Strokes

2 New boy


Notas iniciais
- Aqui vai o primeiro capítulo... O que não deixei claro na sinopse deixo aqui: é baseado no anime. A Quarta Grande Guerra Ninja já aconteceu, houve uma meia vitória, onde Madara foi derrotado, mas causou desgraça o bastante para encobrir o esplendor de sua morte. A história se passa três anos após essa guerra e Konoha ainda está se reerguendo. Vai haver alguns 'flash backs' para que vocês compreendam melhor a história.

Meses antes...

Nos domingos à tarde aquele local ficava lotado, por horas ocupado apenas pelos grupinhos de Gai, Asuma, Kurenai e de Yamato. Mas por algum motivo, quando Sakura chegou no mesmo horário de sempre, quando era certo encontrar um dos meninos se embriagando, não havia ninguém. Desacelerou o passo ao se aproximar do Ichiraku e ver apenas dois jonnins desconhecidos rindo alto. Intercalou dois bancos e se sentou cautelosa. Não era acostumada a ficar em bares à noite sozinha. Pediu o de sempre, olhando para os lados na esperança de avistar algum conhecido. Lutando contra sua curiosidade, perguntou a Amane onde estavam todos.

–Foram ver o prisioneiro. –Sakura ergueu as sobrancelhas num gesto de compreensão, se lembrando de Naruto ter comentado que ele seria liberto dentre poucas semanas, mas não deu muita importância. Sabia que havia fraudes do Conselho de Konoha em cima da sentença de Sasuke, não acreditava que o libertassem com apenas três anos de cárcere privado. -Ainda devem estar no Edifício da Justiça. Disseram que... –Levantou uma das mãos. Amane sabia que deveria parar de falar por ali mesmo. Fez uma reverência e foi fazer recepção aos dois homens no extremo da tenda.

Se fosse há três anos antes, ela teria sido a primeira a saber a notícia, a primeira a divulgar e a primeira a comparecer no local para esperar ansiosamente ele ser enfim libertado. Embora que ele não fosse totalmente livre após sair da prisão, tendo que prestar serviços para Konoha por muitos anos.

Após beber o chá preto com licor, deixou o dinheiro no balcão e saiu dali sem despedir-se de Amane nem do Tio-do-Rámen. Precisava pensar, organizar sua cabeça, parar de evitar o que vivia ignorando há anos. Sasuke ainda existe. Sasuke está em Konoha. Sasuke está preso. Sasuke vai ser solto. E agora? O que Sasuke faz? O que Sasuke é? Como Sasuke Uchiha é? Como ela ficaria com ele por aí servindo a Aldeia, tendo infinitas chances de se esbarrarem pelas vielas e ruas estreitas que formam Konoha. Como seriam as coisas?

Chegou em casa cedo demais, mesmo indo embora pelo caminho mais longo. Não se sentia cansada o suficiente para dormir nem disposta o suficiente para terminar de arrumar os caixotes para sua mudança. Sabia que precisava fazer isso tanto quanto sabia que no dia Naruto apareceria para ajudá-la a preparar tudo de última hora. Como dizia sua mãe, era mesmo uma mal-acostumada. Se acomodava no amigo mais do que deveria, mas ele também se oferecia demais, era prestativo demais, atencioso demais. Tudo demais. Era bem provável que Sakura não fosse a única a usufruir da disposição excessiva do loiro, mesmo desconfiando que ele fosse assim apenas com ela.

.o0o.

–E assine aqui. –Tsunade indicou, em seguida o Uchiha assinou sem protestos.

–Isso é tudo? –Perguntou devolvendo a caneta à sua dona.

O clima estava tenso, literalmente e figurativamente. O suor brilhava na testa dos homens e o silêncio era penetrável. Ninguém ousava falar, nem sequer erguer minimamente os lábios a favor da saída de Sasuke, nem mesmo Naruto que era quem mais aguardava esse momento. Semblantes sérios e concentrados, como se a qualquer momento algo pudesse dar errado. Ninguém acreditava que a longa dívida dos Uchihas pudesse ser quitada com meras assinaturas de um nikinin, muito menos que o mesmo desvirtuasse suas vilanias contra a vila depois de ser liberto, pelo contrário.

Todos os olhares eram direcionados para ele, somente para ele e suas mãos pálidas se movendo em movimentos rápidos para cada espaço em branco que ele devesse assinar ou marcar com seu sangue. A vida dele estava nas mãos da vila. Seu rosto sereno não dava a entender que ele estivesse preocupado quanto a isso ou que sentisse qualquer outra coisa a respeito da sua libertação e futura devoção à vila. Talvez essa fosse a verdade: ele não sentia. Mas aqueles que o conheciam sabiam que para Sasuke não era difícil encobertar suas emoções debaixo da mascara indiferente. Ele sentia sim, só que ninguém precisava saber.

Tsunade meneou a cabeça dando autorização ao ex-detento e aos jonnins para se retirarem. Para a surpresa de todos, Sasuke fez uma pequena reverência e resmungou algo que poderia ser entendido como um obrigado. Abriu a porta e saiu acompanhado de dois homens fardados, deixando os outros na sala absortos.

–Parece que ele melhorou. –Comentou Kakashi fitando a porta por onde o Uchiha acabara de passar.

–Já é um começo. –Confirmou Tsunade com um leve sorriso no rosto, abrindo outra pasta e dispensando todos os ninjas presentes no gabinete.

–Sasuke! Sasuke! –Chamava Naruto correndo logo atrás. Sasuke se virou calmamente, parando no meio da escadaria em frente ao QG, onde havia dezenas de curiosos a sua espera. –Você vai para minha casa. –Informou o loiro assim que se aproximou do amigo.

–Eu tenho casa.

–Tinha. –Corrigiu Naruto. –A propriedade Uchiha só será liberada para um herdeiro...

–Foda-se. –Disse descendo as escadas novamente.

–Ok. –Naruto o acompanhou, ignorando a impertinência. –Sei que minha casa pode não ser tudo isso, mas até você se ajeitar, pode ficar lá de boa. Não é tão ruim assim. –Dizia cordialmente, desafiando sua paciência.

–Qualquer lugar é melhor do que o quarto onde estive durante esses anos. –Disse com uma voz distante, como se não houvesse ninguém para escutá-lo.

–Então você vai? –Insistiu Naruto. O outro deu os ombros, dizendo entre dentes:

–Que seja. –E abrindo caminho entre a multidão, ignorando olhares hostis e comentários alienados, chegaram enfim no pequeno apartamento de Naruto, próximo aos subúrbios de Konoha.

O corrimão das escadas já estava enferrujado e os degraus definhando em mofo. Sasuke se perguntava como aquele lugar continuava de pé. Ao entrar na casa ele se sentiu contrariado, pois diferente do exterior do prédio, o apartamento estava muito bem cuidado, com paredes e assoalho limpo, móveis em bom estado e em seus devidos lugares, com um ar fresco e acolhedor pairando sobre todo o ambiente. Finalmente uma casa, pensava consigo sentando-se no sofá.

Naruto dispensou os dois jonnins e enfim ficou a sós com Sasuke. A situação parecia surreal, ele mal acreditava, ficava sempre conferindo o moço do sofá para se convencer de que era realmente o Sasuke quem estava ali, seu amigo, seu rival, seu irmão acima de tudo. Tirou o casaco e jogou sobre a braçadeira do móvel, atraindo a atenção do outro que analisava o cômodo.

–Mudei a decoração, percebeu? –Começou, tentando puxar assunto. –Faz pouco tempo, na verdade. Sakura fez quase tudo, eu só paguei. –Forçou um riso. –Bem diferente de como era antes, né? –Sasuke não respondeu. –Seu cabelo cresceu. –Observou inseguro de que o moreno não gostasse. Não só seu cabelo como ele mesmo havia crescido muito, estava da altura de Kakashi, entretanto já tinha uma barba rasa, estava magro e mais pálido do que era naturalmente. Tinha uma feição doentia e cansada, o que fez com que Naruto se arrependesse rapidamente de ter feito o comentário.

Ele não conseguia deixar de olhar para Sasuke e não se lembrar de Itachi. Estava mais parecido com o irmão do que nunca. Ele não sabia se era essa a intenção dele, por isso nem se ofereceu para levá-lo à um cabeleireiro no dia seguinte, em vez disso combinou de levá-lo para comprar roupas e objetos pessoais, tendo como resposta um leve aceno coma cabeça.

Naruto já se irritava com tanto silêncio, de fitar deslumbrado o amigo que parecia nem notar a existência do outro ali ao seu lado. Resolveu então ir para a cozinha preparar logo o jantar.

–O que vai querer? Pode pedir o que quiser! Desde que seja instantâneo, eu consigo fazer.

–O que tiver.

Abriu o armário e meditou por alguns instantes no que fazer. Lembrando-se vagamente das missões que fizeram juntos e no que Sasuke normalmente pedia nas hospedarias e restaurantes. Decidiu fritar nuggets congelados e dissolver tokoroten.

–Suco ou sakê?

–O que você quiser. –Novamente, aquilo o fez pensar um bocado no que conviesse. Considerando que Sasuke estivera preso dos dezesseis aos dezenove anos, sendo que bebida alcoólica só é permitida a partir dos dezoito, possivelmente ele nunca havia triscado uma gota de sakê na boca, portanto, não seria coerente lhe servir descaradamente com bebida. Optou por um saudável suco de laranja.

–Quer tomar um banho antes de jantar? Eu te mostro onde fica o banheiro...

–Eu me lembro. –Se levantou e seguiu pelo corredor. Rapidamente Naruto buscou uma toalha e roupas limpas que já deixara separado e entregou para Sasuke antes que ele fechasse a porta. Deixou o amigo e voltou para a cozinha terminar o preparo do jantar de improviso.

Pensava em como era vergonhoso servir aquilo para Sasuke depois de tudo. Lamentava não ter Sakura ali para cuidar desse detalhe onde ele sempre fracassava, mesmo assim, estava dando o seu melhor. Logo quando colocou a última travessa na mesa, o outro surgiu na porta, barbeado, com um ar mais desperto e o cabelo cortado, embora o resultado não tenha ficado muito bom.

–Eu poderia ter levado você amanhã de manhã para resolver isso. –Informou tentando conter o riso enquanto o outro se sentava.

E o que Naruto viu em seu rosto nesse momento foi mais uma razão para ele ficar acordado a noite por conta de tanta ansiedade. Poderia estar enganado, mas julgava ter visto um tímido e quase imperceptível sorriso mover os lábios secos e feridos do homem a sua frente. Foi como um encorajamento para Naruto não permanecer calado durante toda a refeição e não hesitar nas perguntas com medo de tocar em assuntos tabus para o Uchiha.

–Acho que até a Sakura faria algo mais bonito do que isso Teme. –Disse bem humorado, se servinho de um pouco de macarrão. Pensou que não teria uma resposta, mas quando Sasuke terminou de mastigar, respondeu de forma direta:

–Você fala muito dela. –Isso porque ele havia comentado sobre ela uma ou duas vezes, pensou indignado, replicando:

–Só queria saber se você ao menos se lembra dela.

Sasuke não tinha a imagem de Sakura fresca na memória. Não a via desde que ela tentou matá-lo depois de sua luta contra Danzou. Durante a guerra, Sakura estava em outro país e mesmo que todas as nações da Aliança o tenham visto, ele não havia visto mais do que dez pessoas antes de ser isolado de tudo e todos.

A única pessoa que Sasuke olhava sem estranhar ou reparar demais era Ibiki, pois o mesmo o visitava com uma frequência de seis a sete vezes por mês para analisá-lo, torturá-lo e informá-lo coisas básicas como a data, o horário, sua idade, quanto tempo faltava para sua saída, sobre o tempo e coisas assim. O restante das pessoas estava tão distante de seu alcance que por vezes, durante a pena, ele pensou não serem reais. Já entrava em uma espécie de loucura quando foi libertado, e se tinha algo que o felicitava por estar fora daquele quarto era poder sentir o sol forte bater sem prudência contra sua pele.

–Preciso dormir. –Falou se levantando. Rapidamente Naruto o imitou e disparou na sua frente, mostrando onde era o único quarto da casa e onde ele dormiria. Havia cedido sua cama para Sasuke, afinal, não era difícil ele acordar de súbito no sofá depois de chegar tarde do Ichiraku ou de uma missão qualquer. Sendo assim, ficara com o colchão estendido junto a cama, não fazia muita diferença pra ele, mas Sasuke não pareceu satisfeito.

–Não é uma king size importada mas...

–Não vou dormir na sua cama. –Interrompeu o loiro.

–Relaxa, Sasuke! Eu não faço nada demais nela. –Assegurou.

–Não vou deixá-lo dormir no chão enquanto eu durmo na cama.

–Se soubesse os lugares onde estive dormindo...

–Não interessa. Eu durmo na sala. –Já ia saindo quando Naruto se pôs em sua frente, cara a cara, com uma expressão imponente.

–Você vai dormir na cama e assunto encerrado.

–Eu dormi no chão esse tempo todo. Não faz diferença agora.

–Faz sim. Estou te oferecendo a cama e você vai ficar nela. –Sasuke franziu um cenho num sinal de irritação, achando que Naruto que tanto o conhecia pudesse compreender que ele já estava se irritando. –Amanhã podemos comprar um beliche se quiser. Mas hoje você vai ficar aí. –Derrotado, ele bufou e sentou-se na beirada da cama e esperou Naruto sair para observar o quarto. Isto se tornara quase um vício, observar as coisas, detalhe por detalhe.

Quando se passa muito tempo olhando para as mesmas paredes brancas, aliviava ver que agora ele estava cercado por paredes diferentes, de cores diferentes e de energias diferentes. Comparava o quarto de Naruto com o que tinha em suas lembranças. Estava muito bem organizado e limpo, a julgar pelo dono, não acreditava que aquela cena era comum de se ver e sim casual. Ele devia ter mandado alguém arrumar tudo por ele.

Acomodou-se na cama, estranhando a textura macia dos lençóis e do travesseiro. Tudo cheirando a lavanda e com cara de novo. Ao tombar a cabeça para o lado, não pode deixar de se impressionar com o que via: o primeiro retrato do Time 7 permanecia intacto no criado-mudo. O retrato tirado a cerca de sete anos atrás. Ele também deveria ter, não sabia, tinha deixado tudo em sua casa quando partiu. Se perguntava se Kakashi e Sakura também tinham sobre o criado-mudo a mesma fotografia durante esses anos. Ele duvidava. Era algo que pertencia a um passado tão longínquo que não fazia sentido manter ali, sempre relembrando de como eram as coisas antes dele ter fugido.

Certamente a Sakura havia dado um fim ao quadro, afinal, ela foi a mais abalada com o fim do Time 7, mesmo ele não tendo nenhuma ligação profunda com a mesma, não precisava de muito para saber disso.

Mas então, por que ele estava chorando? Por que ele sentia aquele incomodo na garganta, aquela dorzinha abafada dentro de si? Ele não entendia. Para seu azar, Naruto viu a cena quando era tarde demais para disfarçar, então continuou do jeito que estava só esperando o momento do loiro abrir a boca e dizer algo sem sentido. Em vez disso, ele se agachou em frente ao Sasuke e segurou sua mão com firmeza.

–Não precisa ficar o tempo todo calado. Pode conversar comigo. –Sasuke não correspondia o aperto, mas Naruto podia sentir a pulsação do outro se acalmando gradualmente, isso confirmava que o pequeno gesto fizera algum efeito no cubo de gelo a sua frente. –Sei que você nunca será falante como eu, nem espontâneo como a Sakura. Você não precisa. E sei que não quer isso. Apenas entenda de uma vez que eu sou o seu amigo, que não tem manter essa pose rude na minha frente. Você pode conversar, rir, xingar, me bater... Estou aqui por você. Só peço que reaja.

–É fácil falar.

–Mas também é fácil me chamar de idiota, dizer o que deseja tomar no café da manhã ou dar bom dia apenas por educação ou simpatia.

–Eu não sou educado. Nem simpático. E não mudo. Eu sou assim.

–Sasuke, não estou pedindo para você mudar, só quero que converse comigo como fazíamos antes!

–Nada é como antes, você não vê? –Se exaltou. –Minha vida está acabada. –Falou para si mesmo. Naruto se aproximou de seu rosto e sussurrou com raiva.

–Sua vida estaria acabada se eu e mais um monte de gente não nos importássemos com ela. Todos estão te dando uma chance para recomeçar, deixar o que aconteceu para trás e focar em coisas novas. Se você não se convencer disso, acha que pode convencer alguém? –Sasuke permaneceu calado. –Estão se esforçando para manter a situação mais amena o possível para você, então colabora! Deita a droga da sua cabeça aí e durma porque amanhã temos muito que fazer. –Dizendo isso, deu um leve tapa na cabeça do Uchiha e saiu do quarto a passos firmes e seguros.

Naquele momento, Sasuke percebeu que embora ele não tivesse mudado muita coisa, o mundo continuou girando e fez com que Naruto mudasse seus conceitos e sermões em 180° graus.

Notas finais
- Espero que gostem