Sugar Daddy
36 Encarando os próprios medos
Notas iniciais
Shino bateu com os nós dos dedos na porta antes de entrar no quarto onde Ino repousava com as duas menininhas no colo, cada uma em um peito alimentando-se do leite da mãe.
Ino tinha uma expressão pesarosa e cansada, havia acordado há pouco da anestesia aplicada para que a cessaria ocorresse com sucesso.
− Como se sente? – Shino perguntou, aproximando-se para sentar ao seu lado na cama.
− Como se tivesse sido atropelada por um caminhão. – Ino deu uma risada rouca, enquanto as duas menininhas de rosto corado se alimentavam.
− Tem alguém querendo te ver. – Shino voltou o celular na direção de Ino. O rosto sorridente e choroso de Kiba apareceu na tela.
− Ino! Ah, Ino! Olha que graça as minhas sobrinhas! Aposto que vão ter presinhas como o titio! – Kiba era só sorrisos, grudado na tela do celular como se fosse um macaco, o nariz colado no acrílico. – Como você ‘tá se sentindo? Tão te cuidando direitinho? O Shino levou os presentes?
Como sempre, Kiba parecia elétrico demais para que qualquer um pudesse lhe acompanhar. O riso de Ino foi cristalino enquanto as bebês continuavam mamando, alheias ao tio agitado que queria ver seus rostinhos redondos e pequeninos.
− Está tudo bem, Kiba bebê. – Ela abriu um sorriso singelo, cansado. Kiba notou isso.
− Desculpe pela animação e por não estar presente.— Kiba coçou a nuca. – Achei que conseguiria, mas aconteceram algumas coisas por aqui. Tão logo puder, irei visitar vocês três!
Ino arqueou as sobrancelhas.
− Pelo visto teremos muito o que conversar.
− Hn!— Kiba concordou. – Vou te deixar descansar agora e alimentar essas redonduchas. Se cuide!
Shino acenou para o esposo antes de desligar a ligação, dizendo que se falariam mais tarde.
− Pelo visto tenho muitos presentes para receber, irmãozinho. – Ela falou para Shino, acomodando-se perto dos braços do CEO.
− Pelo visto. – Shino concordou com um sorriso de canto, olhando para a família perfeita que sua irmã de consideração havia começado.
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Sumire passou o restante do dia brincando com o filhote no parque. Era gostoso ter ele como companhia, uma alegria genuína que não sentia perto de mais ninguém. Exceto, talvez, por Kiba. Ainda se lembrava da sensação quente do casaco dele sobre seus ombros, grande demais que escondia suas mãos dentro das mangas. Mas agora não o possuía mais. Kabuto havia levado como tudo de bom em sua vida. Sumire suspirou, pegando a entrada para os becos, pedindo para que o filhote se cuidasse.
− Amanhã eu volto pra te ver, pequenino. – Ela sorriu para ele com gentileza, coçando-lhe atrás da orelha. O filhotinho ganiu, triste, querendo acompanhar a dona. – Sabe que não pode ir comigo. Ficarei bem.
Ele ainda a observou por um tempo, uivando, e uivando, e uivando até que ela desapareceu de sua visão.
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− Espero que seus ganhos de hoje sejam melhores. – Kabuto murmurou, contando o dinheiro enquanto observava Sumire aproximar-se. Ele usava o casaco de Kiba, um lembrete da única refeição decente que Sumire tivera em muito tempo.
Ela nada disse, apenas lançou a bolsinha de dinheiro para Kabuto, vendo-o empilhar as moedas e contá-las junto das notas com destreza e graciosidade.
− Pelo visto sim. – A boca dele curvou-se em um sorriso viperino e os olhos concentraram-se na garota. – Algum problema, Sumire?
− Não. – A garota respondeu simplesmente, o coração ainda doendo por ter deixado o filhote para trás. A verdade é que queria trazê-lo consigo, mas sabia que Kabuto jamais permitiria. Como não havia permitido os animais dos outros garotos que moravam por ali.
− Foi o que pensei. – Kabuto lançou algumas moedas para ela – nem dez por cento de tudo o que havia arrecadado. – Aqui, sua parte.
− Mas...
− Pelo dia em que deixou de me dar o que era necessário. Com juros. – O sorriso dele tornou-se predatório. – Ou vai questionar?
A garota cerrou os punhos com força, a respiração pesada enquanto apanhava as parcas moedas. Olhou para ele mais uma vez, antes de ir na direção do próprio saco de dormir, encolhendo-se ali com lágrimas silenciosas enquanto pensava em Kiba e no único amigo que tivera.
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Kankuro observou silenciosamente o local por onde Sumire havia entrado. Então as suas informações a respeito daquela fonte estavam corretas. Ele encarou o local, guardado por crianças em sua maioria. Um homem inescrupuloso que faria de tudo para conseguir o que queria. Esse era Kabuto.
Segundo suas fontes, ele havia sido expulso da Yakuza antes mesmo de conseguir se filiar a ela embora seu pai fosse um membro importante. A despeito de todas as tentativas de colocar o filho ardiloso na linha que era preciso ser seguida, o garoto não levava jeito. Era um maricas fracote, como lhe fora informado.
Havia conseguido uma foto do homem de cabelos prateados, cuja cicatriz no rosto indicava a vergonha de não ter sido aceito e de ainda ter sido expulso de casa pelo próprio pai.
A bem da verdade, ele deveria ter sido assassinado, mas algum nível de complacência na consciência do pai fez com que ficasse vivo. Marcado. E talvez a morte tivesse sido mais gentil.
Depois disso, Kabuto passou a juntar crianças necessitadas para angariar os próprios fundos. Fazendo com que arrecadassem dinheiro nas ruas, não importava o que precisassem fazer para isso.
O irmão mais velho de Gaara queria adentrar aquele esconderijo agora, mas sabia que isso apenas serviria para espantar Kabuto dali. Não. A coisa deveria ser bem armada, sobretudo porque não sabia se o homem de fato estava lá. Enviou uma mensagem para Shino após receber uma foto das sobrinhas com sua cunhada e o irmão.
“Eu o encontrei. O que quer que eu faça?”
A resposta foi imediata.
“Me espere. Estou a caminho.”
Então Kankuro esperou, pacientemente. Ele daria o bote assim que lhe fosse permitido.
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Akamaru havia se cansado de esperar por Sumire naquele dia. Por mais que o filhote tivesse recebido ordens da dona para jamais segui-la até sua casa, estava incomodado com sua demora! Para ele, não foi difícil farejar o rastro dela. Era um filhote incrível!
Apesar de todos os cheiros ruins contidos naquele lugar, Akamaru logo chegou ao local desejado! Latiu, alegre por encontrar a dona. Ela lhe daria uma recompensa por ser tão esperto!
− Hmm... – Sumire murmurou, revirando-se na cama até ter a manga da blusa repuxada. – Ei! Akamaru!
Os olhos dela se arregalaram quando o filhote latiu alegre.
− Não! Não aqui! – Ela tentou escondê-lo embaixo das cobertas, o filhote alegre sem compreender a razão. – Droga!
Ele, achando que ela brincava, escorregou por entre seus braços. Sumire ainda tentou correr atrás dele, mas uma sombra projetou-se sobre Akamaru, pegando o filhote do chão e recebendo um latido surpreso.
− Ora, ora, ora, vejam o que temos aqui. – Um sorriso torto e sombrio tomou conta dos lábios de Kabuto. Sumire sentiu, em seu âmago, que o coração parava de bater.
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A boca dela secou, o coração batia desenfreado no peito quando Kabuto segurou Akamaru pela pele do dorso, suspendendo-o.
− Achei que tinha dito que animais eram proibidos aqui, não? – A voz de Kabuto soou alta o suficiente para despertar todas as crianças que, amedrontadas, começaram a se concentrar ao redor dele.
− Eu vou levar ele embora, Kabuto, por favor... – Sumire implorou, vendo o filhote ganir em desespero.
− Primeiro você chega sem dinheiro o bastante. – pontuou, erguendo um dos dedos em riste. – E eu fui benevolente, perdoei isso. – A luz das chamas que queimava em um barril de latão refletia nas lentes dos óculos dele. Havia um brilho perverso em seus olhos quando prosseguiu. – Então, eu te perdoo, mas mesmo assim vai contra meus mandamentos e traz um filhote pulguento para cá!
Akamaru latiu para Kabuto.
− Calado! – Antes que Kabuto pudesse reagir e fazer algo, Akamaru agarrou seu pulso com os dentinhos de filhote, afundando-os nele. – AH! DESGRAÇADO!
Largando o filhote de qualquer jeito no chão, ouviu-o chorar de dor. Não mais do que quando o atingiu com um chute.
− PARA! PARA COM ISSO! – Sumire gritou com lágrimas nos olhos, correndo para aparar o filhote ferido que a olhou com lamúria, lambendo-lhe o rosto quando a menina o pegou no colo. As outras crianças tremiam, olhando para a situação sem saber o que fazer.
− Parar com isso?! O seu filhote pulguento me mordeu e agora você vai pagar! – Kabuto a agarrou pelos cabelos no mesmo momento em que duas sombras se projetaram na direção deles.
− Eu sugiro, para o seu bem, que deixe ela em paz. – A voz calma e calculada murmurou com tranquilidade. Sumire arregalou os olhos naquela direção.
− Você ouviu o homem, jaan! E ele não está para brincadeira. – O sorriso no rosto do homem ao lado daquele que trajava um sobretudo escuro e óculos de mesmo tom não era amigável, mas insano.
− Q-quem são vocês?!
Shino aproximou-se mais um passo naquela direção, sem temer o fato de que Kabuto estava cercado por pequenos lacaios temerosos.
− Yakushi Kabuto, vinte e oito anos. Filho de um importante membro da Yakuza, expulso pelo próprio pai da facção por ser uma vergonha para todos, marcado com uma cicatriz que jamais o permitiria fazer parte de qualquer outro legado. – Shino começou a enumerar. – Passou a esconder-se próximo dos esgotos da cidade de Tokyo, unindo crianças carentes que não tinham condição de se manterem, em sua grande maioria fugidas de orfanatos ou de casas que as maltratavam para tentarem uma vida melhor e que acabaram nas suas mãos.
Sumire ainda choramingava quando Shino, com aquela aura, parou diante de Kabuto, que o olhava com espanto.
− Você mexeu com o meu marido e com a criança que ele ajudou. – A voz ainda era fria quando Shino o agarrou pelo colarinho, fazendo-o largar Sumire e prensando-o na parede. Os olhos de Aburame, visíveis por trás das lentes escuras, brilhavam de maneira perigosa. – E isso não ficará impune.
Sussurrou em seu ouvido antes de largar ele no chão.
− Kankuro.
− Sim? – O homem calçou as luvas de couro.
− Cuide dele.
O sorriso insano pintou o rosto de Kankuro quando Shino agachou-se diante de Sumire, que tremia assustada segurando o filhote.
− Sei que está com medo. – Shino murmurou quando ela tentou afastar-se de seu toque. – Eu conheço Kiba. Ele é o meu esposo. E eu vou te levar daqui em segurança.
− O Akamaru... – A voz dela era chorosa ao mostrar o filhotinho ferido em seus braços.
− Conheço uma excelente veterinária que poderá cuidar dele se vier comigo.
− O Kiba...?
Era medo. Medo lívido que via nos olhos daquela criança e de todas as outras.
− Ele nos encontrará lá. – Shino estendeu uma das mãos para Sumire, que a segurou com firmeza.
Pois, apesar de todo o medo que sentira ao ver a figura sombria de Shino, ela sabia que de alguma forma, aquele homem dizia a verdade.
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