Strokes
29 New touch
Notas iniciais
–Ela desmaiou de novo porque ainda está fraca, se não quebrar o descanso e se alimentar devidamente, amanhã ela está melhor. Seu chakra já está se estabilizando, o problema agora é o desgaste de seu corpo. –Explicava a enfermeira enquanto organizava um armário.
–Você acha que até amanhã de manhã ela estará bem?
–Sim, se descansar pelas –olhou para o relógio de parede –próximas doze horas. –Sorriu.
–Ah, sim, isso é ótimo! –Disse olhando ela dormir com o cenho franzido. Devia estar sonhando. –Amanhã precisamos terminar a missão e...
–Missão? –A enfermeira se voltou para ele. –Ela estará bem, porém não o suficiente para uma missão. –Se interferiu.
–Mas precisamos dela. –Fitou o rosto pálido. –Se ela não for, é provável que o Sasuke também não possa ir por não ter quem cuide de seus olhos. Sozinho eu não posso, já que a missão não é minha e sim dele.
–Não podem aguardar pelo menos mais um dia? –Naruto negou.
–Temos um prazo e já perdemos 48 horas. –Olhou para a janela. –Não sabemos ao certo com quem estamos lidando, portanto é melhor precaver e adiantarmos as coisas do que esperarmos. –Justificou-se.
–Desculpe-me se estou sendo inconveniente me metendo em assuntos que não me dizem respeito, mas como médica não acho prudente que acelere tanto a recuperação de ambos, para o bem deles e da missão. –Abriu a porta, mas não saiu. Me fitou uma última vez. –Já que a missão é do Uchiha, por que não pergunta à ele o que fazer?
Seria simples se ele não fosse tão orgulhoso. Olhou para Sakura novamente quando a mulher saiu. Ele era indolente demais para obedecer a regras tanto quanto era indeciso demais para tomar partido das situações. Ele agia conforme seus instintos, não era afeiçoado a montar planos.
Dependia da decisão de Sasuke porque era ele o pivô da missão.
Dependia da aprovação de Sakura porque era ela a graduada dentre eles.
Ele odiava isso, depender, mas a sensação de incompetência ao tomar uma decisão e perceber que não era prudente é mais amarga do que qualquer orgulho ferido.
.o0o.
Konoha
Kakashi estava atrasado há mais de quarenta minutos. Shizune estava exausta de dispensar tanto homens embriagados que aproximavam-se dela no Ichiraku. Depois da Quarta Grande Guerra, os aldeões não esqueceram as diferenças entre fim de semana e dia útil, não tinham pudor em “celebrar a vida” (o termo que usaram para justificar suas farras constantes).
Cansada de esperar e irritada pela falta de compromisso de seu cúmplice, ela pagou a conta e saiu na rua, praguejando-se por ter confiado num homem tão apático quanto o Hatake. Enquanto andava sem rumo pelas ruas do centro da vila, sentiu uma aproximação familiar e não deixou de sorrir com o canto da boca. Não se virou. Ele a embalou com um enorme casaco, que Shizune apertou mais contra o corpo, a conduzindo para um local menos movimentado.
–Para onde está me levando? –Perguntou quando o fluxo de pessoas havia reduzido ao ponto das alamedas de casas ficarem desertas.
–Para um lugar onde você possa tirar o casaco em segurança. –A resposta só deixou Shizune mais confusa. Qual a importância de um casaco velho?
Percebendo a confusão de Shizune, Kakashi desceu suas mãos, antes repousadas no ombro da mulher, para sua cintura. Shizune interpretou o gesto de forma literal, até sorriu com a ideia, mas ao perceber o real motivo do toque erubesceu-se. Kakashi era realmente imprevisível e adoravelmente discreto. Ouviu o som de embrulho e logo entendeu o que ele queria dizer, os papéis roubados estavam no forro da roupa, não poderiam ser abertos em qualquer lugar.
Antes que Shizune pudesse sair do encanto de Kakashi e se aproveitar do toque inocente, Kakashi voltou sua mão ágil para o ombro cansado da mulher que andava ao seu lado com pensamentos adolescentes. Ele percebia, ela se fazia notar; ele não daria o que ela queria, aquele assunto já havia sido esclarecido no jantar de admissão, certo? Sendo assim, ele não se sentiria culpado caso ela tivesse seus planos frustrados.
.o0o.
Gaara e Naruto refletiam, singularmente, os principais pontos do interrogatório feito com o prisioneiro do grupo de rebeldes. Dois foram capturados, apenas um sobreviveu às torturas e revelou as informações mais importantes.
–A garota pode estar envolvida nisso com Tsunade. –Gaara foi direto, não se importava com as particularidades do amigo à sua frente, não naquele momento. Precisa ser profissional. A revelação do refém havia sido grave e se comprovada, causaria um grande alvoroço quando revelada.
Naruto estava perplexo, não sabia o que imaginar. Com as mãos cruzadas sob o nariz, ponderava as possibilidades daquilo ter coerência. O refém estava sendo tão judiado que poderia falar qualquer coisa para se livrar da dor. Entretanto, se mentisse, os interrogadores iriam detectar. Sem contar que não havia traços de insanidade no sobrevivente.
O Uzumaki negou com veemência. Confiava em Sakura. Sua frustração era que, aparentemente, ela não confiava tanto assim nele, do contrário teria ao menos mencionado algo enquanto lutavam com os rebeldes.
–Não acho que seja tão improvável que ela esteja diretamente envolvida. –Posicionou-se novamente o Kazekage. –Ela é pupila da Hokage. –Assentiu o outro. –Pode muito bem ter sido manipulada por devoção. Ainda mais nessas circunstâncias.
–Apesar da Sakura ter mudado muito de uns meses para cá, sua índole continua a mesma. –Naruto a defendia, mesmo que parte de si tentasse convencê-lo de que havia sim uma chance dela estar sendo falsa. –Ela está com raiva do Sasuke, mas acho que não chegaria ao ponto de ajudar Tsunade a fazer algo do tipo. Meses antes de Sasuke ser solto ela estava envolvida com o hospital, alguns estudos e missões para se tornar jonnin e com a compra da sua casa. Depois da morte dos seus pais ela não esteve ao lado de Tsunade como costumava estar, ela... ficou consigo mesma. –Provou um sentimento de tristeza assim que as palavras se desprenderam da ponta da língua.
Naruto percebia em sua fala o buraco na sua relação com Sakura depois do ocorrido com sua família. Naquela época pesava que ela estava apenas superando ao seu modo, concentrando-se no trabalho, seguindo em frente. Era isso que aparentava. Ela não parecia estar afogada em angustias. Será que ele havia sido negligente em ter dado o devido espaço para a amiga?
–O cara deu alguma data para isto? –Percebendo que Gaara não o compreendeu, reformulou a pergunta. –Ele chegou a dizer quando isso aconteceu?
–Há mais de três anos, logo após a guerra. –Gaara informou enquanto ele olhava um ponto qualquer da sala pensativo. Teria sido antes ou depois da morte dos pais de Sakura? –Segundo o refém, o grupo é formado por membros repudiados de um pequeno clã do País do Chá... –Falava enquanto lia os rascunhos dos interrogadores para Naruto. –Para estarem aprisionados na Ilha Kamui, suponho que sejam nikinins de alto risco, ou fizeram algo muito grave. –Gaara concluiu juntando todos os papéis e os organizando num pequeno montinho no canto da mesa.
Naruto ouvia tudo, mas continuava mergulhado em suas cogitações. Apesar da revelação de que Sakura conhecia alguns dos rebeldes, aquilo não significava que ela tinha algum envolvimento com o ataque, mas Gaara estava irredutível para destacar estranhezas na coincidência entre as duas partes. Sakura os conhecia e eles a conheciam. Como?
–Gaara. –Chamou o kazekage. –Não há shinobis no País do Chá, assim como não há no País do Rio, ainda assim, eles possuem habilidades de combate muito bem treinadas para simples aldeões. Isto podemos tirar como verdade, a origem dessas pessoas que o refém alega que Sakura conhece. –Admitiu num tom contrariado. –Eles vieram do País do Chá, mas como Sakura pode tê-los conhecido? –Gaara iria dizer algo, mas o loiro foi mais rápido. –Na guerra que não pode ter sido, como lembrado, não existem shinobis naturais do País do Chá para ela tê-los atendido no campo de batalha. Há um pouco mais de três anos atrás estava justamente acontecendo a guerra, isso contradiz tudo...
–Não contradiz nada. Três anos atrás é uma referência, devemos levar em conta a duração do ano como um todo e da guerra, pode ter sido antes ou depois numa missão casual, talvez. –Gaara sugeriu. –Três anos é uma referência, a guerra não. –A cada hipótese que Gaara lançava, Naruto jogava uma questão por cima. Havia muito a ser feito e Gaara sabia que Naruto tinha disposição para defender Sakura de qualquer hipótese acusatória o dia todo, então o kazekage, aplicando sua autoridade afim de encerrar a discussão sem proveito, disse –Queremos uma resposta e buscamos por dois pontos diferentes. Estou em busca de saber qual o envolvimento da garota com os renegados enquanto você quer saber onde e quando isso ocorreu. –Naruto assentiu. –O que me interessa agora é saber se temos uma pupila de Tsunade ou uma kunoichi do Time 7 sob nossas asas.
.o0o.
Quando Sakura acordou pela segunda vez desnorteada começou temer que aquilo ficasse frequente, pior, permanentemente. Nunca desejou sua insônia de volta como desejara no momento em que acordou em um quarto diferente. Pelo menos ela se lembrava de quando, onde e como fora dormir na noite anterior.
Esfregou os olhos e se espreguiçou. Seus ossos pareciam ranger de tão inutilizados.
–Dormiu por onze horas, Sakura-san. –A enfermeira lhe informou quando foi indagada. Outra coisa que incomodava Sakura ao extremo era a troca constante de enfermeiros para um mesmo paciente. Ela mal guardou os rostos e nomes daqueles que a ajudaram e o hospital já fazia a rota de setores.
Pensava em como organizaria os turnos dos funcionários se dirigisse um hospital.
–Sakura? –Naruto bateu na porta aberta anunciando sua chegada. Sakura quis sorrir ao vê-lo expressar o quão feliz se sentia por poder descansar os olhos em um rosto familiar e acolhedor, mas ao notar a ausência do olhar caloroso que costumava se fazer presente, tornou sua atenção para algo além dele.
Ela podia ter se esquecido de como fora parar ali, mas lembrava-se muito bem da conversa que tivera com o amigo antes de tudo virar um breu em sua mente.
“Se você tivesse a cura total em suas mãos você cederia para o Sasuke?”
“Sim.”
“Cederia?”
“Sim, eu cederia a cura para Sasuke, se a tivesse.”
Até que ponto Naruto conseguiu leva-la? A fez prometer a entregar a faca e o queijo nas mãos de Sasuke. No fundo, ela sabia que só confirmara a pergunta do amigo porque as chances destas se concretizarem eram mínimas.
–Está melhor? –Assentiu com um sorriso fraco para disfarçar a rudez do gesto. Não queria falar com ele. –Sasuke também acordou, está esperando que você vá examiná-lo. –Ela riu pelo nariz. –Que foi?
–Mal acordo e já me dão trabalho... –Diz levantando-se da cama com a camisola hospitalar transparente. A presença de Naruto não intimidava, pois já haviam compartilhado intimidades maiores. Seu corpo sem saúde não era sinônimo de insegurança, tornou-se arma e ela não tinha medo de usá-la.
Esticava os membros enquanto andava pelo quarto com um pedaço de pão na boca. Faminta e sedenta, horas de descanso, horas de estômago vazio.
–Precisamos apressar as coisas. –Naruto começou a observando ainda da porta. Um enfermeiro fingia arrumar alguma coisa para poder escutar a conversa.
–Não estendeu o nosso prazo?
–Sim, mas pretendo fazer tudo o quanto antes. –Limpou a garganta com o maxilar travado, a olhando firme. Sakura tinha essa disposição incomum quando dormia bem, o que era uma coisa rara. Ao contrário dele que quanto mais descansava, mais sentia-se sonolento. –Já temos algumas informações úteis. Podemos sair hoje à tarde. –Sakura ainda alongava seu músculos mastigando seu desjejum enquanto Naruto falava. Sentia-se bem disposta, mas enquanto ao Sasuke?
–Suponho que Sasuke esteja melhor.
–Seria bom se você fosse ao quarto dele me garantir isso. –Sakura riu minimamente com a resposta do outro, Naruto estava claramente aprendendo a dar boas respostas e ter bons argumentos. Ela ainda não decidira se gostava mais do Naruto pateta ou deste que ia direto ao ponto. Além do mais, era estranha toda essa liderança e empenho que ele estava mostrando ter com a missão. Não era típico. Sinceramente, ela esperava que ele surtasse nessa situação.
–E seu braço? –Naruto olhou para si, como se de súbito lembrasse que havia fraturado o osso há alguns dias.
–Está cicatrizando. –Respondeu sorrindo.
–Depois vejo isso. –Levou suas roupas para trás do biombo e se vestiu.
Sasuke estava sentado na cama com a coluna ereta, tenso, segurando uma kunai repousada sobre o lençol quando ela chegou, Naruto logo atrás. Quieto, atento ao mínimo ruído, aos cheiros espalhados pelo ar árido de Suna. Diferente de Sakura, sua disposição parecia ser mais de alerta do que de descanso.
–Bom dia, Uchiha. –Anunciou-se indo diretamente para a bancada sanitizar suas mãos. –Dormiu bem?
–Não mais do que você. –Respondeu ríspido. –Por onde esteve? Estou te esperando há horas! –Sakura olhou para Naruto e este não soube o que lhe dizer.
–Eu desmaiei logo após a sua operação. Acordei agora pouco. –Respondeu a contragosto. Não devia satisfações à ele, mas Naruto sim, por que ele não havia dito nada então?
–Pare de usar desculpas, vocês dois não me enganam! –Ele estava com raiva. A kunai parecia brilhar sob os nós dos dedos pálidos que a pressionavam. Assim que seus acompanhantes de missão perceberam o real sentido das palavras dele, começaram a rir com deboche, mas não disseram nada. Aquilo só o enfureceu mais.
–Fica aí quietinho que vou examina-lo. –Sakura colocou as luvas e prendeu o cabelo com um elástico. –Naruto. –Ele aproximou-se dois passos em direção da cama onde ele agora se inclinava com um carrinho repleto de instrumentos cirúrgicos e de sanitização. –Esteja ciente de que se ele não estiver bem para ir, nenhum de nós irá.
–Vamos nós dois.
–Se você for, vá sozinho e por particularidades, pois farei um relatório de missão abordada.
–Você não pode abordar missão alguma...
–Antes que se esqueça, a missão é do Sasuke, não nossa. Se ele não estiver bem para ir, nós não iremos e assunto encerrado. Além do mais, posso sim cancelar o que eu quiser, sou a chunnin aqui. –Disse interrompendo a fala anterior de Naruto e continuou a insistir. –Naruto, menos. Vamos discutir mais tarde de qualquer forma, não é mesmo?
Ele não soube identificar se havia naquela frase alguma sugestão de que ela sabia o que o refém havia revelado. Achou melhor não insistir e deixar Sakura fazer o que tinha que fazer.
–Volto logo. –Ele disse antes de sair.
–Já comeu? –Perguntou desenrolando com cuidados as faixas que cobriam o olhos de Sasuke. Ele não respondeu, em seguida ela entendeu por si mesma que ele não havia comido, bebido nem feito nada desde que acordou e não a encontrou disponível para ele.
“O moreno, Uchiha, vem a todo momento ver se você acordou e fica resmungando pelos cantos que esse lugar é uma merda. Ele não quer que nenhuma outra médica cuide dele, só você.”
Ele recusava qualquer ajuda dos enfermeiros quando não tinha Naruto e Sakura por perto.
“Preciso que você concerte isso para mim.”
E seu maior desejo era se livrar daquela escuridão palpável que o abraçava.
Em seu íntimo, Sakura imagina quão difícil devia ser para um Uchiha perder seus olhos, a razão de seu orgulho. Pensamentos de empatia como esse a estimulavam a cuidar de Sasuke não por obrigação e sim por caridade.
Ele não merecia, em absoluto, boas ações gratuitas, mas aquele era uma caso especial. Sakura já teve seu orgulho tirado de si com brutalidade e não houve ninguém para ampara-la daquele pesadelo.
“Você consegue curá-lo, Sakura. Consegue?”
–Sim... –Disse para si com uma confiança que ela mesma desconhecia.
–Como está? –Sasuke perguntou quando ouviu o murmuro da médica, a tirou de seus devaneios. Sobressalta, quis dizer que estava falando sozinha, mas achou melhor manter a postura. As faixas desenroladas estava no chão, algumas partes amareladas por conta das pomadas e compressas usadas e outras partes com pequeno pontos de sangue, resquícios da operação feita no dia anterior.
–Abra-os. –Sasuke hesitava. Apoiou a testa na palma da mão. –Sente dor? –Perguntou com certa surpresa, era para ter amenizado as dores.
–Um pouco... –Disse com a voz fraca.
–Vire-se para mim. –Então ele sentou-se na beirada da cama, ainda com a postura um pouco encolhida e a cabeça abaixada sobre um dos punhos. –Olhe para mim. –Quando Sasuke levantou a cabeça, ela encaixou o rosto entre as palmas de suas mãos. No breu da sua mente, Sasuke desejou sentir o calor humano que as luvas retinham para elas. O toque de Sakura era técnico, não era um afago, ainda assim ele sentiu-se calmo com o contato. –Abra-os. –Ordenou novamente. Aos poucos ele cedeu ao desconforto. –Não há luz. Não tenho medo, não vai machucar, não deveria machucar. –Tranquilizava-o ao seu modo. Sasuke piscou algumas vezes, a visão acostumando-se depois de três dias privada de luz. No começo tudo desfocado, só borrões e cores chamativas. A medida que lubrificava seus olhos e permanecia com eles abertos por mais segundo, a nitidez melhorava.
Sakura ia lhe fazendo perguntas e ele respondia da forma mais limpa possível, estava tão concentrado em notar as melhoras na sua visão que não se importava com o quão chatas as interrogações de Sakura fossem. De alguma forma ele também sabia que aquilo era necessário para ele trata-lo e melhorar cada vez mais sua situação, não custava nada colaborar.
–Fico feliz que tenha melhorado tanto! –Disse sinceramente recolhendo os aparelhos e deixando-os numa bancada para algum enfermeiro esteriliza-los. –Juro que não esperava que tivesse um resultado tão bom...
–Por quê? –Neste momento Sakura percebeu que ainda não havia contado sobre sua doença degenerativa. Precisava pensar rápido. Se hesitasse numa resposta dessa Sasuke logo desconfiaria. Ele poderia simplesmente contar, mas sabia que aquela não era a hora apropriada. Queria estudar mais para poder responder à todas as dúvidas que, com certeza, cairiam sobre ela quando Sasuke soubesse.
–Considerando que seus olhos já estavam zoados desde Konoha, o ‘abuso’ que teve agravou bastante a retina, as córneas e outras partes.
–Isso tudo é devido ao sharingan? –Perguntou antes que ela concluísse.
–Talvez. –Respondeu sentindo-se cada vez mais tentada a revelar que o que ele tinha era algo raríssimo em jovens e que ela não tinha a cura ali, de imediato, que em questão de tempo ele poderia ficar cego para sempre. –Preciso estudar mais. Quando chegarmos em Konoha resolvemos isso, tudo bem? –Forçou um sorriso que certamente não foi devolvido.
Sasuke virou o rosto para o lado oposto, e com muito custo, resmungou um ‘obrigado’. Ele deveria abaixar a cabeça, num breve reverência. A mulher à sua frente estava o livrando de uma das piores doenças existentes: a cegueira. Como ele deveria ser grato àquela menina...
A luz estava baixa e a nitidez de sua visão continuava instável, mas ele conseguiu observar um sorriso satisfeito caminhar lentamente até ele, ajoelhar à sua frente e pegar seu rosto da mesma forma que pegou minutos antes.
–Sabe, Sasuke... –Desta vez ele sentia o calor das mãos. Desta vez não era o toque técnico de uma médica, era o afago de uma amiga. –Você fica uma gracinha com vergonha! –Assim que as palavras saíram de sua boca, Sasuke agarrou seus braços com força e saiu daquela névoa onde estava envolvido. Levantou-se rapidamente, sentindo a tontura habitual, ainda assim caminhou para o extremo da sala sentindo-se humilhado. –Também parece um ogro de tão rabugento! –Vociferou a garota em resposta à atitude grosseira de seu paciente.
–Gaara quer vê-la, Sakura. –De repente a voz de Naruto cortou o silencio da sala como uma katana. Como ela não o notou? Há quanto tempo ele estava ali? Sakura estava com a guarda muito baixa, isso era perigoso. Perguntava-se se não fora a presença de Naruto que fez com que Sasuke se afastasse daquela maneira.
–Estou com Sasuke. –Respondeu ainda de costas para a porta. Sabia que a falta de luz, e seja lá o que Naruto tivesse visto, fazia a mente fértil do loiro trabalhar a mil por hora.
Ela não queria mais discussões com Naruto, pois estava disposta a tentar algo entre eles, num momento oportuno em suas vidas, entretanto era inegável que Sasuke provocava seus instintos, sem contar que com ela no controle, brincar com o Uchiha era cada vez mais interessante.
Não era como na academia, onde ela era a trouxa e ele o bambambã, agora Sasuke era o cara vulnerável precisando da ajuda que ela poderia lhe ceder. Sakura adorava o gostinho de jogo virado que ficava em sua boca toda vez que colocava o moreno contra a parede.
–Vai lá, eu fico com o Sasuke. –Ela não pôde mais dizer que não.
Ela não sabia que conversa teria com Gaara, ambos não se conheciam direito e não havia trivialidades a serem discutidas. No caminho para o local onde Naruto indicou que ela fosse pensava que ele só queria agradece-la, de alguma forma, por domar Sasuke e dar uma pequena aula de orientação para os enfermeiros do hospital, não via outro mísero motivo para um intimado.
Quando entrou na sala, percebeu que se tratava de um consultório no padrão de consultas psicológicas. Era à prova de som, não tinha janelas nem muitos objeto além da escrivaninha e as poltronas. Um era ocupada pelo jovem kazekage escoltado por meia dúzia de homens que pareciam mais com mercenários do que com shinobis.
–Sakura Haruno. –Gaara chamou seu nome com a ajuda esboços nos rodapés de papéis sobre a mesa.
–Às suas ordens. –Inclinou-se numa reverência sutil. Ela achava desnecessário abaixar a cabeça para um garoto mais jovem que ela, mas este era kazekage e ela não ousaria agir com ele conforme agia com Tsunade, sua mestra.
–Gostaria se você me ajudasse com algumas informações... –Ele vasculhava as pastas e um homem se debruçava na mesa para ajudá-lo a procurar algo.
–Sobre? –Perguntei acompanhando os movimentos das mãos ágeis.
–Sobre um pequeno grupo de criminosos repudiados. –Encontrou um punhado de papéis com fotografias grampeadas sobre as folhas-de-rosto. –Algum deles lhe é família?
–Duvido muito. Não ando com esse tipo de galera. –Gaara a olhou com interesse. Ela parecia carregar um descaso na voz, mais direcionado para ele do que para qualquer coisa.
Tinha mesmo se tornado uma menininha interessante.
Ela só observava as imagens, nem olhou as últimas, estava certa de que não conhecia nenhum deles.
–Não sei quem são. –Depositou os papéis na mesa de volta. –Se eu os matei na batalha dias atrás, me desculpe se era uteis para você, apesar de que eu me recordo do rosto das pessoas que mato eventualmente.
–Olhe melhor. –Ordenou imutável. Sua expressão não estava nenhum pouco descontraída. À contragosto ela pegou os papéis da mesa e olhou mais atentamente um a um, lendo alguns detalhes da ficha também. –Fique à vontade para se sentar.
–Estou bem assim, obrigada. –Disse concentrada num ponto. Aparentemente todos era da Vila do Chá.
Isso a fazia voltar alguns anos no passado.
–Realmente não sei o que isso tem a ver comigo. –Dizia enquanto folheava os últimos. Estavam organizados por idade. Ao chegar na última fotografia, seu corpo inteiro se estremeceu. Ela parou onde estava.
–Reconheceu alguém, Sakura-san? –Gaara sabia a resposta assim como sabia que ela não responderia aquilo.
–O que é isto? –Perguntou com dificuldade, a bola incômoda começava a subir pela sua garganta. –O que isto significa, como conseguiu encontrar registros sobre essa pessoa? –Agarrava firme a ficha de um jovem garoto, aproximadamente quatorze anos. Ela não esqueceria jamais o rosto daquele pequeno demônio que a arrastou para viver aquele inferno.
–O refém nos disse que você era conhecida para alguns do bando dele. –Enfim ela se sentou, não confiava em suas pernas. –Achei isso muito estranho, resolvi investigar.
–Mandou seus homens investigar por você! –Fitou de relance as figuras altivas atrás da cadeira de Gaara que deu os ombros para a acusação da garota.
–A questão é que você está envolvida nisso e preciso que me diga o que fazer com você. –Sakura ergueu o olhar para Gaara com certa raiva. Ele definitivamente não deveria estar cavando seu passado. –Você tem a opção de me dar uma justificativa, nós temos a opção de aceita-la. –Sakura riu.
–Tá certo, às vezes eu esqueço que o kazekage é uma criança. –Levantou-se e fez menção de ir até a porta, mas foi cercada pelos homens que guardavam Gaara.
–Não me deixe falando sozinha, Haruno. Odeio isso.
–Você não tem o direito de se meter nisso!
–Naruto e Sasuke se feriram nessa batalha suicida que tiveram. Está no meu país e Naruto pediu a minha ajuda, portanto eu tenho direito ao que eu quiser, de forma legal e pessoal. –Esclareceu. –Podemos fazer isso pacificamente. –Ela o fuzilou. Mãos enormes ainda apertavam seu braço. –A escolha é sua de revelar a verdade, saiba disso. Do contrário você será presa, até segunda ordem, e se Tsunade lhe quiser, você podes ser transferida para...
–Eu vou contar. –Entre lágrimas de desistência e o silêncio relutante para não soluçar, ela rendeu-se.
Iria se arrepender disto?
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