Strokes
42 New wreck
Notas iniciais
No meio da madrugada, Sakura despertou de súbito, pensando com extrema preocupação nas mulheres febris a poucos palmos abaixo de onde ela dormia. Sentou-se, esfregou os olhos, olhou para a cama do Sasuke; ele dormia sereno. Talvez o balanço do navio o ajudasse a enfrentar as corriqueiras insônias.
Com o auxilio de uma lanterna, Sakura vasculhou pelo chão do quarto minúsculo um buraco, qualquer fissura por onde Katsuyu pudesse passar, contudo não havia. Ela tinha receio de abrir a portinha e dar de cara com um marujo, isso não só colocaria todo o plano a perder como deixaria as mulheres e crianças em risco.
Silenciosamente, Sakura fez o Kuchiyose e Katsuyu surgiu sob um tamanho diminuto:
— Preciso que desça discretamente e me ajude a cuidar de três mulheres que sofreram aborto. Controle a febre e sangramentos se houver. Pelo menos enquanto não desço.
Deitada no chão com o ouvido na portinha, Sakura concentrou-se para detectar se havia alguma presença masculina no local. Concluiu que não. As mulheres conversavam calmamente, em um tom baixo, talvez para não acordar as crianças e as outras que dormiam. Sakura ergueu cuidadosamente o tampão para que Katsuyu conseguisse passar. Assim que abaixou, ainda deitada de buços no chão, uma batida na porta a alarmou.
Instintivamente a mão de Sasuke segurou o cabo na espada que repousava ao lado do seu leito. Sakura segurou a mão dele e fez sinal de que iria ver quem era. Enrolou-se no lençol e abriu uma fresta da porta com uma mão, na outra, uma kunai banhada em veneno que ela sempre deixava ao alcance.
— Pois não? — foi gentil ao ver que se tratava de um jovem, mais novo do que o Sasuke, provavelmente. Parecia encabulado.
— O Capitão gostaria de saber se não tem como você visita-lo em seu aposento — A expressão de Sakura pareceu ter sido bem clara, pois o garoto tratou de emendar uma explicação ―E-ele está passando muito mal. Acredita que seja alguma epidemia e exigiu que você o examinasse. Como médica.
Mesmo estranhando, Sakura achou que poderia ir sim visitar o velho asqueroso. Poderia até tentar tirar algumas informações dele. Que mal haveria? Ele não tentaria nenhuma gracinha sabendo que com apenas um soco ela poderia naufragar ele e sua tripulação nojenta junto.
— Tudo bem. Você espera aí. Sasuke e eu vamos nos trocar.
— Ah — o garoto disse levantando os calcanhares antes que ela fechasse a porta — Ele pediu para que fosse sozinha.
Sakura ficou em silêncio, encarando o garoto. Fechou a porta sem dar uma resposta. Virou-se para o Sasuke, a mão ainda estava firme na espada.
— Você não vai.
— Vou.
Sasuke suspirou e sentou-se, irritado, assistindo ela se vestir:
— Vai cair nessa mentira fajuta?
— É até uma ofensa você pensar que uma kunoichi com a minha experiência cairia nisso.
— O plano não é esse, Sakura — Sasuke se levantou, parando na frente dela.
— Temos que nadar conforme a correnteza — retribuiu o olhar com a mesma firmeza — Katsuyu está lá embaixo cuidando das mulheres em pior estado. Vou tentar tirar alguma coisa dele.
— Você vai pôr tudo a perder.
— Se tivermos que lutar agora, lutaremos agora.
— Nesse breu? Nesse frio? Se fossemos só nós dois, eu não me importaria. Você está se esquecendo das mulheres lá embaixo.
— Eu só penso nelas! — sussurrou entredentes — O quanto antes as tirarmos daqui, melhor.
— Não há botes para todas, e mesmo se houvesse, elas estão fracas, não aguentariam ficar à mingua no mar por muito tempo.
— Eu sei — admitiu virando o rosto, derrotada.
— Não posso impedi-la de ir.
— Nem se tentasse.
— Não seja impulsiva — Sakura assentiu e saiu.
Sasuke não iria dormir enquanto ela não voltasse.
.o0o.
— Ora, você veio! — riu e emendou uma tosse que denunciou o estado das suas vias respiratórias. Parecia uma chaminé velha cuspindo as cinzas — Estou tendo um grande mal estar, desde o jantar.
Enquanto falava, Sakura inspecionava com o olhar o quarto do homem, umas quatro vezes maior do que o que ela dormia com o Sasuke. Havia objetos de fetiche sexual, armas, bebidas e muitas caixas cobertas.
— Gostou da decoração? — perguntou com o sorriso que Sakura detestava.
— Acho que bom gosto não é uma das suas qualidades — respondeu sinceramente o fitando com um sorriso forçado.
— Ah, mas eu tenho uma porção de outras qualidades — disse em tom de malícia.
— Aposto que sim — Sakura concordou, sentando-se ao lado da cama onde o homem estava deitado como um porco, realizando os primeiros procedimentos para saber o que ele tinha — Não tem nenhum enfermeiro à bordo?
— Não.
— É extremamente necessário.
— A viagem não é tão longa.
— Realmente. Você disse que é o único que segue essa rota.
— Exato. Paramos agora no País do Redemoinho e seguimos direto para o País da Água. Na volta a mesma coisa.
— Entendo — disse calmamente. O homem não tinha nada — É um tanto estranho que haja passageiros doentes em um trajeto que demora um pouco menos que um dia.
O olhar do homem nublou.
— Justamente por isso acredito que temos uma epidemia.
— E das fortes, para atingir um navio com a lotação máxima em algumas horas.
Sakura extrapolou, e sabia. O homem não era tão idiota. Para manter tantas mulheres presas por tanto tempo, ele deveria ser esperto. Muito esperto. Com certeza já deve ter lidado com pessoas como Sakura. Ele lidava com muitas se era realmente o único que percorria aquele trajeto.
— Sabe, garota — tossia compulsivamente enquanto Sakura tentava limpar seu pulmão por meio de ninjutsu médico por pura caridade — gosto de você — tosse — Gosto tanto, que estou disposto a contratá-la como minha enfermeira permanente.
Sakura parou. O brilho verde sumiu.
— Sua enfermeira?
— Sim. Da tripulação também, claro — abriu um sorriso.
— Sou kunoichi. Minhas habilidades com a medicina são apenas um complemento do que eu sou de verdade.
— Mas a vida de shinobi tende a ser curta. Se ficar aqui, terá segurança, conforto, tudo do bom e do melhor.
— Ser capitão é tão rentável para que você possa garantir tudo isso para mim?
— Ah, os negócios são extremamente rentáveis.
— Curioso — sorriu voltando a atenção para o ninjutsu imergindo nos pulmões velhos.
— Você aceita?
Sakura sabia que se saísse dali negando, as coisas ficariam ruins. O encarou com o entendimento silencioso mútuo. Ele sabia que ela sabia demais. Ela fez questão de deixa-lo saber.
— Quanto? — ele apontou para uma das caixas forradas.
— Uma caixa daquela tem ouro o suficiente para que você nunca mais precise trabalhar na vida — sussurrou soltando seu bafo na atmosfera.
— Isso é um tanto irônico já que para receber eu terei que trabalhar para você por tempo indeterminado. E já que me garantiu segurança, conforto, tudo do bom e do melhor, do que dinheiro me servirá?
Ele não teve resposta.
Antes que formulasse algo ou Sakura dissesse alguma coisa para romper o silêncio, Kaname bate na porta anunciando a chegada ao País do Redemoinho. Sem pedir licença ou olhar para trás, Sakura deixa o quarto. Não suportava mais o odor de coisa podre que emanava dele.
.o0o.
Sasuke ficou esperando Sakura no fim da rampa. Assim que ela o viu notou o mal humor e resolveu não falar nada, nem um “bom dia”. O sol também mal havia surgido. Só os homens desceram, embriagados, alguns com uma das meninas embaixo do braço.
A ruiva com quem Sasuke tinha conversado estava com um homem de baixa estatura, gordo e mal encarado, apertava sutilmente a sua cintura. Ela olhou para ele e falou algo sem ruído.
“Me ajuda”, leu em seus lábios.
— Não seja impulsivo — Sakura sussurrou na nuca dele, encarando a menina de volta.
Ele não podia fazer nada.
— Precisamos comprar tudo rápido — falou a ignorando, fitando as poucas lojas perto do porto.
O País do Redemoinho era um país extinto, não tinha nada mais do que o necessário para quem desembarcava ali por algumas horas.
— Não posso me afastar muito. Katsuyu está lá no barco.
— Vocês já ficaram separadas por distâncias bem maiores.
— Acontece que isso requer muito chakra, e se tivermos que adiar ao ataque, o que eu economizar será bem útil — Sasuke deu os ombros — Não podemos continuar no navio — acrescentou — Ele provavelmente percebeu que eu estou desconfiada, talvez até saiba que descobri tudo. Convidou-me para fazer parte, ser sua enfermeira — riu com escárnio — Deve ter feito o mesmo com as outras garotas, convidado para ser cozinheira ou algo do tipo, prometendo céus e mares.
— O que respondeu?
— Kaname salvou-me bem na hora, mas com certeza o nojento não esqueceu e irá me cobrar.
— Vão subir algumas mulheres para os quartos para que você possa trata-las. Use isso como desculpa para não falar com ele.
— De qualquer forma, precisamos adiar.
— Fique aqui. Serei rápido.
Sakura o esperou, olhando ao redor. Notou os olhares dúbios dos homens que saíam e entravam no barco. Estavam desconfiando. Estavam sim. Sakura teve vontade de gritar pelo Sasuke e começar a chacina ali mesmo. Era repugnante imaginar que aquelas mãos ásperas de sujeira tocavam aquelas mulheres tão sofridas, abusavam em todos os sentidos. Sakura poderia não matar, não gostava de matar, porém as mãos ela arrancaria. Uma a uma.
.o0o.
— Obrigada, Katsuyu-sama — Sakura fez uma reverência em agradecimento e desfez o Kuchiyose.
O trabalho de Katsuyu foi apenas amenizar a situação das mulheres, pois não havia muito que fazer. Se ficassem como estavam por mais dois dias, com certeza morreriam.
— O Capitão mandou-me selecionar as piores. Perguntou se até chegar ao País do Redemoinho você consegue curá-las.
— Não posso dar nenhuma resposta.
— Você precisa salvá-las! — disse em tom de súplica — Ele joga todas no mar como entranhas de bicho — sussurrou.
— Você disse que posso confiar em você, Kaname — o rapaz assentiu frenético enquanto Sakura reunia os lençóis, tesouras e remédios — Vamos afundar o navio — encarou-o, ele arregalou os olhos — Se quiser sobreviver, assim que nos afastarmos o bastante da costa, você deve se juntar as mulheres. Você e Kyowa.
— Certo — balançava a cabeça como uma mola.
— Sasuke e eu não vamos resgatá-lo se não estiver lá.
— Eu estarei lá.
— Nem vamos poupar sua vida se você estiver no caminho quando atacarmos – engoliu um seco — Nossa preocupação é com as mulheres e as crianças.
— Pode deixar, Sakura-sama, estarei lá em baixo.
— Certo. Você vai me levar aos quartos e vai ficar me auxiliando.
.o0o.
— Por favor, me deixa sair! Eu só tenho isso! Não tenho mais nada!
Sasuke deferiu um soco no rosto do rapaz que pôde ouvir um osso lascar. Ele chorava como uma criança, não entendia que quanto maior o alarde, pior seria.
— Não quero nada seu.
— Você matou o Takumi — chorava — Você o matou!
— Se quiser que ele volte, vai ter que fazer o que eu mando.
— Você o matou! Ele não vai voltar! — outro soco.
―Em menos de oito horas eu vou naufragar este barco. Se não quiser colaborar, permanecerá amarrado neste quarto, e não terá a mesma sorte que o seu irmão de poder morrer dormindo.
— O que eu tenho que fazer? — Sasuke esboçou um sorriso mínimo de satisfação — Não posso fazer muita coisa, você me quebrou.
— Sakura cuidará disso.
— Você descobriu...
— Sim. Quando eu te liberar, você vai carregar os botes com as mulheres que Kaname irá trazer. Se eu o ver junto aos outros, eu não hesitarei em mata-lo.
— E o Takumi?
— Você o levará consigo.
— Você vai me soltar agora?
— Não — virou as costas para sair do quarto.
— Por favor, me solta! Eu imploro!
Era tarde demais, Sasuke já tinha saído.
.o0o.
— Me dê mais panos, rápido!
Sakura gritava para Kaname seguir seu ritmo. O Capitão estava do lado de fora, ela podia sentir mesmo concentrada em salvar uma mulher de pouco mais de vinte anos. Ela sangrava tanto que foi necessário Kaname colocar baldes aos pés da cama e diversos lençóis embaixo das pernas quase sem vida.
— Eu não aguento mais ver isso, pelo amor de Deus, chame outra pessoa! — Kaname implorava, o rosto estava grudento de lágrimas e suor.
Era a terceira mulher em quem Sakura fez o mesmo processo carniceiro de limpeza pós-aborto. Já fizera antes, no Hospital de Konoha, porém com mais estrutura e uma equipe como de suporte, era bem diferente fazer tudo sozinha em um lugar tão sujo.
As duas primeiras estavam tão ruins quanto a última. Eram pouco mais velhas, estavam agonizando há um tempo, porém o bebê morto tinha poucas semanas. A última, mais nova e com uma magreza beirando a desnutrição, quase não tinha barriga, contudo a gestação passava dos quatro meses quando ela perdeu, isso mudava drasticamente seu quadro em relação às outras.
Sakura tinha a frieza médica que Tsunade a ajudou construir, entretanto essa frieza não dominava a humanidade dela. Sua vontade, ao examinar a mulher e perceber o tamanho do bebê morto, era de mata-la rapidamente, com uma injeção, uma mistura falta de remédio, assim ela não teria que sofrer tanto. Tudo para Sakura não ter que fazer o que estava fazendo, o mesmo processo, mas muitas vezes pior, pois o bebê já tinha forma.
— Vá tomar um ar... Tente trazer alguém para doar sangue. Ela perdeu muito.
Kaname saiu sem hesitar, então Sakura parou de tentar estancar o sangue e deu início a pior parte. O útero já estava expulsando os restos mortais do feto, de modo que não estava não difícil retirar. Com um bisturi de chakra e a tesoura esterilizada, Sakura foi cortando algumas partes, quando necessário, e colocando em uma travessa de alumínio que Kaname encontrou na cozinha. Chorava compulsivamente, limpando as lágrimas no antebraço. Era um dos piores serviços a se fazer.
Limpou, esterilizou e deu os pontos assim que estancou o sangue. A mulher estava tão fraca e dopada de morfina que ficou inconsciente durante toda a cirurgia que durou quase três horas. Kaname não dava as caras há quarenta minutos. Deveria estar passando mal ou tendo dificuldade para achar um doador. Fez um truque rápido para saber se o sangue da moça era compatível com o seu, por sorte era. Improvisou um litro de soro pendurado em um prego enferrujado, sentou-se ao lado da mulher e começou a fazer a transfusão diretamente. Sakura deu pílulas de hemácia para a mulher, isso estimularia a medula a produzir mais sangue mais rapidamente. Havia sobrado somente duas pílulas.
A travessa com os pedaços do feto estava apoiada no banco ao lado. Sakura não queria mais olhar para aquilo. Despejou álcool, pegou a vela que usou para esterilizar os instrumentos e deitou a chama na travessa cheia de álcool. Incendiou rapidamente. Por sorte, segundos depois Kaname voltou com quatro meninas. Olhou para a travessa incendiando, antes que perguntasse alguma coisa, Sakura ordenou:
O cheiro de carne queimada nunca sairia de sua memória.
— Jogue isto no mar ―Kaname ficou parado — Agora! — Rapidamente ele saiu do estado de paralisia. Com a ajuda de uns lençóis sujos no chão, pegou a travessa pelas bordas, tentando apagar o fogo com sopros, e então saiu do quarto apressado.
— O que era aquilo? — Uma das meninas indagou fazendo careta.
— Panos sujos.
— Tinha um cheiro horrível — outra comentou tapando o nariz.
— Parem de conversa, sentem—se nesta outra cama — elas obedeceram — Vou fazer um teste rápido para saber se o sangue de vocês é compatível com o dela.
— Ela vai sobreviver?
— Não sei — Sakura respondeu sinceramente
Retirou uma amostra de sangue de cada uma, em seguida trocou a agulha de coleta por uma mais grossa, ligada por um tubo de silicone há pequenas bolsas de transfusão. Sasuke havia comprado apenas seis, quatro eu já estava utilizando com elas. Duas eram compatíveis, do tipo sanguíneo O, as outras eram A e AB.
O odor ainda pairava no ar, dava-lhe náuseas. O cheiro de carne queimada jamais sairia de sua memória.
.o0o.
Sasuke estava almoçando tranquilamente quando percebeu que estava sendo observado, não por meia dúzia insignificante, era por todos que estavam na sala de jantar coletiva do barco. Ele arrumou a postura gradativamente, encarando cada um de volta com o mesmo olhar hostil. A mão discretamente indo ao encontro da katana.
— Quer dizer que o “Uchiha-san” chega no nosso barco, come e dorme como príncipe e ainda faz pouco dos nossos marujos? — a voz familiar surgia das suas costas — Isso é um insulto inadmissível, não é mesmo, rapazes? — Os homens concordavam em grande euforia, cuspindo, erguendo as canecas se gim, gritando xingamentos. O Capitão deve ter feito um movimento que os calou. De costas, Sasuke não poderia ver, nem gostaria — Aceito desaforo de qualquer moleque mimado e insolente, porém não aceito que mexa com os meus homens! — trovejou lançando um machado na direção da cabeça de Sasuke esquivou facilmente, sacando a espada e se defendendo dos homens ao seu lado que começaram a ataca-lo com todo o tipo de arma e objetos.
A grande maioria inexperiente, contudo, eram muitos ao mesmo tempo e isso o atrapalhava, estava cercado. Cansado de só se defender, Sasuke esperou pelo menos uns quatro avançarem, defendeu-se com a katana e uma kunai e as usou como condutor para eletrocutar que estivesse envolta. Foi uma carga alta, não o bastante para matar. Alguns marujos, assustados, hesitaram e recuaram, Sasuke não perdeu tempo e subiu na enorme mesa de madeira e se defendeu de todos os lados por onde era atacado. Com violência, sem pudor algum. Mutilou alguns por puro prazer, sentindo um gosto de justiça na boca pelas atrocidades que faziam.
Os homens mesmo hesitantes, vendo os amigos mutilados, alguns mortos no chão, não tinham medo de avançar, e Sasuke nem estava dando o seu máximo. O Capitão que há poucos segundos estava ali, não estava mais.
Interessado somente em saber onde o Capitão estava, Sasuke foi atraindo os homens para fora da sala de jantar, defendendo-se, atacando e olhando para os arredores procurando saber onde o infeliz estava.
— Você e aquela vadiazinha se acham muito espertos, não é mesmo? — O Capitão vociferava seguindo-o, encurralando-o no bombordo. Possuía um machado na única mão que restara e demonstrava destreza ao manuseá-los, porém Sasuke era mais rápido na hora de desviar dos ataques certeiros.
Sasuke parou de medir seu bom senso, não estava mais atacando os homens que o cercavam por defesa, estava avançando para mata-los, estava irritado. Imaginava onde Sakura poderia estar que não estava ouvindo toda aquela algazarra. Avistou de longe a silhueta de Kaname, não enxergava muito bem daquela distância, mas sabia que era ele, despejando algo no mar. Fez barulho, disfarçou tê-lo visto, torceu para ele alarmar Sakura. Ela gostaria de participar da briga.
Alguns capangas, os melhores que sobraram, o distraíam enquanto o Capitão escalava a enorme rede de nó de corda que ligava o estibordo ao mastro. Subia gargalhando, os dentes deviam chacoalhar de tão podres. A risada mais limpa por conta dos pulmões melhorados pelas mãos santas de Sakura. Um até de misericórdia.
— Você vai morrer, Uchiha desgraçado! — Gritava — Vou me vingar do seu parente maldito que arrancou meu braço!
Então foi um Uchiha que o deixou maneta. Se Sasuke soubesse rir, teria rido. Limitou-se a um sorriso que só enfureceu mais o Capitão que escalava a rede como um besouro desajeitado, um machado na mão e um na boca. Entusiasmado pela descoberta, Sasuke chuta um dos homens em direção as cordas do bombordo, o homem quebra a madeira e cai no oceano.
Os sobreviventes que estavam desacordados na sala de jantar de repente saem furiosos e ensanguentados, avançam todos de uma vez. Sasuke envolve a katana com o Chidori e vai derrubando os que se aproximam. Vem chegando mais. O Capitão está quase no pico, gargalhando como um mendigo insano.
Sakura chega de repente, como uma criatura caída dos céus. Com um soco, manda quatro homens de uma vez para o mesmo arrombo que Sasuke fez no bombordo.
— Cuida deles que eu vou pegar esse velho maldito! — falou.
Sakura agarrou a base da rede de cordas pela qual ele escalava e foi puxando com a força necessária para não arrebentar. Os nós foram se unindo, o homem foi escorregando, xingando-a, ameaçando-a, e ela continuava a puxar. Um dos marujos a atacou e roubou sua atenção, foi a deixa para o Capitão lançar um machado que acertou seu ombro. Sakura urrou com a dor, soltou as cordas que voltaram abruptamente para o mesmo lugar. Ele gargalhava enquanto ela se esforçava para arrancar a arma cravada em sua carne, estava pronto para lançar o outro. O Capitão balançava de um lado para o outro, mal conseguia se segurar e ainda assim ria. Sakura ficava vermelha de cólera.
Àquela altura Sasuke já tinha deixado todos os homens caídos, reparou no olhar furioso que ela lançava para o homem a mais de oito metros acima de sua cabeça. O segundo e último machado foi lançado com a boca, desse Sakura esquivou-se sem dificuldades, caminhando em direção a ele. Iria subir o mastro e buscá-lo na marra.
— Katon! — Sasuke soprou as chamas na base da corda. O fogo começou a consumir as cordas rapidamente. O Capitão arregalou os olhos e começou a se balançar.
— Tem mais medo do fogo ou do mar? — Sakura provocava.
Sasuke saiu para procurar por Kaname. Ele já tinha descido os botes e algumas mulheres para dentro deles. Uma menina estava desesperada, gritando por Kyowa:
— Você o salvaram? — perguntou ao Sasuke — Me responde! Sakura disse que o salvaria...
Kyowa quem deveria ter entregado Sasuke e Sakura. Quem o encontrou o libertou, provavelmente, e se o libertou ele foi à luta e está morto ou quase morto no chão.
— Desce logo — mandou.
— Não vou sair daqui sem o Kyowa — o desafiou com os braços cruzados, estancada no meio do caminho.
— Então fique. Eu não dou a mínima — a contornou e ajudou as outras mulheres da fila a descerem para os botes. A garota sai correndo, sumiu de vista. Ele não dava mesmo a mínima.
Achava repugnante essa coisa que o amor faz. Sasuke fitou o céu por uns instantes, estava transitando do laranja pôr-do-sol para o lilás, anoiteceria em alguns instantes. Esse amor iria condenar aquela menina
O fogo estava beirando os pés do Capitão, Sakura assistia pacientemente, enquanto curava o corte profundo no ombro. Por pouco não pegou uma veia, por pouco um braço arrancado.
— Se joga de uma vez e reze para morrer com a queda — era uma queda alta, ele sabia, e não se jogou. Estava encurralado, balançando-se de um lado para o outro. Ou não.
— Ele não está tentando apagar o fogo, vai se jogar no mar — Sasuke notou, tratou de tirar todos os que restassem no barco antes que só a respiração de Sakura destruísse.
Com mais raiva ainda, Sakura decidiu para de brincar. Concentrou chakra nos pés e correu no mastro, mas ele já tinha se lançado ao mar.
— Filho da puta — trovejou.
Parecia que a única coisa que ele sabia fazer era gargalhar. Presumiu que a força descomunal de Sakura causava um impacto consideravelmente menor debaixo d’água. O Capitão estava nadando em direção ao barco onde Kaname e Sasuke evacuavam as moças, as últimas, doentes.
Sem escolha, Sakura mergulhou, não poderia deixar que ele atrapalhasse os botes de se afastarem. Ele a enforcou, também era forte, ambos afundaram.
— Sakura! — Ela ouviu sob a água, lutando com o Capitão — Saia! — Os sons chegavam turvos aos seus ouvidos — Saia! — Por fim, entendeu.
Com um chute, afastou-se do Capitão, com o braço sadio foi buscando impulso dentro da água para nadar mais fundo e mais depressa, ainda assim, não conseguiu evitar. O choque a alcançou, potencializado pela água, percorreu todo o seu corpo. Os ar que estava guardado nos pulmões saiu por um grito mudo. Sorte sua ter o Selo Yin. Quanta sorte... Subiu para a superfície, respirou, avistou Sasuke, mostrou o dedo do meio e mergulhou de novo. Não estava acabado, não deixaria aquele velho ter uma morte tão rápida.
Ele não estava morto, ela podia sentir, mas estava quase. Sasuke tinha lançado sua espada carregada de eletricidade bem no meio de suas costas, estava presa entre as costelas. O choque deve ter cozinhado seus órgãos internos. Sakura alcançou-o, puxou-o para a superfície pelo cabo da espada e o lançou para cima do barco novamente.
Jogou a espada de volta para o Sasuke, que apanhou e assumiu um bote, afastando-se o mais rápido possível dali com as mulheres. Amarrou uma corda ligando os três botes para não se dispersarem pelo mar. Já estavam a uma distância segura do barco quando avistaram a garota e o Kyowa pulando de lá, nadando em direção aos botes.
— Vá ajudá-los — uma mulher exclamou — Vá ajudá-los, anda! — Sasuke não moveu um músculo, só ficou observando Sakura em ação. Em algum lugar em seu interior, havia algo o remoendo, seria... Preocupação?
A noite caiu rapidamente, o velho ainda estava vivo, consciente. Olhava-a com um olhar suplicante, implorava pela vida, cada gesto querendo se agarrar naquele mundo.
— Você é um lixo de ser humano — colocou as mãos juntas acima da cabeça, os membros inertes — Queria cortar as mãos de cada um de vocês pelas atrocidades que fizeram a elas. Pelo menos as suas eu vou tirar — apanhou o mesmo machado que ele tinha fincado em seu ombro. Com um golpe arrancou-as pelos pulsos. Ele estava com um pulmão perfurado, nem gritar conseguia, contorcia-se, chorava, as lágrimas cristalinas em contraste com o rosto sujo.
Sakura não tinha piedade. Sabia que cada uma daquelas mulheres se contorceu, chorou, implorou pela vida assim como ele. Assim como ele não, era pecado comparar. Elas não fizeram nada para sofrerem o que sofreram. O Capitão, seja lá qual fosse seu nome, estava pagando barato pelos abusos que vinha fazendo. Contudo, ela não era assim tão ruim. O deixaria para sempre com o seu adorado barco fétido. Só um soco, e estaria acabado.
Dos botes, a cena registrada pelas mulheres era quase indescritível. O barco foi partido ao meio, de repente, como se uma espada gigante tivesse caído do céu sobre ele. Uma onda enorme se formou, engoliu o casal que nadava em direção a eles, algumas mulheres gritaram o nome da garota, as ondas, mais fracas ali, balançaram os botes sem perigo de virá-los.
Kaname começou a se desesperar, pegou os remos, começou a remar, parou com um sinal do Sasuke.
— Precisamos esperá-la — avisou.
Se Sakura passasse por eles, os traria consigo. Essa era a dedução de Sasuke e a esperança das mulheres, e foi exatamente o que aconteceu. Em poucos minutos Sakura alcançou-os, as mulheres vibraram de alegria. Kyowa estava acordado, embora ferido, subiu sem ajuda o bote e pegou a garota em seguida. Sakura subiu por último. Não estava nada bem.
Os três subiram no bote das doentes, Sakura devia ficar com elas, mas estava sem forças para manter-se sentada.
— Descanse, eu olho elas — uma das moças ofereceu-se, estava no bote de Kaname, migrou para o de Kyowa que assumiu os remos, mesmo sem muita condição.
A temperatura estava caindo rapidamente, Sakura tentou, mas não aguentou muito tempo acordada. Desmaiou. O Selo Yin brilhou por uns instantes e apagou-se quando ela se permitiu descansar. Seu dever foi cumprido.
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