Sugar Daddy
35 Problemas e soluções
Notas iniciais
O problema não era achar uma criança de rua no meio de Tokyo sem pista alguma, pensou Kankuro enquanto falava com os próprios contatos, mas o que viria depois disso. Kiba havia oferecido um quarto no apartamento em que ele e Shino dividiam, e, embora fosse tentador depois daquela grade de cervejas, preferiu ir para um hotel.
− Fiz o que você me pediu. – disse ao telefone enquanto falava com Shino. Aburame, do outro lado da videoconferência, era uma estátua enquanto escutava todo o relato de Kankuro sobre a origem de Sumire e tudo pelo que a garota tinha passado. – Kiba está pra lá de envolvido, jaan.
Estoico, o CEO ainda pensava a respeito daquilo. Tinha pretensão de partir o quanto antes de Suna, mas as coisas tinham ficado um pouco complicadas por ali também. Shino descobrira que alguns dos acionistas vinham fazendo jogadas ousadas para tentar tirar ele e Ino do poder, e a representatividade dos dois era importante ali. Com Ino tendo a gravidez avançada, tudo era cauteloso demais.
− Eu não duvido. Ele é passional demais.— respondeu com sinceridade e Kankuro concordou. – O que seus instintos dizem a respeito desse tal cara que protege a garota nas ruas?
Kankuro pensara bastante sobre isso. Agora mais ébrio ao tomar uma xícara de café, ainda pensava a respeito.
− Acho que deve ser um desses fanfarrões que não conseguiu espaço em uma gangue e que abusa dos mais fracos para fazer a própria grana, jaan.
Shino anuiu.
− Acha que pode conseguir um nome e uma localização?
Os lábios de Kankuro se repuxaram em um sorriso.
− Acha que um cão pode farejar um bife embaixo do próprio nariz?
− Foi o que pensei.
− Como está a Ino? E o Gaara? – A expressão de Kankuro tornou-se preocupada por ter deixado o irmão e a cunhada desprotegidos.
− Bem.— Shino respondeu simplesmente. – Temari fica com eles praticamente o tempo todo desde que retornaram de viagem. Ela pode ser bem... persuasiva.
Kankuro explodiu na gargalhada. Não seria bem essa a palavra que usaria. Assustadora, talvez.
− Te ligo quando tiver mais informações.
Desligaram a chamada. Não havia nada que Kankuro não pudesse encontrar.
X
Kabuto era como uma ratazana. Uma presa que detectava quando seu predador se aproximava, pronto para atacar ou fugir – na maioria das vezes a segunda opção. Ele não sabia bem o que lhe dava os sinais, exceto que eles apareciam em seu radar por tempo o bastante para que se preparasse.
Era inteligente. O bastante para saber quando era seguido e que deveria mudar de ares. E tudo havia começado por conta daquela pestinha...
Ele tinha isso consigo. Uma espécie de certeza velada que o rondava desde que Sumire trouxera aquele casaco consigo algumas semanas atrás. A garota andava mais calada que o normal, um pouco mais tímida talvez. Mas havia algo de diferente também. Como uma espécie de sorriso que queria se sobressair a toda a tristeza que a cercava desde que Kabuto a havia abraçado como uma das suas crianças. E isso o incomodava como uma espécie de comichão que agia por baixo da pele.
Enquanto a observava agora, afinando as cordas do violão velho, único pertence que ela retinha consigo por trazer lucro quando tocava em público para ganhar alguns trocados, pensou nisso. Que talvez ela fosse um problema. Por isso, a observaria mais de perto. Pois um problema também poderia se tornar uma solução para muitos outros a longo prazo se você soubesse lidar com ele.
X
Sumire tinha um ponto onde gostava de tocar violão para arrecadar dinheiro. As pessoas costumavam ajudar, espantando-se pelo talento nato que ela possuía para a música. Mal sabiam que ela havia aprendido tudo o que sabia com o pai, amante dos clássicos, antes que esse fosse levado tão cedo para longe dela. Através dos vídeos que tinha gravados, aprendeu, insistiu e aperfeiçoou-se até o dia em que a mãe, enfurecida, trancafiou o instrumento fora de sua área de alcance, cujo qual ela recuperou apenas quando foi para o orfanato. E sempre lutou para mantê-lo consigo para onde quer que fosse.
Em um desses passeios, havia conseguido, também, um companheiro leal. Um cachorrinho de pelagem clara que encontrara abandonado atrás de um restaurante onde costumava conseguir algumas coisas com os amigos de empregados legais que se compadeciam.
O filhote estava lambuzado com molho de tomate e se afeiçoara a Sumire logo de cara. Ela nunca o levava para o esconderijo, claro, com medo de que Kabuto quisesse dar fim no cachorrinho. Mas sempre arrumava um pouco de comida e, quando ia ao parque, ele fazia pequenos truques que a ajudavam a conseguir um pouco além do que deveria.
E agora, durante uma pausa, estavam ambos sentados embaixo de uma faia frondosa, Sumire dividindo um sanduíche que alguém lhe dera com o pequeno filhote, sem saber que olhos atentos o observavam enquanto se divertiam.
X
Gaara despertou dos devaneios do trabalho com um grito. O mesmo grito que despertou Shino que dormia no quarto ao lado, apenas algumas poucas horas por noite. Aburame nem pensou antes de invadir o quarto do casal apenas para chegar até a suíte que ambos dividiam e ver Gaara pálido com Ino nos braços, com sangue escorrendo por entre as pernas.
− Meu bebê, meu bebê... – ela murmurava debilmente, pranteando pela dor e pelo desespero.
− Preciso de um médico! – Gaara, ainda desesperado, parecia uma criança assustada.
− Acalme-se, vamos leva-la ao hospital.
Gaara não queria acalmar-se, mas achou que Shino podia estar certo. Ele o ajudou a colocá-la no carro e o príncipe esteve apenas um pouco ciente de Aburame ditando ordens à uma empregada de confiança que preparou rapidamente uma bolsa para Ino que seria levada posteriormente ao hospital caso preciso fosse.
O Kazekage era o retrato da desolação e desespero na sala de espera depois que Ino foi levada para uma maca na direção da sala de operação após um rápido ultrassom que disse que o bebê ainda estava vivo.
Passados alguns minutos que pareceram eternos, uma médica de postura altiva aproximou-se de ambos.
− Sua esposa está bem, Kazekage-sama. – Apressou-se em dizer antes que qualquer outra coisa fosse dita.
− E o bebê? – A pergunta espelhada em seus olhos foi verbalizada por Shino, e o empresário viu agradecimento mudo no olhar de Gaara.
− Nós... tivemos algumas dificuldades. – Iniciou a médica com aquela linguagem que antecipava desastres e quedas de avião. – O bebê teve que sair, Kazekage-sama. Não era uma decisão que poderia esperar um segundo a mais, ou poderíamos perder uma delas. Ou as duas.
Compreensão atingiu Gaara naquele momento.
− Então as duas estão...
A médica fez uma negativa com a cabeça.
− Duas não, Kazekage-sama, três. – Ela o corrigiu. – Sua esposa e suas duas menininhas.
A boca de Gaara moveu-se em algo semelhante a uma careta. Ele não sabia como colocar as palavras para fora ou expressar-se.
− Poderá vê-las agora se quiser. – disse ela. – Estão agora com sua esposa.
− As minhas... menininhas? – Gaara parecia uma criança diante daquela revelação. Shino era só sorrisos enquanto imaginava duas coisinhas pequeninas nos braços de sua irmã de consideração.
− Parabéns, príncipe Kazekage. – Deu-lhe leves tapinhas nas costas, pegando-se surpreendido por um abraço inesperado acompanhado de lágrimas sinceras.
− Sou pai, Shino, sou pai!
Vendo a alegria dele naquele momento, Shino compreendeu como Kiba se sentia a respeito de Sumire. E talvez fosse aquela a hora de voltar para casa.
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