Stupri Saga
4 A Floresta de Blair
Três horas o padre já estava na entrada da pensão com uma mala de mão e algumas moedas de ouro. Com uma unidade de sua fortuna deixou por uma semana seu quarto pago, e com outra pagou a ida e a vinda até a Pensilvânia com o carro de aluguel do senhor Smith, um velho muito bondoso que, embora devesse ter seus quarenta e poucos anos, aparentava oitenta pela sua barba comprida tão branca quanto seu cabelo, ambos escondidos numa cartola e um terno pretos.
– Padre Morgan, leve isto com o senhor — disse a moça que insistia em se mostrar para o homem Morgan, dando-lhe uma trouxa cheia de pão de centeio e algumas maçãs. Para recordar-se de mim... Aliás, o senhor não perguntou, mas... Beatriz. Minha graça. Para terem ideia do que o padre Morgan via por seus olhos de dentro do carro, irei das uma breve descrição da srt. Beatriz. Filha dos donos da pensão a senhorita Beatriz tinha seus dezessete anos de idade, muito bem desenvolvida e desenvolta, falava tão bem que seu serviço de camareira era definitivamente um desperdício de talento. Ai dos homens políticos se naquela época aceitassem moças na presidência. Seus olhos azuis deixavam sua pele tão branca quanto a neve e cheia de sardas ainda mais bonita. Sua boca era vermela, e seus lábios tão carnudos quanto a das escravas do Sul, mas seu sangue era puritano de raízes fortes.– Me lembrarei, srt. Beatriz. Obrigado. Até mais — disse, acenando para a moça. "Irei ter problemas com isso..." pensou John Morgan. Realmente, digo eu, já que lhe escrevo o futuro do homem, ele iria ter problemas.– O senhor vai fazer o quê na Igreja da Pensilvânia, padre, se permite que eu pergunte? — disse Smith pela rede do carro que estava aberta e dava para a parte do cocheiro.– Vou me encontrar com seu Bispo, velho Smith. Não estou muito certo com que estou enfrentando, e conto-lhe isso em segredo. Não quero que pensem que a segurança da cidade está nas mãos erradas.– De modo algum, padre. Todos confiam no senhor. Afinal, qual é o homem que nunca enfrentou o desconhecido? Ainda mais tendo uma vida como a sua... Er... Quero dizer...– Não se preocupe, Smith. Entendi completamente — disse John, e eu vejo em sua alma que realmente havia entendido. Não era a primeira vez que este pensamento ocorria ao padre John Morgan. Sua vida era tão desgraçada quanto a das criaturas que destruía, senão mais, correndo um perigo tenebroso, e sabendo da morte sofrida iminente. Não conhecia outros caçadores no Novo Mundo, mas ao passar pela Itália sete anos atrás conhecera a história de um sacerdote do Vaticano que fora caçado por demônios por todo velho continente. O homem de Deus conseguira escapar pelos terrenos orientais e foi parar nos confins da China. Pois lá, alguns dias depois, teve o coração arrancado do corpo enquanto tomava seu café da manhã junto aos camponeses de uma vila de produção de arroz. Pobre homem. Não era o primeiro caso que sabia que mortes violentas contra caçadores. O leque de conhecimento sobre o assunto ia desde mortes por queimadura à despelar o corpo com a vítima ainda viva. Nada era tão ruim, porém, quanto ser seduzido pelos seguidores de Satan e virar um deles. A paisagem era deserta. Não se via árvores, tampouco raízes crescendo pelo chão. O terreno era de terra batida, uma trilha pelo que antes era uma floresta frondosa. John estava tão absorto nos seus livros, procurando por alguma resposta, que nem ao menos percebeu que o curso tinha sido alterado. Vejo então uma única borboleta, negra como a noite, voando rápido pelo céu cinza e cortando o ar com suas asas graciosas, provocando um tufão do outro lado do mundo, segundo a crença. Um morcego então vem ao seu encontro. Sua boca ataca a asa da borboleta, deixando-a visivelmente atordoada. Perdendo altitude rápido, o inseto apenas pensou em fugir. Algo se movia lá embaixo. Com um baque surdo, seu comprimento viu desfalecido sobre páginas amarelas.– OH! — soltou John, levando um susto ao ver a borboleta sobre seus estudos. O padre chacoalhou o livro para fora do carro, deixando o inseto pelo caminho.– O que foi, senhor? — gritou o cocheiro.– Uma borboleta caiu morta aqui... Escute, velho Smith, para onde está indo? — disse John, ao ver que nada se parecia a localidade com a floresta de Blair.– Estou indo para a Pensilvânia, padre...– Não se parece nada este lugar com a floresta de Blair! — bradou, confuso.– Porque não é a floresta, padre... Sou um homem velho, tenho minhas superstições. Perdoe-me, mas não é prudente. A bruxa está lá... À espreita.– Deixe de bobagens, homem! Não posso me demorar! Pela orla levaríamos quase dois dias! Volte pela floresta e aumente a velocidade para compensar o tempo que me fez perder! — disse John, por fim, observando o homem.– Não é prudente, senhor... Nada prudente... E além do mais, pretendo parar numa ótima pousada há cinco horas daqui — ressaltou o velho, mantendo o caminho.– Dou-lhe mais uma moeda de ouro para seguir sem descanso... É muito importante. — e, vendo a relutância, acrescentou — Está certo! Mais duas moedas de ouro, direto da metrópole!
O cocheiro guinou o carro e seus cavalos negros trotaram bravamente, adentrando pelo meio das árvores à penumbra. Uma das coisas que John concordava em dizer que o Novo Mundo se parecia em muito com a Inglaterra era sobre a escuridão que cedo pairava no céu no outono. Quando o relógio anunciava seis horas da tarde as nuvens cobriam todo o céu, num tom cinza tão trevoso quanto Londres no Inverno, com suas poucas horas de luz solar tentando transpassar a massa que escorria densa. O clima que toda cidade fria trazia era diferente de tudo, e muito mais passível de sofrer com os males demoníacos, ja que sua aura de depressão perdurava por seus cidadãos, deixando-os mais propensos a cair na tentação do Diabo e de seus fiéis seguidores, que preferiam a escuridão para se propagar. Nada era tão infestado de seres sórdidos como as terras acima da antiga Constantinopla. Nada. Por três longos meses John Morgan se viu metido nas terras frias e solitárias do leste Europeu. Só Deus sabe o que viu por lá na companhia de Harry Winter. Harry Winter, como já coloquei tão fortemente, era amigo inseparável de John, e foi muito acompanhá-lo por suas peregrinações pela Europa, adquirindo grande conhecimento sobre o submundo que estavam diretamente envolvidos e sendo de muita ajuda em lutas que talvez sozinho John não viveria para relatar. Já há cinco anos não via Harry, desde quando embarcou numa embarcação inglesa para o Novo Mundo. Se comunicavam apenas por cartas, e esse meio era praticamente inviável, tamanha a demora. O senhor Winter, que agora levava vida de governador do condado de Middlesex, com a maravilhosa esposa Anne e o filho Will, muitas vezes ia até as bibliotecas de Londres pesquisar sobre o que o amigo lhe pedia, mas recentemente, ficara cada vez mais inviável arrancar páginas de livros importantes displicentemente e mandá-las num pacote, correndo o risco de perder as notas que eram essenciais a qualquer caçador durante a viagem de naviarra. Decidira então mandar há quase oito meses para Harry uma escritura oficial de petição de livros, alegando que auxiliariam a manter a proteção das colônias inglesas, com o intuito de ser julgado o direito do governador mandar os livros. Em resposta, quatro meses e meio depois recebeu na pensão em que estava no Sul da Virginia uma réplica do amigo que dizia: "Caro amigo, Com prazer que lhe informo que levei ao conselho em Londres seus interesses e foram atendidos de pronto. Sabe que aqui todos levamos muito a sério o bem de nossas mais novas riquezas — refiro-me as colônias, deve entender — e com o conhecimento que tenho dentro do parlamento, não foi difícil colocar em pauta rapidamente o conteúdo de sua carta. O juiz Clark Rutherford pediu para que eu apenas esperasse a liberação de todos os exemplares que estão expressos na folha, ou seja, seus pedidos. Alguns dos livros são difíceis de achar, mas estamos trabalhando rápido nisso. O juiz também informou-me que deverei ir junto com a encomenda, já que sua proteção é indispensável. Deve imaginar como Anne está brava com você, mas é só fazer um carinho no pequeno Willy quando atracar aqui — e esperamos que isso cedo aconteça — que ela volta a fazer seu cozido de frango com batatas. Até o final de junho (esta carta é de quinze de março) devemos estar recebendo todos os documentos. Depois disso, deixo tudo resolvido em Middlesex para conseguir partir em paz no meio de julho. Em setembro devo estar terminando de cruzar o Atlântico. Cuide-se, meu amigo. Sei que é difícil de se virar sem mim, mas tem feito um bom trabalho. Espero vê-lo bem alimentado. Deixe a cerveja de malte germânico de lado, junto com as moças do bordel. Até mais vê-lo, John." A saudade apertava, e já se iniciara setembro há vinte e cinco dias. Um comunicado estava expresso no porto da Filadélfia que se caso recebesse um governador inglês do condado de Middlesex, de nome Harry Winter, deveria dizer-lhe que a hospedaria estava paga até vinte de outubro, quando estava programado para John aparecer por lá e continuar sua viagem até mais para o Norte, expurgando os malefícios de todas as colônias. O padre aproveitaria sua pesquisa na Igreja da Pensilvânia para mandar um carro de aluguel buscar Harry — se já tivesse chegado — e irem direto para Blair, pois provavelmente este caso seria mais demorado do que o previsto. Essa cadeia de pensamentos acontecia usualmente na cabeça do nosso herói, e atrapalhava tudo que fazia. Era um de seus defeitos mais marcantes perder a atenção em qualquer outra coisa se não tivesse a atenção virada de corpo e alma para o certo assunto. Sofria de insônia por isso, além dos pesadelos que assolavam seus sonhos. O turbilhão de ideias que lhe ocorria durante a madrugada era comparável a correnteza de um rio montanhoso quando há uma precipitação no alto do cume. O padre Morgan mal reparara que as horas já tinham passado, e a noite sorria no horizonte apinhado de árvores.– Sr. Smith, vou me recolher. Por favor, qualquer coisa me avise. Com licença. Como o cocheiro assentiu, John subiu as duas placas que estavam na lateral do carro de aluguel afim de se proteger do frio que era forte e constante, ajeitou as almofadas no banco e recostou sua cabeça no encosto, cobrindo-se com uma colcha que estava por ali. Pretendia descansar um pouco e retomar o sono que perdera na madrugada do mesmo dia. A certeza de que tudo seria em vão lhe invadiu, e tudo voltava na sua cabeça. O chacoalhar das rodas sobre a estrada de terra aberta displicente no meio da floresta não era angustiante ou incômodo, pelo contrário, era bom de ouvir. Como o barulho da chuva batendo no telhado ou salpicando na janela enquanto você se enrola numa colcha de lã e espera o sono chegar. Até o barulho do trotar das ferraduras dos pés dos cavalos sobre a terra tornava aquele ambiente confortável, fazendo até John perder o pensamento nas suas responsabilidades para com Blair. Escrevo agora de dentro da cochia, observando meu personagem descansar quase que desmaiado na minha frente. Reparo como seu cenho está franzido, como se lutasse em seu sonho com algum ser demoníaco que enfrentara na sua curta mas ativa e respeitada vida de caçador. Um barulho fora da carruagem prendeu minha atenção, e o freio dos cavalos me fez ainda mais desconfiado. Um relincho agudo foi ouvido por corujas há metros de distância, que voaram longe pelo céu temendo que fossem também atacadas. Dei-me permissão para acordar John do breve sono, com um aperto no coração, mas uma vontade de vê-lo vivo. Algo não estava bem. Os cavalos não pararam, pelo contrário. Os sons que faziam eram aterrorizantes, e a carruagem levantava com a força que ambos animais depositavam ao empinar o corpanzil para o alto, afim de se desvencilhar de qualquer coisa que estivesse incomodando-os. John Morgan acordou neste instante, o desespero tomando conta de sua alma que criava cenários assuatadores onde ele era sempre o dilacerado sobre o chão. Os sons continuavam, e agora não se ouvia mais o cochicho característico da floresta, muito pelo contrário. Ouvia-se a agitação, como se o apocalipse aparecesse no mundo. "Deus, me ajude neste momento", pediu o padre, segurando o terço em ouro que ficava no pescoço. O medo não lhe deixava abaixar as barras que protegiam a abóbada do resto do mundo. Afinal, que homem não sentiria medo em sua situação? Tateando no escuro, John achara dois trincos que prendiam as aberturas nas extremidades. Cerrou os ferros para impedir qualquer coisa. Foi quando se lembrou do velho Smith. Não ouvia nada lá fora que pudesse indicar que o cocheiro continuava no controle do carro. Além do mais, sua charrete estava desgovernada. Os cavalos cessaram, mas algum barulho ainda se ouvia ao fundo. BOOM! Um baque surdo rugiu e o padre se viu estatelado e paralizado na alça de proteção do lado esquerdo do ambiente fechado. A porta direita havia sido arrombada, e nada se via ao fundo. A escuridão dos entremeios da mata estava ali. Somente ela estava ali. A força do que enfrentava agora o padre Morgan era maior que o que ele imaginara, e ficou pensando o que entraria por aquela abertura. BOOM! Outro som estridente rasgou o silêncio da penumbra, e John se via encolhido no chão, observando os dois lados em piscares de olhos. Suas armas e munição estavam na parte de baixo do carro, dentro de uma bolsa maior e mais rígida, onde ele guardava a bíblia e água benta junto. Nem cogitara a ideia de sair da proteção que pelo menos o teto do carro lhe servia, mas agora aquilo era uma possibilidade.
Nem pensou quando apenas viu um corpo sobre o seu, que mais parecia um fantasma, um poltergeist. Não se tratava de nada que pensara. Roupas negras se embrenhavam no rolo que virou aqueles dois objetos animados, lutando cada um por sua causa, e a escuridão impedia ambos de se verem, o que tornava aquilo muito mais intrigante e desesperador. Na luta — admito nosso herói estar tentando bravamente, mas sem sucesso -, os dois indivíduos caíram no chão úmido de terra beijada pela neblina. John impedia com toda a força que tinha aquele demônio alado e de diversas outras características — como percebera ele, vendo a força que lhe era incumbido suportar — de se apoderar de sua vida. Foi quando uma luz acendeu naquele cérebro que movia todos os músculos, ossos, articulações, órgãos, etc., para conter o fim iminente: O crucifixo. Com o cotovelo que antes havia sido coberto pela manga e agora estava sangrando, bateu forte no rosto do que ainda não identificara, o que serviu para dispersar os pensamentos do mesmo. A mão de John fora até seu pescoço e arrancou o colar com a força que lhe restava. Quando sentiu a criatura sobre si novamente, cravou-lhe a cruz da corrente em sua testa — ou pelo menos achara que era a testa, já que nada se via naquela noite escura — e recitou:– Suma, demônio pálido! — foi o suficiente para que ouvisse um grito que era um misto de agonia e de ódio. Sobre Morgan, o corpo que lhe atacava sumiu. A sua invisibilidade só fora desmascarada pelas pegadas cambaleantes no caminho da carruagem. As árvores balançaram ao mesmo tempo que John se levantara para examinar o local, e as pegadas pararam no meio do nada, como se o ferido capeta tivesse voado ou se enfiado na terra. As duas barreiras da parte de trás da carruagem sumiram, só restavam os estilhaços das dobradiças e um amassado no que antes eram os trincos, com um arrombo na lataria. Os cavalos continuavam ali, inquietos, relinchando e forçando as patas, batendo-as no sólo. Onde deveria estar o velho Smith só restava sangue, duas poças do tamanho de melões e pingos por todo o lugar. Era difícil identificar sem enxergar muito, mas a consistência que se espalhava nos dedos do padre podia ser distinguida como avermelhada. Uma rajada partiu pelos arbustos, e era hora de deixar a cena. Pegou a mala de mão e a mala onde estavam suas armas, colocou-as em cima do cavalo que lhe parecera mais calmo, e tirou-o do suporte do carro de aluguel. O som de galhos se quebrando que ouvia ao fundo se aproximava rapidamente, e deixou o padre alarmado. Saiu trotando em cima do cavalo — era ótimo cavaleiro, aprendera com o pai na infância e vivia viajando assim com seu alazão na Inglaterra, um presente da madrinha falecida -, mas não foi reto. Virou à direita, em direção à orla, esperando achar a tal pousada citada por Smith.
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