Stranger Tales from Stranger Things
17 The Everyday Story of a Smalltown - Parte 2
11h03m.
Os quatro garotos seguiam em fila indiana pela beira da estrada que daria na casa dos Byers. Empurravam as bicicletas já que não podiam deixar Will para trás. O tempo frio e o vento, somados à chuva do dia anterior, não ajudavam muito. O chão úmido não era necessariamente um convite a quem estivesse com pressa, mesmo que eles não fossem conseguir ir muito longe com os casacos grossos pesando mais do que aparentavam mesmo. Dustin ainda estava digerindo a história que Mike lhe contara no telefone mais cedo quando passaram na casa de Lucas e ficava murmurando o tempo todo palavras que Mike, por estar na frente do grupo, não conseguia entender. Will vinha logo atrás ainda tentando se decidir se aquela ideia de ter contado para Mike que sabia onde Eleven estava fora prudente ou não. Agora, pensando friamente, tendo a ajuda do vento cortante para resfriar ainda mais a cabeça, aquilo parecia um pouco estúpido. De quantas maneiras Hopper poderia extravasar sua fúria quando descobrisse? Will teria bastante tempo para pensar nisso até chegarem à cabana. De qualquer forma o estrago estava feito. Sabia que Mike jamais desistiria daquela ideia.
— Eu sei, cara, eu sei. — Lucas ia dizendo ao amigo logo atrás de si. Dustin não parava de repetir o tempo inteiro que aquela ideia era doideira.
— Você nem avisou ela que estava indo, avisou Mike? — Dustin perguntou erguendo a voz.
— O que? — O garoto respondeu, se virando para Dustin no fim da fila.
— Você nem disse a ela que estava indo, não é? — Ele repetiu.
— Will me avisou agora pouco, eu só costumo falar com ela mais a noite, então não, não tive tempo de avisar.
— Legal... — Dustin disse em tom sarcástico. — Você sabe que nossa empreitada está fadada ao fracasso, não sabe?
Mike fez uma careta.
— Se não quiser ir, pode voltar, Dustin. — Ele respondeu, zangado.
— Cara, não disse que por ela estar fadada ao fracasso que eu não iria com vocês, mas estou falando isso para que você já saiba que a chance de nos embrenharmos nessa merda de mata, com essa merda de clima, com as nossas bicicletas e chegarmos ao nosso destino é praticamente nula.
Lucas, que preferira não se manifestar, concordava em número, gênero e grau com Dustin. Além do mais tinha combinado com Max mais tarde para que ele a explicasse os últimos detalhes de D&D. Além do mais, era Max. Ele queria passar mais tempo com Max. Por um segundo, por um lampejo de segundo, entendeu o que Mike estava sentindo.
— Mike, quando vamos começar a campanha? — Ele perguntou quando se lembrou do compromisso do qual não fazia ideia se iria furar ou não.
Mike demorou um tempo para responder. Quando Lucas ia abrindo a boca para perguntar novamente, ele notou que Mike estivera pensando no que dizer. Talvez hoje eles finalmente soubessem, se a missão não terminasse com todos eles escalpelados por Hopper antes do fim do dia.
— Me deixe conversar com a El hoje primeiro... — Ele respondeu um tempo depois, mais para si mesmo do que para o grupo.
— O que ele disse? — Dustin perguntou praticamente gritando.
— Que ele vai ver com a El primeiro. — Lucas respondeu. — Cara, eu deveria ter pego uma luva, mal consigo mexer minhas mãos... — Ele disse olhando para a mão que continuava na posição em que ele segurava o guidão da bicicleta. — Nós somos mesmo loucos.
Eleven enrolava na cama naquela manhã gelada. Se sentia bem melhor, mas não queria encarar o dia fora das cobertas. Hopper dera a ela o aval para que ficasse deitada o tempo que quisesse, o que era raro vindo dele. Estava sonolenta quando ele saiu para trabalhar, então talvez ela tivesse entendido errado. Ele dissera mesmo? É, talvez. Ela se lembrava de que ele até se oferecera para aquecer a bolsa de água para ela. E falara algo sobre ter deixado algo perto do rádio. Ela não conseguia se lembrar. Faca? Fata? Não, não era isso. Ela se virou na cama, permanecendo de olhos fechados tentando se lembrar o nome. Fi... Isso, a palavra começava com ‘fi’.
Ela se sentou na cama num salto, abrindo os olhos e olhando em volta. Ele falara sobre ter deixado para ela uma fita.
Ela se levantou colocando as cobertas nas costas como uma capa. Abriu a porta do quarto sem usar as mãos enquanto coçava os olhos. Onde mesmo estava o rádio? Largou as cobertas no sofá por um segundo enquanto ia ao banheiro, precisava, antes de mais nada, checar como as coisas estavam. Revisou em sua mente tudo o que Joyce dissera sobre todo aquele sangue e como fazer para que ela não se sujasse com ele. Enquanto lavava as mãos e se olhava no pequeno espelho do banheiro, sentiu as bochechas esquentarem ao se lembrar de Joyce explicando a ela tudo o que tinha perguntado. Como fora estúpida achando que teria um bebê... Se para ter um bebê ela precisaria fazer tudo aquilo que Joyce havia dito, bem, ela agora tinha certeza que não teria. Será que ela e Mike fariam isso um dia? Ela se sobressaltou ao pensar nisso. De onde vinha aquela sensação estranha, como um calafrio percorrendo suas costas, mas um calafrio bom, diferente de todas as vezes que experimentara um calafrio antes?
Apesar de estar com frio, passou uma água no rosto. Se encarou mais uma vez. Faria uma nota mental daquilo para perguntar a Joyce quando tivesse oportunidade numa próxima vez. Poderia sugerir a Hopper para a chamarem para jantar qualquer outro dia, o mais rápido possível. Além de poder conversar com ela, comer algo que não fosse a comida que Hopper trazia a deixaria muito feliz. Ou poderiam jantar na casa dela. Eleven sorriu pensando. Talvez assim pudesse ver Mike mais uma vez. Mike... era aquela sensação outra vez?
A garota saiu do banheiro andando rápido até o sofá para pegar novamente suas cobertas. O toque da capa quentinha e protetora a fazia se sentir confortada. Procurou o rádio por toda a sala.
Lá estava ele, na prateleira de Hopper.
O pegou se sentando no sofá. Fosse o que fosse a fita, apenas algo que parecia uma caixinha estava ao lado do rádio. Será que a fita era aquela caixinha? Ela a encarou por alguns segundos. Aquilo não parecia algo suficientemente interessante para que ele a avisasse ter deixado lá. O que ela faria com aquilo? Ou será que a fita era o que estava dentro do rádio? Voltou a observar o aparelho. Jim uma vez a havia mostrado como usar aquilo, mesmo que eles usassem bem pouco já que ele gostava mais de ouvir músicas nas placas redondas no outro aparelho. Ela procurou uma forma de abrir o que ela achava muito parecido com uma gaveta, não se lembrava exatamente como fazer, mas uma hora ela conseguiria. Resolveu apertar os botões da parte superior. Algum deles funcionaria. Apertou o primeiro sem sucesso. O segundo. Nada. No terceiro ela teve uma surpresa. Uma música começou a tocar baixinha e ela aumentou o som depois de procurar desesperadamente o botão que faria isso. Era aquela música? Um sorriso foi tomando conta do seu rosto enquanto ela alcançava a compreensão do que estava ouvindo. Meu Deus! Era mesmo aquela música! Fechou os olhos abraçando o rádio e se lembrando do baile, de Mike, seus olhares se cruzando quando ela atravessou aquela porta. Sentiu novamente um arrepio e sorriu. Dessa vez era um estremecimento que a fazia suspirar e não se assustar.
Will trazia a bicicleta ao sair do depósito. Estava um pouco empoeirada, mas, por sorte, com os pneus suficientemente cheios. Não teriam tempo de enchê-los caso não estivessem. Mike andava de um lado para o outro, impaciente. Dustin e Lucas o acompanhavam com o olhar.
— Mais um pouco e você vai cavar um buraco exatamente aí, cara. — Dustin apontou para o caminho que o amigo fizeram pelo menos 30 vezes nos últimos minutos.
Mike ignorou o comentário. Precisava pensar no que Will tinha dito enquanto chegavam a casa dele.
— Como era mesmo aquela história de armadilha na entrada? — Ele perguntou mais uma vez enquanto Will fechava a porta do depósito com a corrente.
— Eu não consegui enxergar — O amigo respondeu — estava de noite, você sabe. Mas pelo que Hopper disse é uma linha com uma arma na ponta.
— UMA ARMA? — Lucas se assustou. — Como assim uma arma na ponta? — Aquilo parecia loucura.
— Eu acho que era uma arma, não sei, ele falou algo como ouvir um disparo se encostar nela...
Dustin franziu a sobrancelha e encarou o amigo. Depois olhou de um por um.
— E se, por acaso, não enxergarmos a tal da linha? Que eu saiba a única que tem poderes fora de Dungeons & Dragons aqui é a Eleven e ela não é conhecida por ser clériga de cura ou por ressuscitar os mortos!
Will terminou de colocar o cadeado na corrente, encarando Dustin de volta.
— Escute. — Ele disse num tom sério. — Nós vamos chegar até lá e vamos ver o que acontece. Tenho certeza que vamos enxergar a armadilha e qualquer outra coisa que for preciso...
— Qualquer outra coisa? - Lucas o interrompeu. — Cara, isso é insano. Vocês se deram conta de que Hopper fez isso para proteger a El deles? — Ele fez uma pausa. — Vocês acham mesmo que nós vamos conseguir passar por seja lá o que for?
— Qual é, Lucas! — Will o interrompeu de volta — Vocês enfrentaram coisas muito piores do que isso, coisas que nem mesmo eles conseguiram controlar.
— Concordo com o Will. — Mike disse. — Além disso, se vocês não quiserem se aproximar da cabana podem ficar a uma distância segura. Eu vou.
Dustin e Lucas trocaram um olhar rápido balançando a cabeça em negativa com um suspiro de lamento.
— Ah, cara. — Dustin deu de ombros ajeitando o boné na cabeça. — Você sabe. Nosso grupo nunca se saiu bem em uma aventura quando se separou. Não vai ser agora que vamos fazer isso...
Mike sorriu concordando.
— Mas ainda deixo aqui minha ressalva. Isso é insano. — Lucas completou ao que os quatro montaram em suas bicicletas e tomaram o caminho, com Will na frente como guia.
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