Submersa em ilusão
5 Recíproco?
Notas iniciais
Agora, tudo o que tínhamos estava disperso. Eu precisava tomar mais que fôlego, precisava tomar coragem para sair dali à procura dele. Contar tudo o que eu tinha imaginado para aquela noite. Contar sobre quem era todas as poesias românticas que eu escrevi desde que nos conhecemos. Contar que, se eu tiver de culpar alguém, o culpado seria ele, pela forma como agiu gentilmente por todos esses anos.
Quando mudamos mais uma vez de escola e fomos estudar em lugares diferentes, eu senti meus sonhos embriagados por doses e doses de melancolia que a solidão trazia-me como cortesia. Eu sentia a imensa falta de falar com ele, sobre coisas banais ou segredos que ninguém mais poderia saber. Eu sentia falta de saber ao menos como ele estava indo com os compassos da sua nova música preferida. Ele sempre mudava de música preferida. Ficamos distantes. Eu sozinha. Ele nem tanto.
Toda aquela saudade que eu sentia não parecia recíproca. Eu não entendia. Será que eu não era boa o suficiente para ele como ele era para mim? Certo dia, bisbilhotando seus álbuns de fotos no Facebook, vi uma foto dele com uma outra garota com a bochecha encostada na dela. O sorriso dele era enorme ao lado dela. Não era a Laura. Eu nunca quis saber com exatidão quem era ela. Apenas soube subtender o recado. Afastei-me de vez. Seja o que ela fosse, eu já estava remoendo a pior das hipóteses. Exclui ele do meu Facebook e da minha vida. Claro, temporariamente.
Eu estava completamente exausta de estar lá, daquele jeito. Cansada de chorar sozinha outra vez no banheiro. Lá estava eu, chateada com as piores hipóteses que eu mesma criava. Eu não poderia ser mais masoquista que isso. Definitivamente, essa era uma página que eu deveria virar logo, de vez. Olhei no fundo dos meus próprios olhos no espelho, ignorando o rímel borrado, e sussurrei admitindo: “você já passou por essa tempestade uma vez, vai sobreviver outra”. Girei a maçaneta prateada e gelada da porta disposta a largar a teimosia de temer às indiscretas verdades.
Saí do banheiro. A cada passo, mais forte a música vindo do salão tornava-se. Ergui o queixo e prossegui, por mais que eu parecesse ter desmoronado um pouco, uma vez que a maior parte da maquiagem desceu pelo ralo da pia, eu não poderia chegar lá de outra forma senão de queixo erguido. Ao menos por fora, eu deveria parecer forte. O coque do meu cabelo ainda estava relativamente seguro e meu vestido imperceptivelmente amarrotado. No geral, eu parecia bem. Eu estava arrumada.
Era como se o meu coração quisesse sair pela boca. Eu sentia uma enorme vontade de vomitar. Nojento, eu sei! Então vomitaria as palavras, para soar mais sutil. Ele estava sentado na mesa 12. A comida havia chegado. Ele parecia menos tenso e ainda nem havia tocado na comida. Tirei a cadeira para sentar e assistindo àquele prato aparentemente delicioso, não resisti sorrir. Sentei e logo perguntei:
– O que isso, Nicolas? – Seguro os talheres.
– Um saint-pierre com manteiga de laranja! – Apresentou o prato.
– Traduza – pedi, assustada franzindo as sobrancelhas.
– Bem, – ele sorriu tentando encontrar palavras – é agridoce. Você vai gostar.
E ele não havia sido otimista ao dizer aquilo. Nós sempre disputávamos comida. Tínhamos um acirradamente concorrente. Por isso, eu sempre confiava em deixar a entediante tarefa de escolher as refeições para ele. Ele sempre surpreendia-me com isso. Talvez, só tivéssemos começado a noite com o pé esquerdo. Depois da comida, tudo fica bem. Não há como prosseguir mal-humorado depois de um bom prato. Aquele pesadelo, supostamente, estava prestes a acabar.
– Quer que eu a sirva, senhorita? – Perguntou, forçando um estranho sotaque francês, desarmando minha cara amarrada.
– Seria demasiadamente agradável de vossa parte fazer isso – tentei falar da forma mais formal possível, prosseguindo com a brincadeira. –Aliás, eu pensei que você só soubesse falar inglês e russo.
– Aliás, a senhorita equivocou-se – afirmou como se eu não o conhecesse tão bem, mas eu estava certa.
Aquele molho alaranjado fazia-me salivar. Além disso, também havia arroz branco para acompanhar e água. Nicolas não bebia nada que tivesse álcool. Seus pais também o mataria. Eles são judeus fies à tradições. Por sorte, Nicolas, por sua vez, agia como se não levasse a tradição a sério. Mas ele, sem dúvidas, era um bom rapaz. No entanto, para seus pais, ele era um rebelde
– Na dúvida, pedi suco de pêssego para a senhorita. – Entregou-me meu prato.
– O meu preferido?! – Tomei depressa o prato das mãos dele.
Enfim, dei a primeira garfada. Era realmente delicioso e levemente agridoce. Logo mais chegou o meu suco. Não era o mesmo pirata que me indicou o banheiro quem trouxe. Esse era mais sério. Nem cumprimentou nem nada. Serviu e retirou-se. Aliás, eu poderia jurar que ele olhou torto por alguns segundos para Nicolas. Deve ter sido uma impressão equivocada.
– Nicolas? – Chamei-o.
– Pois bem – prontificou de imediato.
– Esse restaurante... Não fica no centro urbano da cidade – observei.
– Na verdade, ele é mesmo muita afastado. Quase ninguém acerta chegar aqui.
– Deve ser por isso que é tão vazio. Não é?
– Não é por isso. Para entrar aqui, você precisa de um convite do dono. – Ele explicou.
– E como você conseguiu um convite do dono?
– Eu sou um dos donos – fiquei pasma.
– Por que nunca me contou isso?
– Foi meu presente de natal, porque vou ingressar na universidade.
– Ah, claro. E vai ser no curso de Música daqui, certo?
– Merlin, podemos conversar sobre isso depois? Estou faminto.
– Eu também. – Sorri.
Jantamos ali, famintos, ao som do piano e violino. Nem conversamos depois disso. Aquele era um belo prato de distração. Percebi então, logo depois de terminar a refeição, que começaram a tocar “A Thousand Years”.
– Ai, meu Deus! – Fechei os olhos e coloquei as mãos no coração de tão apaixonada. – Como eu amo essa música!
– Você amou todas as músicas que tocaram até agora, Mel! – Disse espontaneamente.
– Sim, Nico. – Confirmei o chamando pelo mesmo apelido que dei a ele no terceiro ano do fundamental. – Mas essa é diferente. É da saga crepúsculo!
– É claro... – Lembrou-se e começou a rir.
– Qual a graça?
– Eu pensava que você já havia superado seu amor da adolescência! – Fez apologia à saga.
– Eu nunca supero. – Generalizei indiscretamente.
– Eu vou pedir a conta. – Desviou do assunto.
– Vou ao salão enquanto isso. – Peguei minha bolsa e subi as escadas.
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