Submisso

2 Capítulo 2 - Rebeldias


Notas iniciais
Harry e rebeldia = combinação explosiva!!!

Capítulo 2 — Rebeldias



_Não, não e não... Você não entendeu, Harry? Quantas vezes tenho que deixar isso claro? Não acredito que seja tão obtuso!

_Mas Draco, eu...

_Mas nada, Harry. Chega!

O grito dele atordoava minha alma, deixava-me nervoso e triste. Algo em mim ficava desestabilizado. Quando eu fiquei tão viadinho? Sentia-me tão incompreendido. Eu queria segurar as lágrimas, mas com Draco gritando comigo era impossível. É, eu virei uma caricatura de mim mesmo!

_Quer saber? Estou esgotado de verdade... Não adianta mesmo tentar fazer você mudar, não de forma mansa e serena. Eu não vou mais esperar. Já está na hora. Na verdade, já passou da hora. Eu deveria ter seguido meus instintos e não ter cedido aos pedidos dos Weasley. Foram meses, Harry, meses. Não estaríamos nesse impasse agora, se eu não tivesse sido tão condescendente aos seus caprichos. Sabe, tenho mantido tudo preso em mim mesmo. Cada sensação violenta, Harry, cada tremor que me acomete... Não aguento mais isso. O seu tempo acabou, porque eu já aceitei o que eu sou.

Hermione o olhou... Ah, eu conhecia aquele olhar. Ela estava furiosa! Mas eu sabia que a culpa não era de Malfoy. Hermione tentou arduamente me mostrar o que eu era de verdade — não que eu fizesse algum esforço para prestar atenção, já que ela estava no topo da minha lista de "traidores-bandeados-para-o-lado-da-doninha-albina".

Quanto mais eu ouvia da biologia do doncel, da capacidade miraculosa de engendrar, da sensibilidade nata dos que eram agraciados com esse privilégio e até — e nisso eu fiquei pasmado — de como a minha educação deveria ter sido completamente diferente: eu deveria ter sido educado como Gina, na verdade, pior, pois com os donceles a educação era ainda mais antiquada e severa: cuidar da casa, dos filhos, do marido (argh!), costurar, lavar, passar, respeitar -sempre- a decisão do marido (já que eu perdi completamente a capacidade de pensar por mim mesmo e até de decidir por mim mesmo)... Bem, maiores ficavam minhas ânsias de vômito!

Ora, eu era Harry Potter, o pegador do "Harpias de St. Paul", dentre outros chamamentos – alguns nunca desejados. Será que a vida nunca iria parar de me surpreender com um destino amaldiçoado... Fosse pelas profecias, fosse pela genética? Claro que não, nem uma folguinha para Harry Potter. Eu agora tinha que lidar com esses sentimentos estranhos que me sufocavam, além de ter que implorar — é, implorar!- para que Malfoy entendesse que tudo isso, ah, era demais pra mim. Ele tinha que me ouvir!

_Draco, por favor... – ouvir minha própria voz sair temerosa e ressentida gerava apenas mais raiva. Por Circe! Será que nunca mais conseguiria me expressar como o bruxo que eu era? Eu tentava ser educado, já que assim Draco me ouviria. Contudo, meu inconsciente me sabotava. Talvez, bem lá no fundo, uma parte de mim não quisesse nem cogitar a possibilidade do que eu tentava pedir.

_Não serei mais condescendente. Lembre-se das condições que nos trouxeram a esse momento, Harry. Você não está cumprindo o seu dever. Você não está nem tentando!

Dever? Dever ele disse? O que aquele oxigenado achava que era o meu dever? Deixar que ele fizesse o que quisesse comigo? Não! Nunca! Eu nunca perdoaria Sirius por isso, nem Hermione, nem os Weasley. Todos me traíram.

_Meu dever?! Ora seu... Maldito! Você sabe que eu não escolhi isso! Eu prefiro morrer...

A dor que eu vi ganhar aqueles olhos acinzentados doía em mim também. Eu sabia bem todos os transtornos que causei, desde que caí daquela maldita vassoura. St. Mungus, Sra. Weasley, Sirius, Snape e Draco... Hermione me contou, com riqueza de detalhes, que a minha saúde chegou a um ponto crítico. Inclusive, explicou demoradamente o porquê de uma menstruação (quando é que eu poderia imaginar passar por isso em minha vida?) num doncel ser tão arriscada, já que indicava um profundo desequilíbrio em nossos organismos.

Ah, Hermi e os livros. Podia-se contar com ela para saber de tudo, mas será que ela encontrou algum livro que possa ajudá-la a entender como eu, de verdade, me sinto? Os sacrifícios foram grandes, sei disso e não sou ingrato. Mas a viver o que eu agora viva, a sentir o que eu agora sentia... Ah, eu preferia mil vezes que um dos Avadas de Voldemort tivesse funcionado.

Malfoy se moveu rápido. Eu soube que tinha ultrapassado o limite tênue e que minha segurança estava comprometida. Pude sentir em segundos as mãos grandes e elegantes de Draco, envolvendo e apertando meu rosto. Machucou mesmo e as marcas ficariam nas minhas bochechas por um tempo, denunciando a minha falta, evidenciando o quanto eu era inadequado para o aristocrata a milímetros de distância. Eu era bom nisso: irritar o sonserino! Anos de prática levam sempre a perfeição, tão simples como o resultado dos treinos no quadribol.

_Não se esqueça de quem você é, nem de quem eu sou. Se você valoriza tão pouco a sua vida, esse é um problema seu. Apesar do seu desejo suicida, eu não vou deixar que todos os sacrifícios feitos tenham sido em vão. Não vou deixar você morrer, nem se tornar a prostituta de ninguém! Vá para o quarto, Harry. Mandarei um elfo para...

Um elfo?! Ah, o alarme soou alto na minha mente e o pânico me invadiu. Só podia significar que eu realmente estava perdido.

_NÃO! NÃO ACEITO ISSO! — e por que, por Merlin, eu voltei a chorar?

_Ora, o que você não aceita encheria uma vasta enciclopédia, não? Dobby! – e Dobby me encarou tristemente, pois, a criaturinha sabia que quem o contratara fora Malfoy. Ele teria que fazer e-x-a-t-a-m-e-n-t-e o que o "senhor" determinara. – Leve Harry e faça o combinado. E não me olhe assim, Potter! Se continuar a me desrespeitar, juro por Merlin: coloco você sob uma imperius!

Enquanto Dobby me arrastava pela ampla sala, ainda pude ver Hermione escondendo o rosto com as mãos. Como eu resistia, aparatamos já dentro do quarto nupcial, o quarto que eu mais temia naquela mansão gigantesca. Bem, temer é pouco, eu tinha horror, horror completo, pois sabia que dali eu só sairia com a minha vontade vertida em cacos.

Fui empurrado a contragosto para o banheiro. Esmurrei o que pude, até me agarrei à porta, mas o que era eu, um mago sem magia, contra um elfo doméstico? Dobby se cansou de me fazer sossegar com palavras. Paralisado por um feitiço, fui despido e conduzido à banheira, que se enchia de água quente e levemente perfumada. Fazia tempo que não tomava banho numa banheira. Por quê? Simples: eu detestava olhar para o meu próprio corpo. Desde que acordei do coma mágico, identifiquei que meu corpo sofrera mudanças ainda mais acentuadas, mudanças que eu detestava.

Antes eu percebi algumas mudanças, principalmente no último ano de escola, o primeiro ano depois da terrível guerra contra Voldemort, no qual todos nós voltamos à Hogwarts, para terminar nossos estudos. Eu não queria, mas Sirius praticamente me obrigou. Eu era maior de idade segundo as leis bruxas, mas quis fazer a vontade do meu padrinho. O engraçado é que eu não tinha tomado muita consciência de como eu estava ficando diferente fisicamente. Acho que aquele último ano da guerra, toda aquela tensão de viver escondido, de acampamento em acampamento, de plano mal elaborado a fugas fantásticas do Gringotes, bem, eu não pude focar meu pensamento em mais nada além de Horcruxes e profecia! Acabei deixando a mim mesmo de lado.

Mas quando cheguei a Hogwarts, ah, bum! Os outros — e os olhares dos outros e o falatório dos outros — fizeram com que eu começasse a olhar pra mim mesmo de forma diferente. Eu percebi que estava ficando mais parecido com minha mãe. Meu cabelo mudou, meus traços ficaram mais suaves, não tinha nada em meu rosto que chegasse perto a uma barba — na verdade, notei que em outras partes menos visíveis do meu corpo, as coisas ficavam parecidas com o rosto, ou seja, não havia nada! E o que existia, ou caía simplesmente, ou afinava, terminado como uma fina penugem, quase imperceptível. E o meu cabelo? Nem me lembro mais de quantas vezes eu precisei jurar, que não estava usando nenhum recurso mágico ou trouxa para deixá-lo menos revoltado. Os sinais estavam todos lá, mas eu não me dei conta.

Fisicamente, eu não cresci mais nada e Ron não perdia a oportunidade de me sacanear. E meu corpo, no geral, por mais que o exercitasse feito louco para ganhar mais massa muscular, simplesmente continuava muito parecido com o de Gina, famosa pelas curvas. É, eu tinha sido agraciado com curvas! Até minha voz, segundo Hermione na época, não mudou muito, mantendo o tom mais suave. Por outro lado, meus sentimentos estavam sempre à flor da pele. Ficava até imaginado Malfoy me apelidando de Maria-Chorona-Potter!

Malfoy... Malfoy era um caso particular de obsessão. Hermione vivia me dizendo que era mais que obsessão, mas nunca admitiria isso! Malfoy era minha obsessão, porque eu vivia preocupado com uma possível ida dele para o lado dos comensais renegados, ao menos era o que eu tentava dizer a mim mesmo, quase como se entoasse um mantra de autoconvencimento. Eram leituras falsas, hoje sei. Eu aprofundei essas leituras equivocadas dos meus sentimentos, tanto quanto meus poderes bruxos também se aprofundaram.

Foi uma tarefa hercúlea, mas contive essa cascata de sentimentos toda dentro de mim, enganando a mim mesmo sobre o que eu realmente sentia, física ou emocionalmente. Eu me convencia de que nada estava acontecendo e não procurava Madame Pomfrey, quando era acometido por estranhas dores no baixo ventre e numa série de outras ocasiões, nas quais ocorriam alterações irreversíveis na minha natureza. Terminei a escola, fui jogar quadribol — sob mil maldições de Sirius, que não queria esse futuro pra mim — e fui muito feliz, até cair daquela maldita vassoura. Compreendo hoje, tão claro quanto à água da banheira, os sinais estavam mesmo todos lá.

Dobby me vestiu e me deixou sobre a cama. Faltava só o laço pra presente, não? Era impossível parar de chorar... Eu não queria... Quando acontecesse, quando Draco exigisse o que já era seu desde o fatídico vínculo marital, ah, seria o meu fim. Eu não teria mais como fugir.

Bem, desde que fui para Malfoy Manor, Hermione procurou deixar bem claro que minhas opções de mudar a situação atual eram nulas. Como toda e qualquer sabe-tudo, Hermione pesquisou a fundo a doncelaria e numa das tentativas de me fazer entender o que estava acontecendo comigo, ou num dos meus ataques de grosseria intragável, ela deixou escapar sem querer uma informação realmente preciosa: havia uma possibilidade de “aprisionar a natureza donceliana”, nas palavras dela.

Essa luz no fim do túnel me levou ao céu em instantes e eu a obriguei a explicar, detalhadamente, o que tinha insinuado. O olhar que me lançou foi mais que intenso, além das palavras duras que usou:

_Você vai me prometer, Harry Potter, que ouvirá apenas. O que descobri não se aplica a você, ou melhor, não se aplica ao seu caso. Na verdae, gostaria que não se aplicasse a caso nenhum... Em hipótese alguma, você vai falar disso com alguém, entendeu? Bem, Severus me ajudou a compreender melhor o “SignaverisCrescite– e eu fiquei furioso com ela por primeiro falar com Snape e não comigo -, mas é algo tão cruel, Harry, que é impensável.

_Do que você está falando, Hermione? Há mesmo alguma chance de eu deixar de ser doncel? Porque, se houver, não importa a “crueldade”!

Pensei que ela fosse me bater, tamanha a carranca.

_Harry, entenda: você NUNCA deixará de ser um doncel. Você nasceu assim!

Eu devo ter parecido tão triste e desesperado que, mesmo irritada comigo – não sem motivo, já que meu comportamento tinha sido o pior nas últimas semanas -, fui rodeado num abraço apertado e cheio de carinho. Ah, assim era a minha amiga. Apertou seus braços ao redor de mim e me confortou. Mas eu não desisti.

_Tudo bem, Hermione. Eu não serei mais tão, como é que vocês me chamam? Ah, sim: TRASGO POTTER – e ela riu. – É, eu ouvi... Por favor, me conta: o que é “SignaverisCrescite”***? É um feitiço?

_Sim e não. É um feitiço de magia escura, mas também requer poções complementares, sangue, entrega não consentida e a participação de um dos pais biológicos. Pelo que entendi, com a participação do pai e da mãe, os efeitos podem durar uma vida inteira, desde que o doncel alvo do feitiço se case com uma mulher e mantenha uma vida de “varão”, nos termos do próprio feitiço.

_Entrega não consentida?

_Sim, Harry. Estupro, violência sexual... Basicamente, os pais entregam o filho doncel, antes da segunda fase do ciclo se iniciar, a um terceiro. Esse terceiro estupra o doncel, com o consentimento dos pais dele e na presença deles, Harry. É bárbaro! Li relatos de que era comum até o pai ser o próprio violador. Nessa “entrega”, os pais...

_Chega, Hermione – eu não consegui mais ouvir. Minha nova sensibilidade, patético eu sei, não suportou ouvir mais.

_Desculpe, Harry, desculpe.

_Como é que podem fazer algo assim? É horrível? Os próprios pais? Eu... Eu não entendo. Pensei que os donceles fossem desejados, não odiados.

Hermione me deu um beijo barulhento na testa e cariciou minha bochecha.

_Eu te disse que era cruel – e me olhou novamente de forma bem dura. – Os donceles são sim desejados, mas algumas famílias não gostam de tê-los dentre seus membros. São preconceituosos, pois não entendem o quanto vocês são magníficos.

_E, dá certo? Esse feitiço que não é só feitiço... Essa coisa grotesca?

_Bem – e ela me avaliou de forma professoral -, ao que parece, a natureza delicada do doncel não aflora, devido à extrema violência e ao poder do feitiço. Por isso, a grande dádiva da procriação fica selada, aprisionada, dentro do doncel, mbora ainda exista. Mas não temos muitas informações sobre casos desse tipo. Ah, esse feitiço é obviamente proibido por lei – e já imaginando o que eu ia perguntar. – E não, Harry, eu não encontrei nenhum outro feitiço do gênero. Nem pretendo procurar. Não há nenhuma maneira de mudar quem você é, Harry Potter.

Portanto, segundo ela, eu não tinha opções viáveis, a não ser que me arriscasse a virar, como Draco deixara claro, a prostituta de alguém. Por que logo eu tinha que ser um doncel? Por que os bruxos tinham essa obsessão com os donceles? Será que prazer sexual era mesmo assim tão vital, tão importante, a ponto de que se destruísse a vida de alguém, a minha vida?

Eu tentei convencê-la de que tal feitiço talvez existisse. Poderíamos procurá-lo juntos. Eu só precisava de mais tempo... Ah, Draco tinha que me dar esse tempo. Ele me devia isso!

_Esse seu olhar não me engana, Harry. Desista... Não é possível mudar a sua natureza. Sem Draco, estaríamos em apuros aqui!

Lembrar dessa conversa só piorava a situação. E foi impossível segurar a nova onda de choro que me dominou. Ainda sob o feitiço de Dobby – o muito eficiente feitiço do elfo certamente só seria desfeito com a ordem de Draco –, eu nem conseguia rasgar a roupa ridícula com a qual fui vestido. O que Voldemort diria se me visse agora, hein? “O herói Potter preso num feitiço petrificante lançado por um elfo doméstico... Patético, Potter!" E então, a porta abriu e não era Doby... Nem Hermione. Era ele, o meu algoz. Se fosse Voldemort, ah, eu teria até ficado feliz.



***SignaverisCrescite” = algo como Selo Fecundo (créditos: oráculo Google Tradutor”)

Notas finais
Acabei de alterar algumas coisas e postando!!!
Espero que gostem de mais um pouquinho das minhas insanidades.
Próximo capítulo em breve!
Obrigada pelos comentários. Adoro-os e respondo sempre.