Strokes
32 New pair
Notas iniciais
– Onde ela está? — Tsunade entrou afobada na sala de emergências onde Sakura acabara de ser deixada.
– Dormindo. — Shizune respondeu barrando a passagem da hokage que a olhou com estranhamento.
– Eu assumo daqui. — disse com mais autoridade tentando passar.
– Não. — Novamente Shizune se impos, em nenhum momento desviando seu foco dos olhos amendoados da mestra. — Quando Sakura acordar, prefiro que seu rosto não seja a primeira coisa que ela veja.
– O que quer dizer com isso, Shizune?
– Eu vou contar o que sei.
Tsunade riu e balançou a cabeça para os lados brevemente, imaginando se Shizune realmente acreditava que representava uma ameaça.
– Tudo bem, ela é sua! — disse soltando os braços ao lado do corpo, contrariada, cansada demais para brigar. Deixaria Shizune pensar que é a dona da verdade, não a impediria de se sentir justa ao menos uma vez na vida, ela tinha esse direito. Virou-se para ir embora, quando estava na porta, Shizune disse:
– Boa sorte com os garotos. — Ao virar-se novamente para a sua leal companheira, viu apenas a porta do corredor principal da Ala Emergencial balançar para dentro e para fora da sala, denunciando a saída de alguém.
Com aquele aviso, Tsunade sabia exatamente para onde ir.
Fazia algumas horas que o trio havia chegado de Suna, Sasuke com seu tronco mal curado e Naruto com a garota nos braços. O primeiro plano era deixar Sakura no hospital e em seguida encontrarem-se com Tsunade para resolver de uma vez por todas a finalidade dessas missões forjadas. Contudo, Shizune não deixou os garotos sairem do hospital sem passarem por um check up antes, pois os dois também não estavam em melhores condições do que Sakura.
Demoraram quanto tempo para chegar em Konoha? — Shizune perguntou surpresa com a rapidez da viagem, recebera no dia anterior a mensagem de Gaara anunciando a partida deles e na manhã seguinte o trio já estava de volta.
– Menos do que o normal. — Naruto respondeu.
– Cortamos caminho. — Sasuke acrescentou.
– Acabei de dispensar Tsunade. — disse chamando a atenção dos dois que se aproximaram mais. — Ela queria ver a Sakura, mas não deixei.
– Ela sabe que você tem como incriminá-la?
– Sabe, mas me subestima. — Shizune respondeu Naruto com tédio. Toda essa confusão entre Tsunade e Time Sete estava a tirando do sério. – As cópias dos documentos estão na minha casa, consegui pegar os mais importantes.
– Poxa, obrigada, Tia Shizu! — exclamou Naruto animado, mas Shizune não
compartilhava da felicidade do garoto.
– Prestem bem atenção: o que eu fiz pode colocar em risco a minha vida. Não sabem quão difícil foi conseguir esses documentos e uma vez revelados, já estarei exposta à uma série de julgamentos.
– O que você fez? — Naruto perguntou ao notar o tom sombrio na voz de Shizune.
– Os documentos estavam na Anbu.
– VOCÊ SE INFILTROU NA...
– Anuncie à aldeia, idiota! — tapou a boca do garoto que quase exclamara seu crime. — Agora têm noção do risco que estou correndo por vocês? — migrou os olhos ferozes de Naruto para Sasuke logo atrás dele. — Por trás disso tudo, Tsunade só quer manter a vila segura.
– Contratando ninjas foragidos para nos matar? — Sasuke ironizou.
– Testando a lealdade do seu sucessor! — o corrigiu com ênfase. – Naruto é o favorito para ocupar o gabinete do País do Fogo, não há outro, entretanto a sua pessoa se tornou um impasse para a tomada dessa decisão. — Sasuke arqueou a sobrancelha. — Não é novidade que Naruto mata e morra por seus amigos, especialmente por você. — soltou a boca de Naruto e caminhou até Sasuke. — Independente da ajuda que trouxe na guerra, seus crimes não podiam ser ignorados, Sasuke. Por isso você foi julgado, sentenciado e preso.
– Não lutei para compensar meus erros, lutei porque sabia que era aquilo que eu deveria fazer.
– Não me interessa seus propósitos! — aumentou mais o seu tom de voz. Naruto observava curioso, imaginando onde aquilo iria parar. — Libertar você agora, no momento em que Tsunade está prestes a renunciar o posto de Hokage para o seu melhor amigo, foi um erro. — Aproximou-se mais do garoto que era três palmos mais alto que ela. — Você é a fraqueza de Naruto, consequentemente uma ameaça. Naruto precisava ser testado, até Sakura precisava ser testada. Tsunade não poderia deixar que aqueles relatórios do acidente no País do Chá fossem encontrados por Naruto, um caso tão grave esquecido no fundo da gaveta. — olhou para Naruto. — Ela usou vocês para resolver essa pendência, pois sabia que se Naruto se deparasse com um caso tão íntimo como esse, poderia tomar atitudes drásticas. — voltou a atenção para Sasuke. — Ela usou vocês para exterminar com os condenados a Ilha Kamui, pois a aldeia não consegue mandar mais recursos para manter uma prisão de segurança máxima com centenas de nikinis e shinobis.
Naruto e Sasuke se entreolharam. Sasuke imaginou que Tsunade tinha planejado as batalhas com todos aqueles shinobis para que ele fosse morto, Naruto imaginou uma razão mais nobre, forçar Sakura a se vingar de seus agressores. Shizune tinha mesmo feito a lição de casa.
– Todas as missões foram ensaiadas?
– Todas. — Shizune respondeu com tanta firmeza que até Naruto virou o rosto para não encará-la de tanta vergonha que sentia.
Sasuke sentiu um incômodo querendo saltar pela sua boca. Não entendia por que se sentia tão mal ao ouvir tudo o que já sabia de uma versão diferente. Não era uma hipótese, teorias suas, de Naruto ou Sakura, era a constatação com provas eram tangíveis.
– Então nada foi real? — Seus olhos negros deitados no rodapé. Shizune à sua frente, Naruto logo atrás, encostado numa maca fitando um ponto na parede. Parecia estar sentindo-se tão enganado quanto ele se sentia.
– Nada é real para você desde que foi preso há um pouco mais de três anos atrás, Sasuke. — disse num tom carregado de cansaço. Caminhou até um armário e pegou um colírio da prateleira interior. — Você representa uma ameça até que a Hokage diga o contrário.
– Ou até que eu assuma o posto e diga isso. — concluiu Naruto com a voz cheia de segurança.
– Por essas e outras declarações que Tsunade está fazendo todas essas loucuras para ver se você realmente está com o cu maduro pra sentar no trono. — entregou o colírio para Sasuke e saiu assim que ouviu Naruto protestar, gritando para o todo o hospital ouvir:
– Vou falar onde ela vai sentar com o cu maduro que ela tem!
– Naruto?
– Que é, Sasuke? — estava vermelho de raiva, fungando.
– Coloca pra mim? — estendeu o colírio.
– Vá à merda! Não sou sua enfermeira! — sentou na maca e colocou suas sandálias – Vou pro Ichiraku.
– Espere! — Naruto já estava na porta. — Não tenho a chave de casa.
– Então espere Sakura acordar para te emprestar a chave dela. — deu a solução num tom zombeteiro, como se fosse um pensamento lógico.
– Você não pode me emprestar a sua?
– Por que acha que vou para o Ichiraku?
A resposta ficou no ar.
Sasuke ficou no quarto de Sakura por um breve momento, observando pelas suas expressões os sonhos conturbados que invadiam sua mente.
– Nemuri. — sussurrou para si mesmo.
Já foi vítima do tenebroso genjutsu pelas mãos do irmão mais velho, ficou dias revivendo um pesadelo e quando acordou, permaneceu assombrado com as imagens durante um bom tempo. Não se arrependia de tê-lo aplicado em Sakura, mas sabia que uma hora ela iria acordar e com certeza o odiaria por toda a intervenção que ele fez na vingança dela. Sasuke a entenderia se ela surtasse quando acordasse e a primeira coisa que visse fosse o seu rosto de traidor enxerido. Aos constatar isso, preferiu deixá-la em paz no seu sono conturbado e assim como o Naruto saiu para o tempo passar mais rápido.
.o0o.
Embora Sakura tivesse curado seu braço quebrado, carregá-la adormecida por todo o trajeto de Suna até Konoha fez com que as dores latejantes voltassem insistentes. Naruto arrastava os pés pelas ruas de terra da vila, seguindo pelo caminho tão conhecido da sua tenda favorita. Estava exausto, suas roupas imundas de sangue, terra e suor, seu cheiro não deveria estar melhor do que a aparência, ainda assim ele andava em direção ao Ichiraku. Só queria sentar em algum lugar familiar e relaxar, tomar um sakê e pensar no que fazer, pois não estava bem desde que descobriu o que aconteceu com Sakura.
Não estava bem e fez o possível para tentar maquiar o sentimento inevitável de pena. Queria ter agido como um péssimo amigo, queria ter matado os energúmenos que tocaram sua amiga, queria protegê-la, queria voltar no tempo e acompanhá-la na maldita missão, mas não podia. Entre pensamentos de culpa, foi surpreendido ao olhar para o lado e notar a última pessoa que desejava encontrar naquele dia.
– Sua percepção é péssima! — começou bebericando seu sakê – Se eu fosse uma cobra já teria o picado!
– O que está fazendo aqui?! — perguntou impaciente.
– Vim atrás de você. Suponho que tenha alguns sermões para me dar...
– Tenho muito!
– Naturalmente. Só peço que seja breve. — tomou o último gole.
Como se estivesse explodindo por dentro, Naruto vomitou todas as suas mágoas e injustiças:
– Olha, Tsunade Baa-chan, você deveria buscar Sakura, ela quem deveria confrontá-la, mas não me incomodo de fazer isso por ela. Nem um pouco. — começou – Que você foi oportunista, corrupta e imatura sua consciência já sabe. Testar seus shinobis mais próximos como se fosse um um jogo foi a coisa mais baixa que você pôde fazer. Quase uma década governando o País do Fogo e ainda não conhece no olhar quem é confiável ou não? Cadê a experiência, a confiança, auto suficiência, a moral, o instinto que a guiava? Você queria me testar, saber que eu seria cúmplice do “renegado”? Por que não perguntou a mim? Já menti pra você, Baa-chan?
– Eu não sou tola, Naruto. Ainda tenho experiência e instinto o suficiente para saber que você diria qualquer coisa para se tornar Hokage.
– Pois já que me considera tão mesquinho, já que precisou contratar prisioneiros condenados à morte para criar missões para testar minha lealdade, economize seu tempo, seu dinheiro, sua paciência e invista em alguém que não precise de tantos testes para provar ser confiável.
– Deixe de drama, Naruto! — Tsunade bebia com um sorriso zombeteiro no rosto – Você acha que a escolha do sucessor é assim, fácil? Renunciarei meu lugar apenas para você, eu realmente o quero como sexto Hokage, mas precisei de tudo isso. Acima do instinto, da confiança e dos nossos laços, eu tenho amor pela minha vila e é meu dever certificar de que o meu sucessor mantenha o povo seguro e Konoha em ordem.
– Tsunade, você não fez que fez por amor à vila, você fez por vingança, fez por assuntos pendentes, resolveu uma série de questões nos usando, é isso que me deixa mais puto.
– Pelo visto Shizune lhe deu detalhes. — afirmou com o tom e sorriso irônico do começo da conversa.
– O que você pensou ao planejar tudo isso? A prisão da Ilha Kamui está com superlotação. Já sei! Vou usar Sasuke e seus amigos leais e babacas para que exterminem um bocado desses condenados ou para que eles sejam exterminados, o Sasuke de preferência! – cantarolava com a voz afeminada – Vou aproveitar e pegar aqueles estupradores da Sakura que capturei há uns tempos atrás e colocá-los no caminho dela pra ver se ela reage de uma vez por todas ou acaba sendo estuprada de novo!
Nesse ponto o escudo de ironia que Tsunade vestiu para resistir aos sermões de Naruto se quebrantou. Ela largou a bebida na mesa e o ouvir terminar a simulação de seus prováveis pensamentos.
– Assim matarei dois coelhos com uma kunai só! Depois disso irei ao Ichiraku Lámen bebericar alguns sakês. Plano perfeito, hum! — Desta vez ele tomou sua bebida enquanto Tsunade o fitava com surpresa.
– Ela não tinha pensado daquele jeito, pelo menos não tão friamente. Naquele momento queria justificar-se para Naruto, apenas para não sentir seu coração tão pesado atrás das costelas, entretanto sabia que nada do que dissesse poderia amenizar a dureza dos seus atos.
– Me faz parecer má por esse ponto de vista. — disse ainda o olhando, buscando os olhos anis – Honestidade não fará de mim uma pessoa mais justa, entretanto acho digno da minha parte assumir que não me arrependo do que fiz.
– Quer elogios para não ficar triste? — Naruto cruzou os braços sobre o balcão e a fitou com uma expressão zombeteira que Tsunade rebatou com a melhor de suas caras sérias – Você foi inteligente, para não dizer manipuladora. Esvaziou a prisão da Ilha Kamui, não gastou com as execuções dos condenados nem precisou pagá-los pelos serviços prestados, pois estão mortos. Além de tudo forçou Sakura a encarar novamente o pior pesadelo da vida dela ao invés de tê-la informado que os demônios que a abusaram estavam embaixo das suas asas, prestes a serem condenados como criminosos comuns, prestes a serem mortos como um psicopata qualquer. Como você pôde ser tão negligente? Você via Sakura trabalhar duro, uma missão atrás da outra, turnos no Hospital, treinando e estudando nas folgas, tudo para matar esses caras. Você via tudo isso acontecer e por meses manteve os infelizes comendo e dormindo de graça na maresia da porra da Ilha Kamui?
– Um dia ela vai me agradecer por isso — encheu novamente o ochoko enquanto dizia – Olha para a Sakura, olha para a mulher que ela se tornou! Ela se tornou forte! — Naruto revirava os olhos para o entusiasmo de Tsunade.
– Ela se tornou obcecada! Doente! Triste! Fria! Sem esperanças! Você a transformou num Sasuke e não tem nenhum mérito nisso!
– Está dizendo besteiras, Naruto! Para de drama! — exclamou nervosa – Você nem ao menos tenta ver tudo da minha perspectiva! Isso só prova o quão imaturo você está! Eu não deveria ter te procurado, abaixado meu nível. Eu sou Kage de Konoha e não vou ouvir sermões de um moleque que não sabe associar A com B!
A tenda do Ichiraku silenciou-se.
– Eu vi Sakura matar homens sem piedade. Vi Sasuke abaixar a guarda e quase ser morto pelas mãos dela. Eu a vi ficar insana. Eu a vi com ódio. Eu a vi com dor — dizia com os dentes cerrados – Você não deveria se vangloriar por ter usado a gente dessa forma, não me interessa seus motivos, não foi certo, sinto vergonha por você! — levantou-se deixando o dinheiro da sua bebida no balcão – Se é isso que terei que fazer quando me tornar Hokage, eu dispenso! — e virou as costas para a Godaime, seguindo uma direção qualquer.
– O que está dizendo? — Tsudade também levantou-se e seguiu Naruto até certo ponto, a essa altura algumas pessoas já se aglomeravam para ver do que se tratava a discussão entre a Godaime e o grande herói da vila.
– Eu renunciou a honra de ser seu sucessor. Não tenho estômago para isso. Procure outro – e foi embora.
O silêncio na rua era absoluto. Ela olhou em volta, as pessoas a encarando, sentiu-se mal. Pegou seu Tokkuri e caminhou de volta para a Central de Konoha.
.o0o.
Sasuke não sabia para onde ir. Não ia atrás de Naruto no Ichiraku, primeiro por não se lembrar bem do caminho quanto por não se sentir à vontade naquele lugar. Ficou andando sem um rumo certo, costurando entre as ruas, meio que torcendo para se perder e poder passar o tempo procurando o caminho de volta para o Hospital, onde esperaria Sakura acordar para poderem voltar para casa. Entre uma dessas cruzadas, encontrou Hinata com sacolas de compras, teria passado reto se ela não o tivesse chamado.
– Sasuke! — exclamou com sua tão conhecida voz doce e infantil. Quantos anos ela tinha mesmo? Vinte?
Ele parou e a fitou. Hinata tinha traços bonitos; era recatada, tinha o vocabulário limpo; era fraca, porém tinha habilidades invejáveis. Aquele Byakugan... Olhos tão poderosos! Ele só conseguia desejar aquele par de orbes.
– Eu... Não sabia que vocês haviam chegado da missão. — comentou tímida.
– Chegamos hoje de manhã. — respondeu sério.
– Fiquei preocupada. Naruto me disse que seriam apenas três dias, vocês ficaram fora cerca de dez dias...
– Tivemos imprevistos.
– Mas está tudo bem?
– Até então, sim. — respondeu olhando ao redor, não havia muitas pessoas na rua – Você mora por aqui? — perguntou curioso.
– Ah, sim, moro ali – apontou
– Pensei que morasse no Distrito do Clã Hyuuga.
– Ah, não – riu sem graça – Não moro lá há anos – Sasuke balançou a cabeça para os lados e riu pelo nariz, a olhando como se ela fosse uma criança.
– Que foi? — perguntou vermelha, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha com a mão que tinha livre.
– Vocês, jovens mulheres de Konoha. Saindo de casa cedo, sendo independentes – sorriu, galanteador.
– Bom... — não deixava de mexer no cabelo, tímida – Temos que aprender nos virar sozinhas alguma hora – Sasuke curvou os lábios e franziu o cenho, em explícito estranhamento com o que ela havia dito.
– Estive em diversas vilas e, lembro-me também de como era o meu Clã – começou – As mulheres só saiam da casa dos pais quando casavam, as poucas excessões geralmente eram kunoichi, exatamente como Sakura e você, mas ainda assim, não era algo comum. Pra mim, até hoje é estranho ver uma mulher vivendo sozinha.
– Te garanto que está sendo uma das melhores experiências da minha vida – afirmou sorrindo.
– O que as pessoas não fazem por liberdade? — Quanto a isso Hinata não soube como reagir, sabia que tinha algo subliminar na simples frase, mas deixou passar.
– Ahm... Naruto está bem? — perguntou mudando de assunto.
– Sim. Deve estar no Ichiraku bebendo – respondeu rapidamente e notou o rosto de Hinata esmorecer, mas não falou nada.
– Bom, já está escurecendo, vou para casa levar essas compras – disse cordialmente com o sorriso de criança.
– Boa noite.
– Boa noite! — respondeu, mas nenhum dos dois saiu do lugar – Ahm...
– Sim?
– Você... Você poderia dizer ao Naruto que...
– Tudo bem. Pode deixar – repuxou o lábio num canto só.
– Obrigada! — lhe deu o melhor de seus sorrisos – Agora eu já vou. Até mais!
Sasuke ficou na esquina a observando tentar abrir a porta com uma mão só e derrubar as comprar no chão. Lembrou-se da sua infância fazendo tudo sozinha, imaginou como Hinata deveria ser solitária e sentiu mais uma vez pena por ela. Ele sabia exatamente como era viver sozinho. Continuou seu passeio sem rota com esses pensamentos.
.o0o.
Dias depois
A primeira coisa que Sakura sentiu quando acordou foi uma ardência em torno dos punhos e dos tornozelos. Abriu os olhos lentamente, esperando a costumeira claridade áspera ferir sua córnea, mas surpreendeu-se num cômodo pouco iluminado, aparentemente com a luz fraca do fim de dia. Ela conhecia aquele teto, o clima fresco também era familiar. Ela estava no hospital, mas especificamente do Hospital de Konoha.
Tentou virar a cabeça, mas estava presa, os braços e pernas também. Respirou fundo, já imaginava o motivo. Relembrou os pesadelos intermináveis que teve, devia se debatido enquanto dormia, por isso a prenderam. Com essa constatação não sentiu raiva de quem fez isso e sim do incômodo nos seus dorsos.
– Hey! — chamou – Alguém?! — Depois de alguns minutos Shizune surgiu – Olá. Pode me tirar daqui? — a mulher assentiu e entrou no quarto. Estava quieta, com uma expressão branda, comum em seu rosto, mas dessa vez parecia que tinha algo de diferente nela. Embora a curiosidade afligisse Sakura, ela preferiu não perguntar nada – Acordei à tempo para o Festival?
– Você tem algumas horas para comprar um vestido. O Festival é amanhã – disse cordialmente, a olhando de relance enquanto destravava as placas que prendiam Sakura na cama – Fico feliz que tenha acordado bem, Sakura. Me sentia mal só de observar suas expressões de horror enquanto dormia... — comentava – Achei que fosse acordar transtornada por conta do Nemuri – estranhou.
– Eu estrava consciênte no meu sonho – solta, sentou-se na cama, logo sentindo os músculos reclamarem – Sabia que não era real – Shizune a observava, percebeu quando ela ia dizer algo e hesitou.
– Que foi?
– Quase matei o Sasuke – disse como se falasse consigo mesma, se dando conta do que aconteceu somente naquele momento, surpreendendo-se ao constatar que de fato ela quase havia matado o Uchiha que era dono de sentimentos ambíguos dentro dela.
– Não é a primeira vez que isso acontece desde que ele voltou a morar com vocês – retrucou Shizune sem espanto nenhum.
– Não, Shizune, dessa vez eu realmente ia matá-lo. Ele estava me ajudando e eu ia matá-lo. Se o Naruto não tivesse chegado e... — repetia com dureza fitando atônita as próprias mãos.
– Mas isso não aconteceu – pegou as mãos da garota e fez com que ela a olhasse – Agora precisamos fazer uns exames para eu poder te dar alta – deu meia volta no assunto do qual estava cansada de discutir.
Nesses dias a vida de Shizune se resumiu em Tsunade-Kakashi-Sakura-Naruto-Sasuke. Ela estava fadada.
– Você não dá a mínima importância pra isso – lançou as pernas para fora da cama, se mantendo em pé com a ajuda da médica mais velha.
– Verdade – confessou guiando a menina – Você também não deveria se importar considerando que ele também já tentou matá-la algumas vezes e que só está viva porque Naruto e Kakashi o impediu de fazer isso.
– Mas eu não tenho a mesma conduta que ele.
– A Tsunade fez essa bagunça toda e sobrou pra eu limpar e, todo o tempo que perdi passando um pano no caos que se tornou esse lugar, me fez enxergar razão na irracionalidade – dizia fazendo os procedimentos de triagem.
– Não faço ideia do que quer dizer com isso – Sakura espremeu os olhos e apoiou a cabeça no punho, estava com uma enxaqueca insuportável.
– Você e Naruto são muito ingênuos – sorriu de forma maternal – Não importa o auxílio na guerra, o aparente companheirismo e o clima de perdão mútuo, ainda me espanto com o fato de vocês dois abrigarem um indivíduo que já tentou matá-los mais de uma vez, que foi ameaça para as pessoas que vocês amam, inclusive para Konoha – Sakura abaixou aquele olhar, envergonhada, pois sabia que desde o começo sua posição era a correta, mas foi pelo embalo do Naruto e do próprio Sasuke – Confesso que antes eu encarava isso como um ato nobre de amizade e fé na raça humana, hoje encaro isso como idiotice.
Tal pensamento esteve em sua cabeça desde o dia em que encontrou Sasuke na casa de Naruto, mas todo esse tempo ele a convenceu de que ela estava sendo muito dura com seu amigo, que precisava dar uma chance, um brecha. Se sentia manipulável, exatamente como uma vítima de estupro.
– Shizune, Naruto não me deu escolha senão acolhê-lo.
– A casa é sua! Claro que teve!
– Naruto só ficaria se Sasuke também ficasse! Eu destruí a sala dele, alagou toda a casa, ele não tinha para onde ir – Shizune balançava insistentemente a cabeça para os lados negativamente, criticando a justificativa fajuta.
– Quem é o Naruto para te dar ordens? Pare de empurrar a culpa com a barriga... Eu sei e você sabe que agiu pela sua mente, não pela do Naruto, e só abrigou o Sasuke porque quis.
– Tá legal! Tá legal! Já chega! Isso tá piorando minha dor de cabeça! — esfregava os cabelos irritadiça.
– Preste bem atenção – pegou-a pelo queixo – Tire os dois da sua casa.
– Eles já vão sair, o apartamento do Naruto está pronto.
– Ouça: você mesma disse que não existe mais Time 7, não se apegue à isso, não agora que conquistou sua independência e individualidade como kunoichi.
– Sim.
– Assim que Tsunade encerrar a temporada palhaçada com vocês, eu irei treiná-la em tempo integral e me encarrego de remeter sua Carta de Recomendação para que se torne jonnin – Sakura piscou os olhos algumas vezes, mal acreditava no que acabara de ouvir. Embora a expressão de Shizune fosse inconvenientemente séria, Sakura não hesitou em se alegrar e abraçá-la, agradecendo-lhe pelo apoio que iria ter – Okay okay okay – afastou delicadamente a garota de seu aperto – Existe um porém – Sakura recuperou a postura e se pôs a ouvir – Terá que me mostrar que valerá meus investimentos. Tsunade os tratou como marionetes esses tempos, eu irei tratá-la como a chunnin que você é. Caberá ao seu critério decidir o que é pior. Agora vamos, quero te dar alta logo.
.o0o.
A vila estava forrada de folhas secas; folhas entupindo as calhas, sujando os lados, formando um tapete nas ruas e um espetáculo no céu. Embora o sol aparecesse timidamente nesta estação do ano, era possível ver sua imponência quando sua luz atravessava as folhas dos carvalhos e dava a impressão de como se elas estivessem em chamas. Ruas decoradas com karaokês; as portas das casas com mensagens de agradecimento pela boa colheita; tendas já estavam armadas na alameda que sediaria o Festival no dia seguinte, muitas com seus adornos típicos sendo posicionados por algumas pessoas voluntárias da grande festa.
Sakura reparava em tudo isso quando voltava para casa, no fim da tarde, enquanto Naruto praguejava a áurea fantasmagórica de Sasuke dormindo ereto no sofá enquanto ela ainda estava inconsciente no Hospital.
Nenhum dos três falou sobre a missão, nem sobre o jutsu maldito que Sasuke aplicou na garota do grupo. Não houve pedido de desculpas por parte dele, nem bronca pela parte dela. Ele sabia que não tinha que pedir desculpas já que agiu em defesa de si mesmo e ela, ciente disso, sabia que havia merecido três dias e três noites de tortura psicológica.
Há tempos ela pensava no Festival, comentou até com Sai para ser seu par (um par falso, mas ainda assim um par), mas por conta da mudança de casa, das missões seguidas e da reforma da sala do Naruto ela acabou deixando tudo de lado, meio que para a última hora, até ser tarde demais. Não tinha uma roupa apropriada para vestir, então seguiu o caminho de casa tentando se conformar com a ideia de que teria que usar o kimono do ano anterior. Ponderava sobre isso até a voz estridente de Ino a trazer de volta para o presente momento:
– SA-SU-KE! — gralhou desse jeito, pausadamente, distribuindo seu timbre insuportável pelas sílabas, irritando-os em parcelas – Já tem minha resposta, querido? O Festival já é amanhã!
– Se esperar pela boa vontade do Sasuke de te responder, a primavera vai chegar e você ainda estará aí, sua besta! — Ino ignorou o aviso de Naruto e voltou seus esféricos olhos azuis para o moreno alto e magro que se concentrava arduamente em ignorar não apenas Ino, como o universo inteiro.
Sakura quase passava mal só de imaginar a química desastrosa entre Sasuke e Ino, em todos os aspectos, diga-se de passagem. Chegava a ser cômico observar o empenho dele em deixar óbvio que não queria nada com ela, seu azar era que Ino era sinônimo de persistência quando o assunto é homem. Ela conseguia conquistar quem quisesse, ser rejeitada por Sasuke era um insulto à imutável natureza cíclica de que todos deveriam amá-la e desejar comê-la. Naruto era um bom amigo (de quem, fica ao critério de quem está lendo esse parágrafo), tentava, preguiçosamente, convencer Sasuke de que acompanhar Ino no Festival não seria nenhum sacrifício, muito pelo contrário, ele poderia até ganhar algo com isso (todos sabiam que ele se referia à favores carnais).
A jovem Haruno há tempos estava envolta numa bolha de vidro imaginária sofrendo com seus próprios dilemas femininos sobre como aparecer no Festival, até que a praga lhe chamou atenção de novo:
– Sasuke, querido, se não parar de bancar o difícil eu vou aceitar o convite do Sai, tá me escutando? — cutucava o ombro dele que se afastava com um ar de repugnância.
– O que disse? — Sakura a puxou pelo rabo-de-cavalo.
– Ai! Que foi, Testuda, tá maluca? — deu um tapa na mão da outra para que ela a largasse. Naruto e Sasuke pararam de andar e observaram as duas – Sai é meu par – decretou com a voz forte – Já combinamos de ir juntos há semanas! — Naruto, enciumado, revirava os olhos e se segurava para não puxar Sakura de volta para o caminho de casa.
– Pois então ele esqueceu, amiga. Senta e chora ou aceita – deu meio giro como se estivesse num espetáculo, ricocheteando seus longos cabelos platinados à centímetros do rosto da Haruno.
“Se me acertasse eu te mataria, seu resto de placenta!”, pensou a garota.
– Também tenta entender o cara! Você tava lá bancando a Bela Adormecida, ele não perdeu tempo e foi buscar um par, ora essa. Que há de mal nisso?
– Sua cara de piranha talarica – Sakura ia partir pra cima de Ino quando Naruto entrou no meio das duas, deixando o Sasuke envergonhado por fazer parte da cena, mesmo como figurante.
– Sem drama, Sakura! Você nem tem nada com o Sai de verdade – relembrou impaciente.
– Ainda assim nós tínhamos um trato – retrucou possessa, sentindo-se traída.
– Aparentemente unilateral – respondeu sério. Bagunçou os cabelos rosados da amiga e a puxou pela cintura para o caminho de volta pra casa. O céu já estava escuro.
– Bom – Ino voltou a se manifestar, era uma garota determinada – já que me rejeita, Uchiha, não vejo recurso senão aceitar a proposta do outro branquelo – e olhou para a Sakura de relance, só pra ver se ela caía na pirraça.
– Obrigado – respondeu aliviado, não estava mais aguentando Ino no seu encalço.
– Te vejo amanhã no Festival, testuda? — mas é claro que ela não podia ir embora sem um desfecho. Naruto já repassava seu caráter ao imaginar com prazer a sensação de encher a boca da Ino de areia e jogá-la num rio.
– Vai me ver amanhã sambando em cima de você UTI se não desaparecer da minha frente!
– Não fique triste, Sakura-chan! — Não demorou muito para Naruto dar start nos seus conselhos de amigo da friendzone – Se eu pudesse ir ao Festival, teria o maior prazer de levá-la como minha gueixa – ela sorriu com a tentativa falha do Naruto de tentar reanimar sua auto estima, devolveu o abraço de cintura e respondeu, com toda a sinceridade do momento:
– Eu entendo.
“Mas não o perdôo por isso”, acrescentou mentalmente.
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