Stupri Saga

3 O Ser Pela Vidraça


Uma das vantagens de ter sua persongem à mercê do que o autor quer é colecionar os sonhos e devaneios internos mais misteriosos da mente humana que nenhuma outra arte de deixa fazer. Eu, por exemplo, estava de olho no sono do padre quando notei que ele se mexia de um lado para o outro, histérico na cama.

Me sinto livre para observá-lo, mas não para lhes contar o que o rondava. Isso só poderia acontecer se ele acordasse. O que se seguiria.

De súbito acordou. A vela que antes estava acesa sobre um prato acima do criado mudo agora era apenas um toco de cera derretida num fio negro como a noite que se via pela janela. Janela esta que se via um vulto. Um vulto negro. Num pulo, o padre abriu a janela e viu pela noite um animal voando em direção a floresta que ladeava toda a vila, gritando como uma coruja, mas de asas nada graciosas e um corpo que parecia ter o tamanho de uma criança bem desenvolvida.

Era hora de acordar. O relógio mostrava três horas da manhã, e no horizonte apenas se via escuridão, por isso o padre acendeu outra vela sobre o pires e levou-a à sua coleção de livros para ver se achava o que precisava. Estava decidido a ajudar a cidadela, e seus livros tinham todo o conteúdo que um caçador pode reter com anos de experiências contra seres imundos. Seu currículo era farto, mas nunca trabalhara com nada parecido. Um mistério.

Os documentos encadernados falavam de vários tipos de bruxas e seres, mas eram muito antigos, datando de dois séculos atrás. O padre Morgan fazia anotações, riscando o que não era necessário e acrescentando suas experiências. Incluia-se na pilha de materiais situações que por décadas aterrorizavam puritanos das colônias inglesas, com bruxas feiticeiras e outras que faziam poções que desgraçavam a vida dos cidadãos. Uma delas, lançada contra a casa cedida pelo xerife a ele, tinha como poder desmemorizá-lo. Nada acontecia com o padre John Morgan. Talvez fosse a proteção de Deus — pensa ele, e eu vejo -, mas talvez não.

O que achara folheando seus exemplares de diversos livros europeus e alguns que foram dados a ele pelos puritanos que ajudou durante sua estadia no Novo Mundo, não dizia nada sobre o caso que enfrentava agora, e embora ele tivesse em seu interior a sabedoria para enfrentar o que estava por vir, nada daquilo lhe era familiar, definitivamente não. Seu amigo, o senhor Harry Winter, deveria estar chegando em dois dias à Maryland com o conteúdo que lhe fora pedido em carta pelo padre e uma carruagem para sua viagem, mas até lá, teria de pesquisar onde fosse.

Sobre Harry Winter acho que devo dissertar um pouco... Harry nascera no subúrbio inglês e era amigo do jovem John desde pequeno, já que seu pai, aristrocrata e membro da realeza britânica, tinha alguns interesses em comum com o senhor Morgan e viviam se encontrando e indo em longas viagens pela França e o Império Prússio, onde não se sabe do que tratavam. Durante esses períodos de hiato dos pais, os meninos ficavam aos cuidados das mães, estabelecendo grande relação. Uma das memórias que está sempre presente na mente de John, é quando o pequeno Harry Winter o salvou de se afogar num lago que tinha vazão à sua casa, mergulhando para tirá-lo da água. Harry tinha salvado a vida do amigo, mesmo sendo dois anos mais novo.

Depois de horas de estudo, sem qualquer informação mais importante do que as que já tinha, solicitou a algum funcionário da pensão que lhe trouxesse o café da manhã, com uma boa dose de cerveja com mel. Era muito bohêmio se não levássemos em consideração o trabalho árduo que tinha em todas as suas passagens pelas cidadelas das colônias. Algumas vezes passou por dois bordéis construídos pela metrópole, bem mal frequentados e caros, somente para alguns soldados da marinha da Grã-Bretanha e visitantes como historiadores, médicos, novos colonos anglicanos, entre outros. Os puritanos definitivamente não eram o público das casas de vadias. Em um desses bordéis, na Carolina do Sul, mandou à fogueira várias das negras que faziam o cuido da casa. As mesmas trabalhavam com voodoo e aterrorizavam seus senhores, o que era inaceitável.

A borta se abriu, e apareceu bela e formosa a jovem que tinha lhe atendido na noite anterior.

– Bom dia, padre — sorriu, trazendo a bandeija e deixando o conteúdo sobre a mesa apinhada de papéis, pergaminhos antigos, tinta e pena de escrita.

O padre Morgan arrumou um canto qualquer sobre a mesa e ela conseguiu colocar a caneca cheia de cerveja melada. Algumas frutas também rodeavam a refeição, e uma maçã estava sobre sua mão, a qual foi deixada para cair no chão displicentemente.

– Deixe que eu pego, senhorita... — disse em vão.

A moça jovial abaixou-se com o traseiro virado para o senhor de Deus e se demorou em agarrar aquilo que indicava o pecado cometido por Eva. Não dava para não notar — isso percebo porque estou junto com o padre durante todo o tempo, sei o que pensa e o que sente, e nesse momento sinto o quente que infiltra o meio de suas pernas. O quadril da jovem era largo, o que indicara boa parteira, e suas costas se arqueavam do jeito que todo homem imagina observar uma senhorita. A mão do padre arriscou quase encostar sobre as nádegas cobertas por camadas de tecido numa saia rodada que ia até os pés, e agora mostrava suas canelas nada recatadas. "Jesus, me ajude", clamou o homem.

– Tome, senhor. Perdoe-me. Sou um desastre — disse a jovem, arrumando o busto farto que parecia pertencer a uma mulher.

– Não se preocupe. Obrigado. Existem bibliotecas aqui na cidade, moça? — perguntou o padre.

– Creio que devem haver muitos livros na Igreja da Pensilvânia, padre Morgan. Mas fica há mais de 5 horas de viagem daqui — respondeu a menina, sentando-se sobre o espaço vazio na mesa, de frente para o padre que estremeceu.

– Deve servir — disse, levantando-se e indo olhar até a janela. Sua desculpa era observar o tempo, mas definitivamente não era a verdade. Queria esconder o que surgia na sua bata.

– Vou pedir um carro de aluguel para o velho Smith, padre... Com licença — disse a menina, vendo que John estava muito desconfortável, deixando o quarto.