Notas iniciais
Olá, colegas. Enfim, desenrolaremos como tudo começou entre Merlin e Nicolas. Voltaremos à infância dos dois...

As mãos de Safira já não percorriam o meu corpo. Mas ainda estavam em minha mente. Aquilo foi, no mínimo, constrangedor e estranho. O que uma mulher adulta poderia querer comigo. Será que ela pensa que eu sou mais velha. Tudo bem que eu tenho idade para consumir álcool. Só não tenho permissão. Minha mãe é do tipo que fica neurótica com sonhos. Quando sonhou que eu bebi, fiquei de castigo automaticamente. Não me deixou sair de casa por uma semana. Nem para escola.

Então, por mais que eu quisesse, não poderia evitar o fato de que eu precisava primeiro das satisfações de Nicolas antes de aceitar bebida de uma pessoa quase desconhecida. É engraçado como isso faz pouco sentido quando se é criança. Sempre confiamos uma nas outras. Mesmo quando a outra conta a mentira mais absurda, ficamos perplexos e, deslumbrados, queremos mais. Não nos importamos com isso. Não nos importamos com a verdade até que nos ensinem a importância dela.

Recordo-me do terceiro ano do fundamental, quando mudei de escola, como se fosse um dia desses. Eu tinha oito anos. Era uma escolinha perto da faculdade onde minha mãe lecionava Língua Portuguesa. Eu sempre era a primeira a chegar porque minha mãe não poderia atrasar no trabalho. Aproveitava aqueles minutos para dormir. Quando a aula começava, a professora acordava-me. E quando abria os olhos, assistia todos rindo bastante, mas não comigo. Eles riam de mim. Adoravam fazer isso. A princípio, eu acreditava que era bom fazer os meus colegas de turma rirem, até perceber que eles não gostam de aproximar-se no intervalo de quem é zoado.

A minha vida passou a ser frustrante a partir de então. Nos intervalos, eu levava meu lanche para o banheiro e comia-o dentro da cabine. Às vezes, também levava algum pincel permanente e aproveitava para escrever verdades e mentiras sobre meus colegas na porta da cabine do banheiro. Alguns choravam e eu divertia-me. Era interessante.

Eu estava a ponto de tornar-me uma criança mais perversa que todos eles senão fosse pela chegada de um novato no segundo semestre. Ele não era como as demais crianças da turma. Era solitário, assim como eu. A diferença era que ele falava sozinho. Eu estava tão acostumada com a confortável distância que havia entre mim e os demais que não me dei o trabalho de fazer amizade com ele também. Além disso, de estranheza, bastava a minha.

Certo dia, a professora resolveu passar uma prova de matemática em dupla. Eu era péssima em matemática, além de ser péssima para fazer amigos idem. Até que a professora obrigou-nos a sentarmos juntos para fazer a prova. Éramos os únicos sem amigos. Todo mundo tinha uma dupla. Nós não.

Sentar ao lado dele seria como um pedido para piorar minha falta de popularidade na escola. Logo, eu recusei sua aproximação. A professora olhou-me feio e eu gritei ao relutar. Depois do meu agudo e desesperado grito, o barulho de conversas paralelas aleatórias, na sala, cessou. Os únicos ruídos que restava ali era o do ar-condicionado e o soluço de Nicolas que, por sua vez, saiu correndo da sala, deixando suas coisas ali mesmo. Ninguém disse nada. Aqueles olhares estavam atentos a mim. Não queriam rir, pela primeira vez. Senti-me péssima, sobretudo pela forma como todos olharam-me seriamente. A professora respirou fundo e pronunciou:

– É melhor que você vá resolver isso agora, Merlin – apontou para a porta, bufando.

Fui atrás dele. Ele estava sentado no corredor, cabisbaixo, com o rosto colado aos joelhos. Ele estava chorando baixinho. Eu tive vontade de chorar junto, pelo monstro que eu fui. Eu nunca tinha sido tão fútil como fui naquele dia. Sentei-me no chão, do seu lado, e confessei:

– Eu agi sem pensar. – Ele afastou-se amedrontado, fazendo pesar ainda mais o meu sentimento de culpa. – Eu adoraria que você voltasse para sala e fizesse a prova de matemática comigo! – forcei um entusiamo sacudindo-o pelos ombros.

Tudo o que ele fazia era evitar-me. Ao menos, ele estava parando de chorar. Vi a professora espiando por uma brecha da porta mal fechada da sala. Senti-me pressionada a pensar numa estratégia melhor, já que conversar com ele não estava resolvendo nada. Subitamente, lembrei do lanche que a minha mãe havia comprado no caminho de casa para escola. Era bolo de chocolate e suco de uva. Eu não conheço ninguém que recusaria isso. Além disso, Nicolas era gordo, tinha quase certeza que ele ficaria babando e logo aceitaria.

Apressada, levantei-me e fui para a sala. Esquecendo-me que a professora está atrás da porta, abro-a levemente forte, fazendo-a cair no chão assustada. Todos, exceto ela, quebraram aquele clima tenso e silencioso da sala com altas gargalhadas. Fiquei aliviada com isso. Pelo menos eu não era mais o centro das atenções como há cinco minutos atrás. Agora era ela que, dessa vez, nem tinha como encrencar-me, uma vez que estava sendo imprudente ao desviar a atenção da sala de aula durante a prova para espionar como eu estava saindo-me com o Nicolas.

Irritada, a professora ignorou complemente todos os alunos, inclusive a mim. Peguei minha lancheira que estava embaixo da mesa e logo saí, sem qualquer imprevisto. Retorno aonde ele está sentado e sento de frente para ele.

– Todo mundo gosta de bolo... – Ofereço meu bolo ainda na embalagem.

– Tem cobertura? – Pergunta, evitando levantar a cabeça a toa.

– É claro! – Sorrio com a esperança de que ele vai aceitar, mas ele não reage. – E tem granulado colorido também! – Acrescento desanimada.

Rapidamente, ele olha para o bolo e saliva.

– Também tenho suco. – Tiro a minha garrafa térmica cor-de-rosa da lancheira. – É de uva! – Balanço a garrafa numa tentativa de provocá-lo a aceitar imediatamente.

– É o meu favorito! – Confortando-me, ele deixa escapar um sorrisinho.

– É tudo seu. Com uma condição, é óbvio.

– Que mercenária! – Expressa admirado, fazendo-me rir. – Qual?

– Vamos voltar depois para fazer aquela prova. Fechado?

– Fechado! – Ele aceita. – Mas eu posso comer isso tudo mesmo?

– É claro que não! – Ele dá uma gargalhada. – Eu também estou com fome.

Depois desse dia, muitas coisas mudaram. A começar pelo meu boletim. Nicolas era o melhor em matemática. Tiramos um bonito 10. Passamos vários intervalos juntos jogando Pokémon. Eu quase sempre perdia e ficava irritada. Daí, ele perdia algumas vezes propositalmente. Nunca mais fomos tão sozinhos. Tínhamos um ao outro.

Notas finais
Será esse o começo de uma história de amor? Façam logo suas apostas u.u Huahsuahs