Strokes
33 New toy
Notas iniciais
Sakura ficou mais tempo do que o necessário trancada no quarto olhando seu reflexo no espelho com admiração e curiosidade sobre a mulher que a fitava de volta. Mesmo magra e com algumas feridas aparentes por conta da recente missão, ela se encaixou perfeitamente no quimono como se estivesse vestindo seu pijama favorito. Curvas que antes escondia debaixo das roupas casuais, agora apareciam sutilmente sob o longo tecido de seda estampada. Os cabelos, com a ausência dos cuidados costumeiros, não estavam tão macios e brilhantes como no ano anterior, nada que um penteado simples e tradicional não resolvesse. Pó, rouge e uma joia barata finalizando seu traje para o Festival de Outono. Sua indisposição e a decepção com Sai não foram suficientes para mantê-la em casa presa a algum livro, não iria perder o festival por nada, não merecia isso.
No mesmo dia em que recebera alta do hospital, pensara em uma forma de ir sem parecer uma fracassada. Sai a trocou e Naruto priorizou seu trabalho, compreensível o caso de ambas as partes, pois Sai não estava ganhando nada com o namorinho falso e Naruto não seria remunerado se a acompanhasse na festa. Era compreensível, contudo imperdoável. A primeira pessoa que veio em sua mente quando pensou em um substituto foi o Rock Lee, foi à ele que Sakura recorreu com o orgulho sob o vão na língua, somente porque sabia que o “sim” de Lee seria certeiro. Mesmo se ele já tivesse um par, mesmo se ele já tivesse um compromisso, mesmo se ele não estivesse a fim de ir, mesmo se ele percebesse que Sakura queria apenas usá-lo por um curto pedaço de tempo, ele diria sim, desabotoaria um sorriso cheio de dentes e chegaria adiantado na casa da garota para levá-la ao seu desejado baile de outono.
Dito e feito.
Mais de meia hora antes do horário marcado, Lee batia na porta da casa de Sakura de forma metódica. Ela ainda se trocava quando o ouviu. Sasuke estava na sala tentando ler com seu par de olhos de araque, interrompeu seu exercício para atender a porta, intrigado, pois não recebiam ninguém.
Abriu a porta quase por completo e encarou o elemento engravatado à sua frente. Se fosse um cara com humor, riria do que viu (num embaço, mas via), como não era, apenas olhou o rapaz da cabeça aos pés e perguntou da forma mais rude que conseguiu:
— O que você quer aqui?
Lee, extremamente encabulado e até mesmo irritado por dar de cara com o Sasuke (aquele que até então ele achava ser o grande amor da vida dela) na casa de Sakura (aquela que até então ele achava ser o grande amor da vida dele), apenas gaguejou – mortificando-se por isso – com uma postura pomposa:
— Irei acompanhar a Sakura-chan no Festival de Outono — declarou com orgulho, desta vez Sasuke deixou escapar um sorriso de canto. Pensou “Sakura estava tão desesperada assim por um par?”; deu as costas para o rapaz e sentou-se no sofá. Lee apenas o observou com fúria. Que ser mais impetuoso e mal educado!
— Se for entrar, feche a porta — nem se quer o olhou quando o convidou a entrar – à sua maneira.
Ambos ficaram na sala em silêncio, Sasuke tentando ler e Lee estalando os nós dos dedos, impaciente para sair com Sakura. A inquietação do par excêntrico de Sakura irritava Sasuke de uma forma dúbia, porém ele se controlava simplesmente pela força do hábito de conviver com o Naruto que era praticamente igual ao Rock Lee, com a singela diferença de que o Uzumaki era irritante elevado ao quadrado.
— Ahm... Está de cabeça para baixo — Sasuke fez uma careta de confusão ao ouvir Lee falar — O livro — apontou —, você está o lendo de cabeça para baixo.
Só então Sasuke notou, envergonhou-se profundamente daquilo e imediatamente largou o objeto no chão, passando incessantemente as palmas das mãos no rosto como se tentasse tirar a vergonha que estampava a face. Sua vista não estava melhor e não parecia ter chances de melhorar.
— Você está bem? — Lee perguntou ao Sasuke, verdadeiramente preocupado. Este último se levantou sem avisos, respondeu apenas:
— Vou chamar a Sakura — No mesmo instante Sakura saiu do quarto.
— Não precisa — apagou a luz a caminhou até a porta.
Lee se levantou imediatamente e a fitou com admiração, Sasuke, com curiosidade, mesmo vivendo juntos e enxergando pouco, ele sabia que Sakura estava bonita de uma forma rara de se ver. Ela estava parecendo-se uma mulher.
— Oi, Lee — cumprimentou sem olhá-lo, guardando alguns trocados de yenes no sutiã.
— B-boa noite, Sakura-chan! — gaguejou encabulado.
— Vai voltar hoje? — Sasuke perguntou num tom malicioso.
— Por que, vai sentir minha falta se eu não voltar? — rebateu com sarcasmo.
— Vou precisar de alguém para pingar colírio nos meus olhos, só isso.
— A Ino faz isso de graça e ainda te dá um bônus. Fala com ela — sorriu e o Uchiha lhe mostrou o dedo do meio. Lee ia interferir quando Sakura abriu a porta e o chamou para sair.
Lee era legal, mas não passava disso. Sakura apreciava o fato dele ainda gostar dela depois de tanto tempo, contudo isso não era suficiente para aprofundar suas relações com ele. Até conversar com o Sai, ela ainda era “namorada” dele e amiga do Naruto, não cabia mais nenhum homem em sua vida, Lee era apenas... O cara legal. Dentre todos os seus affairs, somente ele a livrou do vexame que seria surgir no Festival desacompanhada. Sasuke? Sasuke não era nem opção, nem que se oferecesse. Quem era o Sasuke? Fedelho trepador, não servia nem para lavar um copo, só para comer a Ino.
— Bonita decoração — Rock Lee observou, empolgado. Sakura meneou a cabeça concordando.
Havia velas dentro de abóboras, melancias e melões ocos; fitas coloridas, luzes, um desfile de quimonos de seda; homens perfumados; mulheres com rouge; crianças com doces e velhos jogando cartas em tendas de jogos de azar. Todos estavam muito animados, Sakura e Lee mal conseguiam ouvir a música.
Quando já haviam adentrado o aglomerado de tendas, o garoto perguntou:
— E aí? O que faremos? — colocou as mãos no bolso e a encarou cheio de expectativas.
— Vamos dar mais uma volta e depois decidimos, tudo bem? — Ela só queria encontrar Sai e Ino para lhes dar uns cocorotes.
Lee concordou, embora já estivesse se sentindo incomodado com a falta de diálogo com ela. Como não tinha muita experiência com mulheres — para não dizer nenhuma —, começava a achar que o problema era com ele.
Minutos depois de Sakura convidá-lo para ser seu par no Festival, Rock Lee logo recorreu ao Shikamaru, o guru amoroso de toda a vila de Konoha, e pediu alguns conselhos, pois acreditava que aquela poderia ser a noite em que conquistaria sua flor de cerejeira. “Tenha atitude, Lee. Não espere que ela se jogue em seus braços, faça com que isso aconteça”.
Motivado, ele nem hesitou em pegar a mão de Sakura e segurar firme. Ela o olhou perplexa, surpresa demais para sequer puxar sua mão de volta. Depois de alguns segundo, se convenceu de que era o mínimo que poderia fazer para um garoto que estava usando. Ela não lhe daria um beijo, mas não custava alguns instantes de contato, ainda mais porque chegava a ser uma pena cortar o barato dele, que andava com o peito estufado, orgulhoso por estar com ela.
— Sakura, por que quis vir comigo?
— Ahm... Você é uma boa companhia, Lee — respondeu a pergunta súbita com receio.
— O Sai não se importa? — deixou sua mão um pouco frouxa na dela.
— Sai? Não, não! — riu da ingenuidade do amigo — Ele sabia que eu queria muito vir e ainda assim preferiu... Preferiu não vir — Não queria contar a verdade para ele — e você é um grande amigo meu.
Friendzone detected.
Já estavam quase no fim da alameda principal de tendas quando Lee parou subitamente:
— Então o que estamos fazendo, Sakura?
— Curtindo o Festival? — O brilho no olhar do seu parceiro havia desaparecido, agora o rosto redondo era coberto por uma expressão de desapontamento.
— Estou considerando isto como um encontro.
— Lee...
— Sai não sente nenhum remorso em deixá-la sozinha? — a interrompeu com este questionamento que a fez pensar, não especificamente em Sai, mas em outras pessoas que viviam a deixando de lado — Sabe, eu não entendo. Você está tão bonita! É como se ele não...
— Lee! — Sakura sinalizou para que ele parasse de falar, ela olhava para um ponto atrás dele, o que o incitou a imitá-la, logo avistou Sai e Ino comprando uvas carameladas numa tenda logo à frente.
Sakura puxou Lee para detrás de um poste de luz, não os escondia por completo, mas já era alguma coisa que daria tempo para a garota de cabelos rosas maquinar seu plano do vexame da noite.
— Sakura-chan, eu sinto muito! — Lee dera início às lamentações, Sakura revirava os olhos e imaginava como iria surpreender o casal de talaricos — Não fique triste, ele não te merece.
— Mas não estou triste! — ela riu ainda observando a canalha da Ino por cima dos ombros.
— Você já sabia?
— Sim, mas ainda tinha fé no caráter dele.
Algum sentimento invadiu o peito de Lee, na velocidade de uma bala, que o fez puxar Sakura para um abraço apertado demais, e a declarar lamentações e frases de superação. Mal sabia que Sakura estava querendo mandar o Sai ir para o inferno havia muito tempo. Mal sabia que ela mesma havia transado com o Naruto enquanto estava “namorando” aquele sem vergonha à sua frente. Mal sabia, esse Lee, mal sabia.
Sakura via a cena patética pelo ombro dele (que ainda estava falando), viu Sai ir de uma barraca para a outra, o viu presentear Ino com um porco de pelúcia. Sorriu com a visão ridícula. Eles se mereciam. Mesmo com um fogo ardente dentro de seu peito, uma vontade quase incontrolável de dar o troco nos dois, fazê-los se arrependerem de ter aparecido na festa, Sakura se conteve. O castigo dos dois já era ter um ao outro.
— Está melhor, Sakura-chan? — Rock Lee perguntou assim que ela se soltou do abraço desnecessariamente apertado que ele lhe deu.
— Ele sempre foi um panaca mesmo — deu os ombros — É melhor deixar ele pensar que é o maioral, logo menos a Ino lhe passa uma doença venérea.
— C-como assim?
— Ah, Lee! Fala sério! — riu da cara abestalhada do garoto de sobrancelhas juntas. Desta vez ela mesmo o pegou pela mão e saiu em direção às mais inusitadas tendas do festival.
.o0o.
Enquanto isso, há apenas alguns metros dali, Naruto pedia o de sempre no Ichiraku Lámen Express: lámen com legumes e carne de porco; Hinata, sua acompanhante, optou por uma salada de frutas.
Como prometido há semanas antes, Naruto esteve pontualmente às oito horas da noite batendo da porta da Hyuuga, vestido à carácter, com um talo de lírio na mão e um embrulho de presente na outra. À princípio ela relutou, mas logo cedeu. Quando Naruto chegou, ela já estava pronta para ir com ele para qualquer lugar onde ele quisesse levá-la.
A preparação para a noite havia sido minuciosamente trabalhada e ensaiada, não era uma questão pessoal de ambos, não apenas, Hinata não podia se esquecer de que Tsunade contava com ela para recolher informações sobre Naruto. À princípio foi difícil aceitar a ideia, pois querendo ou não, Hinata o amava e era errado sair com ele desta forma, para analisá-lo; usar parte daqueles minutos que seriam de lazer para incitá-lo a abrir mais portas dentro de si do que geralmente abre para a Godaime. Tsunade estava a usando como um parasita para se alojar num hospedeiro favorável. Aquilo era terrivelmente errado, mas ela teria que ir até o fim, para o bem da vila, para o bem dele e para o bem dela. Precisava descobrir se o Naruto que amou há um ano atrás continuava vivo e firme em seus ideais.
A conversa fluía tão natural que as horas passavam e nem se davam conta, o prato de Naruto esfriava enquanto ele falava e as frutas de Hinata ficavam murchas enquanto o ouvia. Algumas taças de espumante foram servidas e aceita por ambos, deixava-os leves e à vontade para falar sobre o passado, os dias pós-guerra, o namoro dos dois e outras trivialidades.
Quando o relógio já batia onze e meia, Hinata teve um estalo na consciência, estava muito tarde, chamou Naruto no mesmo instante:
— Eu preciso ir.
— Mas já? Não, fica! Vamos tomar mais um pouco disto aqui! — balançava a taça meio cheia, derramando o líquido borbulhante em si mesmo.
— Se você encher minha taça de novo, é capaz de eu nem voltar para casa.
— Eu te levo no colo — piscou e ela enrubesceu.
— Eu sou gorda.
— Eu aguento, sou forte! — exibiu o muque.
— Hey! Não era para concordar!
— Estou brincando, você é linda — sorriu meio bêbado e a segurou sutilmente pela cintura.
— Está sendo sincero ou diz isso para eu ficar fascinada e convidá-lo para me deixar em casa?
— Eu te deixaria em casa de qualquer maneira, você sabe.
— Não respondeu minha pergunta — o encarou.
— Ela pareceu-me retórica.
— Então é este o plano?
— Se você diz... — Hinata balançou a cabeça para os lados sutilmente, rindo envergonhada pelo charme de Naruto.
— A noite foi ótima, Naruto. Muito obrigada — Se limitou a dizer apenas isto.
— Eu que agradeço pelo privilégio da sua companhia, Hinata-hime — fez uma reverência cambaleante.
— É melhor eu ir.
— Qual a parte de que eu vou te levar em casa você não entendeu? — passou o braço pelo pescoço da garota e começaram a caminhar para fora da aglomeração de pessoas e tendas.
— Olha, isso pode ter funcionado nos anos anteriores, só que...
— Hinata, isto não é um plano, é um encontro.
— Você disse que seria apenas um jantar amistoso.
— E não foi? — indagou.
— Para com isso! — virou o rosto para o lado oposto, rindo das expressões que o louro fazia.
— Ora, acha mesmo que eu vou deixá-la sozinha esta hora da noite?!
— Eu sou uma kunoichi, não uma donzela, Naruto.
— Uma bela e frágil kunoichi, uma mulher, presa fácil para qualquer tarado por aí.
— Hey!
— Sem discussão — pressionou um dedo nos lábios finos da morena — Te levo em casa e durmo com você, só para assegurar de que ninguém a aborreça.
.o0o.
— CRETINO!!! — Rock Lee segurava Sakura com toda a força que tinha — MALDITO! MENTIROSO! FALSO! SAFADO! ENERGÚMENO! — A kunoichi esperneava inconformada com o segundo infame presenciado na noite: Naruto saindo com ninguém menos do que Hinata!
Ela estava tentando se redimir com Lee, passear, conversar e ir comer algo com ele no Ichiraku Lámen Express, se distrair da raiva de Sai que empurrou goela abaixo, descontar seu ódio na comida, tentar desfrutar a noite com seu leal parceiro de cabelo estranho. Quando viraram a esquina de uma tenda de tiro ao alvo, deram de cara com o casal maravilha pagando a conta, bebendo alguma coisa e rindo.
Quando Lee sentiu a mão de Sakura espremer a sua como se fosse o crânio de algum nukenin, tratou de dar um jeito de arrastá-la dali ou a garota faria um estrago. Depois de muitos palavrões, ela começou a falar (gritar):
— O Sai eu até entendo, mas o Naruto?! O Naruto não! Ele mentiu para mim! Ele olhou nos meus olhos e negou! — Lee ouvia tudo se sentindo compadecido — Nele eu vou ter que bater — Rapidamente ele teve que usar toda a sua força para segurá-la no lugar onde estava, pelo menos até Naruto e Hinata se retirarem — Me solta, Lee!
— Não vai ganhar nada botando as tendas abaixo, Sakura.
— E meu orgulho?
— Deixa ele chegar em casa e vocês discutem.
— Isso se ele voltar para casa, o que eu duvido muito! — Lee suspirou, quase desistindo do encontro problemático com Sakura — Sabe, eu estava voltando a me sentir bem de novo, estava voltando a me reestabelecer... Parece que eu não nasci para ser amada — Com essa fala, Lee entendeu melhor a fúria de Sakura só de ver Naruto com outra. Ela gostava dele. Mas e o Sasuke e o Sai? A cabeça do garoto virou uma confusão. De quem era o coração de Sakura?
Lee a envolveu num diálogo melancólico até Naruto e Hinata estarem a uma boa distância dali. Sakura estava tão envolvida no seu coitadismo que nem notou quando o casal partiu. Fez o mesmo. Juntamente ao Lee, fez o caminho de volta para casa numa quietude desconfortável para ele. Quando finalmente chegaram em casa, tarde da noite, puderam ver um brilho ocre fugir por debaixo da porta de entrada.
— Parece que Sasuke ainda está acordado.
— Normal, ele quase não dorme — destrancou a porta e abriu uma pequena fresta. Lee ainda estava atrás dela, bem perto. Soltou um palavrão na mente e virou-se para ele, com medo de ser surpreendida com um beijo ou algo do gênero.
— Ahm... Obrigada por me trazer aqui — deu um sorriso forçado para manter a credibilidade da gratidão por ele ter sido seu acompanhante de Festival e de desgosto em uma noite só. Só que ele permaneceu no mesmo lugar — Sei que está tarde para voltar sozinho, mas tenho que dispensá-lo — acrescentou com mais firmeza.
— Ah, sim, claro, tudo bem. É melhor você entrar e pensar — Sakura concordou com um aceno leve de cabeça. Não tinha mais assunto com ele, queria desesperadamente entrar e dormir — Então é isso.
— É.
— Nos vemos por aí?
— Pode ser — Mais uma dose de ilusão diária para manter a submissão dele viva. Naquele momento ela diria qualquer coisa para que ele fosse embora de uma vez por todas.
— Boa noite, Sakura — ele avançou para lhe beijar.
— Boa noite — o beijo morreu em sua bochecha. Ela logo se afastou e fechou a porta sem cerimônias. Esperou os passos de Lee se afastarem, em seguida trancou a porta e apoiou a testa na madeira, repassando o fracasso do seu dia.
Havia sido deixada de lado duas vezes por dois homens. Ficaria agradecida se pelo menos um deles a tivesse dito que não a queria como par, a mágoa seria inevitável, contudo a atitude digna prevaleceria.
Do Sai, sentia repulsa; de Naruto, raiva. Realmente foi um choque ver que não foi somente enganada como trocada por Hinata! A ex que Naruto jurava de pé junto que não tinha mais nada. Naruto estava num jogo doentio, brincando não só com o coração dela, mas com o de Hinata também. Sakura não tinha ideia desde quando ele fazia isso, entretanto imaginava que não era a única vítima.
Entre devaneios que quase a levaram à lágrimas, surge Sasuke na cozinha com uma xícara de chá. Só então ela percebeu o aroma impregnante de folhas de limoeiro.
— Chegou cedo — Ela sorriu de canto, um sorriso muxoxo e revelador. Sasuke percebeu a ferida no olhar esverdeado, porém não achou certo cutucar, mesmo que o interessasse, afinal, no fundo ele já tinha ideia do que estava acontecendo.
— Tem mais disso aí? — perguntou passando por ele, procurando algo para acalentar seu estômago — Pensei que não estava prestando atenção quando eu te ensinei a fazer chá.
Só naquele momento Sakura percebeu que ele estava sem camisa, o fitou descaradamente de forma distraída.
— Admite, você me deseja — disse num tom sério, apenas da frase cheia de egocentrismo e arrogância.
— Você é um cretino — exclamou — E a peste do Naruto conseguiu ser mais cretino do que você.
— O que houve?
— Você não se importa.
— Realmente.
Depois de alguns minutos em silêncio, Sakura não resistiu e desandou a falar.
— Primeiro Sai me troca pela Ino, os vejo juntos no Festival, depois lá mesmo eu encontro Naruto e Hinata numa espécie de jantar romântico no Ichiraku Lámen! Naruto foi o mais filho da puta, pois me disse que tinha um “trabalho” quando pedi que ele me acompanhasse. Poxa, custava dizer “não, Sakura, quero comer uma garota diferente esta noite”?!
— Mas você e o Naruto...
— Não me interrompa! — o advertiu — Ser corna já é vergonhoso, ser corna duas vezes em uma única noite é humilhante.
— Beba mais chá — Sasuke estendeu o bule.
— Não quero beber essa porcaria de chá! — chutou o objeto longe. Sasuke apenas observou, começando a se irritar com ela — Quero apenas sumir do mundo! Sou tão desprezível assim que ninguém me quer?
— O Lee quis.
— O Lee é virgem, o sonho dele é me comer.
— Você é...
— Sou o quê?
— Sem escrúpulos. Lee saiu com você na maior boa vontade, sou cego, mas consigo ver claramente que você nem o recompensou por isto.
— Queria que eu abrisse as pernas para ele por ter sido um bom garoto? Me poupe! Estou com raiva, com ódio! Amanhã mesmo faço questão de que o Naruto saia daqui!
— Se ele for, eu também terei que ir — a relembrou, meio que se lamentando, meio se querendo pedir para que ela não os despejasse.
— Essa é uma das partes positivas de expulsá-lo, a cria dele vai junto. Menos Sai, menos Naruto, menos você, menos três encostos na minha vida — Sasuke suspirou. Talvez não fosse tão difícil voltar para o casebre no Naruto — Sim, é isso que vou fazer, amanhã mesmo quero os dois para fora. Já vou começar a tirar as coisas dele do meu quarto — saiu disparada da cozinha em direção ao quarto à frente.
— Calma, Sakura! — corria em seu encalço, em seguida a observando da porta. Ela estava realmente magoada — Não quer ficar falando e falando?
— Não — esparramava as peças pelo chão.
— Naruto disse que essas coisas melhoram.
— Eu quero que o Naruto vá para a porra!
— Deve ser um mal entendido.
— Se continuar o defendendo vou fazer um mal entendido nessa tua cara de cerâmica!
— Só estou tentando fazê-la pensar. Você não tem certeza de nada.
— Eu o vi com ela!
— E o quê que tem?
— Eles já namoraram!
— E o que isso tem a ver?
— Sasuke, você não entende e nem se importa, correto? Então me deixe, durma no sofá, não enche!
Frustrada, ela largou a bagunça e se jogou na cama de buço. Sasuke revirou os olhos, apagou a luz e deitou-se com ela, perto o suficiênte para ouvi-la fungar e gemer baixinho.
— Você tem razão — suspirou — Isso não me afeta, eu sou incapaz de entendê-la e não faço ideia do que está passando, porém, se você me der uma chance, eu posso tentar.
— Por que está fazendo isso?
— Porque Tsunade disse que eu tenho que cooperar com você. E também porque você me ajudou.
— Estará me ajudando se dormir e esquecer que tivemos essa conversa.
— Você só age assim comigo porque tem medo dos seus sentimentos, do que eu posso despertar, não é?
— Você é muito arrogante. Sai da minha cama.
— Li isto num dos seus relatórios. Vai negar?
— Vai pra porra — disse rouca e afundando a cara no travesseiro, simplesmente porque não havia o que responder.
— Não precisa ser minha amiga, apenas fale.
Ela respirou fundo, depois de um tempo puxou um cobertor para aquecer ambos.
— Você é um otário — começou — O Naruto é a única pessoa que me sobrou, sabe? Com ele tudo é diferente, eu me sinto mais segura. Ele sabe disso, por isso me mima tanto.
— Ele te ama.
— Não. Pelo menos não desse jeito, pelo menos não mais — suspirou — Acho que ele se cansou, e com razão, pois sempre nutri esse sentimento nele, só que nunca dei um retorno. Eu tentei, eu juro que tentei, mas não dá para se forçar a amar ninguém.
— Não é o que parece.
— Tudo o que eu demonstro é verdadeiro, morro de ciúmes dele, o irrito, o amo. Esses são os mesmos sentimentos que eu teria por um irmão, se eu tivesse um. Agora entende? — Sasuke assentiu na escuridão do quarto — Ficar com o Naruto é estranho, é incrivelmente bom, só que esquisito. Somos como irmãos se beijando eventualmente, isso para mim não dá. Ele deve ter percebido ou se cansou, sei lá. Estou brava porque não esperava que ocorresse tão rápido. Até ontem ele me beijava, agora ele deve estar trepando com a peituda da Hinata! Esta sensação de não ser mais prioridade que é o foda.
— Eu sei. Com meu irmão eu passei por isso.
— Hum?
— Ele sempre brincou comigo, só que depois que ele entrou para a Anbu, só vivia trabalhando e não tinha tempo para mim.
— O que quer dizer com isso?
— Que prioridades não são definitivas, as situações nos obrigam a reorganizar nossa vida.
— Não entendo... Para mim tem que ser diferente.
— Naruto está passando por outra fase, é nítido. Quando cheguei, notei com desprezo o quão dependente de você ele era e aos pouco isso se perdeu.
— Claro, eu mudei de casa, eu...
— Viu? Naruto já foi sua prioridade, hoje não é mais.
— Como sabe disso?
— Ainda percebo as coisas ao meu redor. E isto não é uma percepção brilhante, está óbvio. Os dois não veem porque não estão de fora.
— Então o que eu faço para ele voltar a gostar de mim? A me ter como prioridade? — Sasuke riu, quase desistindo de cooperar — Por que está rindo, cretino?
— Por nada. Durma.
Antes que ele pudesse lhe dar as costas, ela escorrego suas mãos pelo abdômen másculo e entrelaçou as penas na dele, meio inconsciente, dispersa, adormecia rápido. Sakura estava grata pela conversa, pensara que não conseguiria dormir, mas quando menos esperava, piscou os olhos e não os abriu mais.
O peito de Sasuke estava quente por conta da respiração dela. Encabulado, desconsertado e desnorteado. Manteve as mãos, o peito, o corpo inteiro paralisado, uma estátua de consolo. Sim, ele também sentia-se aliviado.
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