Stranger Tales from Stranger Things

18 The Everyday Story of a Smalltown - Parte 3


12h47m.

O caminho parecia diferente. Três vezes mais distante, Will fez uma nota mental. As árvores, desfolhadas nessa época do ano, pareciam grandes garras viradas na direção deles, não importando para onde eles seguissem. Olhou em volta conseguindo ouvir as respirações pesadas dos amigos que pedalavam atrás de si. A formação em fila indiana ficara para trás quando adentraram um pedaço da estrada que aparentava certo abandono, indicando que poucos veículos passavam por ali. O barulho dos gravetos sendo esmagados pelas rodas das bicicletas parecia bem alto. Sentia as orelhas geladas, ao contrário das mãos que já nem sentia mais. Vez ou outra ele se perguntava se estaria fazendo o caminho certo e agradecia mentalmente por seus amigos estarem indo um pouco atrás dele e não conseguirem ver suas expressões de confusão a cada vez que passavam por um ponto que ele acreditava ser o ponto em que teriam de virar.

Dustin se aproximou, ultrapassando Lucas e Mike. O nariz do garoto estava vermelho. Mesmo que não ventasse naquele dia, o deslocamento de bicicleta naquele ar gelado era o suficiente para queimar qualquer parte do rosto que se atravesse a ficar de fora. E, nisso, eles haviam sido bem infelizes. Não que Mike tivesse dado muito tempo a todos para se prepararem para a empreitada, como Dustin gostara de chamar. Tiveram sorte por conseguirem pegar um casaco.

— Você acha mesmo que é seguro ir lá? Vamos dar conta das armadilhas de Hopper? — O amigo perguntou, depositando nele uma confiança muda apenas com um olhar.

Will passou a língua nos lábios, umedecendo-os ao sentir o peso do olhar de Dustin. Vira o local. Lembrava-se de ter de levantar bem os pés ao passar em um determinado ponto. Ele seria capaz de dizer exatamente onde e quando? Maldita febre do dia anterior!

— Sim. — Ele respondeu por fim, após travar uma pequena batalha consigo mesmo. Foi difícil chegar a um senso comum entre a razão e suas lembranças não muito cheias de detalhes da noite anterior.

Dustin acenou com cabeça de maneira dura mas positiva, crispando os lábios.

— É hora de resgatar a princesa! — Will emendou animado, tentando espantar aquela incerteza que queria tomar conta dele devagar, olhando de relance para Mike que sorriu entusiasmado.

— Ou de sermos mortos pelo rei. — Lucas completou quase involuntariamente. Ele sabia muito bem qual princesa gostaria de estar resgatando e, apesar de ela ter um meio irmão bem imbecil e perigoso, não tinha um pai tão capaz de matá-los.

— Cara, — Dustin atrasou o passo, ficando ao lado de Lucas — essa sua vibe negativa já deu o que tinha que dar. O grupo já está indo. E fará o seu melhor. Então, você querendo ou não, trate de se empenhar nisso. Porque é isso que fazemos pelo grupo.

Lucas revirou os olhos. Sabia que, se estivesse no lugar de Mike, os amigos fariam a mesma coisa. Mas ainda assim, seu lado racional bradava com todas as forças que aquilo parecia muito, muito idiota.

Will fez uma curva acentuada para a esquerda que o despertou de seus devaneios mal humorados. Sua bicicleta derrapou num monte de folhas em processo de decomposição pelo caminho. Dustin, que estava logo ao seu lado, começou a rir.

— Você devia ter visto a sua cara! — Ele ria com vontade.

Mike e Will olharam para trás, sem entender e sem pararem de pedalar.

— O Lucas ia tomar um capote tão bonito ali atrás... — Ele dizia em meio aos risos.

Os garotos começaram a rir da risada de Dustin.

— Não tem graça, cara. Poderia ter sido você. — Lucas respondeu levantando a voz para que Dustin pudesse ouvi-lo em meio a sinfonia que eram suas gargalhadas.

— Eu diria que você tirou um 4 nessa jogada, Lucas. — Will falou por sobre o ombro, voltando a rir e olhando para frente novamente.

Mike balançou a cabeça de forma negativa.

— Certamente se fosse um 4 ele teria caído. Acho que um 7 o segurou de pé... — Ele analisou.

— ... meio desestabilizado. — Dustin completou.

Os garotos riram novamente. Até Lucas.

— Eu diria que tirei um 8. Se fosse um 4 teria feito exatamente como o bardo do Dustin quando foi sair do banquete do Rei Tristan às pressas...

Dustin parou de rir, abrindo a boca para protestar enquanto todos os outros riam.

— Eu estava no meio de uma apresentação, ok? — Ele se justificava — Não tive tempo de fazer teste nenhum, precisei sair correndo no meio da canção em homenagem ao Rei e ainda estava sob o efeito de vinho com especiarias!

— Eu também estava e nem por isso saí rolando no tapete e derrubando as pessoas. — Will se defendeu. — Você derrubou a princesa, cara. — Ele completou. — Isso ficou para a história.

Lucas gargalhou.

— É verdade! ‘Princesa Daphne, você está bem?’ — Ele disse imitando o que achava ser a voz de Dustin.

— Nem sei como o Rei Tristan perdoou vocês depois daquilo... — Mike ria ao relembrar.

— Ah, eu sei! — Dustin logo respondeu. — Eu fiz uma música para ele de verdade, você não lembra?

Puta merda! — Lucas falou. — Você fez mesmo.

— Como era mesmo? — Will perguntou tentando se lembrar — Começava com ‘Ó Majestoso Rei Tristan de Talim...’ — Cantou olhando por sobre o ombro novamente.

Lucas e Mike continuaram.

‘Cantaria vossas vitórias se eu já estivesse aqui

Antes de vossa fama se estender por todo o mundo

Mas antes de conhecê-lo eu era um vagabundo.’

Dustin emendou no coro e Will foi acompanhando enquanto os garotos pedalavam.

‘Vossa misericórdia e vosso perdão

Vieram até mim me pegando pela mão

És grande, oh Rei Tristan, devo admitir

Embora depois do baile eu tenha vontade de sumir.

Mesmo a Princesa Daphne torcendo o tornozelo

Podia ser pior se ela quebrasse o joelho...’

Os garotos pararam de cantar quando Lucas gargalhou, todos emendando com suas risadas nostálgicas.

— Cara, você deveria investir em sua carreira de compositor! — Lucas olhou para o amigo que sorria, animado.

— Eu sei, é um talento nato. — Dustin respondeu. — Como isso! — E fez seu ronronado clássico.

— Não, cara. — Lucas estreitou os olhos balançando a cabeça. — Sério, não faça isso.

Will apertou os freios da bicicleta de repente fazendo os garotos pararem em cima dele.

— É aqui. É aqui que deixamos as bicicletas. Precisamos subir a pé agora. — Ele falou, apontando para a direita.

Dustin e Lucas desceram de suas bicicletas encarando o caminho para o qual o garoto apontava.

— Isso está me lembrando o início do fim da aventura do Forte... — Lucas engoliu em seco olhando para Mike.

Mike olhou em volta franzindo as sobrancelhas.

— Vamos deixar as bicicletas ali. — Mike apontou para uma árvore atrás de uma moita próxima. — Assim quem vier dessa direção não consegue ver que elas estarão aqui.

— Você quer dizer, se o Hopper vier, né? — Lucas perguntou.

— Não que vá adiantar muito ele não ver as bicicletas e depois dar de cara com nós quatro lá... — Dustin ponderou.

Mike bufou.

— Pessoal, vai dar tudo certo. — Will falou antes que Mike pudesse responder àquilo. — Vamos logo, não temos o dia todo. — Ele olhou no relógio. — Ou realmente podemos dar de cara com Hopper chegando quando estivermos saindo...

Os quatro se entreolharam. Numa aquiescência muda, os garotos pegaram as bicicletas para escondê-las atrás da moita.