Notas iniciais
Olá, colegas! Que tal mais um personagem enigmático para nortear as decisões de Merlin, agora?

Ainda de frente para ele, tudo a minha volta começou a girar. Eu não passava bem. Não demonstraria isso na frente dele que, por sua vez, continuava ali ainda indeciso e aparentemente despreocupado.

– Vou ao banheiro – avisei e ele nada disse.

Dei de ombros. Desci as escadas do salão a procura do banheiro no andar debaixo. Eu senti o mundo desmoronando em cima de mim. Era como se todas as expectativas começassem a cair diante dos meus olhos e eu estivesse tentando tomar forças para seguir adiante. Meus passos estavam pesados. Eu tropeçava nas verdades que ele supostamente evitou contar-me.

Eu também precisava de um tempo para pensar. Precisava ficar sozinha para recompor-me. Eu precisava encontrar aquele maldito banheiro que nunca parecia alcançar. Um garçom, inusitadamente vestido como pirata, surgiu em minha frente, interrompendo meus passos, perguntou:

– Banheiro?

– Ah, sim – respondi sem graça.

– Siga em frente até a porta com a bandeira cor-de-rosa – apontou a direção.

– Obrigada, obrigada – agradeci agoniada.

Corri na direção apontada e dei graças a mim mesma por não ter escolhido saltos para aquela noite. Abri a porta e entrei desesperada. Dei de frente ao espelho que ficava em cima da pia. Aproveitei que não havia ninguém e tentei encontrar, ali, a paz que almejava para continuar de pé, respirando.

Lavei as mãos e carreguei um pouco de água até meu rosto. Lavei-o também. Borrei a maquiagem, não dando mais a mínima para minha aparência. Ela era o que menos contava naquela hora. Aliás, nem para Nicolas aceitar um segundo beijo ela serviu. Foi perda de tempo.

Eu não estava nervosa, eu estava em pânico! E se fosse mesmo uma doce ilusão? Não, não deveria ser! Mas talvez fosse isso mesmo. Convivemos por tantos anos e ele nunca nada fez. Porque ele não quis! Nunca foi falta de coragem, como eu bem pensava antes. Essas cogitações tiravam-me o fôlego. Eu queria cair e adormecer ali mesmo, só para acordar no outro dia acreditando que era um pesadelo. Um terrível pesadelo.

Onde eu estava com a cabeça de sonhar que um dia eu, justo eu, protagonizaria um conto de fadas. Definitivamente eles não existem! Não é justo que a sociedade pregue ideologias desses contos de fadas perfeitos às crianças. Não é justa tal lavagem cerebral. Assim como também é injusto e perceber que o amor é só é recíproco em uma em um milhão de tentativas. O pior de tudo é ter apenas uma única vida para tentar tantas vezes.

Desde o dia daquele concerto, eu venho tentando convencer Nicolas de que eu posso ser para ele o que ele pode ser para mim. Como ele pode ser tão cego? Ou melhor, fazer-se de cego. Eu não acredito que o amor seja um enigma imperceptível a ponto de ninguém perceber. Quando é amor, qualquer um pode ver.

Antes que eu pudesse concluir qualquer raciocínio e tomar uma decisão, nitidamente, percebo, pelo reflexo do espelho, uma mulher entrando no banheiro.

– Com licença. – Solicitou a pia para lavar as mãos.

Ela tinha mãos delicadas. Não pude deixar de notar também seus anéis e relógio na mão esquerda. Aliás, ele usava joias em todas as partes do corpo. Seu perfume era cítrico e adocicado e causava-me um certo delírio.

Levantei o olhar para identificar seu rosto. Era bonito. Uma pele morena. Cabelos lisos e curtos. Eram bem-comportados, diferentemente dos meus. Eles cobriam parte do lado direito de seu delicado rosto, tornando-a levemente misteriosa. A pequena armação levemente quadriculada de seus óculos também salientavam tal característica. Segundos depois, ela observa claramente, pelo canto dos seus pequenos e negros olhos, meu semblante através do espelho e diz:

– Você não está bem, não é mesmo? – Pergunta curiosamente.

– É só uma cólica... – Minto, evitando olhar em seus olhos.

– Parece mais um coração partido – contrariou.

– Como assim? – Indago desconfiada que ela assistiu a minha quase discussão com Nicolas.

– Ora, ora... Tem lágrimas prontamente dispostas a cair dos seus olhos a qualquer momento – ela conta espontaneamente enquanto enxuga as mãos no secador embutido no parede do banheiro.

– É só uma dor de cabeça! – Disfarço, passando a mão na testa.

– Você mente muito mal – insistiu em contestar minhas falsas explicações.

– Eu o amo tanto... – As lágrimas começaram a brotar nos meus olhos assim que confessei – Que não é possível que tanto amor não seja recíproco – explico incrédula.

– Eu a compreendo, querida... – Ela abraça-me por trás e suas mãos correm da minha barriga ao meu queixo, levando-me a olhar ao espelho – Se serve de consolo, eu estou desacompanhada em plena sexta-feira com umas doses de whisky. É frustrante beber sozinha. Que tal? – Faz um suposto convite diretamente ao meu ouvido, arquiando a sobrancelha descoberta pelos cabelos.

– Não é para tanto, – disse demonstrando desconforto com sua preocupação em enxugar minhas lágrimas com as mãos – não se preocupe comigo.

– Não vou... Se prometer me ligar – afastou-se um passo. Em seguida, tirou do bolso de sua calça de couro preto um cartão, onde constava seu contato e o colocou diante dos meus olhos, oferecendo-me.

– Safira? – Pedi confirmação de seu nome assim que o tomei.

– E o seu? – Nem se deu ao trabalho de confirmar.

– Merlin Respondo intimidada.

– É diferente. – Fiquei ainda mais sem jeito. – Eu gosto – sorriu e, logo em seguida acenou e deixou-me sozinha no banheiro.

Eu não entendi exatamente as intenções daquela mulher. Será que estava dando em cima de mim? Ela era atenciosa e carinhosa demais para uma desconhecida. Tudo o que eu gostaria que Nicolas estivesse sendo agora. Ainda precisava resolver meus problemas com ele. Tirar a história a limpo. Até que ele dissesse com suas próprias palavras que todo aquele romance que se passava na minha cabeça era ilusão, eu não deixaria de acreditar que era amor.

Notas finais
Tudo o que Merlin não precisava agora era de uma nova companhia e um copo de whisky. Ou será melhor aceitá-los?