Submersa em ilusão
3 O delírio
Notas iniciais
Ainda de frente para ele, tudo a minha volta começou a girar. Eu não passava bem. Não demonstraria isso na frente dele que, por sua vez, continuava ali ainda indeciso e aparentemente despreocupado.
– Vou ao banheiro – avisei e ele nada disse.
Dei de ombros. Desci as escadas do salão a procura do banheiro no andar debaixo. Eu senti o mundo desmoronando em cima de mim. Era como se todas as expectativas começassem a cair diante dos meus olhos e eu estivesse tentando tomar forças para seguir adiante. Meus passos estavam pesados. Eu tropeçava nas verdades que ele supostamente evitou contar-me.
Eu também precisava de um tempo para pensar. Precisava ficar sozinha para recompor-me. Eu precisava encontrar aquele maldito banheiro que nunca parecia alcançar. Um garçom, inusitadamente vestido como pirata, surgiu em minha frente, interrompendo meus passos, perguntou:
– Banheiro?
– Ah, sim – respondi sem graça.
– Siga em frente até a porta com a bandeira cor-de-rosa – apontou a direção.
– Obrigada, obrigada – agradeci agoniada.
Corri na direção apontada e dei graças a mim mesma por não ter escolhido saltos para aquela noite. Abri a porta e entrei desesperada. Dei de frente ao espelho que ficava em cima da pia. Aproveitei que não havia ninguém e tentei encontrar, ali, a paz que almejava para continuar de pé, respirando.
Lavei as mãos e carreguei um pouco de água até meu rosto. Lavei-o também. Borrei a maquiagem, não dando mais a mínima para minha aparência. Ela era o que menos contava naquela hora. Aliás, nem para Nicolas aceitar um segundo beijo ela serviu. Foi perda de tempo.
Eu não estava nervosa, eu estava em pânico! E se fosse mesmo uma doce ilusão? Não, não deveria ser! Mas talvez fosse isso mesmo. Convivemos por tantos anos e ele nunca nada fez. Porque ele não quis! Nunca foi falta de coragem, como eu bem pensava antes. Essas cogitações tiravam-me o fôlego. Eu queria cair e adormecer ali mesmo, só para acordar no outro dia acreditando que era um pesadelo. Um terrível pesadelo.
Onde eu estava com a cabeça de sonhar que um dia eu, justo eu, protagonizaria um conto de fadas. Definitivamente eles não existem! Não é justo que a sociedade pregue ideologias desses contos de fadas perfeitos às crianças. Não é justa tal lavagem cerebral. Assim como também é injusto e perceber que o amor é só é recíproco em uma em um milhão de tentativas. O pior de tudo é ter apenas uma única vida para tentar tantas vezes.
Desde o dia daquele concerto, eu venho tentando convencer Nicolas de que eu posso ser para ele o que ele pode ser para mim. Como ele pode ser tão cego? Ou melhor, fazer-se de cego. Eu não acredito que o amor seja um enigma imperceptível a ponto de ninguém perceber. Quando é amor, qualquer um pode ver.
Antes que eu pudesse concluir qualquer raciocínio e tomar uma decisão, nitidamente, percebo, pelo reflexo do espelho, uma mulher entrando no banheiro.
– Com licença. – Solicitou a pia para lavar as mãos.
Ela tinha mãos delicadas. Não pude deixar de notar também seus anéis e relógio na mão esquerda. Aliás, ele usava joias em todas as partes do corpo. Seu perfume era cítrico e adocicado e causava-me um certo delírio.
Levantei o olhar para identificar seu rosto. Era bonito. Uma pele morena. Cabelos lisos e curtos. Eram bem-comportados, diferentemente dos meus. Eles cobriam parte do lado direito de seu delicado rosto, tornando-a levemente misteriosa. A pequena armação levemente quadriculada de seus óculos também salientavam tal característica. Segundos depois, ela observa claramente, pelo canto dos seus pequenos e negros olhos, meu semblante através do espelho e diz:
– Você não está bem, não é mesmo? – Pergunta curiosamente.
– É só uma cólica... – Minto, evitando olhar em seus olhos.
– Parece mais um coração partido – contrariou.
– Como assim? – Indago desconfiada que ela assistiu a minha quase discussão com Nicolas.
– Ora, ora... Tem lágrimas prontamente dispostas a cair dos seus olhos a qualquer momento – ela conta espontaneamente enquanto enxuga as mãos no secador embutido no parede do banheiro.
– É só uma dor de cabeça! – Disfarço, passando a mão na testa.
– Você mente muito mal – insistiu em contestar minhas falsas explicações.
– Eu o amo tanto... – As lágrimas começaram a brotar nos meus olhos assim que confessei – Que não é possível que tanto amor não seja recíproco – explico incrédula.
– Eu a compreendo, querida... – Ela abraça-me por trás e suas mãos correm da minha barriga ao meu queixo, levando-me a olhar ao espelho – Se serve de consolo, eu estou desacompanhada em plena sexta-feira com umas doses de whisky. É frustrante beber sozinha. Que tal? – Faz um suposto convite diretamente ao meu ouvido, arquiando a sobrancelha descoberta pelos cabelos.
– Não é para tanto, – disse demonstrando desconforto com sua preocupação em enxugar minhas lágrimas com as mãos – não se preocupe comigo.
– Não vou... Se prometer me ligar – afastou-se um passo. Em seguida, tirou do bolso de sua calça de couro preto um cartão, onde constava seu contato e o colocou diante dos meus olhos, oferecendo-me.
– Safira? – Pedi confirmação de seu nome assim que o tomei.
– E o seu? – Nem se deu ao trabalho de confirmar.
– Merlin – Respondo intimidada.
– É diferente. – Fiquei ainda mais sem jeito. – Eu gosto – sorriu e, logo em seguida acenou e deixou-me sozinha no banheiro.
Eu não entendi exatamente as intenções daquela mulher. Será que estava dando em cima de mim? Ela era atenciosa e carinhosa demais para uma desconhecida. Tudo o que eu gostaria que Nicolas estivesse sendo agora. Ainda precisava resolver meus problemas com ele. Tirar a história a limpo. Até que ele dissesse com suas próprias palavras que todo aquele romance que se passava na minha cabeça era ilusão, eu não deixaria de acreditar que era amor.
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