nunca iria perguntar algo do tipo pro caçula. E apostava que se tocasse no assunto, Nico negaria com todas as forças. Sem contar que isso não é da sua conta. Desceu as escadas e olhou para mesa repleta de pães e frutas. Não estava com muita fome. Passou pela sala e atravessou a porta de vidro, chegando na varanda. Caminhou até o batente de madeira e se apoiou ali, sentindo a brisa matinal.
– Se eu realmente perguntasse seria engraçado. – disse para si mesmo – Hey Nico, eu vi você se pegando com o Luke ontem e gostaria de saber se, por acaso, você já foi enrabado por um cara quase dez anos mais velho que você. – riu – Nunca que perguntaria algo assim pro Nico.
– Me perguntar o que?
Percy deu um pulo de susto e olhou para trás. Nico saiu na varanda e se deitou em uma das redes, concentrado no jogo. Ainda tinha bateria suficiente para mais uns vinte minutos. Aparentemente, não ouviu o que Percy havia dito, e o mais velho estava agradecendo a todos os deuses por isso.
– Nada demais. – respondeu, um pouco nervoso. – Mas eai, tudo bem?
Até então, os dois não tinham conversado. Nem sequer ficado a sós por mais de dois minutos sem que Jason aparecesse.
– Tudo.
Nico não fez questão de perguntar se o outro também estava. Queria convencer a si mesmo de que não se importava. Sabia que estava sendo rude, mas lhe parecia a única alternativa.
– Não nos falamos a um bom tempo...Como vão as coisas? Escola, amigos? Sei lá...
Nico sorriu de forma irônica e fechou o aparelho, se virando para encarar Percym que sentiu um incomodo com seu olhar. Desde quando os olhos castanhos lhe causavam arrepios?
– Como vão seus amigos? – perguntou de forma sarcástica.
– Eu não falo mais com os que você conheceu. – murmurou.
– Então pelo menos uma coisa certa você fez nesse tempo.
– Eu...
Um grito agudo e alegre interrompeu a conversa. Os dois olharam pelo vidro e viram a garota agarrada no pescoço de Jason. Percy deduziu que era Piper. Ficou encantado com a beleza da garota. Cabelos castanho lisos batendo nas costas, um rosto fino e sorriso largo. Nico entrou para cumprimentar a morena e como o mais velho não sabia direito que fazer, o seguiu.
– Nico! – a garota o abraçou – Pelos céus, você está tão pálido! Ficou o ano todo trancado no quarto?
– É bom te ver também, Piper.
– E você deve ser o Percy! – se virou para o dono dos olhos verdes – Já ouvi falar de você.
– É um prazer te conhecer, Piper.
Jackson estendeu a mão para cumprimenta-la, mas isso foi ignorado, e a garota o abraçou, deixando-o surpreso. Não estava acostumado com pessoas tão receptivas.
– Piper, você vai ficar por aqui?
– Vou, mãe.
Só nesse momento Percy percebeu uma mulher de cabelos castanhos ondulados na sala. Estranhou o fato de Piper tê-la chamado de mãe, não daria mais de trinta anos pela aparência. E ela era familiar. Entendia de onde a adolescente tinha puxado sua beleza. A mulher era deslumbrante, seu rosto era um dos mais belos que já vira, com uma maquiagem perfeita, olhos brilhantes e sorriso encantador.
– Um rostinho novo! – disse, animada –E um belo rosto. Quem é esse, Jason?
– Meu primo, Perc...
– Me chamo Percy. É um prazer te conhecer, Sra. McLean.
– Meu jovem, eu por acaso tenho cara de velha?- questionou, com um olhar irritado – Pode me chamar de Serinda¹.
Oh, agora Percy a reconhecia. Serinda McLean, famosa atriz de Hollywood. Se lembrava dela como Afrodite em um filme sobe mitologia que viu na aula de história.
– Perdão, não quis ofendê-la.
– Que gracinha, é educado. – sorriu – Bom, foi um prazer. Piper, aproveite seu namorado mas não volte muito tarde.
A mulher foi embora e Piper puxou o loiro para a varanda, sentando em uma das redes. Nico continuava jogando e nem sinal de Thalia e Bianca, que ainda deviam estar dormindo. Percy não tinha o que fazer. Pensou em ir para a praia, apenas olhar o mar. Depois trocaria de roupa e surfaria um pouco.
– Ei, Percy. – Jason chamou, antes que o mais velho descesse as escadas que acabavam na areia – A bateria daquela coisinha dos infernos vai acabar daqui a pouco, por que não conversa com Nico?
– Eu tentei mais cedo. Não deu muito certo. – resmungou.
– Vai ver ele ainda esta com um pouco de raiva de você. Não é todo mundo que gosta de ser trocado, mas logo esquece.
– Já tentou pedir desculpas? – Piper perguntou.
Percy sorriu de forma sem graça. Não, não tentou. Observou o menor de longe, e quis voltar para falar com ele. Queria seu primo de volta. O garotinho que o olhava com admiração e lhe contava tudo. Talvez um pedido de desculpas concertasse as coisas. Quem sabe mais tarde.
Fale com o autor