Strokes
30 New revenge
Notas iniciais
–Eu vou contar.
Sakura não sabia se a raiva que tomava conta de seu interior havia sido despertada no momento em que viu Gaara lançar um olhar de triunfo para ela ou quando ouviu sua própria voz entregar sua desistência. Ela não era obrigada a revelar absolutamente nada de sua vida pessoal para estranhos, mas iria, por quê?
–Naruto me disse que seria mais difícil persuadi-la. –Confessou levantando-se da cadeira onde estava sentado. Virou-se para parede para parecer mais indiferente, porém só queria evitar olhá-la. –Tsunade-san deve lhe dar muita liberdade para suas afrontas frequentes. É ótimo saber que aqui você segue outra linha de comportamento.
–Eu vou contar porque vocês pensam que eu tenho um envolvimento ilegal com isto, sua persuasão não me surtiu efeito. Contarei porque estou farta disso.
–Do que está farta? –Gaara a fitou pelo canto do olho. Duvidava das palavras da moça. Ela calou-se por mais tempo do que o necessário para uma resposta malcriada. Gaara virou-se para vê-la, apoiou as costas na parede e a olhou sem vontade, de alguma forma tinha que intimida-la para conseguir respostas. –Vocês não poderão sair daqui sem que eu saiba seu real envolvim...
–Eles me violentaram. –Disse num só fôlego e saiu antes que mostrasse seu lado mais vulnerável para aquele estranhos. Agradeceu mentalmente por não terem trancado a porta.
Esperava que aquela revelação pudesse abafar toda e qualquer acusação contra sua pessoa. Era um preço muito alto para se pagar por algo tão bobo, mas quando ela viu aquela imagem, o garoto, o única que reconhecia, não soube distinguir o que era necessário ou não naquele momento. Ela diria qualquer coisa para se livrar dos olhares acusadores. Sabendo que se mentisse eles perceberiam e que revelasse a verdade se humilharia, preferiu a opção mais prática, já que qualquer outra levaria a isso.
Em algum momento aquilo não seria mais segredo.
Em outra ocasião não se mostraria tão vulnerável, mas aquela fotografia trouxe à tona as piores memórias de sua vida. Nela o garota já estava grande, na época em que ele a abordou na tenda no País do Chá deveria estar na margem nos dez ou onze anos. Ainda com três anos de idade acentuados, ele não deixava de ser uma criança. Uma criança que a enganou.
Quando o QG regional convocou a Hokage depois do ‘acidente’ com a médica-nin, na reunião culparam Sakura pelo ocorrido. Tsunade certamente não deixou o comentário infeliz por isso mesmo, entretanto Sakura sabia que aquilo se tratava de uma verdade. Ela não soube se defender de um garoto mentiroso de dez anos de idade. Como poderia ser considerada uma das melhores kunoichis de Konohagakure?
Tinha mais ódio de si mesma do que dos agressores.
Em todos seus pesadelos e insônias pensava que não havia se esforçado o bastante, que não se debateu o bastante, não gritou o bastante... Seu corpo estava adormecido pela droga. Ela era médica, como não soube driblar seu organismo para se livrar das substâncias que a invadiram?
Ela poderia ter evitado, pensava.
Culpa sua.
Culpa da sua incompetência.
Quando trombou com Naruto e Sasuke no corredor, não soube como reagir. Não queria que Sasuke a visse chorar, não queria encarar Naruto. Sakura sabiam para onde eles estavam indo e que Gaara iria contar tudo assim que ambos surgissem na porta. Ela não podia lidar com isso de novo.
Tudo o que construiu, todo o respeito e imponência que construiu ia ser lançada ao vento, então ela voltaria a ser vista como a garota frágil, o estorvo, a menina que a todo momento precisava ser vigiada, acalantada...
–Sakura, você... –Empurrou Naruto para o lado, deixando o caminho do corredor livre por onde correu como se sua vida dependesse disso. Sasuke observava tudo muito confuso. Há cinco minutos ela estava bem humorada, o que havia acontecido? –Sakura! –Naruto gritou com todo o ar de seus pulmões, esquecendo-se de que estava em um hospital. Logo aglomerações de médicos, enfermeiros e funcionários surgiram para descobrir a origem do alvoroço. Gaara logo saiu da pequena sala ao fim do corredor, onde Naruto e Sasuke estavam e solicitou que Naruto o acompanhasse. –O que disse à ela? –Agarrou Gaara pelo colarinho possesso de cólera. Os olhos em chamas. Gaara não deixou por menos, ninguém o tocava sem que ele permitisse. A defesa de areia tirou as mãos de Naruto com uma brutalidade exagerada.
–Controle-se. –Disse sereno. –Quantas vezes vou ter que repetir que não sou Tsunade? –Ajeitou sua roupa e olhou Naruto massagear as mãos. Por fim notou a presença mórbida de Sasuke. –Me acompanhe e lhe direi tudo. –Saiu à frente sendo seguido pelos seis guardas. Sasuke se perguntava por que nenhum deles havia avançado em Naruto quando ele agrediu o kazekage. –Você, vá atrás da garota. –Sasuke não precisava pensar muito para saber que a ordem havia sido para ele.
De qualquer forma ele iria atrás de Sakura sabendo que Naruto não poderia fazer isso, Gaara lhe dando a autorização ou não.
Encontrou Sakura na cafeteria do hospital. Ninguém disse nada quando Sasuke sentou-se ao seu lado. Ele pediu um chá preto sem açúcar e observou pelo canto do olho uma mão feminina trêmula envolver a xícara.
Sabia que aquilo não era vertigem de seus olhos ressecados. Sabia que a partícula que pingou dentro da xícara não vinha de nenhuma goteira num hospital do deserto. Ela estava chorando em silêncio, disfarçando o rosto vermelho detrás dos cabelos róseos que havia soltado.
Sasuke gostava quando ela prendia os cabelos, de como realçava seu rosto exótico.
Ele pediu mais um chá quando percebeu que o dela chegava ao fim. Bebericaram juntos os primeiros goles até Sakura ceder e literalmente se jogar nos braços dele aos prantos. Não havia o que ser dito, mas havia uma coisa obvia a ser feita, e ele fez. Relutante, a aninhou melhor no abraço, ela agarrava seu tronco como se tivesse medo que ele se desmaterializasse, era um aperto desesperado.
Se fosse o Naruto ali, seria a mesma reação?
Aos poucos ele foi colocando sua mão ao redor do corpo pequeno dela, aos poucos, olhando para os lados, incerto do quão íntimo era aquilo. Ninguém estava olhando, ninguém se importava. Ao olhar exterior ele não passava de um jovem consolando uma garota que provavelmente perdeu um familiar no hospital. Cenas de prantos deveriam ser comuns.
–Não vai me repelir? –Perguntou com a voz embargada afundada no peito de Sasuke. Em resposta e ele encostou a cabeça na dela e cheirou os cabelos claros.
Ele não sairia dali até que ela o repelisse.
.o0o.
Sasuke e seus dois reforços sairiam de Suna depois do almoço.
Depois da conversa com Gaara, Naruto não havia dado as caras e Sakura precisava curar seu braço quebrado antes de irem. Como ele não aprecia, ela ficou com Sasuke. Com o pouco que tinha de recursos, desenvolveu um colírio, uma ajuda caseira para amenizar qualquer eventualidade com a visão dele.
–Evite usar o sharingan. –Advertiu. Sabia que quanto mais ele forçasse, mas prejudicaria a córnea. Deixou nas mãos dele dois frascos cheios.
–Peça à um pássaro para não usar suas asas. –Sakura o fitou no mesmo instante com um interesse dúbio. Em outros tempos zombaria de sua frase poética, mas ela sentiu através das palavras que as metáforas se tratavam do usual conflito interno que ele travava.
Qual o peso do sobrenome Uchiha?
Em nenhum momento Sasuke fez perguntas sobre o choro ou sobre a conversa com Gaara e aquilo a acalmou, não queria mais pressão, não queria ser induzida a falar sobre o assunto do qual mais fugia. Sasuke respeitou seu espaço e ela o admirou por isso. Fingiram que nada havia acontecido quando voltaram cada qual para o seu quarto.
–Você não tem sido tão previsível. –Comentou o olhando do extremo da sala. Ele sentado na beirada da cama e ela encostada no peitoral baixo da janela.
–Você tem sido misteriosa. –Com um riso sem graça ela mudou o olhar.
Eles haviam mudado.
Naruto surgiu na porta. Não disse nada. Olhou as costas de Sasuke e saiu. Sabiam que era um recado mudo de que já estavam de partida e que deveriam segui-lo. Sakura não sabia explicar por que seu coração deu um solavanco quando Naruto raspou seu olhar no ambiente, mas não decaiu sobre ela. Era como se ela estivesse fazendo algo errado, mas não sabia por que se sentia assim.
Provavelmente ele já sabia de tudo.
Engoliu o nó que insistia em subir sua garganta. O pior dos desconfortos.
–Dê um tempo para o Naruto. –O aviso de Sasuke, que tentava acalmá-la, teve o efeito contrário, pois Sakura viu como um sinal claro de que Sasuke também sabia sobre a conversa com o Gaara. Para ela, significava que o ‘respeito’ que ele teve para com ela foi devido à falta de interesse no assunto, afinal ele já sabia.
Sasuke não sabia de nada, não cogitava nada. Seu comentário infeliz, o aviso amistoso, havia sido referente ao relacionamento (ou a falta) entre Naruto e ela. O moreno sabia que Naruto vez ou outra se encontrava com Hinata, que ele estava confuso e precisava se situar. Sakura não podia se entregar tão facilmente para Naruto com essa confiança inabalável, como se soubesse que Naruto não saíra do lugar onde ela o deixou por anos esperando uma chance.
Não era tarde demais para ninguém, pelo contrário. Entretanto Sasuke sabia que Naruto já havia esperado demais pela boa vontade da amiga e que procurava desesperadamente o conforto de alguém que não fosse repudiá-lo. Sakura era uma inconstante em sua vida e o Uchiha sabia que ela não tinha moral para exigir atenção, compreensão e resultados.
.o0o.
Gaara cedeu seus guardas particulares, shinobis com áurea de mercenários, uma ramificação da ANBU em Suna. Naruto, que era o que mais tinha informações sobre a missão, arrancou na frente sem dizer nada, o silêncio do membro mais falante era um sinal péssimo. Aquilo só confirmava os temores de Sakura. Naruto sabia, Gaara havia contado.
Aquela missão era para derrotar esses rebeldes que tomaram posse do trecho entre o País do Rio e o País do Vento, prisioneiros condenados que por alguma razão foram libertados a mando da Hokage. Gaara estava atrás disso, dos esclarecimentos de Tsunade; a equipe enviada para a fronteira, mas especificamente no local onde o refém revelou haver um esconderijo no subsolo, teria a missão de derrotar e transportar os prisioneiros para a cadeia de Suna. À princípio a missão de Sasuke era provavelmente essa, derrotar esses rebeldes que dominaram a fronteira, mas depois da interferência de Gaara, ele ainda está confuso sobre o que deveria fazer.
Chegaram na fronteira antes do anoitecer. Fizeram uma ronda no raio de cem metros e instalaram algumas armadilhas enquanto Sakura e outros dois shinobis de Suna montavam o acampamento. Com o sol baixo, uma dúzia de peixes havia sido pescada e a fogueira acesa, o grupo de apoio sentou afastado do trio de Konoha que estava ao redor da fogueira. A temperatura caia muito à noite e eles não eram acostumados com o clima instável daquele lugar. Comeram em silêncio. Naruto não dera uma palavra desde manhã quando conversou com Gaara e Sakura estava tensa, uma ruga de preocupação esteve presente entre seu cenho por toda a viagem.
Sasuke sabia que estava sendo deixado de fora de algo muito grande e repudiava essa atitude considerando que a missão era mais dele do que de Naruto e Sakura. Não ia atrás de explicações porque desconfiava que se tratava de trivialidades pessoais.
–Qual o plano? –Perguntou o Uchiha entediado. Adorava o silêncio, mas quando havia coisas a serem ditas, ele preferia o zumbido das vozes estridentes do que o dos seus pensamentos desconfiados.
–Derrotar os caras que nos atacaram exatamente aqui. –Sakura respondeu lambendo os dedos. Acabara de comer seu peixe. Naruto comia o seu segundo.
–Já sabem quem eles são? –Indagou. Sakura imediatamente virou o rosto e Naruto continuou calado comendo. Quando ninguém o respondeu, ele sentiu na pele o que fazia com as pessoas quando as deixava falando sozinhas.
Um dos mercenários se levantou e jogou um pequeno bloco aos pés de Sasuke. Folheando aquilo parecia ficha de dados de dez, doze homens, talvez. Ele não enxergava ao ponto de ler as letras minúsculas, mas conseguia distinguir uns traços fortes nas fotografias dos sujeitos. Notando a dificuldade do amigo, Naruto arrancou o bloco de sua mão folheou com atenção, retirando as fotos e depositando ao seu lado enquanto avaliava.
–Quem são? –Sasuke tornou perguntar.
–Você nunca se preocupou em saber quem eram as pessoas que você deveria matar. –Naruto respondeu sem olhá-lo. Estava extremamente magoado com o que descobrira, não ficaria bem até terminar com tudo.
–Não matamos, Nar… -Foi interrompida.
–Você vai mata-los, eu vou cuidar dos que você não der conta. –Nem se deu ao trabalho de olhá-la, Sasuke e Sakura completamente ignorados por Naruto, que folheava as fotografias dos indigentes. Aquele descaso deixou a Haruno extremamente furiosa.
–Isso não tem nada a ver com você. –Disse com a voz embargada. –Não pode deixar particularidades interferirem na missão, Naruto. -Sasuke franziu a testa, estava ficando cada vez mais confuso.
–Quando os ver não se lembrará dessas palavras. –Colocou a última fotografia no monte ao lado. –Vai estar tão cega de ódio que não sentirá o sangue quente na sua pele. –Naruto estava sombrio. Naruto não era daquele jeito. Sasuke começou a ponderar o que havia acontecido entre eles. –Ou ficará petrificada como uma donzela sem saber o que fazer. –Embora a expressão de Sakura fosse serena, seus olhos estavam encharcados e num momento em que ela piscou uma lágrima escapou, mas apenas seus olhos entregavam a fraqueza, sua expressão estava altiva.
–Sasuke. –Tornou os olhos de Naruto para ele. –A missão é sua. Você escolhe o que fazer. –Ao dizer isso, Naruto jogou as fotografias aos pés de Sasuke. Estavam claramente competindo pela atenção do líder.
–Decore esses rostos. Se os vir, deixe ela os matar; se ela não fizer isso, mate-os antes de mim.
–Sasuke! –Sakura se desesperava. Não queria que Naruto tornasse aquilo mais um fardo dele, mas um problema dele, aquilo dizia respeito somente à ela.
–À que finalidade? –Sasuke não se interessava mais na sofreguidão de sua médica particular. A proposta de Naruto parecia interessante, ainda mais porque ele parecia disposto à lhe revelar os motivos por trás da revolta.
–Esses caras fizeram uma coisa que me deixou muito puto, uma coisa que deixaria até você puto se soubesse, mas não te direi. –O loiro olhou de relance para Sakura que parecia se mortificar cada vez mais com a conversa. –Tudo o que precisa saber é que eles precisam estar mortos. -Aparentemente, Sasuke estava errado. Naruto não abriria o bico.
–Sasuke, por favor, me...
–Sakura! –Naruto olhou diretamente para ela pela primeira vez. –Quando vai perceber que essa era a “missão secreta” que Tsunade nos deu? –Estava irritado. Pela primeira vez Sakura parou para pensar nisso e se calou. Fazia sentido.
Seria muita coincidência encontrar o mesmo grupo que a atacou no País do Chá se não fosse planejado. Tsunade sabia onde eles estavam e os colocou no caminho. Sakura só não entendia por que a missão foi destinada à Sasuke, não diretamente à ela. Tsunade havia prometido que deixaria o ocorrido em segredo absoluto, cumpriu isso muito bem por mais de três anos, por que trazer isso à tona agora? Ela queria vingança, ela planejara tudo.
Queria entrar para as Forças Regulares como jonnin para sair da vila com mais frequência e liberdade, em missões que lhe dariam flexibilidade suficiente para ela pesquisar sobre os o grupo maldito que a violentou. Ela só precisava da licença e sairia. Por anos se preparou para isto, mas a ideia não era apenas matá-los. Queria torturá-los até que eles pedissem a morte, assim como ela pediu.
“Por que a merda da droga não a apagava de uma vez? Por que seu coração não parava de bater? Por que eles não a matavam? Ela não acreditava no que estava acontecendo. Sua virtude estava sendo tirada desta forma… Como aquilo poderia ser verdade? Não podia ser verdade. Ela devia estar em um pesadelo. Devia ter cochilado no plantão, em alguma maca, logo acordaria e tomaria algo para distrair as lembranças do sonho ruim…
Como desejava que fosse um sonho ruim…
“Me mate”, ela tentava sussurrar. Os lábios, com grande esforço, conseguiam sibilar, mas a voz não se fazia presente.
“Me mate”, suplicava.”
Tsunade a colocou diante da maior oportunidade que teria de realizar essa vingança, de forma rápida e eficaz, mas sem aviso prévio. Ela não estava preparada para executar isso como planejara. Fisica e psicologicamente. A batalha com os rebeldes dias atrás naquele mesmo campo foi o suficiente para ela largar as ideias exclusivas de que somente shinobis formados poderiam lutar. Eles venceram o grupo, mas ficaram muito defasados. Isso a levava a pensar que pelo menos sessenta homens eles mataram, quem e quantos eram esse resto? Será que eles já não haviam matado os homens que a agrediram e nem sequer perceberam isso?
–Nem sabemos se eles estão vivos. –Comentou olhando para a fogueira.
–Estão sim. –Naruto respondeu. –Eles nos atacaram com algum propósito, provavelmente a mando dos caras que brigamos na aldeia do País do Rio. Sabia quem éramos e que você estava no meio. Não arriscariam se revelar. –Sakura queria dizer que um deles passou a mão nela e os outros a cercaram com intenções perversas, por isso ela liberou o Selo Yin e ficou descontrolada ao ponto de massacrar a maioria que se aproximava dela. Ela queria dizer, mas claro que não disse. Naruto já sabia demais.
–O Sakura tem a ver com esses caras? –Sasuke fez a mesma pergunta de um modo diferente. Não era apenas por curiosidade, ele queria saber com quem estava lutando, e também não era por piedade, mas ele se sentia mais confiante quando conhecia o inimigo. Para Naruto proclamar a morte do grupo eles deveriam ter feito algo absurdo, Naruto era pior do que Sakura nesse quesito de matar. Matava quando não havia opção, matava para sobreviver.
Quando ele fez essa pergunta, Sakura o olhou, seus olhos se chocaram e ela rapidamente se desfez daquela ligação, decaindo a atenção sobre a fogueira que estalava a lenha. Era obvio que ela estava envolvida em algo muito sério que Naruto, e muito menos ela, não iriam lhe contar.
–Tudo o que precisa saber é que a sua missão só acaba quando esses caras estiverem mortos. –Naruto jogou as espinhas do peixe que comeu atrás de uns arbustos e lambeu os dedos. –Farei questão de conversar com Tsunade a respeito dessas missões absurda que ela nos dá, ou melhor, dá par você e nós somos obrigados à vir juntos.
–Não percebe que viemos com ele porque sozinho ele não descobriria o real objetivo? –Sakura interviu.
–O objetivo é matar e isso ele faria bem.
–Quase nos mataram e estávamos em três, você acha que Sasuke daria conta?
–Ele mesmo está limitando seus poderes, você sabe disso, Sakura.
–Já disse que odeio quando falam de mim como se eu não estivesse aqui. –Sasuke resmungou passando o resto de sua comida para um dos mercenários que aceitou de bom grado. Ele mesmo havia perdido a fome.
–Sabendo quem são esses caras ou não, ele teria que eliminar o grupo de qualquer jeito. Acabaria matando esses porcos infelizes –apontou para as imagens no chão –sem nem ao menos saber a boa ação que fez. –Sakura definitivamente se calou, não porque concordava, mas estava exausta. –E depois seria você quem teria uma dívida com ele. –O olhar caloroso de Naruto em cima dela era autoexplicativo. –Vamos descansar cedo. Eles atacaram de madrugada e suponho que farão isso novamente. Três de vocês –apontou para os mercenários -
Façam a primeira ronda da noite comigo, depois se revezem e Sasuke assume o restante da noite, pode ser? –O Uchiha assentiu. –Bom descanso.
.o0o.
Sakura não dormiu.
Cansada dos pensamentos pesarosos, levantou-se depois de algumas horas. Ela se lembrava que não havia feito o que havia prometido e ainda faltava um tempo para Sasuke assumir o lugar de Naruto:.
“-E seu braço?
–Está cicatrizando. –Respondeu sorrindo.
–Depois vejo isso.”
Mas Naruto só deu as caras à tarde quando já partiam de Suna. Sakura acabou cuidando apenas de Sasuke que já estava muito melhor, diga-se de passagem.
–Deve descansar para mais tarde. –Naruto advertiu quando sentiu a aproximação dela. Sakura não se importou, sentou ao seu lado do mesmo jeito.
Ele estava sentado embaixo de uma árvore larga, os três mercenários escorados em outras mais afastadas, fumando e afiando suas adagas e o restante dormindo nas barracas há dez metros atrás. Os únicos ruídos que se ouvia eram dos animais noturnos caçando, se algum ousasse se aproximar poderia ser pego pelas armadilhas montadas nas redondezas, mais tarde serviriam de desjejum.
Olhou por alguns segundos o olhar cansado, o semblante muito sério que não combinava com sua personalidade e o braço esquerdo lesionado. Sem permissão ela pegou e examinou, observando de relance Naruto encolher o nariz e apertar os olhos de dor.
–Ainda dói? –Perguntou só para que ele assumisse.
–Um pouco.
–Por que tirou a tala?
–Atrapalhava. –Quando ela tentou sobrar o braço ele rosnou baixo, mas feio o suficiente para despertar a atenção dos guardas que ergueram suas armas para Sakura. –Mas está cicatrizando.
–Está cicatrizando torto. –Respondeu concentrada. –Vou ter que deslocar para encaixar direito o osso...
–Você é louca?! –Exclamou puxando o braço de volta.
–Eu vou cuidar de você, seu idiota! –Deu um cascudo e ele chiou, massageando o topo da cabeça. Com o braço dele de volta, ela examinou mais um pouco enquanto ponderava se deslocava com ou sem anestesia. Sorriu com a ideia de Naruto dando um grito rouco e despertando a floresta inteira. –Tome isso. –Lhe deu uma pílula.
–Para que serve?
–Para você não sentir dor. –Como Naruto demorou demais, ela o agarrou pelas bochechas e o fez engolir o remédio antes que ele pudesse pensar em se defender. –Logo você não vai conseguir mexer nada além das pálpebras. –Este era o mesmo remédio que ela deu à Sasuke quando foi examiná-lo pela primeira vez, mas o moreno deu mais trabalho para tomar. Ela precisou beijá-lo e faze-lo engolir o comprimido com a língua. –O efeito é rápido. Tanto para agir quanto para passar. Sua sujeição será temporária, não se preocupe. –Piscou travessa para ele. Houve um breve silêncio quando ela puxou com uma força precisa o braço de Naruto, que só ouviu o som do osso descolando das juntas. Nem mover os lábios em protesto ele conseguia, não sentia absolutamente nada, mas estava desesperado. Era como estar com a mente presa em um corpo inerte. Era uma sensação horrível aquela anestesia. –Jamais o deixaria com o braço torto e mal curado. –disse com um sorriso meigo. –A Kyuubi não tem trabalhado como deveria. –Aquela era uma triste verdade que Naruto obrigava-se a esquecer. –Você não pode jogar todo o serviço nas costas dela quando tem quem possa fazer por você, Naruto. Você não precisa ser tão altruísta. –dizia enquanto tateava de forma técnica toda a extensão do braço dele, encaixando tudo que estava fora do lugar. –Confesso que minha mão estava coçando para puxar seu braço sem essa anestesia ridícula, mas sei que este seria o momento em que você começaria uma conversa da qual eu tentaria fugir. Preferi evitar. –Sorriu novamente distraída com o trabalho. –Você precisa entender que tem coisas que eu consigo aguentar sozinha; que há segredos que não podem ser compartilhados nem com os mais íntimos; que há muitas coisas fora do seu alcance; que você não pode carregar todos no colo só porque os ama. –Com um ninjutsu medicinal, ela começou o processo de regeneração do osso e dos músculos em volta. –Você já foi o nosso herói por tempo demais, não irá perder seu posto se deixar eu me virar sozinha.
Mais alguns minutos concentrando chakra nos pontos lesionados e a anestesia já perdia a força. Naruto mexia os dedos e forçava os movimentos.
–Eu sei o que quer dizer. –Ficou séria. –Eu estou bem com isso, mas não vou seguir seu plano. A vingança é minha e não deixarei que interfira nisso, nem você, nem ninguém. –Olhou seus olhos com intensidade. Os azuis estavam nervosos, presos aos verdes temerosos. -Me perdoe por isso. -Após terminar o serviço, deixando Naruto com o braço totalmente restaurado, segurou o rosto redondo com as palmas, torcendo para que a anestesia durasse pelos segundos seguintes.
Os azuis antes nervosos, agora estavam surpresos. Sakura fechou os olhos e o beijou carinhosamente, sabia que o máximo que ele poderia sentir era um formigamento, mas era ela quem sentir seu toque, os lábios preenchidos, a pele quente… Ela precisava.
Afastou-se dele tão rápido quanto de aproximou, voltou para sua tenda sem olhar para trás. Os mercenários se olhavam sem entender muita coisa, mas sustentavam suas armas nas mãos direcionadas para Sakura caso Naruto não se movesse mais.
Pensando no beijo, Sakura conseguiu dormir, chegava ansiar o raiar do dia.
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