Subaquático
14 Estrelas no céu
Notas iniciais
Daichi olha para a lousa e só consegue imaginar o quão mais legal seria estar fazendo alguma coisa idiota com Suga, seja brincar de esconde-esconde pelo recife ou tentar (inutilmente) vencê-lo em uma corrida.
O jeito que Asahi explicava as coisas era muito mais legal do que aquela professora.
A cadeira é desconfortável. Daichi mal consegue se concentrar na explicação, mas solta uma risadinha para si mesmo lembrando de Aouli metendo um beijo na boca dele por achar legal. E como Suga tinha ficado um pouco puto.
O sinal toca e Daichi levanta em um pulo, enfiando rapidamente as coisas na mochila. Ele sorri para seu caderno instintivamente.
Suga.
Então o coração dele bate dolorosamente no peito e o sorriso se desfaz.
Ah...
Suga não estava na praia.
Ele joga a mochila no ombro e vai embora. Pegando qualquer coisa para comer na máquina de vendas, Daichi caminha até a biblioteca para estudar um pouco.
Suga podia não saber como canudos funcionavam, mas sabia bastante de direito penal e sempre ajudava Daichi a estudar para as provas.
Ele abre a porta da biblioteca e a encontra vazia. Suspirando, ele joga a embalagem da comida no lixo e senta na mesa perto da janela, observando as nuvens do lado de fora. O céu está um pouco cinzento, mas alguns raios de sol ainda conseguem espiar entre as nuvens...
Daichi abre o caderno e começa a ler as anotações do dia.
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02 de outubro
PECULATO: apropriação ou desvio de dinheiro público ou coisa apreciável feito por abuso de confiança por uma das partes, geralmente funcionários públicos
PECULATO FURTO: quando o funcionário público utiliza o poder que seu cargo oferece p/ pegar um objeto material p/ uso próprio ou alheio, mas não é dono dele
PECULATO APROPRIAÇÃO: o funcionário público se apropria do objeto por causa do cargo que possui e meio que rouba a coisa pra si
PECULATO DESVIO: o cara dá um destino que o beneficia ao objeto
PENA: multa ou prisão hehehe se fodeu
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Daichi suspira. Que bando de anotações imprestáveis. "hehehe se fodeu" definitivamente não presta, ainda mais que ele nem escreveu qual o valor da multa ou quanto tempo o cara vai preso.
Ainda sem conseguir se concentrar direito, ele pega a latinha de energético na mochila e toma metade. Então, abre o livro de direito penal e se debruça para tentar entender como funcionava a pena para peculato.
Daichi tenta focar várias e várias vezes, mas não consegue. O barulho do relógio na parede é irritante, e a biblioteca está silenciosa demais. Os passarinhos piam lá fora. Os galhos pelados das árvores balançam com o ventinho gelado que sopra.
Soltando um gemido de desconforto do fundo da garganta, Daichi arrasta a cadeira para trás num pulo e recebe um olhar feio de uma menina perto da estante. Ele joga tudo na mochila e, esfregando a mão no cabelo, parte para o estacionamento.
No carro ele coloca a música o mais alto que consegue e dirige até a praia secreta de Suga, estremecendo com o vento frio vindo do mar.
Ele estaciona embaixo da árvore grande e deixa os tênis em cima do capô. Caminha até a beira da água, sentindo a areia macia e fofa entre os dedos do pé, e a água gelada tocar-lhe sutilmente nos calcanhares. Ele olha para o mar a sua frente, vendo as pequenas ondas se formando e quebrando, e outras espirrando nas pedras na ponta da praia. O vento que sopra é frio, mas gostoso, e limpa a cabeça dele. O barulho dos passarinhos e das ondas é reconfortante. Infelizmente, a água parece tão vazia...
Instintivamente Daichi leva a mão ao peito e fecha os dedos ao redor de seu colar de pedra. O fio enrosca no anel em seu dedo indicador e ele leva uma mão ao rosto.
Só duas semanas e Daichi não consegue parar de pensar em Suga. Fica imaginando se ele está melhor em fazer bolhas, ou se já consegue visualizar melhor as moléculas e os átomos, e se a conexão dele com o mar está mais forte. Estaria Aouli ensinando-o direitinho? E Asahi explicaria coisas triviais como canudos e relógios? Aquela vez que Daichi teve que explicar como os humanos chegaram à Lua foi complicado.
O peito dele dói em protesto. As lembranças doem. O cheiro do sal e a água na pele doem. A praia parece incrivelmente deserta...
Daichi olha para baixo e vê um polvo avermelhado parado ao lado de seus pés.
—- Oi. – o polvo diz. Daichi quase se engasga por um momento, totalmente esquecido de que polvos falavam.
—- Oi.
—- Você é o humano do Suga.
—- Sou...
—- Quando ele volta? – o polvo enrola um tentáculo no calcanhar de Daichi e balança outros dois.
—- Não sei.
—- O que você tá fazendo aqui então?
—- Ah...
Daichi coça a nuca sem saber muito bem o que responder. Ele olha para o carro e vê a mochila jogada no banco de trás.
—- Na verdade eu vim estudar. Tenho prova de direito penal no fim da semana. Acho que consigo me concentrar melhor aqui.
—- O que é direito penal? – o polvo pisca um dos olhos e Daichi dá um sorriso.
—- É quando eu decido que tipo de punição os caras maus vão ter.
—- Ohhhhh interessante.
Daichi solta uma risadinha e vai até o carro, pegando a mochila. Ele estica uma toalha na areia e joga o material em cima, abrindo o livro e o caderno. O polvo vem até ele de novo e sobe em sua perna.
—- Ok, me explica tudo. Quero saber.
Daichi solta o ar pesadamente. Talvez explicar as coisas seja um jeito bom de aprender também.
Na verdade, ele queria estar explicando peculato para Suga, mas achou que seria bom se contentar com o que tinha.
—- Peculato é o seguinte: quando alguém que trabalha pro governo mexe uns pauzinhos por causa da posição de poder dele pra roubar alguma coisa pra que ele próprio ou outra pessoa possa usar. Normalmente é dinheiro.
—- Entendi.
—- Aí tem alguns tipos de peculato: furto, apropriação e desvio.
—- Ohhh!
—- Furto é quando...
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Daichi suspira bem alto.
A GoPro na mesinha da sala encara-o de volta.
Dois meses e o coração dele apertava cada dia mais. A praia continuava vazia.
O polvo, Joy, já entendia um pouco de direito penal.
Doeria muito, ele tinha noção. Ver as fotos e os vídeos. Lembrar daqueles dias maravilhosos em Nerida. O estômago de Daichi se contorce. O pacote de papel de foto já estava pronto na impressora... Ele tinha prometido revelar tudo e mandar para o pessoal. Asahi tinha até mandado o número de uma caixa postal.
Só lembre de esconder bem, ele dissera.
Daichi também já tinha feito um buraco nas páginas de um livro bem grande de Biologia Celular para colocar as fotos dentro. Ninguém abriria um livro de Biologia Celular, pelo amor de deus...
Só faltava ver as fotos e revelar tudo.
As mãos dele suam. Queria tanto ver o rosto alegre de Suga nas centenas de fotos que tirou, mas sabe que ficaria imediatamente triste depois. Mas ele bateu com a cabeça na parede duas vezes e decidiu que valia a pena mesmo assim. Ele lidaria com isso de algum jeito.
Daichi senta no sofá, coloca o computador no colo e pluga o cabinho da GoPro na entrada USB. Um aviso aparece na tela e ele clica ok. A pasta carrega alguns segundos e logo aparece na tela. Ele encara o ícone marronzinho que diz (749 arquivos). Ele fecha os olhos e clica na pasta.
Várias miniaturas das fotos de Suga aparecem, e Daichi sente o peito e o estômago apertarem. Suga sorrindo, Suga conversando, Suga nadando com tartarugas, Suga comendo algumas algas, Suga deitado dormindo, Suga brilhando lindamente contra a luz branca do recife. Daichi começa a clicar nas fotos para ver melhor.
Suga e Hinata estão na praia sentados na areia, falando com aquela foca Sally.
Hinata puxa o caiaque laranja e olha por cima do ombro, sorrindo.
Kageyama olha para o lado, tentando evitar a foto, mas está com as bochechas coradas. Eles estão no meio do mar.
Uma foto de Asahi na biblioteca, com uma bolha ao redor da cabeça enquanto escolhe um dos livros na prateleira.
Aouli sorrindo docemente, com seu cabelo verde-água e seu rabo de golfinho balançando atrás. Mais uma dela, dessa vez abraçada em Tanaka e Nishinoya.
Miria falando com Jem, Cris e Alex, esticando os tentáculos em fúria.
Suga com um sorriso bonito na luz quente do vulcão do recife.
Hinata e Kageyama abraçados. Hinata sorria divertidamente e Kageyama parecia um pouco irritado, mas Daichi sabia que ele adorava abraços.
Noya e Tanaka brincando com os cabelos compridos de Asahi, e ele um pimentão vermelho.
Daichi esticando a mão em uma selfie, com Suga pendurado em seus ombros e sorrindo como se não houvesse problema no mundo. Mais algumas parecidas, com vários tipos de caretas.
Uma meio tremida de Suga dando um beijão na boca de Daichi.
Fotos da Ponta, de Suga distraído contra o fundo impossivelmente azul e calmo. O cabelo e as escamas dele brilham em um tom maravilhoso de prateado.
Um vídeo. Daichi clica para assistir.
O rosto de Suga aparece, sorridente. Ele olha para a câmera e solta algumas bolhas antes de começar a falar.
—- Oi! Meu nome é Suga, e eu vou mostrar todo o recife!
—- SUGA ME DEVOLVE A CÂMERA! – a voz de Daichi ecoa no fundo, fazendo-o rir. Suga sacode o rabo e sai nadando ao redor, esticando o braço e mostrando o fundo.
—- Aqui é onde o pessoal sempre se reúne. Ali em cima fica a redoma que protege o recife, será que dá pra ver? – ele estica a mão pro alto – Ela reflete as coisas em volta, então quem tá na superfície não consegue ver aqui embaixo. Maneiro, né?
Ele vira a câmera para frente e filma toda a parte central do recife, mostrando as cores e os animais nadando, além de um ou outro sereiano que passa no fundo.
—- Ali é a escola. – a mão dele aparece apontando para frente – Onde as crianças aprendem as coisas. Ahhhhh! Olha a Aouli e a Kelp chegando!
Ele vira a câmera rapidamente para a esquerda e filma as duas garotas.
—- Mandem oi!
—- O que é isso? – Kelp chega bem perto, colocando o olho perto da lente. Suga solta uma risada.
—- Daichi disse que é uma câmera. Ela tira fotos e grava vídeos!
—- Legal! Não sei o que é foto ou vídeo, mas parece interessante! – Aouli pega o pulso de Suga e vira a câmera para o rosto dela.
—- Não sei direito também. Mas Daichi disse que eu mostro as coisas pra essa lente aqui e mais tarde dá pra ver de novo!
—- Ohhhh! – as duas dizem, cutucando a lente com o dedo.
—- Agora deixa eu terminar!
Ele se despede das meninas e vai até uma pedra, onde Kageyama está sentado e Hinata apoia os braços nos joelhos dele.
—- Oi! Tô fazendo um vídeo! – Suga diz, chamando a atenção dos meninos.
Kageyama fica corado e Hinata dá um sorriso enorme.
—- Oi! – ele diz, acenando. Vai até Kageyama e passa um dos braços no ombro dele – Dá oi, Kageyama!
—- ... Oi.
—- Afff, que cara feia! Sorria! – Hinata sacode seu ombro.
—- Sai fora.
—- Dá um sorrisoooooooo
Hinata belisca as bochechas de Kageyama e as força para cima, obrigando um sorriso no rosto do garoto. Kageyama começa a empurrá-lo para longe, e Suga ri bem gostoso.
—- EU VOU TE MATAR
—- SÓ UM SORRISO!!
Suga deixa os dois brigando no canto e volta a câmera para seu rosto. Ele olha ao redor.
—- Tô tentando achar o Daichi. Ele disse que estava com o Asahi. Deixa eu ver... Ah! – ele dá um sorriso malvado e olha para a lente – Vamos dar um susto neles!
Ele vira a câmera e mostra os dois garotos apoiados em um arbusto de algas vermelhas, batendo papo. Suga afunda bem próximo do chão e nada devagar, escondendo-se entre as outras algas. Quando chega bem perto, salta de trás de uma moita e grita.
—- AHHHHH!!!
Daichi coloca os braços na frente do corpo e vira assustado na direção do barulho. Asahi solta um gritinho e esconde a cabeça nos braços, fechando os olhos.
—- SUGA! – a voz de Daichi tenta ser séria, mas ele sorri – VOU TE MATAR!
—- Vai nada!
Suga vai até ele e se lança em seus braços, rindo bastante. Daichi está vermelho no rosto. Com a câmera de volta neles, Suga passa um dos braços ao redor do pescoço de Daichi e dá um beijo nele. Daichi tenta parecer bravo. A câmera volta na direção de Asahi, que ainda está meio encolhido. Suga puxa os braços dele para baixo com a ponta da cauda.
—- Qual é, Asahi!
—- Você me assustou de verdade! – ele tira os braços do rosto e ajeita o cabelo mecanicamente, olhando para qualquer outro canto – Não tem graça.
—- Tem graça sim – a voz de Daichi está bem perto do microfone.
Asahi grita de novo, dessa vez mais alto, quando um par de mãos surge em suas costelas e aperta com força. Noya aparece atrás dele, rindo feito louco.
Os olhos de Daichi queimam e ele mal consegue respirar. O peito dói de saudades. Ele decide ver o resto das fotos.
É uma dele e de Suga, tirada por Asahi, no dia da cerimônia de união de Darya e Aruna. Eles estão lado a lado, Daichi com as duas mãos na cintura de Suga e ele abraçando seus ombros, com a cauda enrolada no calcanhar de Daichi. Os dois estão pintados em lindas linhas brancas que brilham sutilmente, com colares de flores nos pescoços e os mais brilhantes sorrisos.
Daichi começa a chorar. Eles pareciam as pessoas mais felizes do mundo. E eram. Lágrimas salgadas pingam no teclado e ele cobre a boca com a mão, soltando alguns suspiros molhados. Ele se sentia tão sozinho. Tinha se acostumado a ver Suga todo dia depois da aula e ficar com ele até anoitecer, às vezes mais. E eles riam, e rolavam na areia, se beijavam na água e dormiam sob a sombra das árvores. Agora as tardes de Daichi se resumiam em ir à praia e sentar na areia olhando o mar, esperando ver uma cabeleira prateada surgir da água e chamar o nome dele.
Tão sozinho. Daichi estava tão incrivelmente sozinho. Ver Suga sorrindo nas fotos doía, mas aquele vídeo era mais ou menos torturante. Não dava pra ouvir a voz dele pelas fotos, ou o jeito que os olhos dele se fechavam quando ele ria de alguma besteira. As pequenas manias e jeitos de Suga foram o que apunhalaram o coração de Daichi.
Ele larga o computador no sofá e vai fazer qualquer outra coisa. Revelaria as fotos mais tarde.
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Era a segunda vez na semana que ele pedia pizza em casa, mas nada podia fazer se se sentia bem e em paz depois de comer várias camadas de queijo e massa. Depois do terceiro pedaço, ele conseguiu revelar as melhores fotos e coloca-las no livro. O bilhete era simples, dizendo que sentia saudades de todo mundo. Ele fechou a caixa com fita adesiva e escreveu o endereço no lugar designado, deixando-a perto da porta para leva-la pela manhã ao correio.
Daichi encara seu celular e fica bravo por não ter recebido nenhuma ligação de Asahi em dois meses. Nem sequer mensagens. Tinha ligado uma vez, mas caiu direto na caixa postal, e as mensagens sequer foram lidas. Ele revira os olhos.
Daichi toma um banho bem quente para espantar o frio e vai para a cama, levando consigo o computador para terminar de organizar as fotos.
Quando a última é posta na devida pasta, ele percebe um vídeo estranho sobrando. Pela miniatura ele não consegue identificar. Resolve dar play mesmo assim.
A câmera está parada, meio enterrada na areia, cobrindo metade da tela. Está escuro, e ele consegue ver algumas estrelas no céu na pontinha que aparece. O canto inferior esquerdo tem um tom de laranja. As pontas das árvores sacodem com o vento que soprava.
Então, o topo de uma cabeça aparece, do lado esquerdo. Só é possível ver o cabelo e um pedaço da orelha, mas Daichi sabe que é ele. Então, ele ouve sua própria voz suspirando:
—- Suga... Ah...
Daichi arregala os olhos para a tela. Ele gemia gostoso no vídeo.
A GoPro, que estava no bolso, deve ter ligado acidentalmente quando Suga arrancou a bermuda dele e a jogou na areia. Ela tinha rolado para fora e filmava 60% areia, mesmo assim o microfone dela funcionava muito bem, obrigado.
Daichi observa seu eu no vídeo gemer mais algumas vezes e finalmente gozar. Aí aparece a cabeça prateada de Suga em cima da dele, beijando-o no pescoço enquanto ele respirava rápido. Então Daichi o joga para o lado e some de vista, deixando Suga sozinho na areia. A ponta da orelha dele está vermelha no meio do cabelo claro.
—- D-Daichi...
Daichi fica instantaneamente duro ao ouvir Suga gemendo seu nome desse jeito. O coração dele dispara no peito e ele começa a suar. Suga continua gemendo gostoso, eriçando todos os pelos do corpo do garoto. Daichi lambe a boca.
Ah, meu deus. O que ele não daria para ouvir Suga assim pessoalmente de novo, de preferência ali do lado dele na cama. O vídeo não mostra absolutamente nada exceto o topo da cabeça dele, mas o som é perfeito.
Daichi tira a calça de moletom e a joga no chão.
O topo da cabeça dele aparece na tela, e Suga está em cima dele. Eles parecem se beijar desesperadamente, gemendo e suspirando na boca um do outro, e Daichi não resiste a tentação de se masturbar ouvindo tudo aquilo.
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—- Então...
Daichi ergue os olhos do prato de comida e encara Yumi de volta.
—- Hm.
—- Sei que alguma coisa te deixou bem triste. Mas hoje você tá especialmente depressivo.
Ela tem o rosto preocupado. Daichi cutuca seu frango mais uma vez.
—- Pois é.
—- Quer conversar?
Apesar de tudo, ela tem o olhar amigável. E não é como se Daichi pudesse recusar uma boa alma oferecendo um ouvido.
—- Eu, ahn... – ele larga os hashis e se endireita na cadeira – Eu tava saindo com uma pessoa.
—- Oh?
—- Mas aí por motivos maiores ela teve que... Ir pra outra cidade.
—- E quando ela volta?
—- Ela não sabe dizer. Honestamente, -- ele engole em seco – talvez exista a possibilidade de sequer voltar...
—- Ah, não...
—- Então a gente meio que deu um tempo, eu acho.
Yumi parece muito triste. Ela pega na mão de Daichi e lhe dá um aperto.
—- Faz quanto tempo isso já?
—- Uns três meses.
—- E você ainda gosta da pessoa?
—- Gosto.
Muito.
O refeitório da faculdade está vazio. Daichi e Yumi são os únicos na parte direita, e na esquerda só há duas garotas comendo e estudando juntas.
—- Sabe de uma coisa, Sawamura? – ela dá um sorriso – Acho que você deveria sair um pouco mais. Distrair a cabeça.
—- É mesmo?
Daichi pega os hashis e mastiga um pouco de frango.
—- Se vocês estão tecnicamente dando um tempo, acho que não seria muito ruim você sair com outra pessoa! Tenho uma amiga muito divertida que acho que você vai gostar.
—- Ahn? E-Eu...
O coração dele dispara. Yumi parece genuinamente feliz e bem-intencionada.
Eu vou entender se você quiser ir à encontros e beijar outras pessoas.
—- Vou falar com ela! Talvez vocês possam ir a um bar ou algo parecido.
Daichi tem vontade de protestar, mas não consegue encontrar sua voz.
Talvez... Talvez seja uma boa distração...
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O reflexo no espelho parece meio desanimado. Mesmo assim, Daichi resolve sair de casa e ir encontrar a menina no parque. O nome dela é Aiya.
Aiya é tão legal e arranca risadas felizes de Daichi com ótimas e incríveis piadas. Ela é linda também, e o cabelo dela tem o mesmo tom de loiro do sol das três da tarde. Eles andaram pelo parque e pela praia, tomaram sorvete e até foram em uma loja de pranchas de surf discutir qual formato de quilha era melhor.
Lá no fundo, talvez Daichi se sinta um pouco culpado.
Eu vou entender se você quiser ir à encontros e beijar outras pessoas.
Mas Suga tinha dito que tudo bem. E... E, segundo Yumi, se eles estavam dando um tempo, teoricamente ninguém estava traindo ninguém. Aiya é legal e deixa Daichi feliz enquanto descreve em detalhes absurdamente precisos todas as vantagens de quilhas mais longas e finas.
—- E então quando você tá chegando perto da areia, você pula da prancha e ela não faz BWAAAA! como com outros tipos de quilha, sacou?
O jeito que ela sacode as mãos é engraçado e faz Daichi rir.
—- Saquei. Talvez eu deva tentar surfar com essas, então.
O sol se põe na praia. Venta frio, mas pelo menos não está nublado. Ele e Aiya andam de casacos e calças pela areia, desviando das conchas. A praia está vazia naquele dia de inverno, exceto pelos poucos surfistas bem longe no mar.
Eles sentam em uma toalha e observam o sol se pondo.
—- Hmmm... D-Daichi-san.
Ele olha para a garota, e ela está corada nas bochechas.
—- Você é muito legal.
A pressão de Daichi dispara e ele sente a boca ficar seca.
—- Será... Que eu posso te beijar?
Daichi não responde, pego de surpresa. Apesar do frio, as mãos dele começam a suar. Ele vê quando o olhar dela desce e pousa na boca dele, e ela se inclina para frente.
Aiya é divertida e inteligente. Ela entende bastante de quilhas de prancha e toma sorvete de framboesa. Mas ela não cheira como a água do mar, e os lábios dela não são salgados. O nariz e boca dela estão gelados, e não absurdamente quentes. Daichi olha para os cílios dela e eles são loiros, e não há uma pintinha adorável perto do olho dela.
O coração de Daichi bate dolorosamente no peito, desejando alguém que estava bem, bem longe.
Só você. Eu quero beijar só você.
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—- Não tá muito frio pra você estar na água?
Ele desce o olhar para o par de peixes ao lado de seu pé.
—- Tá tudo bem. Essa roupa me deixa quente.
Daichi sobe e desce com as ondas, sentado na prancha olhando o céu. As estrelas brilham lá no alto, e a lua cheia está especialmente bonita. A roupa de lycra segura a água morna dentro dele, mas ele treme mesmo assim. Está absurdamente frio, mas Daichi não liga. No mar é onde ele deveria estar.
—- O que você acha que ele tá fazendo agora?
Pai e Mãe olham para ele, curiosos. Daichi funga o nariz e tira o cabelo da testa.
—- Essa hora? Provavelmente dormindo.
—- Tem razão. – Mãe diz suavemente – Ele nunca foi de dormir tarde.
Alguns outros peixes se juntam ao redor da prancha de Daichi, incluindo uma tartaruga que apoiou a cabeça na perna dele. Todos olhavam para o céu.
Daichi não tinha recebido uma notícia sequer. Em todos esses meses. E isso partia o coração dele em mil pedaços.
Todos esses pedacinhos doíam um absurdo, e Daichi não conseguia parar de chorar.
A noite está tão bonita. Apesar do frio, não venta muito. A água está calma e brilhante, refletindo a luz da lua e das estrelas no céu. A praia está mais silenciosa e solitária do que nunca. A água explode nas pedras mais ao canto, e a brisa sacode os galhos das árvores próximas. A noite está maravilhosa.
Ao longe, o brilho colorido dos fogos de artifício ilumina o céu escuro nas mais diversas cores e formas.
Daichi olha para cima, admirando o show de fogos enquanto lágrimas silenciosas escorrem pelas suas bochechas e pingam no mar.
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