Summer Love
16 Morrendo por amor
Notas iniciais
A decisão foi quase unânime, Thalia sendo a única que não votou a favor de assistirem Hércules naquela tarde. Sinceramente, ela nunca gostou muito de animações, e, aos 15 anos, esses filmes tinham ainda menos graça. Mas o que podia fazer se era obrigada a passar a tarde tomando conta de seus primos enquanto os adultos estavam fora e eles queriam ver o maldito filme? Teve que contar até dez, respirar fundo, fazer pipoca e passar uma hora e meia em frente a televisão ouvindo aquelas músicas irritantes. Sério. De quem foi a ideia de misturar música gospel com mitologia grega?
O filme não era particularmente ruim, só que, familiarizados com a mitologia grega como aquela família era, a distorção dos fatos incomodava a mais velha. Eram tantos absurdos que ela passou mais tempo corrigindo as coisas do que realmente prestando atenção.
— Cara, esse filme não teve nada a ver com o mito. — disse totalmente inconformada enquanto os créditos rolavam.
— Mas a maioria dos filmes da Disney não são parecidos com os contos originais. — Bianca argumentou — Esses dias minha professora de artes disse que na história original da Branca de Neve ela fez a madrasta dançar em sapatos de ferro em brasa até ela morrer.
Jason sentiu um arrepio com a ideia.
— Que coisa horrível.
— Que tipo de professora conta essas coisas pra uma turma de crianças de dez anos?
— Não sou uma criança! — a menina rebateu.
— Eu achei que o filme foi legal. — Jason comentou — Mas admito que não imaginava o Hércules daquele jeito.
— Acho que ninguém imaginava nenhum dos personagens daquele jeito. — Percy afirmou — Hades era meio que engraçado, de qualquer forma.
— Devíamos fazer nossos pais assistirem esse filme. — Nico sugeriu.
— Agora, isso seria divertido. — Thalia concordou — E eu achei o final meio idiota. Quem troca imortalidade por amor?
— Mégara trocou a vida dela por amor. — Bianca lembrou.
— Isso foi corajoso.
Thalia encarou o irmão.
— Você acha?
— Sim. — Jason respondeu — Você não?
— Sei lá. — deu de ombros — Eu não morreria por um cara.
— Acho que qualquer um morreria pra salvar alguém que ama. — Percy disse.
— "As pessoas sempre fazem loucuras quando estão apaixonadas." — Nico recitou, apesar de não estar mais muito atento na conversa, mexendo nas cartas de mitomagia que tirou do bolso.
Thalia encarou as crianças quase inconformada.
— Vocês são muito novos para terem esses pensamentos romantizados. — resmungou — Sinceramente. Esses filmes estão fazendo bem nenhum. Da próxima vez, vamos assistir Bob Esponja.
— Pensei que você odiasse Bob Esponja. — Bianca franziu as sobrancelhas.
— E odeio. Mas pelo menos com esse desenho eu não tenho que ouvir vocês falando sobre morrer por amor. — respondeu, já com o controle na mão para colocar em algum canal.
[...]
Bianca não devia ter deixado que Percy fosse sozinho. O rapaz não tinha saído há nem dez minutos e mesmo assim já estava preocupada. Ela tinha trazido o primo até aqui, e se algo de ruim acontecesse a culpa seria exclusivamente sua. Pensar no que podia estar acontecendo com Nico já lhe dava aquela sensação de vertigem, e o fato de que agora Percy também podia se meter em uma enrascada só piorava a situação.
A lanchonete da Sra. Collins tinha uma estranha decoração baseada em beisebol na parte de dentro. Posters de um time que Bianca nunca tinha ouvido falar na vida estavam espalhados pela parede, dois tacos e luvas pendurados de cada lado da entrada e cada uma das mesas tinha uma bola autografada como enfeite. A senhora explicou que tudo um dia pertenceu a seu sobrinho já falecido que jogou num time da segunda divisão, e logo em seguida desapareceu para a cozinha para fazer um cheese bacon. Bianca tentou dizer que não estava ali para comer, só que a mulher não lhe deu ouvidos. Ela acabou desistindo e deixou que a outra fizesse o que bem entendesse. Sentou-se em uma das mesas ao lado da janela ampla da lanchonete e ficou observando o lado de fora com atenção.
A garota notou quando um carro preto saiu da estrada de terra pegando a rodovia de volta para Los Angeles e se pôs em alerta. Checou o celular, esperando alguma mensagem do primo e nada. Voltou sua atenção para o outro lado novamente, na esperança que Percy aparecesse e nada. Talvez precisasse de mais alguns minutos. Talvez ainda estivesse voltando. E, na pior das hipóteses, talvez algo tivesse dado errado.
Bianca mordeu o lábio, apreensiva. Sem pensar duas vezes, discou o número da Thalia. O telefone não chamou nem três vezes antes que a morena atendesse irritada.
— Bianca, onde diabos vocês estão? Que ideia foi essa de sair desse jeito sem dar explicações?
— É complicado. — respondeu — Mas preciso da sua ajuda. Percy e eu... nós seguimos um cara para fora da cidade e...
— Vocês fizeram o que?! — a mais velha gritou — Sinceramente, que merda vocês tem na cabeça? Já estamos no meio da maior confusão e...
— Será que você pode me ouvir por um minuto? — Bianca interrompeu nervosa — Preciso da sua ajuda. Acho que Percy pode estar com problemas enquanto você grita comigo.
Thalia respirou fundo, tentando se acalmar.
— Ok. Conte-me tudo.
[...]
Thalia sabia que havia algo de errado desde que Luke apareceu dizendo que Bianca e Percy tinham pegado sua moto sem nenhuma explicação e saído pela cidade. E agora ela começava a se perguntar o quão estúpidos seus primos eram. Porque, sinceramente, eles pareciam ter o dom de se meter em problemas. Thalia entendia o motivo de Bianca estar fazendo aquilo, afinal, os deuses sabem que ela mesma faria de tudo para proteger Jason. Mas mesmo assim, saírem sozinhos e sem avisar ninguém era imprudente. E agora estavam fora da cidade, na estrada para Las Vegas, que ficava há, no mínimo, quarenta minutos de carro.
— Precisamos ir. — disse para Luke assim que guardou o celular no bolso.
— Ir? — o loiro franziu o cenho — O que Bianca disse?
— Eles estão no começo da rodovia pra Vegas. Bianca acha que encontraram Nico, mas não tem certeza. — respondeu enquanto colocava uma jaqueta apressadamente — É complicado. Te explico no caminho.
Luke pareceu incerto, mas mesmo assentiu e os dois desceram as escadas com pressa. A casa estava praticamente vazia agora, já os três irmãos tinham saído há um tempo atrás, Gwen sendo a única mulher que tinha acompanhado, enquanto Sally ficou junto de Maria, no caso do telefone tocar novamente. Jason estava sentado no sofá, balançando a perna e girando o celular quebrado entre as mãos. De certa forma, achava melhor que tivesse quebrado a tela do aparelho ao lançá-lo contra a parede. A foto de Nico ainda assombrava seus pensamentos e não queria ver aquilo novamente.
O garoto percebeu quando os outros dois surgiram na sala parecendo alarmados, e se pôs de pé imediatamente.
— Onde vocês estão indo? — Jason perguntou ansioso.
— Percy e Bianca acham que encontraram Nico, mas podem estar com problemas e precisamos encontrá-los. — Thalia respondeu com pressa — Preciso que fique aqui e me diga se alguma coisa acontecer, ok?
— O que? Encontraram o Nico? Como assim problemas?
— Não dá tempo de explicar.
— Thalia, você não pode dizer isso e ir embora! Eu quero saber o que está acontecendo! — esbravejou.
— Não dá tempo. Alguma coisa pode acontecer com eles a qualquer momento, Jay. Eu sei que está preocupado, só que agora preciso que fique aqui e me informe sobre qualquer novidade.
Jason hesitou, porém assentiu.
— Tragam eles de volta à salvo.
— Pegue o celular da mamãe. — a morena disse — Vou te manter informado. E se perguntarem, diga que fomos dar uma volta para espairecer ou qualquer coisa assim. Não conte a verdade. Ainda não. Não precisamos dar esperanças a ninguém no caso disso ser um alarme falso.
Thalia pegou a chave do carro alugado que estava em cima da mesa e foi até a porta, sua intenção de ir até a garagem.
— Thalia, espera... — Luke tentou chamar sua atenção.
— Precisamos sair logo! A estrada é longe e algo pode acontecer a qualquer minuto...
— Onde você está indo? — o loiro perguntou.
— Pegar o carro!
— O carro de família que seus pais alugaram pra passar as férias? Tá falando sério? Você quer chegar lá amanhã?
Thalia cruzou os braços irritada.
— Você tem alguma ideia melhor?
Luke sorriu.
— Vem comigo.
O loiro foi até a garagem de sua própria casa, Thalia o seguindo impaciente, reclamando sobre o tempo que estavam desperdiçando.
— Bianca pegou sua moto, lembra? A menos que você tenha um teletransporte aí dentro...
— Tenho coisa melhor. — respondeu, indo até o carro coberto e puxando a proteção, deixando Thalia boquiaberta.
— Tá de brincadeira.
A morena encarava a Lamborghini Murciélago surpresa. No estilo de vida que tinha, já tinha visto vários carros impressionantes, mas nem mesmo todos os ricos estavam dispostos a pagar 400 mil dólares em um carro.
— Meu pai sempre gostou de carros velozes. Quando tinha minha idade, apostava corrida de rua e era praticamente imbatível. — Luke explicou — As pessoas o chamavam de Hermes naquela época.
— O deus mais rápido. — murmurou.
— É. — sorriu de canto e foi pegar a chave que estava guardada próxima à porta da garagem que dava na casa — Então, vai ficar aí admirando ou vamos logo? Aposto que conseguimos chegar em 20 minutos.
[...]
Rick estava possesso. Sua mão apertava a arma com força e sua verdadeira vontade era de puxar o gatilho e deixar o garoto cair morto ali mesmo. Percy tinha as mãos erguidas no ar, respiração descompassada e as pupilas dilatadas. Como diabos aquele garoto tinha chegado até ali? Rick jurava que se isso fosse culpa de Ares, jogaria tudo pro alto e acabaria com aquela história. Ele disse, disse para o homem ficar longe, que isso podia causar problemas, e ele o ouviu? Claro que não.
— Esvazie os bolsos. — Rick mandou.
— E-eu não tenho nada. — o adolescente respondeu.
— Esvazie os bolsos! — gritou, destravando a arma.
Com as mãos tremendo, Percy tirou tudo que tinha em seus bolsos, que não passava de seu celular e carteira.
— Jogue no chão. — Rick disse, e o rapaz não demorou para obedecer.
O grisalho deu dois tiros no aparelho celular, fazendo o mais novo dar um pulo para trás em reflexo, seu corpo tremendo ainda mais.
— Pra dentro, agora. E sem gracinhas ou estouro seus miolos.
Percy obedeceu, ainda mais quando Rick se aproximou e colocou a arma nas suas costas, empurrando-o para a cabana velha. O lugar era ainda mais medonho por dentro do que por fora, a madeira mofada e quase nenhuma iluminação. O grisalho praticamente jogou o adolescente na sala sem o menor cuidado, fazendo com que Percy quase caísse. Nico estava no canto do cômodo, ainda algemado à mesa de metal, e quando viu o outro ali, quase não acreditou.
— Percy? — arregalou os olhos.
— Nico! — Percy correu para o lado do mais novo, ajoelhando-se e tomando o rosto do garoto entre as mãos — O que ele fez com você?
— O que está fazendo aqui? — perguntou ainda em choque, porque não não não Percy não podia estar ali também.
— Essa, Nico, é uma excelente pergunta. — Rick cortou o momento dos dois — Como chegou aqui, Perseu?
Percy encarou o grisalho, sem responder.
— Não teste minha paciência, garoto. Ainda estou armado. — alertou — Vou perguntar mais uma vez. Como chegou aqui?
— Segui Ares. — respondeu — Ele estava nos observando em Los Angeles.
— Ares? — o mais novo perguntou confuso — O que ele tem a ver com isso?
— Aquele desgraçado! — Rick gritou, ignorando Nico e apertando a arma com força em suas mãos — É por isso que eu trabalho sozinho, pessoas são estúpidas, só sabem estragar as coisas. — dizia para si mesmo, andando em círculos, até que um pensamento lhe atingiu e se virou para Percy — Quem mais sabe que você está aqui?
— Ninguém! — Percy respondeu rápido, tentando esconder seu próprio pânico. Rick não podia saber sobre Bianca.
— Não minta pra mim! — gritou, seus olhos transbordando fúria — Quem mais sabe que você está aqui?
— Ninguém, eu juro. Vim sozinho. — garantiu — E você atirou no meu celular, não tenho como falar com ninguém de fora.
— Espero que você não esteja mentindo. Pelo seu próprio bem. — disse entre dentes — Sinceramente, eu deveria estourar seus miolos e jogar a carcaça no deserto pros pássaros comerem. E depois fazer o mesmo com Ares. Essa realmente não é uma má ideia. — pensou consigo mesmo.
— Por favor, não machuque ele. — Nico pediu, uma ponta de desespero em seu tom.
Rick ficou intrigado e analisou Nico por um momento. Por incrível que pareça, em todos os anos no seu ramo de trabalho, o grisalho aprendeu a diferenciar o desespero das pessoas. O desespero em perder a vida, o desespero em perder algo importante e, acima de tudo, o desespero em perder alguém que significa tudo pra você. E agora, ele conseguia ver esse último tipo nos olhos de Nico. Conseguia imaginar o que se passava na cabeça do garoto, de como ele gostaria de que seu primo ainda estivesse em Los Angeles, são e salvo.
No segundo seguinte, Rick perdeu a pose raivosa, porque, sinceramente, aquele devia ser seu dia de sorte. Será que aqueles dois realmente... Ah, a ideia de matá-los tinha acabado de se tornar ainda mais atrativa.
— Não me diga que vocês... — sorriu de canto, seu olhar vagando entre os dois adolescentes — Vocês tem algo. — riu com gosto — Quase dá pra ver os coraçõezinhos nos olhos. Sabe, eu realmente estava bravo há um minuto atrás mas agora isso acaba de se tornar muito... divertido.
A forma como a palavra saiu dos lábios de Rick, num tom maníaco, fez os dois garotos se arrepiarem.
— Querem saber? Acho que começamos com o pé esquerdo. — o grisalho comentou após um momento — Acho que deveríamos quebrar esse clima pesado de alguma forma.
Rick passou a andar de um lado para o outro, pensativo. As mais inusitadas ideias fluíam em sua mente. Naquele momento, ele não ligava mais para essa história de seqüestro, para o que Ares faria se descobrisse. A única coisa que queria era ver aqueles dois pivetes jogados no chão afogando-se em seu próprio sangue. Todavia, apenas atirar neles não teria graça, não, não, tinha que ser algo mais duradouro. Algo que ele pudesse aproveitar cada segundo.
— Tive uma ideia. — disse divertido e jogou a chave das algemas para o moreno de olhos verdes — Vamos ver o quão profundo é seu amor. Primeiro, quero que solte Nico.
Percy não pensou duas vezes antes de fazer isso. Nico suspirou aliviado ao sentir os pulsos doloridos livres do atrito com o metal.
— De pé. — mexeu a arma para cima e para baixo, e os dois se levantaram, Percy se colocando em frente a Nico de forma protetora.
Rick foi até a mesa e pegou uma das facas que estavam dispostas sobre a madeira. Os adolescentes franziram o cenho quando o homem lançou o objeto para perto deles, caindo aos pés de Percy.
— Vamos jogar um pouco? Essa brincadeira chama-se "morrendo por amor". — Rick sorriu sádico — Agora, Percy, pegue essa faca e corte os pulsos ou eu atiro no Nico.
Para acentuar sua frase, Rick apontou a arma para o mais novo.
— Você disse pra minha família que não me machucaria. Acho que isso agora inclui ele. — Nico disse com a voz contida.
— Parece que eu dou a mínima, moleque? — retrucou — Eu já aturei merda demais com essa história e minha paciência está por aqui. — colocou a mão sobre a testa — Um pouco de diversão é o mínimo que mereço.
— Chama isso de diversão? Você é louco.
— Ah, obrigado, Percy. — agradeceu lisonjeado — Então, vai fazer o que mandei ou prefere ver seu priminho cheio de buracos?
Percy trincou o maxilar e fechou os punhos ao lado do corpo. Merda. Precisava pensar numa saída, um jeito de acabar com a situação. Seus olhos caíram sobre a faca jogada a sua frente no piso de madeira, centímetros de distância do tapete encardido que terminava perto de Rick. Se apenas...
O rapaz respirou fundo, se abaixando para pegar o objeto. Nico pareceu alarmado e segurou seu braço.
— Por favor, não faz isso.
— Confie em mim. — pediu em um sussurro — Tenho uma ideia.
Nico hesitou, mas soltou o outro. Percy pegou a faca e olhou para Rick, que sorria satisfeito.
— Bom garoto.
— Não vou fazer isso. — respondeu, jogando-a um pouco para longe, em cima do tapete.
— Percy, Percy... — o homem deu dois passos a frente, balançando a cabeça negativamente — Eu estou tentando manter meu bom humor, não acabe com isso.
— Não tenho medo de você.
Rick riu do comentário.
— Pois deveria. — respondeu, dando um tiro na parede ao lado de Nico, que gelou no ato.
— Percy... — o mais novo sussurrou, sua voz trêmula — O que está fazendo?
— Não vou errar da próxima vez. — Rick garantiu, dando mais um passo a frente — Pegue a faca.
O rapaz observou o objeto caído e lentamente se aproximou, ajoelhando no chão.
— Estou esperando.
Discretamente, Percy olhou para o homem, que agora apontava a arma para si. Sua respiração estava descompassada, o coração acelerado, adrenalina correndo em suas veias. O plano estava dando certo. Rick estava pisando no tapete. Em um movimento rápido, o adolescente puxou o tecido com força, derrubando o outro no processo.
O grisalho bateu a cabeça na parede com força, ficando desnorteado por um momento, sua arma caída ao seu lado. Nico correu e pegou o calibre 38, recuando logo em seguida. Rick piscou algumas vezes, tentando focar sua visão.
— Devo dizer, Percy, estou impressionado. — comentou, massageando a área dolorida pelo impacto — Não esperava por essa.
— Tenho meus momentos. — o garoto respondeu ríspido.
— Não é tão intimidador agora. — Nico caçoou, a arma apontada para Rick.
— E você vai fazer o que? Atirar em mim? — sorriu de canto, encarando o garoto com deboche — Nós dois sabemos que você não passar de um garotinho assustado que não tem coragem de matar alguém.
— Continue me provocando e veremos isso. — rosnou, puxando a trava.
— Vá em frente, Nico. Atire em mim. — provocou — Aposto que estava esperando por uma oportunidade dessas desde que entrou aqui, não é?
— Nico. — Percy o chamou, calmo — Não faça isso. Você não é um assassino.
— Ele ia fazer você se matar. — respondeu, seus olhos ainda presos nos de Rick.
— Eu sei. Mas não podemos descer ao nível dele.
— Ninguém saberia. — argumentou.
— Nico, por favor. — suplicou — Não faz isso.
— Vai ouvir seu namoradinho, Nico? — Rick debochou — Eu disse que você não tinha coragem.
Nico trincou o maxilar, seu dedo no gatilho formigando. Era só puxar.
— Não vale a pena. — Percy sussurrou.
O mais velho se aproximou do garoto, colocando a mão sobre a arma, abaixando-a devagar. Nico respirou fundo e deixou que ele fizesse isso.
— Devíamos algemá-lo. — disse entre dentes.
— Seria uma sábia decisão. — Rick concordou.
— Qual é o seu problema? Além de insano também é bipolar?
— Eu sei reconhecer quando estou em desvantagem. — ergueu os pulsos juntos — Então?
Nico apertou os olhos, desconfiado. Algo não estava encaixando. Percy pegou as algemas esquecidas no chão e prendeu Rick a mesma mesa de ferro que Nico estava preso minutos antes.
— Devo dizer, Nico, essa realmente não é uma posição muito confortável. Agora entendo seu mau humor.
— O que fazemos agora? — Nico perguntou para o outro, ignorando o comentário de Rick.
— Bianca está na lanchonete do outro lado da rodovia. Devíamos voltar pra lá e chamar a polícia, já que ele destruiu meu celular.
— Me solte e prometo te dar um novo.
Percy encarou Rick com fogo nos olhos.
— Cala a boca. — mandou.
— Quanta grosseria. — se fez de ofendido.
— Eu vou ficar louco se continuar no mesmo ambiente que ele. — o mais novo resmungou.
— Então vamos. — Percy disse, indo em direção a porta — Ele não vai a lugar nenhum.
— A polícia vai aparecer daqui alguns minutos. — Nico avisou para Rick.
— Que adorável. Acho que vou fazer chá para eles. — disse animado.
— Nos vemos na delegacia, seu desgraçado.
— Vamos embora, Nico. Bianca deve estar preocupada.
O garoto assentiu e seguiu o mais velho, dando uma última olhada para Rick, que sorria divertido, antes de passar pela porta. Quando se viu do lado de fora, abriu o tambor do calibre, tirando todas as balas e jogando-as longe, para em seguida arremessar a arma para o lado oposto. Agora podiam ir embora.
[...]
Nico não sabia o que fazer. Sentia que tinha algo de errado acontecendo. Tinha sido fácil demais. Cada instinto em seu corpo gritava para que fossem embora daquele lugar o mais rápido possível e voltarem para a segurança da casa na praia, mas ao mesmo tempo queria chamar a polícia, esperar e ter certeza de que Rick acabaria atrás das grades junto de Ares.
De um jeito ou de outro, estava indo para a tal lanchonete onde Bianca estava esperando. Nico realmente queria ver a irmã. Por alguns momentos preso naquela cabana, o garoto realmente achou que nunca mais veria a luz do sol, o que dirá sua família. Por mais que Rick tenha dito à seu pai que o devolveria se o resgate fosse pago, Nico tinha suas dúvidas. O grisalho era instável demais para confiar em qualquer coisa que ele dizia. Se tivesse ficado mais irritado em algum momento, poderia ter atirado no garoto sem remorso nenhum.
E Bianca, aparentemente, estava na mesma ansiedade que o mais novo. Nico mal tinha entrado na lanchonete quando a garota o envolveu em um abraço.
— Nico! — apertou o irmão com força, suas mãos tremendo — Eu estava com tanto medo pensando que alguma coisa podia ter acontecido com você.
O garoto a abraçou de volta com a mesma intensidade, escondendo o rosto na curva do pescoço de Bianca.
— Eu estou bem. — murmurou — Eu estou bem.
Bianca se afastou um pouco, segurando o rosto do outro entre as mãos.
— Tem certeza? O que aconteceu com a sua bochecha? Ele te machucou?
— É só um arranhão.
— Eu mesma mataria aquele filho da puta se tivesse feito algo com você. — rosnou — Ninguém toca no meu irmãozinho.
Nico sorriu levemente.
— Pessoal, precisamos chamar a polícia. — Percy disse nervoso — Aquele cara ainda está lá.
— Ares? — a garota questionou, raiva borbulhando.
— Não. — Nico respondeu — Rick. Eu nem sabia que Ares estava envolvido.
— Provavelmente foi ele que arquitetou tudo. Filho da puta.
— Você pode xingá-lo no tribunal, Bia. Agora precisamos que chame a polícia.
A garota concordou com Percy e se afastou de Nico um pouco relutante, quase como se achasse que ele desapareceria se ela não estivesse por perto. Pegou o celular do bolso e discou o número de emergências, mordendo as unhas pelo nervosismo enquanto o número chamava.
— Como vocês realmente me acharam? — Nico perguntou confuso para Percy.
— Não menti lá. — respondeu — Realmente seguimos Ares. Ele estava nos observando, e Bianca o reconheceu.
— Não foi muito inteligente da parte dele. — comentou sem humor.
— O que importa é que ele nos levou até você e que está seguro agora. — respondeu, aproximando-se do garoto — Eu pensei que tinha te perdido. Não tem ideia de como esse pensamento estava me deixando louco.
— Eu estou bem agora. — sussurrou olhando para baixo, envergonhado com a confissão.
Percy ergueu o rosto do mais novo, seus dedos fazendo movimentos circulares nas bochechas do garoto com cuidado.
— Dói? — perguntou, seu polegar passando levemente sobre o corte.
Nico negou com a cabeça.
— Arde um pouco, mas é só um arranhão.
— Deveria limpar isso, de qualquer forma. Pode inflamar.
— Ok.
O mais novo não conseguia pensar corretamente com Percy tão perto, com aquele maldito olhar intenso que mesmo depois de tudo ainda o deixava desconcertado. Era tão injusto. Ele não podia simplesmente chegar e falar aquelas coisas, agir de certa maneira sendo que depois voltariam para a estaca zero onde se ignoravam. Nico ficou tão distraído com seus próprios pensamentos que só notou que Percy estava realmente perto quando sentiu os lábios do outro sobre os seus em um beijo casto que o deixou estático.
— Percy...?
— Vamos falar sobre isso quando chegarmos em casa. — garantiu, um sorriso em seu rosto enquanto ainda acariciava as bochechas do mais baixo — Tudo vai ficar bem.
— A polícia está vindo. — Bianca anunciou, chamando a atenção dos dois — Vou ligar pros nossos pais, mas antes acho que devíamos falar com a Sra. Collins. Sabe, avisar o que está acontecendo pra ela não se assustar.
— É, deveríamos.
— Ela está na cozinha. — indicou.
Percy assentiu, se dirigindo para as portas de metal no fundo do ambiente, mas não chegou muito longe antes que elas fossem abertas.
— Surpresa, filhos da puta.
Rick saiu da cozinha segurando a Sra. Collins, uma arma pressionada a cabeça da senhora que chorava silenciosamente. Bianca deixou o celular cair em choque, Percy e Nico não muito diferentes. O alivio que durou por alguns minutos agora tinha se tornado aflição, desolação. Parecia que aquele pesadelo não acabava.
— Se a ideia era fazer com que ela não se assustasse, deu bem errado. — comentou — Olha só o que vocês fizeram. Colocaram uma pobre senhora na confusão sendo que ela não tem culpa de nada. Tsc, tsc. Sinceramente, crianças, eu esperava mais de vocês. — disse desapontado.
— Mas como... Você ainda devia estar preso. — Nico disse inconformado.
O grisalho riu do comentário.
— Acham que a única forma de me livrar de uma algema é pela chave? — Rick perguntou ofendido — Sinceramente, vocês me subestimam. Esperei alguns minutos e os segui. Enquanto tinham seu momento de reencontro e estavam distraídos, só dei a volta e entrei pelos fundos. Foi tão fácil que não teve nem graça. Agora, vou ser bem claro: — sua voz era calma e paciente, como se estivesse explicando algo para uma criança — ninguém se mexe, ninguém banca o herói, estamos entendidos? Uma gracinha e atiro em todos. Não que eu não vá atirar, mas sabe como é, vamos fazer essa brincadeira durar.
— Ai meu Deus. — a Sra. Collins cobriu a boca com a mão tentando conter um soluço que escapava de seus lábios.
— Se você tem algum deus, talvez devesse começar a rezar para ele agora. — Rick sugeriu — Não que vá ajudar. Só que eu sei que isso acalma vocês que acreditam. Nunca entendi essa palhaçada, pra ser sincero.
Rick empurrou a mulher para junto dos outros, sem paciência para ouvir seu choro. Ainda com a arma erguida, deu a volta no pequeno grupo, parando em frente a porta da lanchonete, bloqueando a saída.
— Agora, quem quer ser o primeiro?
— Você não precisa fazer isso. — Bianca se manifestou, chamando a atenção do grisalho.
— Perdão?
— Não tem que... atirar em ninguém. — engoliu o seco — Ainda podemos conseguir o dinheiro, só não machuca ninguém.
Rick coçou o queixo, parecendo pensativo.
— E qual seria a graça disso? — perguntou retoricamente — Eu não ligo pro dinheiro. Não mais, de qualquer forma. Mas já que se pronunciou, Bianca, talvez gostaria de ser a primeira. Me diga, quer que eu seja rápido ou atire nas suas pernas antes?
— Não se atreva a encostar nela. — Nico se colocou a frente, fogo nos olhos.
— Vamos lá, Niquinho. Ninguém precisa se exaltar. Sua vez vai chegar. Estou pensando em te deixar por último, que tal? Quero que você veja seus entes queridos morrendo um de cada vez, percebendo que a culpa disso é sua. Então, vamos começar pela irmã?
Bianca gelou quando Rick ergueu a arma para si, um sorriso divertido em seus lábios. Do lado de fora da lanchonete, a lamborghini estacionava um pouco afastado do posto, quase sem fazer barulho. Thalia saiu do carro seguida de Luke, notando prontamente que havia algo de errado. Seu olhar cruzou com o de Percy pela janela e o rapaz quase suspirou aliviado. Quase. Rick não tinha notado a chegada dos dois, e talvez essa fosse a chance que tinham para escapar da mira daquele maníaco. Sem perder tempo, o rapaz começou a falar, determinado a prender a atenção do grisalho.
— Você vai pra cadeia e passar o resto dos seus malditos dias lá.
Rick bufou.
— Vocês realmente não sabem ficar quietos. — voltou-se para Percy — O que disse, moleque?
— Que você vai passar o resto dos seus dias apodrecendo numa cela.
— Eu acho que não. — ele respondeu — Tem ideia de quantas vezes eu já fugi da polícia? Essa seria apenas mais uma delas.
— Tem certeza? Já ligamos pra nossa família e pra polícia. Eles sabem onde estamos e estão vindo para cá.
— Está sugerindo que eu acabe logo com isso para sumir, Perseu?
— Mesmo que mate todos nós agora, não vai conseguir fugir. Seu carro está longe. Não daria tempo. Depois de tudo que você já fez, quem diria que acabaria atrás das grades por causa de um pequeno erro com um grupo de adolescentes? Puxa, eu não gostaria que minha vida terminasse assim. Fazer o que, né? — provocou — Aconteceu.
Rick torceu os lábios, sua expressão de fúria. Luke e Thalia entraram sorrateiramente na lanchonete, aproveitando a distração de Rick. O loiro pegou um dos tacos que enfeitavam a entrada, se aproximando do homem com cuidado.
— Não vai se safar. —Percy continuou, prendendo a atenção de Rick — A polícia já deve estar chegando. — sorriu vitorioso — O jogo acabou.
— Se eu vou parar na cadeia, alguém vai pagar por isso. — Rick rosnou, destravando a arma.
No momento seguinte, tudo foi muito rápido. Houve um disparo. Uma pancada na cabeça.
Rick caiu desacordado no chão, Luke ainda segurando o taco de beisebol com força, pronto para acertar o homem novamente. O silêncio prevaleceu no recinto, nenhum dos presentes se atreveu a se manifestar por um instante, ainda em estado de choque.
— Ele morreu? — Bianca perguntou hesitante.
— Só desmaiou. — Thalia respondeu após analisar o homem por um momento, chutando a arma pra longe — Não deve acordar por um tempo.
— Estão todos bem? — Luke perguntou.
Bianca acenou com a cabeça. A Sra. Collins ainda chorava no canto, e Nico encarava o corpo do homem caído no chão.
— Ele não pode mais nos machucar. — murmurou aliviado, virando-se rápido para o moreno de olhos verdes — Percy, ele não pode mais...
Nico sentiu o ar fugindo de seus pulmões quando viu Percy, que tinha o olhar perdido no chão e uma mão sobre sua barriga.
— Percy? — chamou com a voz trêmula.
O rapaz não respondeu, a dor em seu abdômen em tal magnitude que se sobrepunha a qualquer pensamento lógico em sua mente. Vagarosamente, ele levantou o rosto, encarando o primo que parecia assustado.
Foi como se a realidade tivesse desacelerado e, por um segundo, tudo permaneceu parado, silencioso, como se o próprio ambiente estivesse segurando a respiração. Tanto o barulho dos carros na estrada quanto o som dos motores dos refrigeradores da lanchonete pareciam longe, há quilômetros de distância. Os olhos de Nico não deixaram os de Percy em momento algum, nem mesmo quando o mais velho caiu de joelhos no chão, sangue se espalhando por sua camiseta azul.
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