Subaquático

13 Beijo na boca


Notas iniciais
:((((((((((((((((((((((

O recife inteiro vibrava de felicidade.

O sol finalmente tinha se posto e no céu só restava uma luz alaranjada manchando as nuvens. A luz branca suave das pedras dos corais dava um aspecto quase etéreo aos sereianos que dançavam, comiam e se divertiam ao som animado da música.

Daichi e Suga dançavam juntos perto de Aouli e Kelp, que riam e giravam no lugar. Mais para o lado, Asahi conversava com Kageyama e Hinata, e Miria e Hippo brincavam com as crianças.

-- Ei, Suga. – Daichi diz, sorrindo – Acho que não falei isso, mas fico muito feliz de ter vindo pra Nerida com você. Nunca vou esquecer disso.

O coração de Suga bate feliz no peito e ele passa os braços ao redor do pescoço de Daichi.

-- Ainda bem que você veio. Essa experiência toda não seria tão legal sem você aqui... Eu amo quando estamos juntos. – eles se olham apaixonadamente por longos e longos segundos, gravando na memória tudo o que desse. Suga instintivamente lambe a boca -- ... Posso te beijar?

Daichi balança a cabeça e estica um pouco o pescoço, colando o rosto no de Suga e espiando os bonitos olhos dele pelos cílios. Eles sussurram “eu te amo” um nos lábios do outro e se abraçam com mais força, enrolando as línguas juntas.

As mãos grandes de Daichi afagam as costas de Suga, e ele sente um aperto no peito. O jeito que eles se beijam o lembra daquela primeira vez na praia, que Daichi o beijou e ele ficou completamente confuso. Uma onda forte de nostalgia soca as costelas de Suga e ele sente o fundo dos olhos arderem ao pensar que Daichi iria embora logo pela manhã.

Quero lembrar desse momento para sempre...

Suga enrola a cauda nas pernas de Daichi e beija-o com mais força, arrancando todo o ar dos pulmões dele. Suga ronrona e segura o impulso de soltar apitos. O peito de Daichi vibra com o ronronado e ele sente um arrepio descendo da nuca até a base das costas.

Eles se afastam e Daichi respira fundo, retomando o fôlego. Suga está corado na ponta do nariz e nas bochechas. Instintivamente, ele pega Daichi pela mão e o leva até uma pedra mais distante, escondendo-se da vista de todos. Ele segura nos ombros de Daichi e o pressiona contra a rocha, voltando a beijá-lo com voracidade. O garoto humano prende os dedos em seus cabelos.

A bolha ao redor da cabeça de Daichi se expande para acomodar os dois. Eles enrolam fervorosamente uma língua na outra, amassando as bocas juntas. Suga espreme o corpo inteiro de Daichi na pedra, apertando o quadril dele no seu. Daichi solta o ar pesadamente pelo nariz e se desconcentra brevemente quando Suga passa os dedos pela parte de dentro das coxas dele.

Ele tinha vontade de dizer que estavam em público, e que não era certo fazer isso em um casamento, mas Suga esfregava o corpo no dele tão gostoso que Daichi mal conseguia formular palavras. Com a cabeça em branco e a barriga dando voltas, ele encosta suavemente a ponta do dedinho na guelra de Suga.

O sereiano separa a boca da dele e geme baixinho, soltando o ar com força e juntando as sobrancelhas. Ele quis apitar, mas se segurou. Ver a reação de Suga fez um jato de adrenalina pulsar nas veias de Daichi e a bermuda ficar desconfortavelmente apertada. Daichi sente o bom-senso se esvaindo de sua cabeça.

Eles se beijam de novo, rolando os quadris juntos em um movimento rítmico. Suga morde e puxa o lábio do outro, beijando bochecha, queixo, maxilar e parando no pescoço, chupando a pele com força. Daichi mal consegue manter os olhos abertos, ondas de tesão apagando tudo de sua mente. Ele coloca as pontas dos dedos na guelra exposta de Suga e recebe um gemido abafado logo na orelha.

-- T-Tem algum lugar que a gente possa ir...? – as palavras escapam da boca de Daichi e o olhar deles pega fogo.

Suga beija a boca dele mais algumas vezes antes de pegar em sua mão e levá-lo escondido até a superfície. A pequena ilha com o coqueiro refletia a luz da lua em sua areia branca. Os dois vão até lá e param com a água nos ombros.

Daichi segura onde imaginava que seria a bunda de Suga e cola o corpo no dele, beijando a boca dele com fervor. Suga começa a soltar curtos apitos e ronrona mais, vibrando a água ao redor. Daichi desce os lábios até as guelras de Suga, que brilhavam com um tom forte de rosa, e ele sente todas as escamas da cauda de Suga ficarem arrepiadas. Ele geme alto e Daichi sente o coração e a barriga apertando.

Eu nunca quero me esquecer disso.

Ele aperta mais os lábios na pele delicada de Suga e sente unhas se fincando em seus ombros.

-- Daichi... Ah...

-- Me avisa se doer.

Suga abriu a boca para perguntar o que ele queria dizer com aquilo, mas o que saiu de sua boca foram gemidos desesperados, junto com apitos entrecortados.

Daichi enrola a língua na pele fina das guelras, sentindo o gosto do sal. Ele prende os lábios nela e chupa com firmeza, sentindo-a pulsar. Suga agarra seus ombros com muita força, enfiando as unhas sem dó e balbuciando várias coisas. Daichi passa a língua e chupa mais e mais vezes, a pele pulsando cada vez mais e ficando com um tom escuro de roxo. Suga não consegue fazer outra coisa a não ser gemer em desespero, a mente totalmente em branco e ele vendo pontos brilhantes em suas pálpebras.

Com uma última chupada particularmente forte, Suga perde a voz treme violentamente por pelo menos dez segundos, chacoalhando Daichi no lugar. Suga para de tremer e respira rápido como se tivesse corrido uma maratona, e fica completamente inerte nos braços de Daichi, com a cabeça apoiada em seu ombro. O corpo inteiro dele formigava.

-- N-Não consigo me mexer.

Daichi solta uma risadinha e abraça Suga, segurando-o no lugar. Ele pega o rosto do outro com uma mão e o beija suavemente. Suga sorri.

-- Vamos pra areia.

Daichi vai devagarinho até lá, tomando seu tempo para Suga conseguir se recuperar um pouco. Com dificuldade, Daichi o coloca sentado na beira da água e senta ao lado dele.

-- Tá melhor?

-- Meu rabo ainda tá dormente. – Suga vira o corpo e olha as marcas roxas no pescoço de Daichi – Tira o shorts.

Daichi mal tinha descido o shorts pelas pernas e Suga já estava em cima dele, enfiando a língua na boca dele com vontade. Daichi abre bem as pernas quando Suga abaixa a mão e segura no pinto dele firmemente. Ele solta o ar pela boca enquanto Suga o masturba bem gostoso, praticamente engolindo todos os gemidos do outro.

Daichi sente pontadas na barriga e sussurra o nome do outro. Ele se contorce nas mãos de Suga, respirando muito alto. Suga apoia-se em ambas as mãos e desliza para baixo, beijando a parte de dentro das coxas de Daichi e finalmente enrolando a língua no pinto dele.

Daichi se arrepia todo, olhando para a lua lá no alto. Suga sobe e desce a cabeça ritmicamente, chupando com vontade. As ondas do mar batem de leve em seus pés e Suga começa a ronronar, mandando vibrações gostosas direto para a barriga de Daichi. Suga abre bem a boca e passa a língua em todo o comprimento, lambendo a ponta vagarosamente. Daichi geme alto e segura com as duas mãos no cabelo de Suga, fechando os olhos. Suga desce a cabeça e coloca o pinto na boca por inteiro. Daichi vê pontos brancos contra as pálpebras, sentindo os músculos da garganta de Suga apertarem-no. Ele só tem tempo de puxar os cabelos claros dele e gozar na própria mão.

Suga rasteja de volta para cima e chupa o pescoço de Daichi mais algumas vezes. O garoto humano sente as mãos tremendo. Com um impulso, ele vira e joga Suga na areia, sentando em seu quadril. Ambos estão com os rostos impossivelmente vermelhos e suados, apesar da temperatura amena. A onda do mar vem e toca gentilmente a cauda de Suga, que brilha sob a luz do luar.

Daichi busca entre as escamas de Suga a pele que cobre seu bolso interno e a afasta do caminho, pegando o pinto escorregadio em suas mãos. O peito do sereiano sobe e desce rapidamente. Daichi se posiciona e senta sobre ele, soltando pequenas reclamações. Suga geme alto e coloca as mãos nas pernas de Daichi.

Com as duas mãos no peito de Suga, Daichi começa a levantar e sentar primeiro devagar, mas posteriormente com força. Eles se olham, gemendo o nome um do outro, Suga praticamente pirando com a vista. Daichi deixa-se cair com força, soltando gemidos do fundo da garganta, o rosto contorcido em prazer.

Um arrepio forte corre o corpo de Daichi quando Suga pega no pinto dele de novo e começa a massageá-lo. Alguns movimentos mais e ele já está duro de novo, sentando o mais fundo que consegue em Suga. Suga estica a outra mão na direção do rosto dele e Daichi vai, tendo a boca engolida fervorosamente. Ele sobe e desce mais vezes, gemendo nos lábios do outro e recebendo apitos graves de volta.

Suga força Daichi para o lado e eles rolam na areia, dessa vez Suga por cima. Daichi prende os pés nas costas dele e lança a cabeça para trás. Suga move-se rápido e forte, apoiado nas mãos, encarando o rosto vermelho de Daichi e gemendo junto com ele. As vibrações do coração acelerado de Daichi deixam Suga louco.

Suga volta a deitar e eles se abraçam, beijando-se com urgência. Suga mete o mais fundo possível várias vezes e Daichi começa a falar bobagens para os céus. A pressão na barriga de Daichi lhe sufoca, e ele goza de novo gemendo alto. Suga sente o interior de Daichi se contrair todo e ele goza também.

Os dois ficam deitados juntos por vários minutos, respirando fundo e tentando se recuperar.

Quando se olham novamente, têm um ataque de risadinhas.

-- Isso foi bom. – Suga ergue-se nos cotovelos.

-- É, foi. – Daichi rola de lado e apoia a bochecha na mão – A gente deveria transar em ilhas desertas mais vezes.

-- Vou procurar uma perto de casa, então.

O sorriso de Daichi se torna triste por um momento e Suga coça a nuca.

-- Vamos dar mais um mergulho?

Daichi se levanta, coloca a bermuda e abaixa perto de Suga para erguê-lo no colo.

-- Tem certeza? Você sabe como eu sou pesado.

-- Ughhhh— ele estica os joelhos e Suga abraça seu pescoço, balançando a ponta da cauda no ar – O Asahi me explicou o porquê.

-- Jura?

-- Primeiro que os músculos são bem desenvolvidos, e músculos são bem pesados. E também porque a cauda é onde vocês estocam a gordura corporal.

-- Ah! Faz sentido.

-- Além disso, eu tenho que praticar pra conseguir carregar minha futura esposa no colo, né. – Daichi entra na água fria.

-- E essa esposa sou eu, no caso? – Suga abre um sorriso divertido.

-- Obviamente.

-- Pensei que ia ser você que ia usar o vestido? – ele ergue as sobrancelhas.

-- Ok, olha. – Daichi continua andando pela areia, sentindo-a entre os dedos do pé. Com a água na altura do umbigo, Suga já está mais leve de se carregar, ainda que esteja pendurado no pescoço de Daichi e quase grudando nariz com nariz – Vou explicar uma coisa. Você sabe o que é uma convenção?

-- Não.

-- Convenção é mais ou menos o que todo mundo concordou em fazer, mas não tem uma regra específica. – Suga olha para o rosto de Daichi atentamente com um sorriso feliz na boca, e Daichi sente a cara ficar quente. – T-Tipo essa ideia que no casamento é a mulher que usa o vestido e o homem usa o terno. Não tá escrito em nenhum lugar que é assim que deve ser, mas todo mundo aceitou e todo mundo faz isso.

-- Hmmmm...

Suga tomba a cabeça, com o olhar completamente apaixonado. É charmoso ver Daichi explicando coisas novas.

-- O que eu quero dizer é: mulher não precisa usar vestido, e homem não precisa usar terno. Mulher pode usar terno também, e homem pode usar vestido se quiser. E em um casamento de pessoas do mesmo gênero, as duas mulheres podem usar terno ou vestido, e os dois homens podem usar terno ou vestido. Entendeu?

-- Hmmm.... – Suga cantarola e fala numa voz muito, muito doce – Então quando a gente casar, podemos nós dois usarmos vestidos ou ternos? A gente escolhe.

-- Sim. Exatamente.

O peito de Daichi fica quentinho com o olhar de Suga. Ele balança a cauda na superfície da água, ainda nos braços de Daichi apesar de já estarem bem fundo. Ele passa as mãos pelos ombros dele, observando as sardas apagadinhas.

-- Mas você ficaria tão bonito de vestido...

Daichi tira a mão das costas de Suga e a usa para empurrar sua cabeça para baixo, afundando-o na água. Ele ri quando o sereiano ergue os braços e os agita. Suga se liberta dos braços do outro e bate com força a cauda nas pernas dele, puxando-o para baixo pelo pescoço. Daichi se engasga com a água e começa a tossir loucamente quando volta à superfície. Suga tem um sorriso malvado no rosto.

-- Seu puto. – ele diz.

-- Nossa, e você me beija com essa boca suja? – Daichi pega Suga pela cintura e gruda o peito no dele – Quem te ensinou isso?

-- Você.

-- Não acredito que arruinei seu vocabulário.

-- Eu gosto de filho da puta e de puta que pariu também.

-- Meu favorito é merda.

-- Mas merda não é sinônimo de cocô?

-- Sim, mas dá pra usar de muitos jeitos.

-- Ohhh, tipo como? – os olhinhos castanhos de Suga brilham e Daichi solta uma risada bem gostosa.

-- Tipo, vá à merda! E puta merda tem vários significados. Você pode falar quando tá triste, ou feliz, ou surpreso, ou bravo, e dependendo da entonação pode significar coisas diferentes.

-- Hm... Me dá um exemplo.

-- Ah... Lembra quando você ficou em casa e eu bati meu dedo do pé na mesa? Eu gritei puta merda! porque doeu pra caramba. Também teve aquela vez que fomos nadar com os golfinhos e o que tava me levando começou a nadar muito rápido, eu falei puta merda!!! porque tava assustado. Mas pode ser pra coisa positiva também. Tipo se eu tirasse uma nota muito boa em matemática, poderia dizer puta merda...! vendo a minha nota.

Suga joga a cabeça para trás e ri, e Daichi sente marteladas nas costelas.

-- Puta merda, Daichi. – Suga abaixa a cabeça e segura nas laterais do pescoço dele, observando cuidadosamente a luz da lua refletida nos olhos castanhos de Daichi – Eu amo você.

-- Eu amo você também.

Sugawara beija a boca de Daichi alegremente e balança o rabo como se fosse um cachorrinho.

-- Me explica mais uma coisa? – ele pergunta, testa grudada na de Daichi.

-- O que você quiser.

-- Como funciona um canudo?

-- Ahhh hahaha – Daichi afaga os cabelos da nuca de Suga – Você sabe o que é pressão atmosférica?

-- Simmm, a Aouli me explicou depois que eles voltaram do Fim.

-- Bom, tem tudo a ver com isso.

Suga deita a cabeça no ombro de Daichi e fecha os olhos, sentindo as vibrações do peito de Daichi no seu, e sentindo os dedos dele passeando pela sua lombar.

-- Ok, vou usar aquele milk-shake que a gente tomou quando fomos no nosso encontro.

-- Tá.

-- Quando o milk-shake tá na mesa, a pressão atmosférica sobre o líquido no copo e naquele pouquinho dentro do canudo é a mesma, porque o canudo é aberto no topo, certo?

-- Hmmmm. – Suga sente o corpo inteiro quentinho de felicidade, simplesmente adorando ouvir a voz grossa de Daichi falando sobre as coisas mais triviais como pressão atmosférica.

-- Quando a gente coloca a boca no canudo e puxa, nós tiramos a pressão que estava dentro do canudo e a pressão atmosférica do lado de fora, que é maior, empurra o milk-shake pra baixo, fazendo ele subir pelo canudo.

-- Entendi. Então é bem simples.

-- Super simples.

Daichi apoia a cabeça no ombro de Suga também e fecha os olhos, sentindo o ronronado dele por todo seu corpo.

Suga respira fundo, inalando o cheiro da pele humana de Daichi. Faz com que ele se sinta em casa, se sinta protegido e amado. Como se nada no mundo estivesse errado, e que tudo estivesse perfeitamente bem. A pele dele era bem macia.

-- Queria que a gente pudesse ficar assim pra sempre. – sussurra.

Daichi sente a barriga apertar em um nó de felicidade e ele suspira, apertando ainda mais Suga em seus braços. Suga é macio, mas Daichi também consegue sentir os músculos fortes dele por debaixo da pele. Ele sorri para si mesmo, pensando o quão sortudo era de simplesmente ter errado o caminho indo surfar. Anos mais tarde, abraçado em Suga sob a luz da lua, pensa que foi o melhor erro de sua vida.

-- Pra sempre.

Daichi respira fundo e solta o ar entrecortado, tentando engolir a bola em sua garganta. Suga afaga sua bochecha e dá um beijo na boca dele.

-- Vamos lá pro raso?

Daichi sacode a cabeça e deixa Suga puxá-lo pela mão até a água ficar na altura dos joelhos. Ele senta e abraça a própria cauda, esperando. Daichi senta-se também e coloca as mãos na areia. Suga sorri tristemente na direção dele, encostando ombro com ombro. A água vai e vem sutilmente, passando pelo peito dos garotos.

-- Acho que você já sabe o que eu vou dizer, né...?

Daichi mal tem condições de responder, sufocando lentamente.

-- Eu vou ficar pra aprender mais. Sobre meu povo e sobre as coisas que eu posso fazer.

-- Aqui é o lugar que você pertence, Suga. – Daichi encara os próprios pés pela água ondulante – Com pessoas como você. Você quis isso sua vida toda.

-- Eu sei.

-- ... Você pensa em voltar algum dia?

-- Daichi. – Suga segura o rosto dele e o vira em sua direção, olhando firme em seus olhos – Você tá sendo muito pessimista, sabia?

-- Como assim?

-- Eu vou voltar pra casa. Não disse que ia ficar aqui pra sempre.

Daichi abre a boca e arregala os olhos, genuinamente surpreso. Suga solta uma risadinha.

-- Eu pensei em ficar, hmmmm, por alguns meses, talvez. Pra aprender mais.

-- M-Mas, Suga... Suga, não... Você pertence a Nerida, como todos os outros sereianos. Você deveria ficar aqui...

-- Como que eu posso ficar aqui, Daichi? Quando a pessoa que eu amo está tão longe...

-- Não quero que você pense assim. – Daichi desvia o olhar para a linha do horizonte – Não é certo você abandonar tudo isso— ele gesticula ao redor – por mim. Esse é seu povo.

-- Sinto falta dos meus pais... E dos meus amigos do recife... Nerida é ótimo, mas eu cresci sozinho, Daichi, você sabe disso. Ficar cercado de tanta gente é meio desconfortável.

-- Suga...

-- Eu já me decidi, Daichi. – a voz dele é firme – Vou ficar, vou aprender, e vou voltar pra casa porque quero ficar com você. Nerida nunca vai ser meu lar se você não estiver aqui.

Daichi olha para o rosto determinado de Suga e sente uma mistura de felicidade, alívio e culpa apertando o peito.

-- Você tem certeza?

-- Tenho. – ele sorri docemente – Não quero ir a nenhum lugar sem ter você do meu lado.

Daichi derrama umas três ou quatro lágrimas lembrando daquele dia em que os dois ficaram conversando e rindo na cama dele, onde ele disse essas exatas palavras.

-- V-Você tem boa memória. – Daichi limpa o rosto com as costas da mão.

-- Hehe, eu sei.

-- Suga, eu amo você. Não importa se você estiver comigo ou não, eu sempre vou amar você.

Agora era Suga quem lutava para segurar as lágrimas.

-- Pra sempre?

-- Pra sempre.

-- Promete?

-- Prometo. Nunca vou esquecer de você, não importa quanto tempo você resolva ficar aqui.

Suga olha para suas escamas e algumas lágrimas pingam no mar.

-- Daichi, escuta... Tem outra coisa que eu queria te falar.

Daichi espia o rosto extremamente triste de Suga e segura na mão dele com força, espremendo os dedos entre os seus.

-- Eu... Sabe, eu vou entender se você quiser... – ele engole a bola na garganta e solta o ar – Se você quiser ir à encontros e beijar outras pessoas.

Daichi agarra o queixo de Suga com força e beija a boca dele, batendo os dentes juntos.

-- Só você. – ele avança de novo, dessa vez delicadamente – Eu quero beijar só você.

Eles se olham por breves segundos e voltam a se beijar, movendo os lábios juntos. Suga desliza a mão livre até a nuca de Daichi e é puxado para mais perto pela mão em suas costas. Eles engolem os suspiros um do outro, rolando as línguas suavemente e soltando o ar com força.

Daichi segura a bochecha de Suga e o afasta um pouco, olhando seus olhos semicerrados.

-- Eu tenho uma coisa pra te dar.

Daichi desce a mão do rosto de Suga e entrelaça os dedos deles, e com a outra pega algo no bolso.

-- É pra você não esquecer de mim, e eu não esquecer de você.

Daichi tira do bolso pequenos círculos de madeira.

-- O que é isso? – Suga pega um deles com a ponta dos dedos e leva próximo ao rosto, olhando com cuidado.

-- Um anel. Sabe o que é?

-- Não...

-- Você põe no dedo assim... – Daichi pega o maior deles e coloca em seu dedo indicador – Normalmente as pessoas usam só de acessório, mas esse eu comprei pra gente lembrar um do outro.

Suga ergue os olhos e sorri.

-- Em que dedo eu coloco?

-- Qualquer um. Era o único tamanho, então talvez fique um pouco grande...

Suga experimenta nos cinco dedos e resolve que fica melhor no dedão, já que não fica tão largo. Daichi pega a mão dele e afaga o anel.

-- É também uma promessa. – ele sorri um pouquinho.

-- Qual?

-- Que a gente vai casar um dia.

-- ... Daichi.

-- Hm?

-- Tudo bem se eu usar vestido? Acho tão bonito...

.

.

Apoiado nos braços, Suga sente o peito doer ao ver Daichi organizando todas as suas coisas na mochila preta. Ele realmente estava indo embora. Kageyama, ao seu lado, balança os pés na água.

-- Vai ficar tudo bem, Suga-san.

Ele suspira pesadamente e sente o fundo dos olhos arderem.

-- Eu sei. – ele olha na direção do menino ao seu lado, que agora tinha escamas nas pernas e nos ombros. – Tá se sentindo bem?

-- Sim. Só meus ouvidos que estão doendo um pouco. Hippo-san disse que é porque os tímpanos estão mudando.

-- E as guelras?

-- Ainda tão formigando.

Suga encara as próprias unhas e pensa que pelo menos alguém tinha motivos para comemorar.

-- Kageyama. – ele chama e o outro garoto coloca os olhos nele – Fico muito feliz por você. De verdade. – ele sorri – Sei o quanto o Hinata significa. Acho que você vai ser muito feliz aqui com ele.

Kageyama esfrega as mãos juntas e os cantos de sua boca se erguem.

-- Obrigado...

Asahi olha para os garotos do lado de fora de sua caverna e suspira. Ele volta os olhos para Daichi, que enfiava bermudas secas na mochila.

-- Queria que você pudesse ficar mais tempo. – ele diz, coçando a nuca – Nem tive tempo de explicar sobre gravidez...

-- Desculpa, Asahi. Queria ficar também, mas minhas aulas voltam na quarta.

-- Nem perguntei. O que você estuda?

-- Faço Direito. – Daichi levanta do chão e se apoia na parede, cruzando os braços – Antes eu não sabia direito qual caminho seguir, mas... Mas acho que vou tentar advogar pelas causas dos sereianos. Tentar libertar aqueles que estão presos.

Asahi dá um grande sorriso.

-- A gente precisa muito de um advogado no nosso grupo. Se você quiser, posso falar com o pessoal.

-- Claro. Seria ótimo, obrigado.

-- Me passa seu número. Da próxima vez que for à ilha eu ligo pra eles.

Daichi coloca seu número no telefone de Asahi e liga para si próprio, salvando o número dele também.

-- Talvez... – Daichi enfia a mão no bolso – Talvez me liga de vez em quando pra dar notícias de todo mundo.

-- Já se despediu?

-- Já. No final da festa.

-- Tenho certeza de que eles vão sentir sua falta também.

Daichi engole em seco e desvia o olhar.

Não muito depois disso, Daichi se despede de Kageyama, dizendo o quanto estava feliz por ele, e dá boa noite para Asahi. Ele joga as cobertas no chão na frente da casa de Asahi e deita, olhando Suga espiar para fora da água.

-- Vai me fazer companhia? – pergunta.

-- Você quer?

-- Óbvio que sim.

Suga vai até a beirada e se joga para cima, e rasteja até o lado de Daichi. Enfiando o rosto na dobrinha de seu pescoço, ele solta alguns soluços molhados. Daichi sente os olhos queimando, mas não chora.

-- E-Eu vou amar você pra sempre...

-- ... – Daichi sorri para o teto – Isso é uma promessa?

-- S-Sim.

-- Então eu vou amar você pra sempre também.

.

.

O ar úmido da caverna é preenchido pelos sons das pequenas ondinhas batendo nas rochas. As veias de pedra branca na parede jogam uma luz suave nos garotos adormecidos. Eles se abraçavam de lado, com o sereiano apertando o rosto contra o peito do garoto humano e enrolando a cauda prateada em suas pernas. Os dois respiravam lentamente, num sono profundo, mas ainda cientes da presença um do outro.

Sawamura Daichi abre os olhos devagar quando o relógio em seu pulso começa a apitar. Ele olha o horário rapidamente – 06h30 – e aperta o botão. Sugawara, em seus braços, sequer se mexe. Daichi enfia o nariz no cabelo dele, sentindo o cheiro do mar. Passando os dedos delicadamente pelas costas de Suga, ele acorda o sereiano.

-- Tá na hora de ir...

Suga abre a boca para pedir por favor, não vai embora e fica aqui comigo pra sempre, mas engole as palavras. Em vez disso, ele se ergue nos cotovelos e coça um dos olhos.

-- Tá.

Daichi levanta, passando a mão no rosto, e vai pegar sua mochila na poltrona. Ele espia para dentro do quarto de Asahi e vê o garoto dormindo de boca aberta, apoiando a bochecha em uma mão. Daichi balança a cabeça e se despede mentalmente mais uma vez, colocando a alça da mochila no ombro.

Suga já está na água, soprando bolhas pela boca e chicoteando o rabo. Daichi pula na água atrás dele, olhando cuidadosamente ao redor para gravar tudo no fundo do cérebro. Mão na mão, Suga puxa-o pelos túneis coloridos, estranhamente vazios.

Daichi guarda as cores e as texturas em um cantinho especial do coração. Suga leva-o até o centro do recife e ele olha ao redor mais uma vez, absorvendo tudo.

-- Vou sentir falta daqui. – ele diz, e Suga sequer tem forças para erguer os olhos.

Eles vão até a superfície e Suga o leva até a ilha da noite anterior, onde Cris e Alex tinham deixado o caiaque. Daichi sobe nele, coloca seu colete salva-vidas e pega o remo, sendo puxado por Suga pelas calmas águas cristalinas naquele dia de pouco sol.

Nenhum deles fala nada o caminho inteiro. Daichi afaga o anel no dedão de Suga algumas vezes. Mais alguns minutos na água e eles conseguem ver a ilha ao longe. Daichi vai remando até a praia, sendo seguido por Suga, olhando ao redor para ver se havia alguém por perto. Chegando lá, ele puxa o caiaque para a areia e deixa junto os coletes e os remos, pegando seu documento e o de Kageyama na mesinha. Com um último suspiro, ele volta para a água e ajoelha no raso.

Suga pega o rosto dele nas mãos e o beija desesperadamente, agarrando-o com força, como se pudesse fazê-lo ficar. Daichi acaricia seu cabelo e beija de volta.

Com um último suspiro, Suga solta o rosto de Daichi e deixa lágrimas salgadas caírem no oceano. Daichi tenta segurar as suas, mas não consegue.

-- Promete que não vai me esquecer? – os olhos de Suga brilham de lágrimas e dor, e ele parece incrivelmente triste.

-- Prometo. Toda vez que eu olhar pras minhas mãos vou lembrar de você. – Daichi sorri tristemente e limpa os olhos de Suga – Quando olhar pras suas, lembra de mim também, tá?

-- Eu amo você pra sempre, Daichi.

-- Eu amo você pra todo o sempre, Suga. – ele beija os lábios dele de novo – Quando você voltar pra casa estarei te esperando.

-- T-Tá...

Daichi levanta da água e vai até a areia, acenando.

-- Tchau.

-- Tchau...

Com um último sorriso fraco, Daichi vira nos calcanhares e arremessa a mochila nos ombros, indo na direção da rua. Suga o vê ficando menor e menor até desaparecer no meio dos carros estacionados.

Cobrindo a boca com a mão, ele deixa mais algumas lágrimas escorrerem pelo rosto antes de afundar na água.

Daichi respira bem fundo. Ele vai até seu carro e coloca roupas secas, senta no banco do motorista e dá a partida. Ele vai pela rua principal até o lugar da balsa e espera, sozinho na fila. A balsa chega alguns minutos depois e ele entra junto de um velhinho. Estacionando o carro bem na frente, Daichi vai até a beirada da balsa e observa a água azul abaixo de si com o coração batendo rápido no peito.

Ele apoia os braços no batente e chora na manga de seu casaco, suspirando como uma criança.

-- Ei, rapaz. Não chore. – o velhinho de bengala chega perto dele e coloca uma mão em seu ombro. Daichi levanta o olhar, pego de surpresa, e limpa as bochechas rapidamente – O que houve?

Daichi engole um pouco de saliva para tentar estabilizar a voz.

-- E-Eu perdi uma coisa importante... Enquanto estava mergulhando...

O velhinho sorri e dá tapinhas em suas costas.

-- Não fique triste. Tenho certeza que o mar vai cuidar muito bem seja do que for.

.

.

Asahi se espreguiça e solta o ar devagar. Olhando no relógio na parede, ele vê que são 08h30. Seu estômago ronca, e ele decide levantar da cama.

Dando a volta em pilhas de livros, ele para na cozinha para fazer um chá. Ele vê uma pilha de cobertores dobrados em cima da poltrona.

Então ele já foi mesmo...

Asahi suspira e coloca a água quente na caneca. Ele estava indo guardar os cobertores no baú quando ouviu barulhos baixinhos do lado de fora. Erguendo as sobrancelhas, ele vai até lá.

Suga está sentado no canto, apoiado na parede, abraçando a cauda com força e chorando desesperadamente, com o nariz bem vermelho e os olhos inchados. Asahi apoia a caneca na pedra da cozinha e vai até ele. Suga ergue os olhos.

-- A-Asahi! Que bom. Ótimo, e-eu queria falar com você...

-- Que foi, Suga?

Suga respira bem fundo e limpa o rosto, encostando as costas na parede.

-- Tem alguma coisa de errado comigo. Acho que tô doente.

-- Quê? Como assim? – Asahi, tomado por uma onda de preocupação, agacha na frente de Suga e o olha com cuidado.

-- M-Meu peito. Não para de doer. Tá doendo muito, Asahi, eu acho que vou morrer. – Suga coloca a mão no centro do peito e pressiona – Eu não tô aguentando...

Lágrimas voltam a escorrer dos olhos de Suga e ele olha para o canto.

-- Ah, Suga... – Asahi sorri tristemente, sentindo muita dó – Você tá bem. Não tá morrendo.

-- M-Mas meu peito...

-- Isso é saudades.

Suga pisca seus olhos úmidos e coloca a outra mão no peito.

-- O que é isso?

Asahi sente-se tão triste. Suga chorava desesperadamente, desolado e dolorido, completamente sozinho no canto. Mas Asahi nada pode fazer a não ser oferecer um sorriso simpático e dar-lhe tapinhas no ombro.

-- É o amor que fica.

Notas finais
:'(((((( chorei? talvez.