Eleven fechou a porta assim que os garotos sumiram de sua vista. Não queria deixar que eles fossem embora, era muito bom estar rodeada de amigos, mas, mesmo achando que enfrentaria Hopper sem pensar duas vezes caso ele chegasse e encontrasse os garotos ainda na cabana, concordou com Lucas quando ele apressou o grupo para voltarem para casa. Seu foco agora era testar a ideia que ela e Mike tiveram mais cedo, poderia dar certo e ela estava empolgada pensando nisso. Pegou o rádio e correu para o quarto fechando a porta. Iria, com certeza, ouvir mais uma vez as músicas do baile deitada na cama já que precisaria dar um tempo para que Mike voltasse para casa, e depois sim colocaria a ideia que tiveram em prática.

Hopper anunciou sua chegada com sua batida secreta e ela se levantou no susto, seu pensamento estava longe. Abriu a porta e, enquanto isso, tentou tirar o sorriso do rosto, mesmo sabendo que seria bastante difícil.

— Ei, garota. Tudo bem com você? — Ele perguntou ainda da sala. Pelo barulho que ouvia, El sabia que ele estava tirando o casaco e o chapéu para pendurá-los no gancho atrás da porta.

— Sim, tudo bem. — Ela respondeu ainda sem sair do quarto. Se olhou no espelho e ajeitou o cabelo de qualquer jeito na tentativa de parecer um pouco menos... feliz? Ela riu baixinho, mordendo o lábio inferior. Não sabia se saberia disfarçar toda aquela onda de sentimentos absurda que percorria suas veias. Mas estava disposta a tentar.

Saiu do quarto e deu de cara com Hopper há poucos passos dela. Os dois se entreolharam e ela não conseguiu deixar de sorrir. Não era por vê-lo, mas tudo bem se ele pensasse que era.

O delegado sorriu de volta, estreitando o olhar e achando aquilo bastante anormal, mas não questionou.

— Você almoçou? — Hopper perguntou apontando para a mesa atrás de si.

— Sim. — A garota respondeu dando a volta no sofá e indo até a cozinha. — Você está com fome? Eu estou. — Ela perguntou e respondeu antes dele, se sentando em seu lugar costumeiro.

— Como foi o seu dia? — Ele se aproximou da geladeira abrindo a porta em seguida para pegar sua cerveja e o que fossem jantar.

— Ouvi todas as músicas muitas vezes! — Ela respondeu, rápida. Não era mentira, ela realmente havia ouvido muitas e muitas vezes, só omitira uma pequena parte da sua tarde.

Hopper sorriu satisfeito ao dar um gole em sua cerveja.

— Aquele garoto, Wheeler, quem me pediu para te entregar. — Hopper contou. Ponderara o dia todo sobre isso e, no fim, achou que não faria mal contar à El de onde a fita viera. — Ele foi até a delegacia e me pediu para te entregar. — Ele completou. Também não mentira, Mike realmente tinha ido à delegacia e o entregara a fita, mas não necessariamente nessa ordem e nem por vontade própria. Hopper só omitira uma pequena parte da história, exatamente como ela. Tal pai, tal filha.

— Mike! — Karen o chamava, da cozinha. — O jantar!

— Estou INDO! — Ele gritou do quarto. Pegou o moletom dentro do armário todo atrapalhado, vestindo tão rápido quase sem conseguir achar por onde passar o braço direito. Calçou qualquer tênis mais velho, tropeçou na mesinha próxima à porta e praguejou. Desceu as escadas tão rápido quanto todos aqueles anos de prática fazia ser possível.

— Você ainda vai sair voando por cima daquela grade um dia, meu filho. — Ted Wheeler o advertiu, apontando com o garfo em direção à escada, assim que ele se sentou à mesa.

Karen olhou para Mike de forma dura indicando que concordava com o que o marido dissera. Mike apenas tomou um grande gole do seu copo de leite e os ignorou enquanto se servia. Duvidava que qualquer coisa pudesse tirar sua paz de espírito naquele momento, mas preferiu não fazer o teste.

O jantar fora rápido, mas para Mike parecera durar uma eternidade e meia. Em 25 minutos até a sobremesa já havia sido servida e ele devorara tudo tão depressa que Holly arregalou os olhos em susto. Nancy tentou puxar conversa, mas, quando abriu a boca, Mike dava seu último gole do copo ao mesmo tempo em que se levantava. Antes mesmo que Karen Wheeler pudesse repreendê-lo, ele estava descendo as escadas para o porão.

Mike procurou pelo supercomm assim que desceu o último degrau. Ao encontrá-lo em cima do sofá, correu logo para a mesa onde suas anotações de D&D estavam amontoadas num canto. Passara os olhos por elas procurando aquele começo de aventura específico, onde ele explicaria a todos os jogadores o cenário e, mais ou menos, como seriam os moldes da aventura. Precisaria daquilo. Voltou a revirar as folhas soltas dentro do fichário que usava como escudo do mestre e não pôde evitar sorrir ao encontrar o que procurava, a ficha de personagem em branco. Pegou um lápis, o livro do jogador e o supercomm. Olhou no relógio, ainda teria mais ou menos uma hora. Resolveu então estudar melhor a classe no livro do jogador e ir anotando atrás da ficha quais seriam as vantagens e desvantagens e todos os outros tópicos que julgasse importantes para quando fosse explicar o fizesse maneira mais simples e resumida.

Quando Hopper terminou de tomar sua segunda cerveja, El soube que era hora de ir dormir. Ele sempre fazia aquilo, todos os dias, religiosamente. Uma cerveja antes do jantar, uma durante ou depois. E então, cama. Pelo menos cama para ela. Não sabia o que Hopper fazia depois que ela ia dormir e, sinceramente, não tinha pensado que ele pudesse fazer qualquer outra coisa que não fosse dormir também até então.

Ela escovou os dentes e se sentou mais uma vez ao lado dele no sofá enquanto ele terminava de ver um filme qualquer que ambos não tinham pego desde o começo. Um assunto ou outro ainda veio à tona sendo respondidos com palavras curtas e sem muita importância.

— Falei com a Joyce para, sei lá, quem sabe jantarmos todos qualquer outro dia de novo... — Ele arriscou, depois de uns momentos de silêncio ao final do filme, olhando para Eleven de lado num meio sorriso.

A garota o olhou animada.

— Eu adoraria! — Ela disse com um sorriso muito maior que o dele.

— É, eu também. — Ele respondeu suspirando de forma cansada desviando o olhar, mas ainda com aquele sorriso no canto dos lábios. — Vamos lá, garota, hora de ir dormir.

Os dois se despediram. A ansiedade da garota era grande. Minutos depois, El estava sentada à beira da cama com o rádio no colo. Olhava para ele inquieta. Queria saber se daria certo.

O ligou baixinho naquele ruído habitual o colocando bem na sua frente e pegou sua faixa preta repassando mentalmente a ideia que tivera com Mike naquela tarde. Tinha tudo para dar certo e, para serem cuidadosos, ninguém diria nenhum nome. Isso deveria ser o suficiente agora que o laboratório estava fechado e todos aqueles que trabalhavam lá estavam longe, certo?

— Celestia. — Ela disse baixinho ao apertar a faixa ao redor da cabeça. Sorriu. Ela gostara muito de como aquela palavra soara.

Mike encostou o lápis na mesa e passou os olhos por todos os tópicos. Aquilo seria o suficiente. Olhou para o relógio, estava na hora. Seu coração acelerou mais do que o normal quando ele pegou o rádio, a ficha com as anotações e o supercomm e foi para a barraca. Não que ele já não fizesse aquilo todos os dias, mas hoje ele tinha certeza de que ouviria uma resposta e isso o deixava muito mais animado do que qualquer outro dia.

Ele apertou o botão do supercomm e leu a palavra que estava no topo da ficha.

— Celestia.

Alguns segundos depois ouviu um ruído.

— Celestia. — A voz de El respondeu em meio aos chiados.

O garoto sorriu. Ela estava na escuta.

Mike afastou o supercomm e pegou o rádio, o posicionando bem perto de si e o ligando numa frequência indistinta da mesma forma que El fazia. Agora era hora de testarem a segunda parte da ideia.

Ele virou a ficha e leu o primeiro tópico que havia anotado no verso, pegando o supercomm novamente assim que terminou. Um chiado seguido de uma risada o fez rir também. Ela tinha ouvido. Tinha dado certo.