Summer Love
13 Capitão América ou Batman?
Notas iniciais

Percy sempre gostou de super heróis. Qualquer um que entrasse em seu quarto poderia dizer isso. Haviam pôsteres espalhados pelas paredes, um tapete dos Vingadores no chão e a coleção de bonecos na estante. Uma coleção quase completa, faltando apenas uns três ou quatro personagens. O menino sempre quis ter todos, e vivia insistindo para seus pais comprarem.
Por isso os três estavam no shopping naquela tarde. A primeira parada que fizeram foi a loja de brinquedos, e Percy foi direto para o corredor masculino, enquanto Poseidon e Sally ficaram para trás procurando um presente de aniversário para a filha de uma das amigas da mulher.
Depois de alguns minutos, o menino voltou com dois bonecos, um do Batman e outro do Capitão América. Poseidon arqueou a sobrancelha e olhou para o garoto, que tinha um sorriso inocente no rosto.
— Já escolheu qual dos dois vai levar? — perguntou.
— Quero os dois. — respondeu, com os olhinhos brilhando.
— O combinado não foi esse, certo?
Percy fez bico.
— Mas... eu quero os dois. — disse com a voz chorosa.
Poseidon respirou fundo.
— Só um, Percy. — repetiu — Vai ter que escolher. Qual vai ser?
O menino ficou emburrado e deu o boneco do Capitão América para o pai segurar.
— Chato. — resmungou antes de ir colocar o do Batman de volta em seu devido lugar.
— Por que não deixou ele pegar os dois de uma vez? — Sally perguntou enquanto via o filho de afastar.
—Não quero que Percy cresça mimado. Sem contar que ele precisava aprender que nem sempre podemos ter tudo o que queremos.
— Não se esqueça que ele só tem sete anos, Poseidon.
— Eu sei. — suspirou — Mas ele não terá sete anos pra sempre.
Sally optou por não dizer mais nada. Se fosse por ela, Percy provavelmente seria a criança mais mimada do mundo. Entendia o ponto de Poseidon. Mas era difícil dizer não para o menino quando ele piscava aquele olhinhos verdes.
Por esse motivo eles voltaram na semana seguinte para comprar o boneco do Batman.
~*~
Assim que chegaram em casa, Hades achou que seria melhor avisar aos garotos que estavam ali. Afinal, nunca se sabe o que um adolescente pode fazer quando está sozinho. Enquanto os outros ainda falavam sobre trabalho (eles estavam de férias, será que nem assim deixam esse assunto de lado?), o mais velho foi até o quarto dos garotos, já que não viu nenhum dos dois no andar de baixo.
Antes de entrar no cômodo, parou ao notar que eles conversavam sobre algo e Nico parecia irritado. Muito irritado. Ele não imaginava qual seria o motivo da discussão antes de ouvir as palavras "Percy", "dormir" e "amor da minha vida".
Hades arrependeu-se de não ter batido na porta antes de entrar, mas ela já estava aberta. Um erro fatal, ele notou. O tipo de conversa que Nico e Jason estavam tendo não é do tipo que se tem com a porta aberta. Na verdade, em sua opinião, era um tipo de conversa que não se poderia ter. E pela expressão que os mais novos agora tinham estampada em seus rostos, eles deviam concordar no fato de que deviam ter sido mais cautelosos.
O adulto tentava decidir o que era pior, o fato de seu filho aparentemente ser gay ou ter transado com Percy, o primo que namora uma garota. Talvez estivesse equivocado, porém, ele não achava que tinha interpretado a palavra dormir de forma errada.
— Ninguém vai dizer nada? — cruzou os braços, impaciente.
Nico estava em pânico. Muitas vezes o garoto imaginara como seria quando contasse para seu pai sobre sua sexualidade. Não foi assim que pensou que o Hades descobriria. Jason encarava o primo quase como se pedisse desculpas com o olhar. Se não tivesse insistido no assunto aquilo não estaria acontecendo.
Nenhum dos dois tinha coragem de se pronunciar. A tensão aumentava a cada segundo e vendo que o silêncio não melhorava nada, Nico arriscou.
— Eu... posso explicar. Só me da um minuto.
— Estou esperando.
— Talvez demore mais de um minuto. — murmurou.
— Você transou com Percy? — perguntou sem rodeios — Você é gay?
Nico não pode deixar de notar como a palavra "gay" saiu da boca do pai. Como se ele tivesse nojo de dizer. Ele podia mentir e inventar uma história. Devia mentir. Entretanto, não conseguia fazer isso diante do olhar severo de Hades. Mesmo não tento palavras, o moreno assentiu.
— Que maravilha. – disse voz cheia de ironia — Meu sobrinho é um cafajeste e você é a putinha dele. Mas que merda você estava pensando, Nico?
— E-eu... — gaguejou — Não é assim.
— Então como é?
— O que está acontecendo aqui? — Maria entrou no quarto, preocupada.
Ninguém se deu ao trabalho de explicar para a mulher o que acontecia. Talvez isso piorasse ainda mais a situação. Nico não sabia como poderia ser a reação da mãe, mesmo sabendo que ela era mais compreensiva que Hades.
— Eu não planejei isso. — o moreno murmurou.
— Ah, certo. Essas coisas acontecem, não é? — ironizou — Quem nunca teve um caso com o primo do mesmo sexo?
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? — Maria tentou outra vez, apesar de já ter uma noção do que se tratava. Voltou-se para o filho e perguntou com receio — Jason e você...?
— Não. — Hades respondeu antes que o garoto pudesse falar algo — Não Jason. Percy.
A italiana abriu a boca em choque. Certo, ela não esperava por essa. Não estava brava como Hades, apenas... surpresa. Apesar de não saber como agir, tentou acalmar os ânimos.
— Tenho certeza de que não é tão ruim assim. — disse calma — Será que podemos conversar tranquilamente sobre isso?
— Como você consegue agir dessa forma? — o homem questionou inconformado.
— Você não está dando a ele a chance de explicar. — respondeu séria.
— Eu não acho que tenha algo para se explicar. — voltou para o garoto mais uma vez — Mas me diga, Nico, você gosta do Percy?
O moreno mordeu o lábio inferior, não querendo responder a pergunta. Aquilo foi suficiente para Hades.
— O que você pensou? Que isso poderia virar algum tipo de relacionamento? Não sei se lembra de que ele tem uma namorada. Sabe como Percy vê você, Nico? Como uma simples transa de verão. Você se reduziu a um pedaço de carne, então, meus parabéns! Está indo muito bem.
— Hades! — Maria repreendeu o marido antes de se voltar para o mais novo — Nico, ele não quis...
— Você não sabe de nada. — Nico encarou o pai com raiva..
— Não, Nico. Você não sabe de nada.
— Tio Hades... — Jason tentou, cansado de ficar calado vendo o primo ser acusado e ofendido.
— A conversa não é com você. — disse, tentando não ser mal-educado com o loiro.
Nico não tinha como explicar. As palavra do pai o atingiam como socos e seus olhos começavam a acumular lágrimas. Ele tentava formular qualquer resposta cabível para amenizar a raiva do mais velho, mas, lá no fundo, sabia que nada que dissesse melhoraria a situação. E, a essa altura do campeonato, já não sabia se queria a compreensão de Hades. Não depois de todas as asneiras que ele disse.
— Pai...
— Não me chame assim. — Hades o cortou — Eu não tenho um filho gay.
Aquela foi a gota d'água para o garoto. Se seu pai pensava assim, ele já não queria fazê-lo entender. Cansado da discussão e de ser humilhado, Nico respondeu o patriarca, sem se arrepender de suas palavras.
— Então você não tem um filho.
Por um momento, Hades pareceu surpreso com a resposta, mas voltou a expressão dura em menos de alguns segundos. Maria olhava para os dois abismada, sem saber o que dizer. E não teria tempo para dizer algo, de qualquer forma. Nico saiu do quarto, não querendo continuar naquela casa nem mais um segundo.
— Jason, vá atrás dele. — Maria pediu e o loiro assim o fez. Quando ficaram sozinhos, a mulher voltou-se para Hades, com fogo nos olhos — Você vai pedir desculpas.
— Você não pode estar falando sério!
— Ah, estou falando muito sério, Hades. Ou você pede desculpas para o meu filho ou também ficará sem esposa.
Maria saiu, deixando Hades sozinho. O homem bufou, extremamente frustrado. Ele não queria pedir desculpas.
~*~
Annabeth conhecia Percy muito bem. Bem até demais. E, por isso, ela sabia dizer quando algo estava errado com o moreno.
Desde que chegara, ele estava agindo estranho. Gaguejava daquela forma que a loira sabia que só fazia quando estava nervoso, parecia ter dificuldade em olhar em seus olhos e claramente escondia algo. Percy nunca foi bom em guardar segredos. Esse era um defeito do moreno. Um pouco de pressão e ele contava tudo. E, daquela vez, Annabeth não sabia ao certo se queria ter descoberto a verdade.
Ela ouviu tudo que o moreno tinha a dizer em silêncio. Desde as tentativas de reatar a amizade com o primo, a confusão que ele estava sentindo até a noite que eles dormiram juntos. Percy tentava se justificar, dizendo que nunca planejou aquilo, e que nunca teve a intenção de trair Annabeth.
— Diga alguma coisa, por favor. — pediu com a voz baixa, já não agüentando o silêncio.
O que poderia dizer? A loira ainda absorvia as palavras que seu – provavelmente ex – namorado jogara sobre si. Talvez devesse dizer o quanto estava com raiva, o quanto sentia-se traída e decepcionada com Percy. Mas não tinha palavras. Não existia palavras no mundo que pudessem expressar os sentimentos em seu interior naquele momento.
Annabeth sempre se considerou uma pessoa inteligente. Alguém que sabe lidar com textos e cálculos complexos, sem nunca falhar ou duvidar. Porque é muito mais fácil resolver uma conta do que lidar com emoções. Elas são imprevisíveis, muitas vezes irrefreáveis. Como uma pessoa lógica podia lidar com algo tão incerto?
Nenhum dos livros que lera em sua vida lhe dava a resposta para a situação que estava. Sem saber exatamente como agir e movida pela raiva que sentia do garoto, Annabeth nada mais fez do que apenas dar-lhe um tapa na cara.
Percy virou o rosto com o impacto, sentindo sua bochecha direita arder. Ele não podia reclamar disso. Levou a mão ao rosto, massageando a área atingida e voltou a encarar Annabeth, sentindo-se ainda pior ao ver os olhos cinzas marejados.
— Acho que mereci isso. — murmurou.
— Você acha? — questionou com raiva — Como se atreveu a fazer isso, Perseu Jackson?
— Eu... não sei. – respondeu — Só aconteceu.
— "Só aconteceu". — fez falsete — Essa é uma péssima justificativa.
— Me desculpe, Annie. Você sabe que eu jamais te magoaria de propósito.
— Eu deveria... Argh! Seu... seu... — socava o braço do rapaz — Eu confiava em você!
— Eu sinto muito.
— O caralho que sente muito! — esbravejou, assustando Percy. Annabeth nunca falava palavrões — Se sentisse não teria feito isso!
Se a loira estivesse em sua casa, já teria pegado um dos objetos da sala e jogado contra o moreno. Mas como estava na casa da tia, não podia quebrar nada. Até porque ela não ficaria nada feliz quando chegasse e visse algum tipo de bagunça.
— Eu deveria jogar você no mar e te deixar morrer afogado. — resmungou — Talvez jogue seu priminho também.
— Ele não tem culpa. — Percy murmurou.
— Está defendendo-o? — encarou-o com fogo nos olhos.
Percy engoliu o seco, com medo de falar algo e irritar a loira ainda mais. Annabeth respirou fundo e desviou o olhar, observando a chuva que caia lá fora enquanto tentava se acalmar. Pelo menos Percy parecia arrependido. Não de ter ficado com Nico, mas sim de ter feito isso enquanto ainda estava com a loira. Claro, ela estava magoada por perceber que seu namorado tinha se apaixonado por outra pessoa, mas sabia que esse não é o tipo de coisa que se controla.
— Você realmente gosta dele? — perguntou com a voz tão baixa que Percy teve que se esforçar para ouvir.
— Gosto. — respondeu sem hesitar, e já esperava por alguma reação ruim vinda da loira.
— É bom gostar mesmo. — resmungou — Se não gostasse, eu cortaria seu pênis fora por ter transado com qualquer um.
Percy levou as mãos até a área ameaça, imaginando como seria a dor.
— Bom, acho que não existe nada que eu possa fazer sobre isso, certo? — suspirou — Por que ainda está aqui?
— Annie...? — a olhou de forma confusa.
— Ele deve estar chateado por você estar comigo.
— Está dizendo que...?
— Eu não vou ser um problemas pra vocês. Na verdade, vocês são primos e ambos homens. Já é problema o suficiente. Então, acabamos por aqui. Mas não pense que estamos numa boa. Ainda estou brava com você. Vou precisar de um tempo para te perdoar.
Percy assentiu.
— Certo. Me desculpe de verdade, Annie. Espero que continuemos amigos.
— Um dia, talvez. Convenhamos que você não consegue viver sem mim. — sorriu de canto, tentando amenizar a tensão.
— Não mesmo. — concordou e abraçou a loira, que demorou alguns segundos para corresponder o abraço — Você é minha melhor amiga, Annie. Não quero te perder.
— Eu sei que não. — afastou o outro de si — Mas como eu disse, preciso de tempo. Agora vai logo, príncipe encantado. Você sabe onde fica a porta.
— Está me expulsando? — arqueou a sobrancelha.
— Talvez. Acho que não quero olhar para você nesse momento.
O moreno sorriu fracamente, um pouco constrangido.
— Certo. Nos falamos, hã, depois.
Annabeth concordou e Percy saiu da sala, dirigindo-se a entrada da casa. Abriu a porta e encarou a chuva, desanimado. Devia ter trazido um guarda-chuvas.
— E Percy. — Annabeth o chamou e ele se virou — Boa sorte, de qualquer forma. Acho que vai precisar.
— É... também acho.
E saiu pela porta, sem se importar em ficar molhado. Precisava ir pra casa e falar com Nico.
~*~
Nico sempre gostou da chuva. Quando era mais novo, costumava dar um jeito de brincar sob as gotas, mesmo que sua mãe o repreendesse por isso. Ela dizia que acabaria pegando um resfriado dessa forma, mas o garoto nunca foi de ficar doente facilmente. Ele não se importava com o frio ou as roupas molhadas. E, no momento, parecia ser o único.
As poucas pessoas que estavam nas ruas naquela tarde corriam para lá e para cá, tentando encontrar alguma proteção da água. Xingavam as gotas que molhavam seus celulares, cabelo ou roupas, o que Nico achava engraçado. Tinha certeza de que se um arco-íris aparecesse no céu, todos parariam para admirá-lo. Precisavam aprender que se quisessem ver o arco-íris, teriam que lidar com a chuva.
O moreno já não fazia idéia de onde estava. Assim que saiu de casa, passou a correr por ruas aleatórias na tentativa de se livrar de Jason que tentava fazê-lo esperar. Nico não tinha certeza de quando, mas o loiro havia parado de persegui-lo. Talvez isso significasse que estava longe de casa. Deveria estar, já que estava andando há quase uma hora.
Os pingos iam parando de cair aos poucos e a luz do sol tentava passar pelas nuvens. O céu sempre parecia mais limpo depois da chuva. Nico estava pensando se deveria voltar, apesar de não querer. Naquele momento, daria tudo para estar em Washington. Poderia passar uns dias na casa de Hazel, uma amiga do colégio. Não tinha para onde ir na Califórnia. Suas opções seriam Luke, que estava fora de cogitação, ou Piper, mas a morena ligaria para o namorado com certeza.
Perdido em seus pensamentos, o garoto continuava andando pelas ruas da cidade sem rumo, e mal notou quando chegou a uma sem saída. Suspirou, e estava prestes a dar meia volta e seguir outro caminho quando sentiu algo furar-lhe o pescoço.
O garoto deu dois passos para trás, vacilante. Levou a mão até a área, puxando o objeto que lhe causava incomodo. Estranhou o dardo vermelho e olhou em volta, procurando algo fora do comum. Sua visão começava a ficar embaçada, o que não permitiu que identificasse a pessoa que se aproximava.
— Lamento por isso, garoto. — uma voz grossa disse.
Apesar das palavras, era claro que o homem não se arrependia do que estava fazendo. Na verdade, Nico jurou ter visto um sorriso divertido antes de ser envolvido pela escuridão.
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