Summer Love
17 Eles merecem isso
Notas iniciais
Poseidon sempre quis ter filhos. A ideia de trazer uma criança ao mundo e criá-la como você acha correto o encantava, de certa forma era como se uma parte de si fosse continuar existindo mesmo quando sua hora chegasse. Como se estivesse deixando um legado. O problema é que, como muitas coisas na vida, é mais fácil falar do que fazer.
Para chegar na parte de educar um filho e ensinar suas próprias filosofias, primeiro você tem que passar pela época da infância. Em especial o primeiro ano. E Poseidon podia não ter certeza naquele momento, mas se alguém o pedisse para escolher a parte mais difícil de lidar com uma criança, ele diria que é quando ela ainda é um bebê. Claro que na maior parte do tempo os bebês são fofos; rindo, babando e dormindo por aí, só que quando eles estavam descontentes.... Meu amigo, você pensaria duas vezes naquela possibilidade de ter um segundo filho.
Percy tinha sete meses quando Sally finalmente o deixou sozinho com Poseidon. E ela hesitou por muito tempo, não sabendo se era uma boa ideia deixar seu marido com o bebê sem ajuda nenhuma. Poseidon quase se sentiu ofendido. De qualquer forma, foram necessários alguns dias para convencer a mulher de que ela podia sair com suas amigas como sempre fez sem ter que se preocupar com o filho por algumas horas. Sally merecia esse descanso.
O que ele não esperava, todavia, era que de uma hora para outra, Percy começasse a chorar sem motivo aparente. E por chorar, ele queria dizer anunciar ao mundo sua existência através de gritos. Poseidon jurava que em algum momento seus tímpanos iam explodir. E o pior era que ele não sabia o que havia de errado com o bebê. Já havia trocado a frauda, dado de mamar, tentado fazê-lo dormir e nada.
— O que há de errado, Percy? — perguntou aflito, balançando o bebê no colo — Por favor, me diz o que está errado.
O fato de que bebês não falam realmente era uma merda. Poseidon suspirou e colocou Percy de volta no berço, tentando pensar em alguma coisa. Pegou uma das pelúcias que estavam sobre a prateleira e colocou próximo ao menino.
— Olha, Percy, um peixinho bonitinho. — balançou o boneco, tentando chamar sua atenção sem sucesso — Não? Sem peixinho bonitinho?
Na segunda tentativa, ele deu corda na caixinha de som que geralmente colocava Percy para dormir. Dessa vez, a única coisa que ela fez foi fazer o bebê se debater no berço.
— Mas você adora essa música. — murmurou inconformado.
Talvez a melhor ideia fosse ligar para sua esposa e pedir ajuda, mas sabia que só faria com que Sally voltasse para casa mais cedo. Não, não podia fazer isso. Respirando fundo, ele ainda pegou o telefone e digitou um número diferente.
— Alô?
— Hades, eu preciso de ajuda. — disse derrotado.
— O que aconteceu? — perguntou preocupado.
— É o Percy. Ele não para de chorar.
Hades ficou em silêncio por um momento.
— Você realmente está me ligando porque seu filho não para de chorar?
— Sally saiu com as amigas, e ela hesitou muito em me deixar sozinho com Percy. Eu garanti que ia ficar tudo bem, então não posso pedir ajuda para ela. — explicou — E Zeus iria rir se eu ligasse para ele.
— Ele só não está com fome?
— Não. Dei uma mamadeira pra ele não faz nem uma hora, a fralda não está suja e também não é cólica. — respondeu — Acha que eu deveria levá-lo ao médico?
— Não sei, talvez?
— Hades!
— Como eu deveria saber? Não é como se eu fosse um expert em bebês, Poseidon. Percy e Bianca tem praticamente a mesma idade!
— Bianca continua sendo três meses mais velha.
— Certo, certo. — suspirou — As vezes ele só está um pouco nervoso. Cante uma música, ou conte uma história. Deixe ele ouvir sua voz. Isso costuma acalmar Bianca, então talvez funcione.
— Eu não canto.
— Então conte a história, oras. Divirta-se, irmãozinho!
Hades encerrou a ligação, e Poseidon ficou encarando o telefone por alguns segundos.
— Uma história. — repetiu — Ok, eu consigo contar uma história. — esfregou as mãos na calça nervosamente — É claro que consigo.
Poseidon voltou para perto do berço, pegando Percy nos braços. O bebê chorou ainda mais alto, se é que isso era possível. Para uma coisa tão pequena, Percy tinha pulmões bem fortes. O homem sentou-se na cadeira de balanço que estava no canto do quarto azul, ajeitando a criança melhor em seu colo.
— Vamos lá, Percy. Papai vai te contar uma história. — respirou fundo, balançando a cadeira para frente e para trás — Era uma vez, há muito tempo, uma princesa chamada Danae. O pai de Danae, o rei Acrísio, havia sido informado por um oráculo que um dia seria morto por seu próprio neto, e com medo de que essa previsão se tornasse verdade, ele aprisionou sua filha e afastou todos os pretendentes.
E para sua surpresa, gradativamente, Percy foi diminuindo seu choro. Por alguns momentos, Poseidon ficou apenas encarando o bebê em seus braços, estupefato. Não acreditava que o conselho de Hades realmente havia funcionado. E agora, seu filho o olhava com aqueles olhos verdes grandes ainda vermelhos pelas lágrimas, mas curiosos.
— Não me olhe assim. — pediu — Não contamos contos de fadas normais nessa família, Percy. Vai ter que se acostumar com isso. — sorriu minimamente — Continuando... Apesar de todos os esforços de Acrísio para manter sua filha longe dos homens, Zeus, o rei do Olimpo, se encantou pela jovem, e encontrou-se com ela em forma de chuva de ouro. E dessa união, nasceu Perseu.
Poseidon continuou contando o mito grego para o bebê, que em poucos minutos caiu no sono nos braços do pai. O homem sorriu com a cena, satisfeito. As coisas tinham dado certo. E no final das contas, permaneceu na cadeira com Percy em seu colo até Sally voltar para casa, fazendo seu melhor para não acordá-lo.
[...]
Dizem que quando estamos prestes a morrer, conseguimos ver um resumo de nossas vidas. Claro que não era um fato confirmado, afinal, não é como se alguém já tivesse morrido e voltado para contar como tinha sido.
Percy nunca pensou muito sobre como queria morrer. Gostava de pensar que seria numa idade avançada, depois de uma longa e próspera vida, e, com um pouco de sorte, dormindo. Parecia um final perfeito. Só que, aparentemente, Percy não era uma pessoa muito sortuda.
Depois que aquele tiro o acertou, o moreno parou de processar completamente a realidade ao seu redor. Viu quando Rick caiu desacordado no chão ao mesmo tempo em que uma dor dilacerante se estabelecia em seu abdômen. Nico se virou e disse algo para si, mas Percy não conseguiu ouvir direito. O líquido vermelho e escarlate molhava sua camiseta, e suas pernas fraquejaram. Sentia-se tão entorpecido que nem sentiu o impacto de seus joelhos com o chão de madeira. No segundo seguinte, Nico estava ao seu lado, segurando seu corpo.
— Não, não, não, não. — o garoto repetia enquanto pressionava o buraco da bala, tentando fazer o sangue parar — Bianca, chama uma ambulância!
— Já estou chamando! — a garota respondeu nervosa — Thalia, avise nossos pais!
— Vai ficar tudo bem, Percy. — Nico garantiu apesar de sua voz trêmula — Só fique acordado até a ambulância chegar.
Percy olhou para cima, tentando focar no rosto do primo. Nico tinha os olhos marejados e o encarava de forma preocupada, tremendo.
— Ele... Ele está desacordado? — perguntou com dificuldade, sentindo o gosto de sangue em sua boca.
— Sim. Não pode mais fazer nada contra nós. — respondeu rápido — E você não deveria falar.
— Devíamos ter deixado-o desacordado antes de sair de lá. — comentou com um sorriso de canto, tentando ser descontraído.
Nico riu nervosamente.
— Devíamos. — concordou.
— Olha, Nico...
Percy engasgou, sangue manchando seus lábios.
— Não fale. — Nico pediu aflito — Não agora. Nós... Nós vamos conversar depois.
A questão era que Percy ainda tinha muitas coisas para falar e estava se sentindo mais fraco a cada segundo que passava. Talvez não houvesse um depois para conversarem, e isso o assustava. A ideia de ir dessa para melhor sem dizer a Nico como se sentia ou sem pedir desculpas por tudo que fez deixava aquele sentimento de arrependimento. Só que falar naquele momento era tão difícil.
— E-eu preciso falar.
— Você está perdendo muito sangue. — o outro disse com a voz embargada, ainda pressionando a ferida — Agora você precisa se concentrar em ficar bem.
— Me desculpe. — conseguiu dizer, ignorando a fala do outro — Por tudo.
— Está tudo bem. Não precisa pedir desculpas.
Percy sorriu minimante, quase fechando os olhos. Suas pálpebras pareciam tão pesadas.
— Percy! — Nico o balançou levemente — Agüente só mais um pouco, ok? — pediu — A ambulância já está a caminho.
— Isso é bom. — murmurou com um fio de voz — Isso é muito bom.
— Percy? — conseguiu ouvir Nico chamando enquanto sua consciência ia esvaindo — Não fecha os olhos! Fique acordado, por favor, fique acordado.
Mas apesar de seus pedidos, Percy fechou os olhos.
E não, não houve uma retrospectiva sobre sua vida passando diante de seus olhos. Ele não se viu pequeno, fazendo as coisas que gostava ou os rostos das pessoas com quem se importava. A única coisa que estava na mente de Percy naquele momento era uma tarde que tinha passado ao lado de Annabeth no Central Park. A primavera tinha acabado de começar, e as flores finalmente estavam desabrochando. O moreno achava isso incrível enquanto a loira nem sequer deu atenção a esse fato. Na verdade, ela permaneceu sentada sob a sombra de uma árvore, lendo um livro sobre filósofos gregos que cairiam na prova da semana seguinte. Vira e mexe, ela recitava alguma frase ou pensamento, e Percy apenas prestava atenção nas palavras. E de todas citações, agora se lembrava claramente de uma, que dizia: "A morte não é nada para nós, pois enquanto vivemos, ela não existe, e quando chega, não existimos mais"¹.
E, droga, ele preferia não se lembrar daquilo.
[...]
Hades jamais imaginou que uma simples viagem de verão pudesse ter uma reviravolta tão drástica. Os últimos dias tinham sido como um campo minado, novas bombas explodindo a cada momento que passava. O que era para ter sido um mês tranqüilo e relaxante, acabou se tornando um dos piores de suas vidas. Ninguém poderia nem imaginar uma coisa dessas.
Primeiro, teve a questão da sexualidade de Nico e seu relacionamento com Percy. Logo em seguida, Nico foi seqüestrado por um psicopata e, como souberam posteriormente, a mando de um dos antigos empregados de Hades. A situação já estava péssima nessa altura do campeonato, e mesmo assim, ainda podia ficar pior.
Agora, estavam todos em um hospital. Percy estava em cirurgia enquanto Nico estava desacordado em um dos quartos daquele prédio. O garoto tinha entrado em estado de choque depois que Percy desmaiou, ficando alterado de tal forma que os paramédicos não tiveram opção além de sedá-lo para trazê-lo ao hospital. Nico não apresentava nenhum dano físico, só que o fato de ter sido mantido refém por mais de 24 horas fazia com que pelos menos exames de sangue fossem necessários para checar se realmente estava tudo bem. Bianca e Maria estavam no quarto do adolescente, esperando que ele acordasse. Hades apenas não ficou junto delas porque não sabia se Nico ficaria feliz em vê-lo naquele momento depois de seu último encontro, o que o levou a optar por ficar na sala de espera do hospital junto de seus irmãos, aguardando por alguma notícia de Percy. A tensão ali era quase palpável e o silêncio estava se tornando cada vez mais desconfortável.
— Nós deveríamos, vocês sabem, ter uma longa conversa com eles sobre como o que fizeram foi irresponsável e depois colocá-los de castigo pro resto de suas vidas? — Zeus perguntou, observando Thalia, Jason e Luke que estavam do outro lado da sala. O silêncio estava incomodando-o tanto quanto a Hades, então resolveu falar a primeira coisa que lhe veio em mente.
— Você sequer pode colocar Thalia de castigo? — Hades questionou.
— Ainda pago as contas dela, então sim, eu posso.
— Deveríamos. — Poseidon respondeu a pergunta — Só não agora.
— É, acho que tem razão. — o mais novo concordou.
E voltaram a ficar quietos, fazendo com que os únicos sons do ambiente fossem os passos daqueles que passavam por ali ou as vozes distantes das recepcionistas que estavam na sala ao lado.
— Vocês lembram quando éramos mais novos e Zeus teve um caso com Métis²? — Poseidon perguntou distante, quebrando o silêncio.
Zeus se remexeu desconfortável na cadeira.
— Achei que tínhamos concordado em nunca mais tocar no assunto. — resmungou.
— Eu também achei. — Hades comentou, não entendendo onde o outro queria chegar com isso.
— É só que... O pai ficou possesso. — lembrou — Métis era nossa prima e sete anos mais velha. E você tinha o que, Zeus? Uns dezesseis anos?
— Dezessete. — respondeu à contra gosto.
— Certo. — concordou com a cabeça — Dezessete. E ela vinte e quatro.
— Qual o ponto, Poseidon? — Hades perguntou um pouco impaciente.
— O ponto é que não importa o quão bravo o pai ficou, mesmo assim nós dois, — apontou para si e para o mais velho antes de se virar para Zeus — o apoiamos.
— Nós sabíamos que eles estavam apaixonados.
— Sabíamos. E por causa disso tentamos convencer nosso pai a esquecer a loucura de mandar Zeus para uma faculdade do outro lado do país na tentativa de afastar os dois.
— Não funcionou. — Zeus lembrou um pouco amargo.
— Não foi por falta de esforço. — Poseidon garantiu — O ponto é que passamos dias, dias, e dias dizendo o quanto isso era injusto. E que não faríamos o mesmo no lugar dele.
Hades refletiu por um momento, se lembrando disso. Pelos deuses, fazia tanto tempo.
— E nós fizemos. — o mais velho completou.
— É. — Poseidon concordou — Nós fizemos.
— Algumas coisas só podemos entender quando nos tornamos pais.
— Trinta e um dos cinqüenta estados americanos proíbem o casamento consangüíneo entre primos. — Zeus comentou aleatoriamente — É legalizado em Nova Iorque, a propósito.
Hades arqueou a sobrancelha.
— Como você sabe disso?
— Eu era jovem e estava apaixonado. A possibilidade de me casar passou pela minha cabeça algumas vezes. — resmungou.
— Pensando bem, acho que você disse algo sobre isso. — Poseidon afirmou — Disse que ia fugir de casa assim que terminasse o colegial e se casar com Métis.
Zeus realmente corou.
— Como eu não fiquei sabendo disso? — Hades perguntou quase ofendido.
— Olha, eu tinha acabado de roubar uma garrafa de vinho da reserva especial do nosso pai e estava no mínimo bêbado. Posso ter falado algumas besteiras. — defendeu-se.
— Não culpe o álcool. — Poseidon pediu — Você sabe que teria feito isso se tivesse tido um pouco mais de coragem.
Zeus não respondeu.
— Nós realmente estamos falando sobre isso enquanto meu filho está sedado e o seu está numa sala de cirurgia por causa de uma bala? — Hades questionou inconformado.
— Acho que estamos. — Poseidon riu sem humor — O que eu realmente quero dizer é que se Percy sair dessa, eu não vou impedi-lo de ficar com quem ele quiser. Essas coisas, sentimentos, nós não escolhemos. Só acontece. Não é culpa deles.
— É mais complicado que isso. — Hades murmurou.
Poseidon bufou frustrado.
— Depois do que você passou, — se dirigiu para Zeus — teria feito a mesma coisa que nosso pai fez caso Jason estivesse apaixonado por Bianca?
— Eu não teria Jason se nosso pai não tivesse me mandado para o outro do país, que por acaso foi onde conheci Gwen. — respondeu.
— Você não sabia que isso ia acontecer. Podia não ter acontecido.
Zeus suspirou, pensando nas palavras do irmão por um momento.
— Não. — foi sincero — Eu não teria feito o mesmo.
— Obrigado. — disse como se alguém finalmente tivesse visto a razão — Muito obrigado.
— Então você está me dizendo que realmente aceita essa situação toda? — Hades quis confirmar.
— Nós queremos que eles aprendam por nossos erros, só que não é assim que as coisas funcionam. Eles precisam ter suas próprias experiências. — explicou — Fizemos o nosso melhor para criá-los e educá-los, e agora precisamos confiar neles para que tomem suas decisões. Nenhum deles é mais uma criança. E me refiro a todos, não só a Nico ou Percy. Então... Se eles vão acertar ou errar, nunca poderemos saber, mas pelo menos vamos deixar que façam suas escolhas. Eles merecem isso.
A conversa foi interrompida por Bianca, que entrou na sala de espera alarmado
— Pai! — a garota tinha as bochechas vermelhas e a respiração acelerada por ter corrido — Nico acordou.
Hades levantou-se num piscar de olhos.
— Eu vou ver como ele está. — disse para os irmãos.
— Nos mantenha informado. — Zeus pediu, e o mais velho assentiu antes de se afastar.
— E Hades? — Poseidon chamou, fazendo o outro se virar — Eles já vão encontrar problemas o suficiente em suas vidas, então não vamos deixar que comecem na família.
Hades avaliou as palavras por um momento e concordou. Precisava concertar as coisas.
[...]
Mais uma vez, Nico não sabia onde estava quando acordou. Isso parecia estar começando a virar um hábito, e ele não estava gostando nem um pouco desse fato. Pelo menos dessa vez não era uma cabana velha e fedorenta. Olhou em volta apesar da visão um pouco distorcida, analisando o quarto azul claro. Maria estava sentada ao lado da cama, o olhando receosa.
— Mama? — Nico chamou fracamente.
Maria se aproximou um pouco mais, segurando a mão do filho.
— Estou aqui, Nico.
— Onde eu 'tô? — perguntou em um murmuro — O que aconteceu?
— No hospital. — ela respondeu cautelosamente — Depois... — respirou fundo — Você entrou em estado de choque depois do que aconteceu, e os paramédicos tiveram que sedá-lo e trazê-lo para cá.
Nico franziu as sobrancelhas.
— Depois do que aconteceu...? — ficou confuso, apenas para ter as lembranças dos últimos acontecimentos lhe atingindo como um soco no estômago.
Abruptamente, o garoto sentou na cama alarmado.
— Cadê o Percy? — perguntou aflito — Mãe, onde ele está?
— Você precisa ficar calmo, Nico. — Maria pediu — Percy está em cirurgia.
— Cirurgia? — arregalou os olhos — Ele está vivo?
— Sim. — respondeu com um sorriso fraco — Ele está vivo.
— Ele... Ele vai ficar bem? — foi hesitante.
Maria engoliu o seco.
— Não sabemos ainda.
Nico fechou os olhos, sentindo um bolo de formar em sua garganta.
— Percy é um garoto forte, Nico. Vai sair dessa, você vai ver. — a italiana garantiu — Não podemos perder a esperança.
— Eu sei. — respondeu — Ele vai ficar bem. — disse mais para si mesmo do que para a outra, tentando se convencer disso apesar do medo que sentia — Ele vai ficar bem.
Maria sorriu de canto e passou os dedos pelos cabelos escuros do garoto, tentando passar um pouco de conforto.
— Rick foi preso? — Nico questionou.
— Sim. A polícia o levou e agora estão procurando por Ares.
Isso é bom, Nico pensou. Pelo menos uma boa notícia.
— E quanto a Bianca? Thalia? Estão bem?
— Estão. Thalia e Luke estão na sala de espera junto com os outros. — respondeu — Bianca foi chamar seu pai.
— Ele está aqui? — usou um tom amargo.
— É claro que sim, Nico. — Maria ficou séria — Ele estava preocupado com você.
— Tá, sei. — resmungou.
— Converse com ele, filho. Seu pai está arrependido das coisas que disse. — assegurou — Dê a ele uma chance de se explicar.
— Ele só está "arrependido" porque eu podia ter morrido. — rebateu — Se não fosse por isso...
Houve duas batidas na porta, e Hades apareceu na entrada do quarto com Bianca ao seu lado. Maria suspirou e se levantou, inclinando para dar um beijo na testa do garoto.
— Eu volto depois. Vou deixar vocês dois conversando a sós.
Maria foi até a porta, dando um sorriso calmo para o marido antes de sair, pedindo para que Bianca viesse consigo.
Um pouco hesitante, Hades se aproximou da cama onde o garoto estava, parecendo um pouco desconfortável. Sentou-se na cadeira que Maria estava instantes atrás, e apoiou seus cotovelos nos joelhos, encarando Nico com seriedade.
— Você está bem?
— Na medida do possível que se pode estar depois de ser seqüestrado e ver uma das pessoas com quem você mais se importa ser baleada na sua frente. — usou a ironia.
— Eu sei que os últimos dias não tem sido fáceis pra você. — disse —Para nenhum de nós.
— Não me diga.
— Nico... Eu só estou tentando conversar com você.
— Eu não estou interessado.
— Não muda o fato de que precisamos conversar.
Nico desviou o olhar, contrariado. Não tinha nada para falar com o homem que já chamou de pai. Hades tinha deixado bem claro como se sentia em relação ao filho dias antes, e o garoto não achava que essa opinião tinha mudado em tão pouco tempo. Mas ainda sim, havia uma coisa, apenas uma, que queria saber.
— Vocês iam pagar? — perguntou com a voz contida — O resgate.
— O que você acha?
— Acho que era muito dinheiro.
— Pensa que esse dinheiro não valia a sua vida? — Hades ficou perplexo.
— Não pra você. — respondeu amargo.
Hades respirou fundo.
— Nico... — começou calmo — Sobre o que eu disse na mansão, eu sinto muito.
Nico ficou quieto por quase um minuto, sem expressão.
— Você sente muito? — questionou num tom perigoso — Você me julgou pela minha sexualidade, me chamou de puta, disse que eu não era mais seu filho e agora sente muito? — ia aumentando o tom conforme falava — Que ótimo, porque isso com certeza concerta tudo. Obrigado por sentir muito.
— Não fale assim comigo. — Hades alertou.
— Não sou mais seu filho, então acho que não tenho mais a obrigação de agir com respeito. — foi ríspido — Não é mesmo?
— Você ainda é meu filho. — disse firme — Sempre vai ser. Eu cometi um erro quando disse que não era, e estou tentando me desculpar por isso.
— Como se um simples pedido de desculpas bastasse.
— Nico... — Hades respirou fundo, massageando as têmporas — Você está exagerando.
Nico ficou incrédulo.
— Eu estou exagerando? — questionou inconformado — Eu quero que você me responda algo. Se nada disso tivesse acontecido, se eu tivesse voltado pra casa naquela tarde depois da discussão, como estaríamos agora? Você provavelmente estaria me ignorando, fingindo que sou apenas o garoto gay que não tem nada a ver com você. Estou errado?
— Eu quero que você entenda que na minha época, uma coisa dessas não era... Aceitável. — Hades optou por responder ao invés de dizer sim ou não — E eu sei que as coisas mudaram, mas ainda existe muito ódio e preconceito nesse mundo, Nico. E nenhum pai quer que seu filho passe por isso. Não pode me julgar por achar que as coisas seriam melhores se você não fosse gay.
— Ninguém quer passar por isso. — Nico rebateu — Você acha que alguém escolheria esse tipo de vida por vontade própria? Não poder sair na rua de mãos dadas com a pessoa que você gosta sem ter medo de sofrer algum tipo de agressão, ter que passar a vida mentindo sobre quem você é, não ter o direito de se casar³?
Hades não respondeu, seu maxilar trincado.
— Não é uma escolha. — Nico continuou — E não vai mudar porque queremos. Eu sei que muitas pessoas vão me julgar e serem preconceituosas comigo minha vida toda, ok? Eu sei disso. Mas a única coisa que eu queria é que pelo menos minha família não fizesse parte dessas pessoas.
Nico parou de falar, seus olhos ardendo. Ele não queria continuar aquela conversa agora. Seus pensamentos estavam bagunçados demais para continuar falando com alguém sobre algo tão delicado.
— Saia daqui, por favor. — pediu baixinho.
— Nico...
— Por favor. — repetiu com mais firmeza — Eu não quero conversar.
Hades hesitou, mas respirou fundo e se levantou, saindo do quarto sem olhar para trás.
[...]
Percy teve muita sorte, os médicos disseram. Felizmente, a bala não atingiu nenhum de seus órgãos, o que evitou uma hemorragia interna. Mas mesmo assim, houve o sangramento que fez com que o garoto perdesse a consciência, pelo fato da quantidade de sangue circulando pelos vasos sanguíneos ter ficado a baixo do normal, resultando em um desmaio já que o cérebro estava recebendo menos sangue e, sendo assim, menos oxigênio. Ou algo parecido com isso. Poseidon não prestou muita atenção na explicação do médico depois que ele disse que seu filho ficaria bem.
Mesmo estável, Percy continuaria desacordado por algumas horas por causa da anestesia, e Poseidon sabia que aquela preocupação que sentia não iria passar enquanto não visse seu filho acordado. Era um medo estúpido, ele sabia disso, só que mesmo assim não conseguia se dar ao luxo de ficar calmo. Não ainda, pelo menos.
As horas estavam parecendo se arrastar naquela madrugada, o que aumentava ainda mais seu nervosismo. O homem não parava de encarar os ponteiros do relógio que estava pendurado na parede da lanchonete de hospital, querendo que eles de alguma forma se mexessem mais depressa. Sua distração era tanta que nem prestava atenção no que Hades e Zeus estavam falando.
— Ele nem sequer quer conversar comigo. — Hades suspirou cansado — Eu não sei como concertar as coisas.
— Dê um tempo ao garoto. — o mais novo sugeriu — Com tudo que aconteceu, ele não deve nem estar com cabeça pra pensar claramente sobre isso. Espere alguns dias, peça desculpa de novo. Ele tem que te perdoar em algum momento.
— Conhecendo Nico, não acho que vai ser tão fácil. — resmungou.
Zeus suspirou e resolveu não persistir no assunto.
— E você, Poseidon? — virou-se para o outro.
— O que? — questionou voltando a prestar atenção na conversa.
— Parece tenso.
— Vou ficar mais relaxado quando Percy acordar. — respondeu mexendo em seu café já frio.
— Os médicos disseram que ele vai acordar logo. — lembrou — Não se preocupe com isso.
— É fácil falar. — rebateu, respirando fundo — Vou ver como ele está, de qualquer forma. E convencer Sally a vir comer alguma coisa.
Poseidon se levantou da mesa, saindo da cafeteria do hospital. A grande verdade é que não queria ficar lá parado sem fazer nada, muito menos longe de Percy. Preferia estar por perto quando o garoto acordasse. Foi até o quarto onde o adolescente estava, entrando silenciosamente. Sally estava sentada na cadeira ao lado da cama, parecendo exausta, suas olheiras escuras. Não tinha saído de perto do garoto desde que ele saiu da cirurgia, não se importando com as horas que tinham se passado desde então.
— Você deveria ir comer alguma coisa. — Poseidon sugeriu enquanto se aproximava.
— Não estou com fome. — respondeu.
— Sally... Você está aqui há horas. Precisa comer alguma coisa, descansar.
Sally suspirou cansada.
— Não quero que ele fique sozinho.
— Eu vou ficar aqui com ele enquanto você vai na lanchonete. Estão quase todos lá. Por favor, Sally. Pelo menos tome um café.
— Tudo bem. — respondeu derrotada, se levantando — Tome conta dele. Eu volto logo.
— Pode deixar.
Poseidon observou a esposa sair do quarto antes de se sentar. Por muitos minutos, ficou apenas observando o rosto relaxado de Percy, acompanhando a respiração fraca do garoto. O único barulho do ambiente era o apitar da máquina ao lado da cama que indicava os batimentos cardíacos. O homem sentia certo conforto no som constante. Eram como um lembrete de que seu filho estava vivo. Nunca em toda sua vida Poseidon tinha sentido tanto medo como quando lhe disseram que Percy havia sido baleado. A possibilidade de nunca mais ver seu garoto bem, animado ou sendo aquele adolescente cheio de vida que sempre fora lhe trouxe um aperto no peito que por minutos ele sentiu como se não pudesse nem respirar. Nenhum pai deveria enterrar seu próprio filho.
Durante o tempo todo em que passou na sala de espera, lembranças de todos os anos com Percy rolaram em sua cabeça. Conseguia ver seu filho bebê, chorando tão alto que por vezes Poseidon achou que ele era algum tipo de super criança, ou quando deu seus primeiros passos e disse as primeiras palavras. Um dia estava levando-o pra o jardim de infância e no outro o garoto já estava indo de carro para o ensino médio. O tempo passou tão rápido.
— Não sei se já te contei isso alguma vez, mas... — começou a falar — quando nos conhecemos, sua mãe ficou uns cinco minutos rindo quando eu contei sobre nosso histórico de nomes na família. — sorriu nostálgico — Não foi a primeira vez que isso aconteceu. As pessoas sempre acharam engraçado.
Poseidon se aproximou um pouco mais, apoiando os cotovelos na cama.
— Quando descobrimos que ela estava grávida de você, eu disse que não queria te dar um nome da mitologia grega. Crescer com o meu nome não foi a coisa mais legal, e eu não queria que o mesmo acontecesse com você. — explicou — Mas sua mãe disse que devíamos fazer isso. Era quase como uma tradição de família, afinal. Mas ao invés de te nomear por um deus ou titã, seria por um herói.
Seus olhos passaram pelo rosto do garoto, tentando pegar qualquer sinal de movimento.
— Escolhemos Perseu porque ele foi um dos poucos heróis que conseguiu um final feliz. Ele tinha amor, uma família. É muito mais do que os outros conseguiriam. E nós queríamos que você tivesse o mesmo. — suspirou — E eu sei que você ainda vai conseguir isso. Mas agora? Eu só queria realmente que você acordasse.
Poseidon suspirou, abaixando a cabeça. Estava cansado. Seus olhos estavam pesados e seu corpo dolorido, mas não conseguia nem pensar em dormir. Esfregou as mãos no rosto, tentando espantar o sono.
Um murmuro chamou sua atenção, e ergueu o olhar de supetão, surpreso. Percy remexeu-se levemente na cama, abrindo os olhos lentamente.
— Percy? — Poseidon chamou ansioso, seu coração palpitando.
— Pai? — Percy respondeu ainda grogue, tentando focalizar sua visão.
Poseidon sorriu de forma tão ampla que suas bochechas doeram, um alívio inimaginável tomando conta de seu peito.
— Bem vindo de volta, filho.
[...]
Pensando agora, Ares tentava se lembrar de como diabos tinha acabado passando dez anos de sua vida trabalhando em uma editora. Quando era mais novo, tinha uma imagem de como seria sua vida, e ela não se parecia nem um pouco com isso. Primeiro, seu objetivo sempre foi ter sua própria academia de luta. Desde jovem mostrou certa paixão por artes marciais, principalmente Muay Thai e Boxe. Mas isso só no quesito de acompanhar lutadores profissionais e coisa do tipo, porque não praticava de fato, o que fazia era se meter em brigas por aí. Ele culpava seu pai, mesmo. Não tinha culpa se tinha sido nomeado em homenagem ao deus da violência.
De um jeito ou de outro, ele se meteu em tantas confusões que acabou com consultas semanais com um psicólogo e matriculado numa academia de luta onde, de acordo com seu médico, podia "extravasar toda a raiva". E era até bom, para a sua surpresa. Então, pelo fato de nunca ter sido bom nos estudos ou em qualquer outra coisa que envolvesse seus punhos, aos dezessete anos, Ares decidiu que dedicaria sua vida à luta. E até deu certo, por alguns anos. Virou professor na mesma academia em que praticava e ficou lá por uns anos, até arriscar a sorte e abrir a sua própria quando não tinha nem sequer atingido a marca dos trinta.
Os negócios começaram bem. Tipo nos primeiros seis meses. A academia não tinha aberto há nem dois anos quando Ares começou a ter problemas para pagar as contas. Os alunos estavam indo embora, professores exigindo salários melhores e o preço das contas vinha cada vez mais alto. Ares tentou segurar seu negócio, mas o fechamento foi inevitável. E então o homem se viu desempregado e sem dinheiro nenhum.
Foi então que sua irmã mais velha, Alice, entrou na história, sendo aquela pessoa irritantemente perfeita que sempre foi. Ares passou sua vida toda ouvindo sobre como sua irmã era maravilhosa, inteligente, e porque ele não era como ela. Não o culpe se tinha certo rancor de Alice. E a outra também não era a maior fã de seu caçula, só que isso não era motivo para virar as costas para Ares quando ele precisou.
Alice não era do tipo que emprestava dinheiro, então o que fez foi arranjar um emprego para o homem em uma editora. O serviço era praticamente passar o dia todo entregando cartas e manuscritos que eram enviados para os editores. Uma merda, ele pensou. Todavia, era isso ou ser auxiliar de garçom em um restaurante do outro lado da cidade. Sem muitas opções, ele aceitou.
Eventualmente, Ares foi conseguindo ganhar mais espaço dentro da editora por mais que odiasse o emprego, e aquela se tornou sua zona de segurança. Era melhor ter um salário fixo do que se aventurar novamente e acabar sem nem ter como pagar o aluguel de seu apartamento. Claro que não contava em ser despedido depois de tanto tempo naquele maldito lugar.
O que o levava a atual situação. Ares gostava de pensar que tudo daria certo, e quem em algumas horas teria seis milhões em sua conta e poderia sair do país. Podia ir pra qualquer lugar e fazer o que quiser. Porém, havia uma pequena voz em sua cabeça dizendo que havia algo de errado. O que era ridículo. Não tinha como algo ter dado errado. Foi por isso que Ares escolheu alguém como Rick, porque aquele homem nunca cometia erros. Era apenas paranóia.
Entretanto, Rick devia ter ligado para informar a situação horas atrás e nada. A ligação em si não era tão importante, apenas um simples relatório, mas a ausência dela estava começando a preocupar Ares. Girava seu telefone em mãos, esperando que ele tocasse. Não houve um toque, porém, houve uma batida na porta de seu quarto de hotel que o deixou alarmado. Era tarde, e com certeza a camareira não arrumava quartos de madrugada.
Hesitante, Ares se levantou, suas mãos suando frio e foi até a porta, girando a chave. Do outro lado, haviam três polícias parados. De longe, pode ver um quarto em frente ao elevador.
— Ares Stevens? — um deles questionou, seu tom sério.
Ares engoliu o seco.
— Sim?
— O senhor está preso sob acusação de seqüestro.
Ele realmente devia ter ficado com o emprego de auxiliar de garçom.
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