Submisso
3 Capítulo 3 - Na Escuridão
Notas iniciais
Esse cap é curto. Espero que gostem.
Divirtam-se.
Capítulo 3 – Na Escuridão
"A mui antiga e nobre Casa dos Black” e seus cômodos vazios faziam os gemidos lamuriosos do quadro da purista Walburga Black ecoar livremente, enchendo os ouvidos de qualquer um que ali estivesse. No momento, contudo, o casarão do Lago Grimmauld, nº 12, visto por muito poucos, evidentemente, não era ocupado por ninguém além de um elfo velhíssimo, monstro.
Sirius fora impedido de continuar a viver sozinho. O motivo? Bem, a vida do padrinho de Harry mudara muito nos últimos tampos. Há alguns meses, antes de toda aquela comoção iniciada com Harry caindo da vassoura, Sirius começou a sentir estranhos calafrios, em repentinos momentos tinha o corpo tensionado por uma sensação de vigilância extrema, em outras ocasiões era acometido por um profundo mal-estar, sendo obrigado a esvaziar todo o conteúdo do estômago no banheiro mais próximo... Ah, e isso foi só o começo.
As inexplicáveis mudanças no seu organismo foram acompanhadas por pesadelos violentos, que o sacudiam a noite e o faziam acordar assustado, ensopado do próprio suor e completamente confuso. Tão terríveis eram os pesadelos que tinha medo de dormir, embora, por mais que tentasse, não conseguisse, de fato, se lembrar bem dos pesadelos que tinha. Lembrava-se apenas que eram de um completo horror. Em alguns momentos, julgava reconhecer os rostos dos desconexos flashes que a mente lhe lançava, mas em outros achava que devia mesmo estar ficando louco, afinal, nem em pesadelos lembraria da própria família, uma família que o odiava por não ser mais um dentre os puristas-adoradores-das-artes-das-trevas!
Desde o casamento de Harry, todos foram categóricos: Sirius não ficaria sozinho no Largo Grimmauld, não estando doente. Portanto, os Weasley o receberam sem pestanejar, felizes de poder ajudar. E nada pareceu se alterar muito, ao menos não até aquela fatídica semana, na qual, a despeito dos atentos cuidados de Molly, a doença evoluiu agressivamente.
O que realmente acometia Sirius? Bem, ninguém conseguia descobrir. Dores no peito, taquicardia, confusão mental, em especial devido aos intensos pesadelos (dos quais o padrinho de Harry não recordava nunca) e um sem fim de outros pequenos detalhes não indicavam um norte, logo, era impossível traçar um diagnóstico. Nem St. Mungus conseguiu. Ventilava-se a possibilidade de Sirius ter sido vítima de uma maldição, mas qual maldição?
Hermione e Snape procuravam incansavelmente, em especial porque o hospital de referência no Mundo Bruxo já tinha desistido do caso, assumindo que –provavelmente- Black ou fora vítima de uma desconhecida maldição ou sofria do excessivo contato com os dementadores, criaturas escuras das quais nenhum dos louváveis medibruxos se atrevia a chegar perto.
O quarto que fora dos gêmeos era agora ocupado pelo padrinho de Harry. O espaço era limitado, mas aconchegante, bem diferente do Largo Grimmauld, nº 12, disso Sirius tinha certeza. Gostava de estar na Toca... Gostava da companhia dos ruivos e também de Hermione que, por sinal, desde que irrompera no quarto, desatava um falatório sem fim sobre a teimosia de Harry e a brutalidade de Draco. Ai, ai... Quando a garota entenderia que teimosia era o segundo nome de Harry e que Draco, mesmo se nascesse novamente, nunca conseguira ser de verdade bruto.
_Hermione, respire, sim? – recomendou o homem, coçando de leve o queixo. Os pelos faziam falta, mas a decisão de deixar o rosto limpo foi melhor. Já estava com tantas falhas na barba que era melhor retirar tudo de vez. – Não adianta ficar desse jeito. Ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Bem, pelo visto mais cedo.
_Sirius, você não está compreendendo. Draco ficou realmente furioso dessa vez. Harry extrapolou todos os limites. O pior... É que eu acho que a culpa é minha.
A voz de Sirius estava enfraquecida e sua pele pálida, destacando as olheiras arroxeadas sob os olhos.
_Eu comentei com Harry sobre o SignaverisCrescite, nem cheguei a contar tudo, porque ele me impediu, mas eu sei que era sobre isso que ele tanto tentava falar com Draco. Ah, eu não sei. Saí de lá o mais rápido que pude. Trouxe até o livro com as informações do feitiço – e apontou a mesinha de cabeceira, na qual deixara o livro velhíssimo repousando. – Não quero deixar vestígios que possam levar a mais brigas... Ai, será que Harry está bem?
Sirius riu o mais alto que seu cansaço permitiu.
_Ha, ha, ha! Claro que ele está bem... Draco é um Veela. Um Veela protege o parceiro, sempre. Draco nunca faria nada que pudesse prejudicar o seu “bem mais precioso”! Bem, existem raras exceções, mas eu espero que meu afilhado não seja tão tapado a ponto de atiçar a raiva do marido dele! Não é nada agradável lidar com um Veela furioso. – e foi tomado por um bocejo tão profundo e longo, que a garota mudou o foco do falatório.
_Ainda lutando contra o sono, Sirius? Sabe o que eu acho disso, não?
_Sim, sim... Eu sei. Mas se você tivesse os pesadelos que eu tenho, faria como eu e desistiria de dormir.
_Sirius, ninguém pode “desistir de dormir”. É fundamental para a sua recuperação! E, pelo que eu entendi, você não se lembra muito dos pesadelos, não é?
_E dou graças a Merlin por isso! Esses pesadelos nem se parecem pesadelos... Eles me deixam mal, muito mal...
_E a sua magia, ainda falhando?
A pergunta ficou no ar, devido ao som da porta se abrindo. Era Molly, que adentrou o quarto com uma bandeja repleta de comida leve, adequada a um lanche para duas pessoas. Hermione foi até ela e ajudou.
_Hermione, querida, Ronald está lá embaixo aguardando a sua companhia para o lanche – e sorriu ao ter o rosto beijado pela carinhosa nora, ao mesmo tempo em que recebia um olhar tenso oriundo da cama. – E pode ficar tranquilo, já que essa deliciosa comida não é só para você. Pode entrar, Severus.
A visão de Snape segurando uma bolsa, parado a porta, foi desalentadora. O que poderia vir de bom dessa “visita”? Ah, nada, é claro. Caiu na conversa de Snape antes e Harry nem lhe dirigia a palavra agora. Tá. Tudo bem, vai... Ele sabia que não havia outra solução, mas ainda assim era prazeroso culpar alguém. Especialmente se esse alguém fosse o seboso.
Vestido de negro da cabeça aos pés, o homem mais parecia a encarnação do agouro. A presença dele intimidava e constrangia Sirius, pois o mesmo não queria ser visto tão “enfraquecido”. Detestava demonstrar debilidade diante dele.
_Black – começou o pocionista num intuito de ser agradável e finalmente entrando no cômodo, ao que, afundando mais na cama, Sirius só grunhiu.
_Bem, vou deixá-los – e num toque de varinha, fez surgir uma pequena mesa, próxima a cama, na qual depositou a bandeja, antes de deixar o cômodo de vez.
O silêncio entre eles se manteve até Snape se sentar na mesmíssima cadeira que Hermione utilizara instantes atrás, praticamente colada à cama, e disposta de frente à porta do minúsculo banheiro (um banheiro que antes não existia no cômodo, mas que foi nele disposto para maior conforto do hóspede). Depois de avaliar o cômodo, parando alguns segundos o olhar sobre a mesinha de cabeceira, na qual afastou o livro e depositou a bolsa, sem nem ao menos perguntar, direcionou parte da comida ao hóspede, obrigando Sirius a sentar na cama e começar a comer, ainda que a contragosto, intercalando o bolo com um copo de leite morno – Snape foi categórico ao lhe proibir o café.
_Molly avisou sobre a piora dessa semana, por isso estou aqui – soltou friamente, entre um gole de café e um pedaço de bolo de caldeirão.
Black o ignorou olimpicamente, mantendo sua atenção em terminar o generoso pedaço de bolo e a fruta que Snape decidira que ele deveria comer. Terminada a refeição e ficando livre da xícara e do prato, sentiu o olhar intenso do homem queimando-o com intensidade. É, não adiantava, ele precisaria mesmo levantar o rosto e encarar o seboso.
_O que quer, Snape? Sim, eu piorei. Mas eu tenho piorado e melhorado nos últimos meses, logo, não é nenhuma surpresa.
_Definitivamente, mas – e segurou o rosto de Sirius pelo queixo, levanto-o um pouco mais – você está diferente – a mente avançando em mil direções ao mesmo tempo, uma faísca de entendimento iluminando a escuridão. – Por que mudou tão drasticamente a aparência, Black? Tamanho é o seu desejo de chamar a atenção?
Com uma tapa – que para Snape devia ter parecido uma leve carícia, tamanha a debilidade – Sirius afastou aquelas mãos grandes de si.
_Poupe-me! Chamar a atenção?! Por favor... Eu continuo o mesmo de sempre, idiota. E não coloque suas mãos em mim de novo.
Snape riu. Oh, oh... Possível cataclismo se aproximando.
_Será impossível atender ao seu doce desejo, pois vou examiná-lo, Black. Afinal, foi para isso que Molly me chamou.
_Como?!
_A sua doença afetou também a sua audição? Vou examiná-lo, eu disse. Tire a roupa e vista isso – e num balançar de varinha, a bolsa se abriu, expulsando uma bata branca, de tecido bem fino.
_Você não vai me examinar, não mesmo!
Snape riu novamente. Oh, oh... Cataclismo iniciado.
_Ah, eu vou sim – e agarrou o rosto de Sirius novamente, sem machucá-lo, mas com força suficiente para mostrar quem mandava. – Você é o paciente aqui, Black. Sou credenciado para o exame, sendo muito melhor que os tolos de túnica do St. Mungus. Agora... Troque logo de roupa. Pare de ser tão manhoso, Almofadinhas – e analisou bem o rosto de Sirius, por mais um a vez, antes de soltá-lo. Será que ninguém tinha reparado nos pequenos detalhes?
Apesar da mente privilegiada, o pocionista nem sequer cogitou a possibilidade que agora se vislumbrava diante dos seus olhos atentos. Acompanhou Sirius na escola, ah sim, como acompanhou. Perseguiu e foi perseguido por ele, uma rivalidade nada saudável, como a existente entre Draco e Harry. Trocaram muitos palavrões, socos e azarações nos tempos de Hogwarts. O vislumbre que tivera!!! Ah, adoraria comprová-lo... Teria um prazer profundo ao transformar a “possibilidade” em “realidade”.
Sirius era a corporificação do choque. Já Snape regozijava a cada nova expressão aturdida do antigo rival de escola. Era pura diversão vê-lo tão confundido – e é claro que parte da confusão vinha da “doença”-, adicionada a uma gigantesca dose de vingança.
_Eu...
_Você o que, Black?
Molly adentrou o quarto mais uma vez, agora acompanhada de Madame Pomfrey. A enfermeira chegara há pouco, também tendo sido chamada pela ruiva.
_Olá Sirius... Oh, Severus! Que bom que já está aqui. Pensei que Molly não iria conseguir avisá-lo a tempo.
_Ora, Promfrey, quando o assunto é a saúde dos nossos e, em especial, quando não se pode confiar em St. Mungus... Nada é obstáculo!
_Por que não posso ser examinado em St. Mungus?
Molly o olhou de forma consternada e respondeu sem esperar muito.
_St. Mungus não demonstrou... “Interesse” em atendê-lo, Sirius – a matriarca Wesleay nitidamente trocou a palavra que pensava, na verdade, St. Mungus não aceitou atendê-lo. – Alegaram que não há mais nada que possam fazer, não no seu caso. Também não acho conveniente fazer outra viagem... Você procurou médicos franceses, alemães e até turcos. Nenhum deles deu respostas. Eles não chegaram nem perto. E as viagens te cansaram tanto... Essa semana foi particularmente difícil, não? Você mal dormiu, querido. A magia está instável, o humor também, as suas dores aumentaram e...
_Molly, creio ter encontrado um indicativo hoje sobre o que o senhor Black está passando. Portanto, o quanto antes começarmos, mais rápido poderei confirmar minhas suspeitas.
_Então vou deixá-los sozinhos para que comecem – e eliminou com magia todos os vestígios do.
Papoula Pomfrey deixou a maleta que trazia, muito parecida com a de Snape, próxima a porta fechada pela dona da casa. Depois dirigiu-se a cama e, ninguém sabe de onde, reuniu força suficiente para levantar um Sirius realmente surpreso da cama.
A debilidade era visível com o simples ato de levantar. Com ajuda, Sirius foi conduzido ao banheiro, voltando de lá pouco depois, vestido com uma bata branca de tecido bem fino, que não deixava nenhum obstáculo a imaginação.
_Sempre eficiente, professor. Sempre eficiente. Já está tudo preparado.
Apenas nesse momento Sirius viu a maca hospitalar, uma daquelas bem altas, praticamente idêntica às da ala hospitalar da antiga escola de magia e bruxaria, disposta no centro do reduzido quarto. Da cama na qual ele estivera deitado até pouco tempo não havia nem sinal, certamente reduzida por um feitiço.
_Tudo bem, Sirius?
_Sim, Papoula, tão bem que não vejo necessidade de um exame.
A enfermeira o conduziu e obrigou a sentar na maca, uma expressão visivelmente divertida no rosto. Conhecia bem a relação conturbada que os dois homens tinham desde a escola.
_Ora Sirius, nem você acredita nisso. Vamos começar, Serevus?
Snape, já de varinha em riste, começou a murmurar feitiços, sendo acompanhado atentamente por Pomfrey. Os exames prosseguiram por uma hora naquela cantilena de perguntas e repostas entre os dois, excluindo o paciente da maior parte dos comentários.
A monotonia fez o sono vencer a batalha que vinha travando com Sirius há pelo menos duas noites. O moreno cabeceava, quando um tom mais intenso nas falas dos seus examinadores quebrou a repentina tranquilidade.
_Percebeu, não? Por mais cruel que pareça, todos os sintomas indicam que estamos no caminho certo.
_É cruel de verdade... Bem, eu concordo com você, mas precisaremos de uma análise mais detalhada e interna, Severus.
_E é o que faremos. Black, Black... Vamos Black, abra os olhos.
Enquanto Pomfrey ajustava a maca para os novos exames, Severus prosseguiu com as perguntas.
_Acordado?
_Sim... E então? Já acabaram?
_Ainda não. Precisamos de algumas informações, Black. Há quanto tempo os pêlos do seu corpo, exceto o cabelo, é claro, estão em processo de queda? E o seu cabelo? Quando se tornou macio e brilhante... Antes ele era bastante desgrenhado.
_Por que quer saber isso? Ora, Papoula, para que esse suporte?
A enfermeira firmava magicamente os suportes na parte inferior da maca e lhe sorriu de forma tranquilizadora.
_Responda as perguntas, Sirius. Severus e eu precisamos dessas informações para te ajudar.
_Ah, bem... Eu não sei com certeza. Acho que desde o casamento de Harry, talvez antes.
_E a sua magia? Molly mencionou que a sua magia está instável.
_Está como Molly disse, Snape.
Mas não era apenas a magia dele que estava instável, o próprio Sirius demonstrava cansaço e irritabilidade. Pomfrey o mirou de forma analítica, depois acenou suavemente para Snape e este, a tempo, pôde impedi-lo de descer da maca.
_Deite-se e coloque os pés aqui.
-Como?! – e só aí entendeu o porquê daqueles suportes. Poderia estar confuso, mas não burro. Era o mesmo tipo de aparato que usavam para examinar Harry (e tb nas bruxas). – Vão me submeter a um exame ginecológico? Ora, eu sou um bruxo! – berrou furioso, inclinando novamente o corpo para fora da maca, ao que sentiu novamente a mão pesada de Snape o empurrar de volta, evitando que fugisse bem depressinha dali.
_Ouça bem, Black: nem Papoula nem eu estamos brincando. Todos os sintomas e reações físicas que o senhor tem experimentado se encaixam numa possível doncelaria. Portanto, ajudaria bastante ter a sua colaboração nisto. Advirto-o...
_Você vai me advertir! Ha, ha, ha...
A discussão que se seguiu então foi digna de folhetim. Insultos e quase socos trocados levaram Papoula a uma decisão drástica. Um feitiço silencioso e pronto: Sirius desacordado, amparado agilmente por um Snape atordoado.
_Papoula!
_Aff, Severus... Um desmaius não vai matá-lo. Já um diagnóstico incompleto, bem, isso sim pode ser muito ruim.
Snape ergueu Sirius nos braços e o colocou sobre a cama. Era evidente que estava bem abaixo do peso. Em instantes, o leve tecido que cobria o corpo do doente foi completamente removido.
_O corpo visivelmente se alterou. Quadris mais largos, sem nenhuma pelugem – e ao apoiar as pernas de Sirius nos dois suportes, concluiu – tampouco aqui. Vamos começar, Severus?
O pocionista estava tão tomado pela imagem de Black completamente exposto e a sua mercê, que apenas resmungou qualquer coisa. Precisou se concentrar muito para fazer o exame, o que o desconcertou: quando, em sua vida inteira, ficou suscetível a qualquer outra pessoa, como estava agora?
Quase duas horas depois, não havia mais dúvida alguma: Sirius era mesmo um doncel, alvo do SignaverisCrescite, o único herdeiro vivo de Walburga e Orion Black e que fora mantido na escuridão pelos próprios pais, vítima de uma violência indescritível.
_Ah, Papoula. Vou chamar Molly e Arthur. Teremos que lidar com isso e ajudá-lo, por mais que eu não seja um particular fã do pulguento. Não poderemos deixa-lo mais tempo na escuridão;
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