Stuck in his Past
4 The heroe of the my Life
Notas iniciais
Na velha cabana da floresta – Alemanha
Hannah acordou muito cedo, ainda se sentia estranha, era como se toda vez que despertasse fosse ver algum rosto conhecido, no entanto viu deitado no chão o homem que havia cuidado dela durante todos aqueles anos, ele estava dormindo no pequeno colchão no chão e tinha seu corpo coberto por um lençol branco deixando a mostra apenas seu peitoral musculoso, sentiu o rosto corar por pensar daquela forma, a situação era séria demais para isso, tinha coisas mais importantes para resolver do que ficar ali admirando o físico de um homem desconhecido. Ele parecia perturbado, talvez estivesse tendo um pesadelo, pelo pouco que ela sabia sobre os campos de concentração, aquilo podia fazer qualquer um perder o juízo, sua mãe certa vez havia lhe contado uma história, sobre um rapaz que conheceu em uma aldeia próxima da sua, um rapaz que ela conheceu ainda menino, que tinha lindos olhos azuis e sorriso charmoso, claro que ela nunca havia dito o nome dele, também nunca mencionou essa história na presença de Abraham, seu marido, mas aquele garoto havia sido levado para os campos com sua família judia, e ela não pode fazer nada.
“-Nunca vou conseguir esquecer os gritos dele enquanto os soldados levavam seus pais arrastados de forma violenta, nunca vou esquecer o medo que senti de ser a próxima, mas minha família conseguiu fugir, porque ele não nos dedurou.” – Disse Anya, mãe de Hannah certa vez ao se lembrar da primeira fuga antes de conhecer Abraham e se casar com ele garantindo assim uma segurança maior para sua família.
Hannah respirou fundo, pensou mais uma vez em sua mãe, no quanto sentia saudades dela, em como a sua presença seria fundamental nesse momento, fechou os sentindo o ar fresco da manhã que entrava pela janela, passou a mão pelos longos cabelos e se lembrou da conversa sobre quem ela era a partir daquele momento.
Flash Back ON
Erik entrou na casa com Hannah desmaiada em seus braços, percebeu por um breve momento o quanto ela estava pálida, no entanto, ainda sim belíssima, ele apenas a colocou sobre a cama onde havia sido seu lugar de descanso e esperou pacientemente que ela recobrasse os sentidos, também chegou á conclusão de que ela não poderia permanecer vestida apenas com aquela camisa velha, precisava de roupas de verdade, teria que ir até a cidade mais próxima para garantir essas coisas, também pensou que Hannah pudesse estar longe de casa e dos amigos que provavelmente pensavam na sua morte, isso poderia ser algo positivo ou negativo, ele ainda não tinha certeza, mas Hannah podia se curar e isso era algo a ser explorado. Durante esse período a jovem entrou mais uma vez em suas espirais de sonhos e pesadelos, como havia feito nos últimos anos em que ele esteve ali escondido, Erik se lembrava de como foi difícil escapar de Auschwitz, das coisas que foi obrigado a fazer e de como isso afetava quem ele era agora, se lembrou de Magda, uma jovem por quem nutriu um grande amor e que a perdeu como todo o resto, agora ele estava ali vendo Hannah falando coisas desconexas e preocupantes.
“Me deixe em paz.”
“Meus amigos vão me encontrar.”
“Vou trazer reforços, eu prometo.”
“Não me toque, não me toque, não me toque.”
—Você está bem? Hannah, eu estou aqui. – Erik se assustou ao ver que Hannah tinha muito medo em seus olhos, sua respiração estava ofegante, ela parecia traumatizada, olhava para todos os lados como se buscasse por alguma coisa, era como se o seu pesadelo ainda estivesse acontecendo. –Calma, sou eu, não vou machucar você, tudo bem? – Erik falou erguendo as mãos para o alto, naquele momento Hannah estava tomada pelo medo e sem pensar direito saiu da cama correndo e abraçou Erik parado a poucos passos dela. Eles ficaram daquela forma por muito tempo, até pelo menos que todas as lágrimas estivessem secas.
Depois que Hannah se recompôs, Erik a levou para fora novamente e lhe entregou um pedaço de pão rustico e salame para que ela não continuasse com fome, sete anos em coma sem nenhum tipo de alimento era humanamente impossível, por isso ele tinha certeza das habilidades dela, que não perdeu tempo e comeu tão rápido quanto uma criança, ele nem se lembrava da ultima vez que sentiu vontade de rir, mas aquilo era no mínimo divertido. O inverno ainda não havia chegado, mas naquelas montanhas sempre havia uma brisa gélida passeando pelos arredores, por isso o homem trouxe uma manta de lã e colocou cuidadosamente ao redor de Hannah para que a mesma se sentisse protegida.
—Magnus. Posso chama-lo assim? – Disse Hannah sentindo o rosto corar um pouco, mas o homem apenas sorriu e afirmou positivamente, só achava estranho que a jovem escolhesse Magnus e não Erik como a maioria. Sei que já me explicou várias vezes, mas ainda é tão confuso, me explique mais uma vez essa sua teoria sobre...sobre mutantes? – Hannah estava sentada no velho banco de madeira em frente á entrada principal, Erik respirou fundo e sorriu, ele sabia o quanto era difícil falar sobre aquilo, talvez, ele próprio só havia conseguido falar com uma única pessoa.
—Bem, não é tão simples assim, mas como eu disse antes, você tem um dom especial, provavelmente a regeneração celular. No seu caso parece que ela se manifestou de uma forma bem lenta, pode ser porque ainda não havia se manifestado antes, talvez com o tempo você se torne mais rápida em se curar. – Disse o homem com a voz baixa enquanto a menina tomava um chá de hortelã. –Normalmente nossos poderes se manifestam através de um momento de grande ansiedade, medo, raiva, ou dor, qualquer sentimento que faça explodir o seu poder. – Ele falou parecendo meio perdido em seus próprios pensamentos.
—Qual foi o seu? – Disse Hannah sabendo que a resposta poderia ser dolorosa.
—Eu não falo sobre isso. – Erik se levantou indo em direção ao pilar da pequena área feita de madeira e se escorou ali olhando para o céu. Ele só havia falado com uma pessoa sobre a separação de seus pais, sobre o campo de concentração, sobre a morte de sua mãe e sobre como isso foi usado contra ele. –E o seu? – Disse encarando Hannah de forma profunda, ela apenas deu de ombros sentindo-se vazia.
—Minha mãe dizia que havia anjos na terra, pessoas especiais. Talvez ela estivesse se referindo a isso. – Disse Hannah pensando em sua mãe e nas conversas que ela tinha sobre sua teoria, de que anjos estariam disfarçados na terra usando seus poderes o tempo todo. “Um anjo me salvou uma vez, quando os homens de Hitler tentaram nos levar para o campo de concentração, eu estava grávida de você.” Foi o que Hannah se lembrou, talvez sua mãe compreendesse isso melhor do que ela.
—Sua mãe parece ser uma boa mulher, eu não colocaria dessa forma, anjos são seres místicos e bondosos, livres de qualquer pecado ou maldade, não age por interesse próprio e não machucam as pessoas. Nós somos pessoas, mas somos pessoas especiais sim e estamos espalhados por todos os cantos do mundo. – Erik falou com um largo sorriso orgulhoso e Hannah percebeu o quanto aquilo era importante para ele e torceu para que um dia fosse importante para ela também.
—Acho que preciso de um tempo para entender e aceitar isso melhor, eu nunca tinha tido contato com pessoas diferentes antes, eu também não sabia que era diferente. – Hannah falou pensando em Bucky, será que ele ainda iria querer ser seu amigo se soubesse disso? Ou Howard? E Steve e Peggy? Será que todos iriam entender isso?
—Existem milhares de pessoas como nós. Até podemos ser diferentes, mas não estamos sozinhos, você não está sozinha. – Disse o homem de forma calma, por incrível que pareça Hannah se sentia bem com a presença dele, ela havia dito certa vez a Howard que tinha aprendido a não confiar em homens de ternos caros, bom, Erik não era esse homem, ele era apenas alguém que havia passado por muito sofrimento na vida e que entendia suas dores.
—Obrigada pelo apoio. Tudo ainda é muito estranho, eu só estou aliviada por não sentir mais dor de cabeça. Aquilo estava me matando. – Hannah falou passando a mão na nuca, ela não sabia, mas aquela dor que sentiu era o seu poder se manifestando.
—Você vai conseguir passar por isso, acredito que seja uma mulher forte. – Erik falou sem jogos agora, ele realmente acreditava naquilo, por vários anos ele viu a menina adormecida naquela cabana velha e a viu lutar, dia após dia, noite após noite, até voltar para o mundo dos vivos. Podia até não ter certeza de muita coisa, mas de fato Hannah era uma sobrevivente e isso ninguém iria tirar dela.
Flash Back OFF
Ela se levantou sem fazer barulho, pegou uma camisa verde de listas verticais brancas e resolveu usa-la como vestido, usou uma corda improvisada para fazer uma espécie de cinto, assim marcaria mais sua cintura até encontrar alguma coisa para ela usar de verdade. No banheiro encontrou uma tesoura que parecia servir bem para o seu próximo passo, com cuidado cortou seu cabelo apenas um pouco abaixo do ombro, para tirar um pouco o peso que sentia, depois usou a mesma tesoura para cortar as mangas da camisa e fazer uma tiara com o que sobrou do tecido, também usou para camuflar a corda amarrada na cintura deixando tudo um pouco mais bonito.
Olhou no espelho e não se reconheceu, não tinha maquiagem, mas estava muito melhor do que no dia anterior, sorriu para si mesma e cuidadosamente foi até a cozinha. Os utensílios eram simples, mas conseguiu fazer um ótimo café e um bolo de baunilha com recheio de nozes, estava feliz por ter os ingredientes ali, sua mãe teria orgulho de vê-la cozinhar, nunca foi uma mulher de se dedicar as pequenas tarefas do dia a dia.
Sem perder muito tempo aproveitou o bolo assando para lavar a louça e limpar a mesa, tudo parecia terrivelmente sujo e enferrujado e não podia ser diferente, “Homens são um desastre na cozinha Hannah, nunca permita que eles destruam a santidade do seu lar, esse é o trabalho da esposa”. A mãe de Hannah era uma mulher criada para ser uma boa esposa, acreditava que sua filha jamais se casaria com alguém, pois era muito próxima do pai e tinha como qualidades os idiomas, economia, gerenciamento e nos tempos livres defesa pessoal.
O bolo ficou pronto, a cozinha também estava limpa, do lado de fora na parte que seria os fundos da cabana foi feito uma grande pilha de coisas para jogar no lixo e nesse momento Hannah percebeu que havia uma caminhonete vermelha parada ao lado de uma grande arvore, ela podia ir até a cidade mais próxima e procurar por Howard, ela tinha seus números pessoais, precisava saber de sua mãe, de Peggy, e principalmente descobrir se alguém sabia alguma coisa sobre Steve e Bucky, mas estava com medo. Não queria ter que relatar o que aconteceu com ela naquele dia.
Então ao invés de ir embora, ela foi até o que parecia ser uma pequena horta e pegou algumas flores que nasciam próximas a cerca improvisada, pegou uma jarra de suco e colocou as flores como decoração, assim quando seu salvador acordasse teria uma linda surpresa feita com muito carinho por ela.
—Isso tudo é pra mim? – Disse o homem enxugando os cabelos com uma toalha musgo, aparentemente enquanto ela estava do lado de fora ele havia se levantado e tomado banho, dava pra sentir o cheiro de lavanda vindo do banheiro. –Só posso dizer que você devia ter acordado antes, faz tempo que essa cozinha não é usada. – O homem falou rindo e Hannah não sabia o que fazer, era estranho compartilhar um momento tão íntimo com alguém que mal conhecia. –Desculpe por estar sem camisa na maior parte do tempo, acredite não é de propósito, é só que não estava acostumado com uma dama na casa.
—Não tem problema, você é o dono da casa, eu não quero mudar sua rotina. – Hannah falou tentando não olhar demais para o homem que parecia rir divertido. -Eu não sabia o que fazer, então fiz o que foi possível com o que tinha na cozinha, não tenho muita habilidade com isso, mas espero que goste. – Hannah foi falando enquanto o homem pegava um enorme pedaço de bolo e comia com uma expressão tensa, ele também mantinha os olhos fixos na jovem e ela ficou com medo dele se enfurecer pela camisa cortada. –É...é uma forma de agradecer. – Ela terminou esperando que ele não morresse com o sabor ou a falta dele.
—Se você não tem muita prática nisso nem quero imaginar como você seria em uma cozinha profissional. Está ótimo Hannah. – Erik se sentou a mesa com a toalha pendurada no pescoço usando apenas uma calça um pouco mais bonita que a ultima, parecia parte de um terno talvez. Hannah não estava acostumada com homens rústicos, lenhadores ou operários das grandes fábricas de solda da Alemanha, ela estava acostuma com Howard Stark e seus ternos finos de risca de giz, ou com Steve e seu rosto perfeitamente barbeado, mas Erik era diferente, um homem que mostrava tanto refinamento quanto brutalidade, uma mistura de etiquetas que ela não conseguia compreender sozinha. –Acho melhor irmos até a cidade, precisamos comprar roupas para você ou vai acabar destruindo as minhas.
—Fico feliz que tenha gostado do bolo e me desculpe pela camisa, mas não tinha nada para usar, não queria ficar com aquela camisa, ela precisava ser lavada com certeza. – Hannah falou enquanto pegava o queijo de cabra na pequena geladeira movida a gerador assim como todo o resto dos utensílios elétricos.
—Não se preocupe. Você ficou bem melhor assim, gostei do que fez. Depois nós vamos até o vilarejo e eu vou providenciar alguma coisa pra você, sou um homem de muitos recursos por mais que não pareça nada além de um lenhador. – Disse Erik sorrindo. –E acredito que você queira fazer algumas ligações, tenho certeza que tem amigos e família. – Erik falou aquilo para testar a reação de Hannah e foi exatamente como pensou, seus olhos refletiam medo, ansiedade e vergonha.
—Não sei se isso é uma boa idéia. – Disse fazendo uma pausa longa demais, ela apertou as mãos e mordeu os lábios com tanta força que quase os feriu, como iria contar sobre o que aconteceu naquele dia? Como iria dizer que deixou Bucky Barnes para morrer pelas mãos dos alemães? E pior, como iria contar que não foi forte o suficiente para matar o desgraçado que a desonrou? -Eles já aprenderam a viver sem mim, talvez eu devesse apenas continuar por aqui e conseguir um trabalho, posso te ajudar com a casa ou algo do tipo, eu não sei...eu não sei se eles vão me aceitar agora. – Hannah falou se sentando e mantendo a cabeça baixa.
—Você deve ter orgulho do que é. Não importa o quanto tente mudar, você agora é uma de nós, somos uma irmandade, uma legião, não se pode lutar contra isso, eu tentei fazer o que eles queriam, eu tentei ser como eles, e o que eu ganhei? O que restou para mim? Isso, esse lugar no meio do nada e uma vida de fugitivo. – Disse Erik ficando de pé se aproximando de Hannah e abaixando para ficar da altura dela, ele segurou suas mãos com cuidado, já havia percebido que ela tinha medo de contato, ele já entendeu o que havia acontecido, era um homem experiente, não era tolo. -E se alguém dizer o contrário, se alguém tentar lhe ferir novamente, você deve enfrentar e destruir. – Erik fez o garfo sobre a mesa se revirar até só restar uma bola perfeita. – Você tem uma chance Hannah, você não pode ser ferida por eles, você é uma sobrevivente, tem amigos influentes, tem um nome, precisa aprender a usar isso agora, pode garantir a segurança de outros como nós. Pode servir de inspiração para todos.
—Acha mesmo que eu sou capaz disso? – Disse Hannah olhando para aquele homem que lhe causava tanta admiração. –Nunca me vi como uma revolucionária, sou apenas responsável pelos negócios da minha família, nunca cheguei a ir tão longe.
—Tenho certeza que você pode começar um mundo novo. – Erik falou ficando de pé enquanto sua mente trabalhava a mil, ele pensava em tantas possibilidades que nem conseguia definir o que era prioridade, ele só sabia que seria vitorioso.
—Então, então eu quero que você venha comigo. Não vou conseguir encarar minha mãe, nem meus amigos sozinha, eu preciso de você. – Hannah falou contando a frase de forma brusca, ela se deu conta do que havia falado, nunca foi o tipo de mulher que fazia isso, ela era forte, durona, e não uma garotinha frágil, mas estava abalada e precisava de proteção, precisava de um amigo. –Desculpe, você tem a sua vida, eu não posso pedir que venha comigo.
—Vida? Eu não tenho nenhum tipo de vida aqui, não agora. – Disse Erik respirando fundo, ele não queria falar sobre o seu passado, sobre sua esposa e sua filhinha, não queria falar sobre o que as pessoas da cidade fizeram com ele, sobre os reais motivos de estar escondido ali, ele não queria falar sobre suas dores, apenas queria seguir em frente e fazer todos pagar. -Se minha presença for o que precisa para começar uma revolução, então podemos ir. – Erik estava muito feliz com a possibilidade de rever seu velho amigo, fazer uma visita a New York não lhe faria mal, havia muitas pontas soltas de seu passado sombrio que Hannah não poderia conhecer mais ele tinha certeza que com a motivação certa tudo ficaria em seu lugar.
—Obrigada por ter salvo minha vida Magnus. Não sei o que teria acontecido comigo se não fosse por sua dedicação, realmente não sei. – Disse Hannah ainda segurando as mãos do homem a sua frente. –Quero que saiba que talvez você seja a primeira pessoa que me viu chorar. – Hannah precisava dizer aquilo, ela sentia força em Erik, ele tinha aquele magnetismo em volta de si, uma espécie de campo atrativo que a fazia ter vontade de estar próxima, por fim se inclinou para frente na tentativa de abraçar Erik que por estar ajoelhado não sustentou o peso da mesma caindo de costas e acabou levando a mesma junto.
—Nós nem nos conhecemos ainda e já está em meus braços assim? – Disse com um tom debochado e irritante que a fez se lembrar de Howard e da semana que passaram na base, com suas brincadeiras e jogos de conquista.
—Desculpe, não tive a intenção de cair. – Hannah falou muito corada enquanto Erik permanecia rindo vendo a menina se levantava rapidamente envergonhada. –Desculpe, realmente me desculpe. – Falou ainda mais tímida, ela não era boa com toda aquela sinceridade, sempre foi forçada a fingir que era forte, sempre foi obrigada a lidar com homens arrogantes e cheios de si, soldados que acreditavam ser os melhores dos melhores, havia dispensado vários pretendentes no decorrer de suas viagens com seu pai, fato que preocupava demais sua mãe, e agora estava ali, quase nua, usando a camisa de um desconhecido como vestido e cozinhando para ele, o que sua mãe iria pensar? Que ela havia se tornado uma perdida? De qualquer forma precisava voltar a ter auto confiança, precisava encontrar a Hannah lutadora que existia dentro dela, mas não podia negar que a presença de Erik lhe trazia uma enorme paz.
—Não precisa se desculpar. Isso não foi nada, eu é que costumo fazer brincadeiras de mal gosto as vezes, tenho um amigo que detesta isso. – Disse Erik tentando amenizar a situação, não queria perder a confiança da jovem por nada. -Pode me chamar de Erik se quiser, meus amigos me chamam assim. Já meus inimigos. – Erik sorriu de forma sombria por alguns minutos, Hannah pensou que fosse apenas uma brincadeira para quebrar o clima estranho que ela causou ao cair em cima dele, então apenas sorriu, ela jamais imaginaria que ele tinha um outro nome, um mais assustador.
Ela era um cristal quebrado. Ele era um martelo.
Mansão de Howard Stark – Malibu
Howard estava mais uma vez entediado, sua casa como sempre era o foco da vida social de New York, todas as modelos mundialmente famosas estavam ali, assim como a maioria dos empresários mais bem sucedidos do mundo. Seu pai não gostava muito disso, era um homem sóbrio, e um pouco mais rígido do que costumava ser, Edward Stark era assim, cheio de vontades, e estava ansioso para ver o filho casado e com herdeiros.
—Você não é mais nenhum garoto Howard, já vadiou o suficiente por duas vidas, está na hora de conseguir uma boa mulher, e eu tenho uma perfeita para você. – Edward falava da filha de um de seus amigos do golfe, a jovem Mary.
—Ainda preciso viver uma ultima aventura antes de me amarrar pai. Não estou pronto para ser um chefe de família, nem ao menos me apaixonei por uma dançarina exótica ainda. –Disse Howard de forma divertida para o pai que apenas respirou fundo tentando descobrir quando seu filho iria ter juízo.
Na mansão havia uma grande imensidão de fotógrafos e jornalistas cobrindo a mundialmente conhecida Festa do Ano, onde Howard sempre acabava anunciando alguma coisa gigantesca, mas dessa vez ele parecia mais deprimido do que entusiasmado. O assunto era mais sério que o normal também, algo sobre ajudar pessoas, o tipo de assunto que parecia meio incomum para um fabricante de armas.
—Este ano vamos fundar um grupo especializado em doenças incuráveis, conhecido como Laboratório Gênesis. Os maiores cientistas do mundo em parceria com as Indústrias Stark e o governo americano vai estar trabalhando para desenvolver vacinas para todos com o mínimo de gastos. – Howard sabia que na verdade aquele laboratório era uma forma de fazer estudos genéticos para o aprimoramento humano sem que a sociedade entrasse em pânico ou o caso, sem que os inimigos ficassem sabendo. Tudo financiado pelas Indústrias Stark, claro.
—Ouvimos dizer que o senhor criou um fundo á parte para depositar metade dos lucros em nome de Hannah G. Erskine, isso é verdade? Afinal, todos sabemos que a herdeira do patrimônio Erskine foi mais uma vitima da guerra. – Disse a jornalista conseguindo a atenção de todos naquele momento.
—Não é uma questão de Hannah estar morta. É uma questão pessoal. – Howard não falou mais nada, apenas saiu deixando todos ali com suas duvidas, ele não podia dizer que aquilo era uma forma de se sentir menos culpado pela morte da jovem. Nos últimos meses tudo começou a perder o sentido, as buscas por Steve Rogers estavam tão congeladas quanto o oceano que os distanciava, e os esforços de Peggy Carter para se manter na ativa eram monótonos, sinceramente, ele não entendia a razão da mulher não seguir em frente. Na verdade, ele entendia sim, afinal ele próprio não estava sendo capaz se seguir seu caminho, uma parte dele havia se perdido naquela guerra.
—Senhor Stark tem uma ligação para o senhor, pode atender? – Disse a voz de Jarvis, o mordomo de Howard que era mais como um amigo e um verdadeiro faz tudo. O homem também havia sido coagido a ajudar a agente Carter em suas missões, Howard no fundo tinha medo que a amiga criasse mais problemas do que soluções.
—Não Jarvis. Não quero falar com ninguém agora, eu só quero ficar um pouco em silencio no meu escritório, só não deixe ninguém passar para a área privada. – Disse Howard indo até sua mesa e pegando uma garrafa de whisky.
—Mas senhor é uma ligação da Alemanha, parece urgente. – O homem insistiu e Howard ficou curioso, porque alguém da Alemanha iria ligar para ele? Então resolveu atender mesmo que seu coração soubesse que não daria em nada.
—Alô?
—Howard? Oh Deus, nem sei por onde começar. – Disse uma voz um pouco chorosa do outro lado. –Sou eu, Hannah Erskine, eu sei que você provavelmente não vai se lembrar de mim, mas eu preciso voltar. – Hannah falou e houve um momento de silencio tão grande que quase perfurou o telefone.
—Não é verdade, Hannah está morta. – Foi a única coisa que Howard conseguiu dizer antes de sentar atordoado em sua cadeira.
—Eu sei que parece loucura, mas estou viva, estou com um amigo, ele salvou minha vida, fiquei em coma por muito tempo Howard, pelo amor de Deus você vai poder me receber ou vou ter que ligar para Peggy? – Disse a jovem com uma pontada de irritação na voz, era difícil explicar tudo aquilo por telefone.
—Se você é realmente quem diz que é, me fale uma coisa que somente Hannah saberia, algo que me convença, ou juro por Deus que vou rastrear essa ligação e acabar com você se isso for uma espécie de trote.
—Aprendi a nunca confiar em um homem de ternos caros. – Disse á jovem um pouco emocionada, aquela foi uma das primeiras coisas que havia dito a Howard. –E posso dizer que na noite em que me convidou para aquela festa estupida eu não queria ir, mesmo assim, depois que assinou nosso contrato de negócios eu acabei indo, e usei aquele vestido azul bobo para te impressionar. – Hannah falou sincera e Howard controlou a emoção. Era ela. Era sua Hannah.
—Vou providenciar que sua viagem seja segura, quero que venha direto para minha casa em Manhattan ouviu? Aqui é um apartamento mais discreto, não fale com ninguém no caminho e tome muito cuidado no aeroporto, vou estar te esperando pessoalmente e Hannah...
—Sim?
—Senti muito a sua falta. – Disse o homem ainda sem acreditar no que estava acontecendo, finalmente iria juntar todas as peças do quebra cabeças daquela história sem fim, iria descobrir o que aconteceu com Steve Rogers depois da missão de salvamento, também iria saber o que aconteceu com Bucky Barnes e poderia quem sabe saber onde diabos Hannah havia escondido o soro do super soldado que a mesma havia escondido. –Jarvis, providencie o quarto de hospedes no apartamento de Manhattan, quero que tudo esteja perfeito quando receber a senhorita Erskine de volta. – Disse o bilionário sentindo uma grande vontade de voltar para sua festa e comemorar com todos.
Graymalkin Lane, n° 1407 Salem Center, New York
A bela mansão de ar vitoriano chamava a atenção de qualquer pessoa que passava por aquela região. Muitas histórias abrigavam aquelas paredes, muitas perdas e muitos medos também, mas principalmente muita força de vontade.
—O que você está fazendo Charles? – Disse a voz da garota de pele azul que percebeu uma agitação em seu “irmão”, ele mantinha a expressão fixa no portão principal como se alguém estivesse prestes a chegar a qualquer momento.
—Só estou esperando Raven, tem alguém que você vai gostar de conhecer. – Disse com um pequeno sorriso enquanto abria os portões com a força da mente.
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