Submisso

1 Capítulo 1 - Revelações


_Não, não e não... Você não entendeu, Harry? Quantas vezes tenho que deixar isso claro? Não acredito que seja tão obtuso!

_Mas Draco, eu...

_Mas nada, Harry. Chega! – Não pude reprimir o tom de voz mais elevado. – Suas desculpas já me cansaram — e pronto! Lá estavam elas, aquelas lágrimas que o grifinório nunca conseguia evitar, afinal, com a condição dele vinham muitos hormônios incontroláveis. Bastava falar com mais aspereza e o resultado era imediato: choro sentido e um bico emburradíssimo, às vezes seguido da mudez mais enervante de toda a Londres bruxa. – Quer saber? Estou esgotado de verdade... Não adianta mesmo tentar fazer você mudar, não de forma mansa e serena. Eu não vou mais esperar. Já está na hora. Na verdade, já passou da hora. Eu deveria ter seguido meus instintos e não ter cedido aos pedidos dos Weasley. Foram meses, Harry, meses. Não estaríamos nesse impasse agora, se eu não tivesse sido tão solícito aos seus caprichos. Sabe, tenho mantido tudo preso em mim mesmo. Cada sensação violenta, Harry, cada tremor que me acomete... Não aguento mais isso. O seu tempo acabou, porque eu já aceitei o que eu sou.

Hermione me encarou com um olhar tão cruel que rivalizaria com o do próprio Lorde das Trevas. Mas ela sabia que não podia se meter, não agora, não naquela situação. Ela sabia que eu estava no meu direito, afinal, eu fui paciente, cortês e muito cuidadoso. E se aquele tipo de comportamento ainda estava presente em Harry, ela também era responsável.

_Draco, por favor... – ouvir Harry pedir com tanto pesar na voz fazia meu coração acelerar em protesto. Mas eu não podia mais ceder. A hora de retomar o controle havia chegado. E nisso eu era bom: controlar!

_Não serei mais condescendente. Lembre-se das condições que nos trouxeram a esse momento, Harry. Você não está cumprindo o seu dever. Você não está nem tentando!

_Meu dever?! Ora seu... Maldito! Você sabe que eu não escolhi isso! Eu prefiro morrer...

Morrer? Morrer ele disse? Quando tudo o que foi feito até agora visava salvá-lo? Todos se mobilizaram... Semanas sem nem dormir direito, devido à saúde precária do moreno... Não acreditava estar ouvindo palavras tão cheias de ingratidão. Em segundos, eu tinha aquele rostinho emburrado entre as minhas mãos. Meu agarre foi forte, sei disso, mas era segurá-lo com um pouco mais de ímpeto ou azará-lo. Preferi a primeira opção.

_Não se esqueça de quem você é, nem de quem eu sou. Se você valoriza tão pouco a sua vida, esse é um problema seu. Apesar do seu desejo suicida, eu não vou deixar que todos os sacrifícios feitos tenham sido em vão. Não vou deixar você morrer, nem se tornar a prostituta de ninguém! – e o soltei, arrependendo-me em seguida das marcas avermelhadas deixadas naquela pele aveludada. – Vá para o quarto, Harry. Mandarei um elfo para...

_NÃO! NÃO ACEITO ISSO! — e lá estavam as lágrimas, descendo livremente pela face agora maculada.

_Ora, o que você não aceita encheria uma vasta enciclopédia, não? Doby! – e o elfo apareceu – Leve Harry e faça o combinado. E não me olhe assim, Potter! Se continuar a me desrespeitar, juro por Merlin: coloco você sob uma imperius!

Hermione tapou o rosto com as mãos, visivelmente decepcionada porque, mais uma vez, suas tentativas de controlar o gênio do moreno não tiveram resultados positivos. Era engraçado ver a cena. Há um ano, quem diria que algo assim poderia acontecer? Quem diria que teria Harry ali, preenchendo o vazio daquela rica casa?

Lembro-me bem de quando meu padrinho apareceu na lareira e, com os pés ainda deixando cair um pouco de pó de flu, adentrava a nobre sala de Malfoy Manor com uma expressão ida. Ele sabia que eu estaria em casa, afinal, desde o final da guerra, há arrastados dois anos passados — o tempo passava devagar quando as perdas eram irreparáveis -, excetuando o tempo da universidade, eu praticamente vivia como um eremita, sufocado pela dor da perda súbita de meu pai e pela doença que acometera minha mãe em poucas semanas.

A rica decoração foi mantida. Talvez numa vã tentativa de mantê-los ali, junto a mim, os meus pais de gostos refinados. Cada pequeno detalhe foi mantido, afinal, a fortuna dos Malfoy não fora arrebatada pelo ministério graças a minha atuação como espião para a Ordem da Fênix... Ah, mas eu daria cada galeão de bom grado, se esse fosse o preço para tê-los, os meus pais, ainda vivos. Por Merlin, eu venderia minha própria alma.

Contudo, a vida era cheia de desejos não realizáveis, assim como de surpresas agradáveis. Foi assim que, no primeiro ano desse contexto pós-guerra, com os últimos comensais remanescentes sendo caçados e encarcerados em Azkaban, todos voltamos à Hogwarts. "Todos" significa: meu padrinho, os demais professores que, assim como Severus, miraculosamente sobreviveram, os Weasley completos — é, o mundo bruxo poderia respirar aliviado: não houve nenhuma baixa Weasley na Grande Guerra Bruxa! Ainda teríamos um alarmante índice de superpopulação ruiva no Reino Unido, devido àquela procriação desenfreada -, a sabe-tudo-Granger — cada vez mais sabe tudo — e o Santo Potter! — cada vez mais irritante e decididamente mudado.

Foi um ano estranho. Já éramos maiores de idade pelas leis bruxas, mas retornamos para concluir nosso curso e prestar os EXTASIS. Não que, de fato, fosse relevante para mim. O fiz para cumprir o último desejo de minha mãe, já doente então. Eu fora instruído pelo meu pai, desde os sete anos de idade, a como administrar as empresas da família, interpretar leis de forma favorável aos nossos interesses, manipular a imprensa para não nos desprestigiar, adular possíveis sócios e ser firme com quem merecia... Enfim, num mar de chatice extrema, eu aprendi bem a como ser um Malfoy. Lucius ensinou muito bem ao jovem filho o que era ser um Malfoy. Só não me preparou para o que seria proferido por Severus naquela fatídica noite. Na verdade, ninguém teria conseguido, nem a Granger.

De fato, aquele último ano em Hogwarts foi como adoecer lentamente, para então renascer. Na época, eu não entedia bem o motivo, mas algo se transformou em mim naquele tempo e nunca mais voltei a ser o que era antes. Não estou querendo parecer um lunático, não... Eu hoje sei, exatamente, o que aconteceu comigo, mas foi um conhecimento que só obtive depois de muito desespero. Cheguei a procurar Madame Pomfrey, imaginando que poderia estar à beira da morte, ou algo mais trágico. Mas a senhora nada me disse de relevante e nem pareceu acreditar muito, quando eu quase precisei jurar que não estava tomando nenhum tipo de poção para o crescimento dos músculos!

Bom, como ficou evidente, parte da minha mudança foi física: eu cresci mais uns bons dez centímetros, chegando a quase 1,90 m de altura, e aí estacionei (graças ao bom Merlin). Meu corpo ficou bem mais forte e definido, embora eu não estivesse praticando exercício algum — o quadribol não me encantava como antes — e todos os meus sentidos ficaram mais aguçados. Fiquei mais envolvente, se é que era possível, e ainda mais bonito — sem querer ser convencido, sou apenas realista. A outra parte dessa estranha mudança foi mais profunda, pois atingiu em cheio os meus sentimentos, alterando também minhas atitudes. Por baixo da aprendida frieza Malfoy, ah... Eu era um mar revolto!

Era estranho — e ainda é — lidar com os rompantes quase viscerais de fúria, de ciúme, de desejo, de adoração, dentre outros, que me acometem. E meus poderes bruxos se incrementaram também, rivalizando com os do menino-que-sobreviveu-testa-rachada-Potter, para quem, curiosamente, o pós-guerra teve um efeito mais que positivo. Harry desabrochou, digamos assim.

Comparando-nos, eu diria que minha virilidade recrudesceu, ainda que mantendo os elegantes traços Malfoy, e a do Santo Potter minguou, revelando um rosto de traços leves e delicados, cujos lábios eram mais que desejáveis e olhos mais que hipnotizantes, de um verde ainda mais intenso. Até o ninho de cobras que era aquele cabelo foi amenizado, dando margem a algumas más línguas dizerem que Harry estava usando generosas quantidades da poção "cabelo perfeito", vendida em várias lojas da rede BIS — Bruxa Sempre Impecável.

Completando as mudanças, Potter não cresceu muito mais e, praticamente, manteve os 1,70 m. Sua aparência ficou mais frágil, eu diria, ganhando uma carinha de "proteja-me, por favor", embora... Ai de quem tentasse fazê-lo! Eu tenho certa experiência quando o assunto é a capacidade impressionante de Harry em lançar azarações e contrafeitiços! Sem falar daquele vocabulário chulo, certamente proveniente da convivência com tantos ruivos Weasley. Apesar das muitas imperfeições, o grifinório era uma perdição. Há muito eu tinha abraçado minha bissexualidade, na verdade, poucos bruxos e bruxas não o faziam. Admito que, desde o quarto ano, com toda aquela publicidade do torneio tribruxo, comecei a sentir interesse por Harry.

Interesse é pouco, diria Severus sem vergonha nenhuma, bem na minha cara. Ele me acusou — diversas vezes — de estar caidinho, de quatro mesmo, pelo Santo Potter. Mas eu não admiti, nem pra mim mesmo, a minha "insanidade potteriana" até o último ano. Ah, Harry realmente me colocava a mil. Lembro que foram dias terríveis, porque a minha recente instabilidade emocional tornava cada sentimento mais e mais intenso.

Então, antes mesmo do último ano de escola acabar, minha mãe faleceu, e o assunto Harry Potter foi acomodado num lugar bem guardado da minha mente. Eu prossegui em Hogwarts por ela, mas ainda me pergunto se foi mesmo “por ela”. Obtive excelentes qualificações, ficando atrás apenas da Granger, o que não era, na verdade uma derrota. Até um trasgo sabia que o primeiro lugar do ano em pontuação e honras seria dela.

Curioso mesmo foi termos ficado amigos, a sabe-tudo e eu. E isso se deveu, principalmente, ao momento em que escolhemos nossas profissões, muito antes desse fatídico último ano de educação bruxa nos enlouquecer com os EXTASIS. Nossas inúmeras conversas sobre as primeiras matérias que estudaríamos em medimagia, em especial as que vinculavam os bruxos a toda sorte de seres mágicos, as doenças bruxas que não atingiam os trouxas e vice-versa, os avanços na aproximação na medicina trouxa e da medimagia... Ah, foi uma época memorável!

Eu sempre soube que administrar empresas não era a minha vocação, embora o fizesse tão bem como se fosse um dom natural. Lucius realmente foi um ótimo professor. Mas não era pra mim! E mal chegávamos ao último mês de aulas, quando conversei seriamente com Severus sobre vender as empresas Malfoy e reestruturar o capital para novas áreas de investimento. Meu padrinho sempre soube de minhas verdadeiras pretensões profissionais, por isso foi cáustico comigo:

_Desfaça-se apenas das empresas de pequeno porte. Para as demais, nomeie administradores competentes, posso ajudar nisso, caso deseje. Não deve se desfazer de tudo pelo que Lucius tanto trabalhou em vida, Draco. Você é um jovem por demais apto e competente. Conseguirá conciliar o Malfoy administrador, que seu pai incutiu em sua alma, com sua carreira como medibruxo, que ganha força em seu coração. Entrelaçará ambas... Sei disso, meu querido afilhado.

O ano terminou e eu fiz exatamente como Severus me aconselhara. Comecei meus estudos em medimagia, tendo em Hermione um porto seguro. Passei até a suportar a ideia de que uma bruxa tão brilhante quanto Hermi — é, eu também a chamo assim — pudesse, de verdade, cair de amores por um Weasley. O foco nos estudos distraía minha mente dos desejos aguçados voltados a certo moreno, de quem minha inusitada amiga falava eventualmente. Eu procurava não deixar muito evidente minha curiosidade quando Hermi começava com o: “ai, Draco, Sirius está furioso com Harry. Imagina! Recusar o convite para trabalhar no ministério. Nunca vi Sirius tão irritado”, dentre outros tantos pedacinhos de informação que eu ia colhendo, juntando e guardando dentro de mim.

Desde então, minha vida tem se passado assim, ainda que, vez por outra, eu seja acometido por uns súbitos estágios de desinteresse e afunde em nostalgia. Nesses momentos de fragilidade mental, eu geralmente, admito — e me envergonho -me afundo em autopiedade, chafurdo em memórias tristes e felizes, meio a meio, pois muitas delas são memórias da minha infância, que me alegravam por reavivar a presença dos meus pais, mas me entristeciam por ressaltar que eles não estão mais comigo. E claro, além disso, sempre há mais: POTTER. Exatamente num desses momentos de apatia, Severus apareceu de súbito na lareira e foi adentrando a sala, já falando de forma urgente.

O comportamento do meu padrinho era, no mínimo, estranho. Onde estava o pocionista frio e calculista? Definitivamente, não ali. Eu tentei acompanhar seu raciocínio, mas as palavras seguiam uma lógica tão capenga, que precisei segurá-lo e recostá-lo no sofá. Lembro-me bem que a língua afiada dele só se tornou mais compreensível depois de duas doses de firewhisky. Ah, a nossa conversa ainda está marcada a fogo na minha mente...

_Um acordo, Draco. Um acordo Potter-Malfoy. O Acordo! Um acordo que seria cumprido caso, numa das gerações Potter, houvesse... Ah, por Merlin, Draco! Nem o próprio Lorde desconfiava dessa informação. Maldito Dumbledore... Manteve tudo muito bem guardado. Remus e Sirius estão enlouquecidos com a novidade. Agora tudo faz sentido, não? Toda aquela comoção do último ano em Hogwarts... Foi tardio e inesperado. Agora entendo as variações, o que não significa que ele entenda ou aceite. Na verdade, o maldito arrogante está há eras bruxas de compreender a natureza da sua condição, o extremo perigo que corre, o quanto é cobiçado e o quanto precisamos resolver logo essa situação. É urgente, Draco!

_Padrinho, o senhor, mesmo sendo brilhante, não está fazendo sentido. Não consigo acompanhar o que diz. Eu estou no escuro aqui. Ilumine-me. Acordo? Potter-Malfoy, você disse? O que os Potter têm em comum com os Malfoy? O que foi tardio? De quem, por Merlin, o senhor está falando? — e o olhar que Severus me lançou foi mais que revelador: foi uma sentença. Eu conhecia bem aquele olhar, pois aprendi a associá-lo a desgraça iminente.

_Draco, o que você conhece sobre a sua herança genética?

_O que minha herança genética – nem continuei a questionar, não sob o olhar fulminante de Severus. Limitei-me a responder. – Bem, padrinho, nos primeiros meses de faculdade eu descobri tudo. Lucius e Narcisa nunca me contaram, talvez não tivessem achado relevante, mas sei que contaram a você, certo? — e ao que o pocionista assentiu levemente, prossegui. – Minha ascendência veela despontou no último ano de Hogwarts, tendo se concluído posteriormente. Eu sei de todas as responsabilidades que essa condição me impõe. Tenho tudo sob controle, padrinho. Embora, devo admitir, pensei que os genes veela dos Malfoy já tivessem sido completamente "diluídos" ao longo do tempo. Há gerações não ocorria o nascimento de um herdeiro como eu dentre os Malfoy.

Snape concordou comigo e riu. Riu? Ah, não... Era o início do final dos tempos! O primeiro portal do inferno, ou algo mais cabalístico.

_Tem visto a sua amiguinha sabe-tudo nas últimas semanas, Draco?

_Ora, não. Mandei uma coruja a Hermi, por sinal reclamando a presença dela. Ela respondeu há poucos dias e me contou que está ajudando a senhora Weasley com algum doente, mas pra que tanta preocupação, eu me pergunto? Aqueles ruivos se curam tão rápido... Tão rápido quanto tem filhos.

_Ai, ai, ai... Draco. Nem tudo do Lucius abandonou você, não é mesmo?

O rosto divertido de Severus estava realmente me assustando. E então ele começou a explicar cada pequeno detalhe da herança genética veela — como se eu já não soubesse -, assim como o fato de eu já estar na idade de estabelecer o vínculo marital. Obviamente, eu ri, arrotando todo o meu recém-adquirido conhecimento mais aprofundado sobre os veela, destacando a ausência de qualquer bruxa ou bruxo com uma assinatura mágica compatível com um Malfoy.

Os veela realmente dependiam do vínculo marital para equilibrar os seus estrondosos poderes, mas havia relativa liberdade até a assinatura mágica do herdeiro genético encontrar a assinatura mágica adequada. Era algo único, literalmente mágico e muito raro de acontecer de forma espontânea. No geral, os veela se casavam com um pretendente que mais se aproximava da tão almejada compatibilidade, pois encontrar o escolhido ou escolhida era raro, quando não impossível de ocorrer!

_Severus, eu cursei Criaturas Mágicas I e II, empatando em notas com a Granger. Já sei tudo isso, caro padrinho. Por que não diz logo o que veio me dizer e acaba com esse suspense?

_Granger não foi cuidar de nenhum Weasley. Ela foi ajudar Moly a cuidar de Harry Potter que, há quase três semanas, sofreu um mal súbito. Sirius estava fora do país cuidando da saúde. Há algo realmente deixando Sirius doente, mas ainda não conseguiu ser diagnosticado. Bem, isso não convém ao nosso assunto atual. O que importa é que Black chegou há poucos dias, Remus está enrolado com a nova gravidez de Tonks e então, Moly e Arthur estão atuando como “enfermeiros”. Os poderes dele atingiram níveis inumanos, Draco. Foi durante o treinamento para a final do campeonato de quadribol do Reino Unido. O garoto colapsou numa explosão de magia. Disseram que não foi nada agradável vê-lo despencando da vassoura.

O coração me denunciou. Deve ter batido tão alto que alargou o sorrisinho sarcástico de Snape.

_Ah, mas não se preocupe. Potter foi tratado em St. Mungus e é claro que o "Harpias de St. Paul" abafou o caso, afinal, ninguém quer levar um belo processo por exaurir jogadores em treinos excessivos. Ele foi... Estabilizado e, pouco depois, conseguimos a remoção para a casa dos Weasley. Por isso Granger está lá.

_Estabilizado? Ele não está curado? Potter vive caindo de vassouras, mas sempre se recupera rápido.

_Não dessa vez. A assinatura mágica de Potter está descontrolada, Draco. Você sabe o quão isso é perigoso para um bruxo. Ele não pode usar magia e está vulnerável. Em St Mungus reviraram o garoto de trás pra frente e nada foi encontrado. Harry entrou em coma mágico, devido ao descontrole de poder. E assim permanece, em coma, mas estável. Remus conseguiu uma transferência para a Toca, desde que o herói fosse mantido sob cuidados médicos 24 horas por dia. Já na casa da Moly, fui chamado e colocado a par da situação. Madame Promfey está acompanhando Harry, desde a saída de St Mungus. Juntei-me a ela e em parceria reanalisamos todos os exames feitos, fizemos novos, enfim... Fizemos até o impossível, eu diria, mas não achamos nenhum motivo para o desequilíbrio... Ao menos não até dois dias atrás.

A essa altura, eu já estava afundado no sofá, apavorado com o relato, preocupadíssimo com a saúde de Harry, furioso porque fui deixado de fora de todos os acontecimentos e me servindo de outra dose de firewhisky.

_O quadro continua estabilizado, mas identifiquei um sangramento.

_Uma hemorragia? Ora, Severus, então o diagnóstico de St. Mungus está errado então. Vocês tem que levá-lo de volta agora e parar de brincar de medimagia. Deve ser alguma fratura, com uma consequente perfuração de...

_Draco, respire! Não é nada disso. Não há fraturas, nem órgãos perfurados, antecipando suas palavras. Tudo isso foi descartado, seu tolo... Sabe muito bem das minhas credenciais na área médica, assim como as de Papoula Promfrey. O sangramento tem outro motivo. É por isso que estou aqui — e como eu nada falei, Severus continuou a contar o motivo de sua inesperada visita. — Quando concluímos o porquê do sangramento, fizemos uma varredura nos arquivos médicos de Potter, desde o seu nascimento, mas nada foi encontrado. Então procuramos os Dursley, os desagradáveis tios trouxas, que em nada auxiliaram, ao menos não sem o uso do legimenes. Quando descobri a informação tão desejada, tudo se conectou. Draco, Potter passou por duas longas semanas de febre altíssima, tremores e muita dor pelo corpo, uma "fase crucial", de sete para nove anos...

_Não é possível... Sete para nove anos? Ora, Severus, você só pode estar brincando!

Nem foi preciso ouvir mais nada. Outro assunto muito estudado no início do semestre na faculdade de medimagia: as incríveis capacidades que eram idolatradas no mundo da magia: a existência de donceles. Um grupo seleto de magos de altíssimo poder, que tinham a capacidade de gerar vida. Disputadíssimos pelas grandes famílias bruxas e, inclusive, alvo de legislação garantista e protetora no mundo bruxo, os donceles geravam bruxos de alto nível de magia.

Os primeiros indicativos da donceleria se apresentavam ainda na infância, entre sete e nove anos, e, posteriormente, na passagem dos dezessete para os dezenove anos. Primeiro, na infância, o doncel tinha uma transformação abrupta – e interna – do corpo, passando por maus momentos, geralmente de uma a duas semanas de febre, tremores e muita dor, algo agonizante, segundo os livros mais cotados sobre o assunto. Era apenas nesse momento que os pais descobriam a doncelaria de seus filhos.

Posteriormente, próximos à fase final do ciclo, os traços físicos externos se “afinavam” e ficavam mais frágeis, indícios de que o organismo do doncel estava preparado para o vínculo. Caso o mesmo não fosse realizado imediatamente (1 ano, mais ou menos, pois dependia de cada doncel), que até esse momento poderia ser feito com qualquer bruxo ou bruxa, iniciava-se o terceiro estágio de desenvolvimento: o doncel só poderia ser vinculado a um bruxo cuja assinatura mágica fosse compatível com a sua. Para tanto, o organismo donceliano bloqueava a própria magia e a mesma somente seria liberada quando o vínculo com o parceiro ideal fosse, completamente, estabelecido.

Era a partir daí que ocorriam inúmeros conflitos. A vontade do doncel não era mais ouvida e os possíveis pretendentes queriam "testar" sua assinatura mágica no doncel em questão. Como fazer isso? Bem, num doncel já menstruando (esse era o motivo do sangramento) um simples feitiço não era suficiente. A troca de fluidos corporais era necessária e, dificilmente, os bruxos se contentavam com um beijo de língua. Por isso, leis severas foram postas em prática, o que diminuía os abusos, mas nem de longe acabava com os mesmos. Afinal, reza a lenda que nenhum tipo de prazer sexual chega perto do prazer obtido ao se ter sexo com um doncel.

_Então... Oh, Merlin! Pelo que diz, Potter corre perigo.

_Não mais. Há duas horas eu descobri quem é o bruxo compatível com ele. Como eu disse, há um acordo Malfoy-Potter.

_O que você quer dizer exatamente, padrinho?

_Ora, Draco, você não quer que eu desenhe, quer? Há gerações, os Malfoy e os Potter têm assinaturas mágicas compatíveis. Daí o acordo. O seu veela deseja Potter, ele é o seu escolhido. E Potter, por sua vez, precisa de você, ou então será preciso um exército para proteger um bruxo desejável e sem magia de uma multidão de pervertidos — meu silêncio foi sepulcral, mas Severus tinha que colocar a cereja no topo do bolo. — Ah, é claro. O acordo é oficial, completamente em conformidade com as leis civis bruxas. Está registrado na Sessão de Contratos Mágicos Privados do Ministério da Magia. Curiosamente, a cópia dos Potter está bem guardada no antigo gabinete de Dumbledore. Acredito que a cópia dos Malfoy esteja em meio aos documentos arquivados nos cofres do Gringotes.

Perdi a conta das doses de firewhisky ingeridas depois da revelação bombástica. Severus sentou ao meu lado e pegou na minha mão, chamando minha atenção.

_Percebe como o destino lhe presenteou? Entregou a você o seu amor de escola, numa bandeja de prata. Você precisa cumprir o acordo, Draco. A notícia sobre o mal súbito de Potter não ficará na surdina muito tempo. E temo que até mesmo os obliterados do Profeta conseguirão somar dois mais dois.

_O que quer que eu faça? Harry me odeia... Como quer que eu vá até lá e o faça se vincular a mim? O vínculo completo envolve entrega sexual, Severus. Antes de isso acontecer, é mais fácil o Lorde das Trevas retornar.

Mais uma vez, eu encarava um sorriso no rosto de Snape.

_Draco, Potter está sem magia. Na verdade, ele está inconsciente, em coma mágico devido ao bloqueio abrupto e ao desequilíbrio que gerou o sangramento. Já planejamos tudo...

_Planejamos?

_Sim, Sirius e eu. Você é um veela, Draco. E Harry é o seu parceiro ideal. Sirius autorizou que o vínculo fosse realizado mesmo com ele inconsciente — e tamanho foi o horror no meu rosto que rapidinho veio o complemento. — Não o vínculo completo, mas ao menos o vínculo marital oficial, a cerimônia jurídica e mágica em si. Faremos o vínculo e vocês vão morar juntos. Assim, a assinatura mágica de Harry se estabilizará aos poucos, impossibilitando o assédio de futuros intrometidos. Até o fluxo menstrual será encerrado, pois o vínculo fará o organismo do doncel gradativamente retornar ao equilíbrio. Depois, temos até um ano inteiro para você arrastá-lo para a cama, caro veela. Embora, eu realmente duvide que você seja capaz de esperar mais que um par de semanas. O seu veela é forte. Não vai resistir muito tempo tendo Harry por perto. Tampouco Harry resistirá, Draco. Ou você realmente acredita que toda aquela rivalidade que ele nutre por você, não é embasada num profundo desejo? Numa paixão tórrida? Converse com a Granger sobre isso. Ela sim concorda comigo.

Víbora manipuladora. Até o padrinho de Potter foi envolvido naquela fala macia de Snape. Como sabia disso? Ora, aquele "planejamos" era pura falácia. Snape planejou. Sirius foi só manipulado (Oh, Merlin, o padrinho de Harry devia mesmo estar muito doente). Quando, em sã consciência, o senhor Sirius Black, o melhor padrinho do mundo, aceitaria que ele, um Malfoy, se vinculasse a seu idolatrado heroizinho-salvador-do-mundo-mágico Potter, sem que o mesmo estivesse sequer acordado? E Granger? Snape conseguiu convencer até Hermione?

_Draco, por favor, não há tempo. Temos que ir agora.

_Você está louco? O que disse é um absurdo! Eu não posso fazer isso. Ele vai me odiar. Só de pensar que Harry vai me odiar, dói, Severus, dói muito... Não entende? Não entende o que é ser um veela? – O olhar de Snape continuava irredutível, então, tentei outro argumento. – E como Sirius concordou com tamanha insanidade? Você deu a ele alguma poção especial?

_Ha-ha-ha! Deveras engraçado, Draco. Tenho meus métodos para convencer os demais do brilhantismo de meus argumentos, sem poções, sabe disso. Nesse caso, contudo, nem foi preciso demasiado esforço. Harry não está bem. O vínculo é necessário para a saúde e a segurança dele. Desculpe a comparação, mas como o próprio Ronald disse, desde que Harry esteja bem e a salvo dos ataques de pervertidos, não importa muito se o vínculo for com a "doninha albina". Por que tem esse apodo tão peculiar, afilhado?

Recordo-me de ter amaldiçoado Olho-tonto e de ter xingado, coisa rara em mim. Pouco depois, fui arrastado numa aparatação e a Toca surgiu diante de meus olhos. Não conhecia o lugar até então, mas, segundo Herminione, a Toca havia mudado muito, desde a promoção — merecida, nas palavras da minha amiga – do senhor Weasley. Com maiores vencimentos e com os filhos crescendo e se tornando responsáveis por si mesmos, a estrutura do recanto mais aprazível dos ruivos mudara. Realmente, em minha humilde opinião, não era mesmo ruim de todo. Parecia aconchegante... Parecia ser mesmo um lar. Coisa que faltava a Malfoy Manor.

Quando entrei, Moly, a matriarca Weasley, me agarrou num abraço urgente e sufocante. Eu não estava acostumado com toda aquela proximidade. Nem minha mãe jamais me abraçara daquela forma. A senhora ruiva tinha lágrimas nos olhos. Era alívio. Eu reconhecia sentimentos, todos os veela o faziam. Alívio somado a agradecimento e admiração, pois todos ali sabiam que eu ainda tinha uma escolha. Eu poderia não me vincular a Harry e prosseguir minha vida, sem que minha herança veela a tornasse dependente do meu parceiro ideal, do meu escolhido.

A empatia era um dom de qualquer veela. Usamos esse poder para saber como agir. Seduzir fica fácil, quando se sabe exatamente o que o seu alvo está sentindo, não? Alívio, agradecimento, admiração... Só esperava não sentir ódio em Harry. Bem, o risco era alto. E valia o sacrifício, se o resultado fosse salvá-lo, não só da morte, mas de um destino cruel... Nunca conseguiria viver imaginando o moreno transformado num escravo sexual.

_Que bom que veio, querido. Vamos, vou levá-lo até ele. Sirius está lá e em poucos minutos teremos Remus e o juiz que oficiará a cerimônia — e assim eu me deixei levar para dentro da casa acolhedora, cheia de móveis velhos com recordações familiares que eu, ah, que eu nunca mais teria.

Pude sentir os olhares tensos de todos os Weasley presentes — eles são muitos, eu não saberia dizer quais, mas o pobretão estava lá, e a única mulher ruiva além de Moly também, Ginevra.

_Severus será a sua testemunha, querido. É necessário alguém próximo e que conheça bem o ritual. Creio que muita magia será utilizada para trazer meu menino de volta daquele sono.

_Quem será a testemunha de Harry?

_Eu, Draco — respondeu Hermione, os cabelos mais desgrenhados que nunca ao abrir a porta do quarto e me receber com um caloroso abraço. Nossa, eu nem senti que subimos dois lances de escada. Eu estava mesmo muito nervoso.

Aproximei-me da cama e o vi. A pele estava muito pálida e ele parecia mesmo estar debilitado. Sirius apertou a minha mão e também me agradeceu. Mas eles não entendiam... Eu era quem deveria estar agradecendo. Eu o teria pra mim. Harry seria finalmente meu. Quando tudo aquilo acabasse, eu o levaria comigo e faria dele o que eu bem entendesse. Ah, o veela ambicioso ganhou espaço em minha mente. Devo ter corado de maneira violenta, ao ter o descaramento de segurar a mão dele, como se fôssemos velhos amigos.

Hermione sorriu e me aproximou ainda mais dele. O ritual começou e eu, mais uma vez, não me dei conta das ações dos demais. Harry, mesmo débil e deitado inconsciente naquela cama, eclipsava tudo ao meu redor. A magia me envolveu. Forte, furiosa, dolorosa... Mas eu aguentei, dando tudo de mim mesmo para trazê-lo de volta. Eu só podia soltá-lo, quando ele abrisse os olhos. E foi o que eu fiz. Olhava para Severus e Hermione, ambos mais enfraquecidos que eu. Meu veela se revelou completamente. Era tamanho o poder que o quarto se iluminou. Meu veela queria Harry desesperadamente. E eu também.

Eu o desejei e amei, desde o quarto ano, e prossigo assim. O veela veio depois e tornou mais intenso meus sentimentos. Ouvi alguns gritinhos eufóricos, quando meu poder se expandiu, numa nova lufada de energia. Senti o vínculo se formando e então, no que me pareceram horas depois, ou minutos, quem sabe, olhar para Harry fazia o tempo parar, o verde-esmeralda finalmente nos acalentou a alma, tirando-nos das sombras.

Afastei-me e Madame Pomfrey — onde ela estava até aquela hora? — fez algumas perguntas a um desnorteado Harry. A voz macia de Papoula o acalmou e as pálpebras voltaram a fechar.

_Bem, precisamos examiná-lo, Severus. Saiu do coma mágico, mas sua assinatura continua débil. Ele vai dormir agora, dormir apenas. Não há mais riscos de não acordar em algumas horas. Harry precisa recuperar suas forças – e quando eu estava me retirando do quarto junto dos demais – senhor Malfoy, o senhor deve permanecer por perto. Especialmente nessa primeira semana, não deve deixar essa casa. Deve manter a maior proximidade possível de Harry.

_Já providenciamos tudo, Draco querido — lá ia Moly ganhando terreno. Mas quer saber? Eu adorei a mãe do pobretão. — Seu elfo enviou suas malas e você dormirá aqui mesmo, junto com Harry. Agora, enquanto Papoula e Severus o examinam, tenho um delicioso jantar nos esperando. Tem se alimentado corretamente? Você está muito magro, querido. Precisa se alimentar bem — e foi hilário ver os olhos do meu padrinho revirarem em desaprovação ao tratamento tão íntimo.

_Senhora Weasley, obrigado. Agradeço muito a hospitalidade. A senhora é um doce e um exemplo de anfitriã — eu sabia rasgar uma seda e a mulher adorou o elogio. Elogio sincero.

O clima amigável não durou tanto quanto esperávamos. Uma semana depois do vínculo, Harry já tinha forças suficientes para questionar o porquê de toda aquela preocupação com ele e, principalmente, o que eu, Draco Malfoy, fazia dentro da Toca? Pior: o que eu, Draco Malfoy, fazia dormindo no mesmo quarto que ele? O horror completo: por que eu, Draco Malfoy, estava sendo tão bem tratado pelos Weasley, incluindo Ronald? Admito que salvar a vida de Harry contou pontos positivos pra mim, em todos os sentidos.

Até os guinomos do jardim da Toca correram do grito que o salvador do mundo mágico proferiu, quando soube que era um doncel e que se tornara, sem poder de escolha, Harry James Potter Black Malfoy (manter o sobrenome Black foi ideia de Sirius e eu não pus objeções). Lembro que precisei me controlar para não correr até o quarto e abraçá-lo. Ele chorou muito, um choro sentido e cheio de dor. Ele se sentia traído, de verdade. Foi terrível pra mim, mas sei que não fui o único a padecer naqueles primeiros dias, pois a raiva do moreno se multiplicava e atacava a todos, sem compaixão.

Sirius empalideceu naquela segunda semana, pois o afilhado o culpava. Contudo, como um valente grifindor, ele seguia de cabeça erguida. Eu optei por dormir na sala, sabia que o vínculo não cederia e meu veela estava tranquilo. A situação ficou menos tensa quando ela, a brilhante Granger, minha Hermi, entrou no quarto do "Trasgo Potter" — ninguém conseguia nem falar com ele -, lacrou a porta por dentro e teve uma daquelas conversas dela, sérias e lacerantes, que despedaçam as suas crenças e te fazem enxergar a realidade, ainda que no processo algumas lágrimas de sangue sejam derramadas.

Ah, meu adorado sofreu. Sofreu muito naqueles últimos dias na Toca. E cada uma das lágrimas dele, meu veela chorou também. Ficou acertado que Hermione viveria conosco por um tempo, pois Harry definitivamente precisava de muitos ensinamentos na área da doncelaria, mas era evidente que o que Harry mais desejava era pegar a vassoura e voar depressinha para o campo de quadribol do "Harpias de St. Paul".

Quadribol, por sinal, era algo praticamente fora de cogitação para um doncel (poucos times os aceitavam), em especial um recém-vinculado. A assinatura mágica ainda estava se equilibrando e a magia continuaria bloqueada até o vínculo ser completado, o que, pelos ânimos, não seria tão cedo.

Na hora de irmos para a nossa casa — Malfoy Manor não era mais apenas minha agora -, só então, ele me olhou bem nos olhos. Não havia nada ali além do meu temor se tornando realidade: Harry Potter me odiava.

Notas finais
Mereço tomates? KKKK