Summer Love
15 Eu deveria ter dito o que você significava pra mim.
Notas iniciais
Já se passava das três da manhã quando Bianca sentiu algo cutucando seu braço. Relutante, a menina abriu os olhos e se remexeu na poltrona, sentindo seu corpo protestar em dor. Não devia ter dormido ali, mas não tinha feito isso de propósito. Na verdade, seu plano era ficar acordada tomando conta de seu irmão para que Maria pudesse ter algumas horas de sono. A mulher italiana não saíra do lado de seu filho caçula desde a tarde anterior, preocupada com a febre intensa do menino. Ainda embriagada pelo sono, Bianca olhou em volta, encontrando Nico parado a sua frente.
— O que…?
— Bia? Tá acordada?
A voz do mais novo pareceu puxá-la de volta para a realidade, e a menina levantou em um pulo, o sono deixando seu corpo.
— Nico! — ralhou — Você não deveria estar fora da cama. Sua febre vai piorar!
— Não estou mais com febre. — murmurou.
— Mamãe vai ter um ataque se vier te checar e você não estiver deitado. — empurrou o menino de volta para a cama — Debaixo dos cobertores, agora!
Nico bufou e obedeceu a irmã.
— Você deveria voltar a dormir. — a mais velha disse.
— Não estou mais com sono.
Bianca suspirou e se sentou na beirada da cama, colocando a mão sobre a testa do caçula.
— Você nos preocupou ontem. — comentou, aliviada ao notar que a temperatura tinha abaixado.
— Desculpa.
— Não é sua culpa. — afagou os cabelos do menino — Apesar de que não foi uma boa ideia brincar na chuva com Percy.
Nico olhou para as próprias mãos, envergonhado.
— Pelo menos foi divertido.
— Eu sei que foi. — sorriu — Só não faça mais isso, ok?
— Não prometo nada. — respondeu divertido, e Bianca lhe deu um peteleco na testa — Ai!
— Você merece. Agora volta a dormir. Daqui algumas horas mamãe vai voltar para te dar o remédio.
— Eu não quero tomar mais remédio. — fez uma careta.
— Mas você precisa. Não quer ficar pior, não é?
Nico balançou a cabeça negativamente. Bianca suspirou e sorriu minimamente.
— Que tal um acordo? Se você se comportar e tomar todo o remédio direitinho, prometo que vamos sair pra tomar sorvete quando estiver melhor. — propôs.
— Vou poder pegar quantos sorvetes quiser?
— Sem exageros, Nico.
— Blah. Tudo bem. É melhor do que nada.
— Você é muito guloso pra um menino de oito anos!
— Mas... é sorvete.
Bianca quase riu da expressão do mais novo, o bico em seus lábios e os olhos grandes brilhantes como os de um filhotinho de cachorro.
— Não ia dormir?
Nico se ajeitou na cama e se cobriu até o pescoço. Bianca se levantou, pretendo voltar para seu quarto agora que seu irmão estava melhor.
— Dorme comigo? — o menino pediu antes que ela se afastasse.
Bianca estreitou os olhos.
— Eu posso ficar mal de novo, sabe.
— Certo, certo. Vai pro lado.
O mais novo sorriu, dando espaço para a irmã na cama. Bianca se aconchegou e virou na cama pequena, encarando o menino.
— Se eu acordar gripada amanhã, a culpa é sua.
— Não me importo em dividir meu remédio com você. — riu.
— Não tem graça!
— Tem sim. — murmurou, fechando os olhos — Você não vai embora depois que eu dormir, não é? — perguntou já sonolento.
— Não vou embora. — garantiu — Sempre que você precisar, estarei aqui pra cuidar de você, ok?
— Promete?
— Prometo. Agora sério, dorme.
[…]
Rick começava a ficar impaciente com o telefone chamando. Batia os dedos na mesa enquanto encarava Nico do outro lado da sala. Nessas horas que passou com o adolescente, percebeu que ele tinha boca grande. Não ficava quieto nem por um instante. Não sabia se era sempre assim ou só quando estava com raiva. Provavelmente só quando estava com raiva. De qualquer forma, cansado de ouvir o moreno, acabou amordaçando-o.
Nico o olhava com fogo nos olhos e ao mesmo tempo em duvida, querendo saber para quem o grisalho estava ligando. Lá no fundo, ele sabia a resposta. Apenas torcia para que não fosse verdade. Mexeu os braços —agora ambos presos— com força, na tentativa de se soltar. Soltou uma exclamação irritada, o som abafado pelo pano em sua boca. Não era a primeira vez que tentava, e mesmo sabendo que não conseguiria sair, a sua frustração não deixava que ficasse simplesmente parado.
— Você fica quietinho aí. — Rick apontou-lhe o dedo — E não me olhe assim. Não tenho culpa se você não calava a boca.
O telefone chamou mais duas vezes antes que fosse atendido por uma mulher.
— Boa tarde! — Rick disse animado — Desculpe o incomodo, mas Hades está?
— Quem é? — ela perguntou desconfiada.
— Alguém que tem assuntos a tratar com ele. É importante.
Por um momento, Rick achou que seria dispensado, afinal, imaginava que a essa hora estariam ocupados — provavelmente pensando em ir até a delegacia para alertar sobre o sumiço do garoto. Mas ouviu vozes do outro lado, e um homem respondeu a chamada.
— Quem é?
— Hades, certo? Olha, meu nome não importa agora. — respondeu — Liguei pra falar sobre uma coisa de seu interesse. Me diga, Nico já voltou para casa?
— Como você…
— Creio que ainda não. — cortou o outro — Ele ainda está aqui, sendo esse pé no saco que é. Sabe, eu entendo completamente se você não quiser o moleque de volta. Eu não iria querer. Já pensou em adotar um cachorro? Dizem que dão menos trabalho.
A linha ficou em silêncio por um momento.
— Onde meu filho está? — praticamente rosnou.
— Já disse. Aqui, comigo, sendo o pé no saco que ele é. — repetiu — Mas se está perguntando um endereço, ai já não posso responder.
— Eu não acredito em você.
— Sempre existe a dúvida. — Rick suspirou — Certo. — levantou-se e foi até Nico, puxando o pano de sua boca e colocando o celular no viva voz perto do garoto — Papai no telefone, Nico. Ele não acredita que estamos nos divertindo aqui. Não quer mandar um oi?
O moreno permaneceu calado, olhando Rick com raiva.
— Garoto teimoso. Se não se comportar, vai ganhar outro corte pra fazer companhia pra esse aí. E não serei gentil dessa vez. — ameaçou, e Nico continuou relutante.
O adolescente abriu a boca, e mesmo que quisesse dizer algo, não conseguia fazer sua voz sair. Seus lábios tremiam, seus olhos fixados na tela acesa à sua frente. O que deveria falar? Que estava tudo bem? Mandar um simples oi?
— Eu vou acabar estourando seus miolos.
Sem paciência naquele momento, o grisalho colocou o pano de volta da boca do garoto e abriu a câmera do celular, tirando uma foto do adolescente e mandando para um dos poucos contatos gravados.
— Sugiro que alguém dê uma olhada nas mensagens do loiro. Jason, não é? — encostou-se na parede, esperando pacientemente enquanto ouvia o movimentação do outro lado da linha — Agora você acredita?
— O que você fez com meu filho?! — Hades gritou.
— Olha, até agora nada. E não por falta de vontade. Mas sabe como é, né? Quanto mais tempo ele passa aqui, mais riscos corre.
Rick conseguia ouvir a respiração pesada do outro lado, e sorriu. Isso era tão divertido.
— O que você quer? — perguntou em um tom mais baixo, com uma falsa calma exalando de sua voz.
— Eu? Ah, eu não quero nada. Mas meu chefe quer dez milhões depositados numa conta nas próximas 48 horas pra liberar o seu filhote. Se não... Bom, é ai que eu ganho minha diversão.
— Se você encostar um dedo nele, eu juro por deus...
— Poupe suas palavras. Deus? — Rick riu — Não acredito nessas baboseiras. E tudo depende de você e da sua família, Hades. Nico pode voltar para casa são e salvo. Vocês tem 24 horas para conseguir o dinheiro. Ligarei novamente para mais detalhes do depósito. — disse antes de desligar o celular.
Rick sorriu satisfeito e voltou a se sentar, espreguiçando-se na cadeira. Pelo canto do olho, observou o adolescente, estudando sua expressão perdida.
— Não fique assim, Nico. Se sua família fizer tudo bonitinho, você vai voltar inteiro e um dia todos vocês estarão rindo dessa história. — Nico fechou os olhos com força e Rick deu de ombros — Bom, pelo menos eu vou.
[…]
Bianca estava a um passo do desespero.
Suas mãos tremiam, tudo a sua volta parecia um borrão, e os barulhos já não pareciam alcançar seus ouvidos. Ela não percebeu quando Jason atacou seu celular contra a parede, quando Percy soltou um grito estrangulado quase como se estivesse com dor, muito menos quando sua mãe começou a chorar de forma desesperada. A morena simplesmente não conseguia processar o que acontecia. Ela não queria acreditar.
Seu irmão estava preso com algum psicopata que queria dez milhões para devolvê-lo, e ela não podia fazer nada para ajudá-lo. Nada. Nunca se sentira tão impotente em toda sua vida.
Seu cérebro não processava a informação, porque ela simplesmente não podia ser real. Esse tipo de coisa não acontecia de verdade. Não acontecia. A garota se atreveu a erguer o olhar por um momento, observando o caos que a sala havia se tornado. Jason segurando a cabeça entre as mãos, encarando o chão enquanto Thalia tentava falar com ele. Percy estava encostado contra a parede, seus olhos fechados e a respiração pesada. Talvez ele estivesse tentando fugir daquela realidade. Sally e Gwen tentavam acalmar Maria, que derramava lágrimas sem receio. Zeus andava de um lado para o outro, gritando coisas que a garota não conseguia entender enquanto Poseidon tinha uma mão sobre os ombros de Hades. O mais velho dos irmãos tremia, seu olhar perdido em um canto do cômodo branco em estado de choque.
E em meio aos gritos e soluços, a única voz que Bianca conseguiu distinguir foi a de Jason, que saía tão quebrada de seus lábios que fazia o aperto no peito da garota ainda pior.
— Eu devia ter alcançado-o. — ele disse — Eu não devia ter deixado-o ir.
E subitamente, tudo parecia de mais. As vozes ao seu redor machucavam seus ouvidos, as imagens retorcidas faziam sua cabeça latejar. A garota se levantou do sofá, e sem dizer uma única palavra, seguiu para o segundo andar da casa. Precisava de silêncio. Tentar encontrar paz em meio a toda confusão. Entrou em seu quarto compartilhado com Thalia e fechou a porta com mais força que necessário, mas isso já não importava. Sua vontade era de pegar um dos enfeites do cômodo e jogar contra a parede, ver um objeto se despedaçar da mesma forma que seu interior estava naquele momento. Mas Bianca não sabia se conseguiria controlar sua fúria uma vez que a soltasse.
Queria poder culpar alguém. Direcionar sua raiva à uma única pessoa. Porém, de que isso lhe adiantaria?
A porta do quarto se abriu lentamente e Percy entrou. Ele não queria deixar a garota sozinha agora. Tentou se aproximar da prima, seu corpo todo tremendo. Bianca conseguia ver como Percy, assim como ela, tentava sustentar uma falsa calma, mesmo que seus olhos denunciassem a avalanche de emoções que esperavam ser dispersadas.
— Bia… — ele começou.
— Sai daqui.
— Não. Você não vai ficar sozinha agora, e…
— Porra, Percy! — gritou — Eu não quero ouvir o que você tem a dizer! Não se atreva a tentar me consolar. Não se atreva a dizer que sabe como estou me sentindo agora, porque você não tem ideia…
— Ideia do que você está sentindo? Pois saiba que me sinto tão apavorado, furioso e desamparado quanto você. — gritou também — Eu também quero que Nico volte pra cá são e salvo. Todos nessa casa querem! E você não tem que ficar ficar sozinha, nenhum de nós pode ficar sozinho agora, Bianca. Somos uma família e precisamos nos unir como uma mais do que nunca.
— Você… Não entende. Ele é meu irmãozinho. E eu não posso fazer nada pra protegê-lo!
— Acha que eu não sinto o mesmo?! — sua respiração se tornou pesada, seu rosto vermelho pelo raiva — E sabe o pior? Eu ainda tem essa maldita culpa sussurrando no meu ouvido, dizendo que se eu tivesse ficado em casa, ou que se eu simplesmente tivesse falado com ele antes de sair, talvez nada disso estivesse acontecendo. Talvez ele ainda estaria aqui, segurando o maldito vídeo game e reclamando que não quer ir lá fora por causa do sol. Mas agora alguma coisa pode acontecer com o Nico. — sua voz se tornou embargada, e Bianca conseguiu ver as lágrimas brilhando em seus olhos — E eu não disse. Eu não disse…
Bianca trincou o maxilar, sentindo suas próprias lágrimas dançando em seus olhos, ameaçando cair, mas ela não queria chorar. Não podia chorar. Não agora. Desviou seu olhar para a janela, tentando se acalmar enquanto observava as ondas quebrando na areia.
— Eu não vim aqui para brigar. — Percy sussurrou.
— Eu sei. — respondeu — Eu… Eu só queria uma garantia, Percy. De que ele vai voltar, de que vai ficar tudo bem, de que…
Bianca ficou em silêncio repentinamente, preocupando Percy. A morena se aproximou mais da janela e colocou as mãos no vidro gelado. Seu rosto estava quase colado na superfície transparente e ela queria chegar ainda mais perto para ter certeza de que o que via não era uma ilusão. Um pouco longe da casa, havia um homem, alto e forte, parado na beira do mar e Bianca sabia que ele estava olhando para o primeiro andar da moradia branca, mesmo que os olhos escuros a impedisse de ver seus olhos.
— Você só pode estar de brincadeira. — murmurou.
Bianca sentia seu interior borbulhar em raiva. Aquilo não podia ser uma simples coincidência. Não, não. Ela tinha certeza que aquele era Ares, sorrindo. O mesmo cabelo curto, as mesmas roupas pretas e pesadas que faziam qualquer um pensar que ele fazia parte de algum tipo de gangue. A morena fechou os punhos ao lado do corpo, com tanta força que suas mãos tremiam, as juntas já ganhando um tom esbranquiçado.
— O que? — Percy perguntou alarmado — O que foi?
O moreno olhou pela janela, procurando o que Bianca tanto encarava com raiva. Não via nada demais.
— Qual o problema?
— Esse maldito bastardo. — rosnou.
— Quem?
Bianca não respondeu e saiu do quarto, indo apressadamente em direção as escadas. Percy não hesitou em segui-la. Quando passaram pela sala, alguns lhes lançaram olhares preocupados.
— Onde vocês vão? — Thalia perguntou.
Bianca não se deu ao trabalho de responder, saindo pela porta. Ouviu Percy dizer algo antes de se afastar, porém, não prestou atenção. Não tinha tempo. Praticamente correu até o final da rua, checando cada entrada para a praia, procurando Ares. Quando encontrou o homem, perto o suficiente para ser notada, ela deu alguns passos para trás apressadamente, chocando seu corpo contra o de Percy.
— Ouch.
— Calado. — puxou o primo, agachando-se atrás de um dos carros parados na rua.
— Do que estamos nos escondendo?
— Sério, Percy, fica quieto! — sussurrou.
Bianca observou Ares se afastar, tirando uma chave do bolso e abrindo um carro preto estacionado do outro lado. Seus olhos caíram sobre a placa traseira, tentando decorá-la.
— Esse cara trabalhava na editora. — apontou — Foi demitido há quase um mês e saiu muito irritado da sala do meu pai.
— Você não acha que...
— Eu não sei! — quase gritou, e respirou fundo tentando se controlar — Eu não sei! — repetiu num tom mais baixo — Mas isso não pode ser apenas coincidência! E esse cara sempre foi meio louco, estourado. Você tem algum palpite de quem mais pode ter tido a ideia de seqüestrar meu irmão? Se alguém quisesse simplesmente arrancar dinheiro da nossa família, era bem mais fácil mirar na Thalia ou em Jason. Todos nós sabemos que dos três irmãos, tio Zeus é o mais bem sucedido.
Percy ficou quieto, parecendo avaliar a hipótese.
— E o que fazemos agora? — perguntou vendo o carro se afastar e entrar na outra rua.
— Essa rua é sem saída, tirando a entrada a direita que leva até a avenida. Se formos rápidos... — murmurou — Vem.
Bianca agarrou o pulso de Percy e correu o máximo que suas pernas permitiam. Não podia entrar em sua própria casa e pegar a chave do carro naquele momento, pois sabia que deixaria todos ainda mais alarmados, e não era isso que queria. Podia ser apenas um alarme falso, afinal. Uma paranóia de sua mente.
Luke estava em frente à garagem de sua própria casa, empurrando a moto para fora. Bianca não perdeu tempo e se aproximou do loiro, seguida de Percy.
— Preciso da sua moto.
Luke parou, surpreso.
— Como é?
— Sério, Luke! Me dá a chave.
— Mas eu ia...
— Tenho certeza que o lugar para onde você ia não é uma questão de vida ou morte. Por favor, Luke!
— E pra onde vocês vão? E o que está acontecendo?
— Hã, meio que não sabemos... Mas é importante. — Percy respondeu.
— Não dá tempo de explicar. Se quiser saber o que está acontecendo, vai perguntar pra Thalia. — estendeu a mão — A chave!
— Você sequer sabe pilotar uma moto, Bianca? — o loiro arqueou a sobrancelha.
— Não, estou pedindo porque quero cometer suicídio. — ironizou — Claro que sei, sua anta!
— Você quer a minha moto e ainda está sendo ignorante?
— Por todas as vezes que eu livrei a sua barra e a do Nico, você me deve um maldito favor. — ia aumentando o tom de voz conforme falava — Agora me dá a chave da porcaria da moto ou eu juro que vou arrancar as suas bolas e te sufocar com elas, Castellan!
O loiro entregou as chaves sem mais uma única palavra, olhando estupefato para a morena que tinha o rosto tão vermelho de raiva que parecia que ia explodir.
— Obrigada. — ela disse e respirou fundo, pegando o capacete que Luke segurava — Certo, vamos logo, Percy.
Percy parecia igualmente surpreso com a morena. Ele não imaginava Bianca, doce e gentil Bianca, falando daquele jeito. Porém, ela tinha seus motivos.
— Vai ficar aí olhando? — perguntou impaciente, já em cima do veículo, estendendo o capacete reserva para ele.
Percy colocou o capacete e se sentou atrás da garota enquanto ela dava partida.
[…]
A Sra. Collins era uma velhinha simpática dona de um posto de gasolina e lanchonete na beira da estrada. Viúva e sem filhos, a única companhia que tinha eram os poucos clientes que paravam ali para comer algo ou abastecer o carro antes de voltarem para a rodovia em direção a Las Vegas. Com o passar dos anos, cada vez menos pessoas apareciam por ali. Todos estavam sempre tão apressados! Os carros passavam muitas vezes acima do limite de velocidade, os vidros escuros sempre fechados dando a impressão que não haviam ninguém lá dentro.
Sem ter o que fazer, a senhora passava a maior parte do dia sentada em frente a entrada da lanchonete, vendo o movimento. Era sempre mais intenso naquela época do ano. As vezes contava as cores dos carros, querendo saber se passavam mais vermelhos ou pretos. Pretos costumavam ser a maioria.
O céu já escurecia, e a Sra. Collins estava começando a achar que era hora de entrar. Aquele lugar podia não ser tão seguro de noite. Ela se levantou, batendo as mãos em seu vestido florido para desamassar a roupa. Estava prestes a entrar quando uma moto parou em frente a lanchonete, passando reto pelo posto.
Ela observou os dois adolescentes descerem veículo e tirarem seus capacetes. Francamente, eles pareciam novos demais para estarem em um rodovia.
— Posso ajudar? — sorriu assim que se aproximaram, tentando ser simpática com os desconhecidos.
— Você sabe o que tem pra lá? — o garoto perguntou apontado para a entrada na estrada de terra do outro lado.
— Lá? — apontou também — Nada, querido. Só uma cabana velha há alguns metros da estrada. Está abandonada desde que o velho John morreu, vinte anos atrás. Ele era o dono desse lugar antes que eu comprasse. Era um senhor muito simpático.
— Ninguém nunca mais apareceu por lá? — a morena quis ter certeza.
— Para morar? Não que eu saiba. Quem iria querer morar em um lugar no meio do nada? Sem contar que aquele lugar é tão velho que dá arrepios! Está tudo caindo aos pedaços. — sacudiu o corpo — Mas se bem que...
— Se bem que? — os dois se aproximaram, quase desesperados, o que estranhou a senhora.
— Nos últimos dias uns carros tem entrado para lá. Dois pretos. Um entrou ontem no final da tarde e não saiu desde então, enquanto o outro já foi e voltou umas duas vezes. — coçou o queixo, pensativa — Talvez estejam querendo demolir a cabana. O velho John vai se remexer no caixão se descobrir uma coisa dessas!
— Pode nos dar licença por um momento? — Percy puxou Bianca pelo braço, afastando-se — Eu vou até lá checar e você espera aqui.
— O que? Ficou louco, Percy?
— Você tem uma idéia melhor?
— Nós dois vamos checar.
— Não. — foi firme — Talvez o Nico esteja lá, Bia. E se ele estiver, não vai estar sozinho. Se pegarem nós dois, como vão saber onde nos encontrar?
— Mas... — Bianca não contestou. Percy tinha razão — Eu vou então.
— Não, Bianca.
— Ele é meu irmão! Sou eu que...
— Eu não vou deixar Nico e você correrem risco no mesmo dia! — cortou a garota — Seu pai vai ter um ataque se algo acontecer com os dois. — passou a mão pelos cabelos, nervoso — Vai ficar tudo bem, Bia. — garantiu — Fique aqui. Se eu não voltar em meia hora, chama a polícia, ok?
Bianca pareceu relutante por um momento.
— Meia hora.
Percy sorriu minimamente tentando passar um pouco de confiança mesmo que não tivesse nenhuma e beijou a testa da prima antes de se afastar em direção a estrada. Bianca observou o outro atravessar, tomando cuidado com os carros que vinham em alta velocidade e pareciam não se importar com o pedestre.
— O que ele vai fazer? — Sra. Collins perguntou com o cenho franzido.
— Checar uma coisa.
— Mesmo? Não tem nada para se checar lá. — disse pensativa — De qualquer forma... Está com fome, querida? Já disseram que eu faço o melhor cheese bacon da Califórnia.
Bianca suspirou e se deixou ser levada para dentro do estabelecimento, olhando para Percy uma ultima vez antes de entrar.
[…]
Percy nunca tinha percebido o quanto odiava a vegetação de Los Angeles. Era tudo árido e aberto demais, areia para todos os lados e pequenos arbustos secos que cobriam partes do chão. Poucas eram as árvores finas e secas que apareciam na paisagem. Não era estranho o lugar ser assim, sabendo que um deserto ficava a poucas milhas dali. Entretanto, ele realmente preferia que estivesse em um lugar fechado, cheio de arvores de troncos grossos e copas volumosas. Teria lugares para se esconder em caso de emergência, pelo menos. O que faria agora se alguém resolvesse sair daquela cabana velha há alguns metros de distância? Ia deitar no chão e se fingir de morto?
O terreno até a cabana era declive, o que impossibilitava o lugar de ser visto da rodovia. Percy descia com cuidado, tentando não escorregar nas pedrinhas que deixavam o chão escorregadio. Haviam dois carros parados ali, e o moreno começava a achar que estava no lugar certo. No começo, ele teve suas dúvidas. Afinal, não podia ser assim tão fácil. Esses caras não deviam ter mais cuidado ou algo do tipo?
Sorrateiramente, ele finalmente alcançou a cabana, suspirando aliviado por ninguém ter saído naquele meio tempo. Quando parou ao lado da construção de madeira, percebeu que não tinha ideia do que fazer. Ouviu vozes vindo de dentro, cada vez mais próximas da porta. Apressou-se para sair de perto do campo de vista entrada da casa, encostando-se na parede lateral. Assim que dois homens saíram da casa, Percy inclinou a cabeça um pouco para frente, espiando. Um deles era o que Bianca lhe mostrara e estava acompanho de um homem de cabelos grisalhos. Percy não conseguia ver seu rosto, já que ele estava de costas para si.
— Vai ficar bem com o moleque, Rick? — ouviu o tal Ares perguntar.
— Estou começando a achar que está subestimando meus serviços, chefinho. Posso muito bem dar conta. Foi pra isso que me contratou, não é?
Percy trincou o maxilar e cerrou os punhos ao lado do corpo. Então Nico realmente estava ali.
— Certo, certo. Não precisa ficar na defensiva.
Mesmo sabendo que era inviável, por um momento Percy avaliou a possibilidade de tentar entrar naquela cabana, naquele exato momento. Mas estava em desvantagem, e não sabia com quem estava lidando. Um movimento em falso podia custar sua vida, tinha que ter isso em mente.
— Qualquer coisa, me ligue. Ou sabe onde me encontrar. Agora que está tudo correndo bem, vou aproveitar minhas férias.
— Pode deixar, chefinho.
O barulho de passos sobre a madeira fez com que Percy desse mais alguns passos para trás, e mesmo com todo seu cuidado, não viu a pedra de tamanho médio que o fez tropeçar. Apesar do barulho causado ter sido mínimo, seu coração batia a mil, o medo de ser descoberto fazendo com que prendesse sua respiração.
— Algum problema? — Ares perguntou de repente.
Silêncio.
— Não. — Rick respondeu enfim — Acho que foi só a minha imaginação.
Percy suspirou aliviado, e voltou a recuar, tentando chegar a parte de trás da cabana sem ser percebido. Conseguiu ouvir quando um carro deu partida, e olhou com cuidado, observando o automóvel preto se afastar do lugar, derrapando os pneus na areia e nas pedras. A porta bateu novamente, dando o sinal de que Rick entrara.
As duas janelas que se encontravam naquela parede da casa tinham vidros quebrados e tábuas as cobrindo pelo lado de dentro. Percy tentou espiar algo, mas a falta de luz não era favorável.
— Sua mãe nunca lhe ensinou que é feio espionar, garoto? Se quer entrar, o caminho mais fácil é pela porta.
Percy sentiu-se congelar. Seu coração batia tão forte contra o peito que doía. Medo. Adrenalina. Sentia que tinha força e disposição suficiente para correr uma maratona, mas seus pés já não respondiam seus comandos. Ele mal conseguia pensar. Vagarosamente, Percy se virou, encontrando um homem apontando uma arma para seu peito.
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