Strange Things
21 Vinte e Um
Notas iniciais
Hold me now, I’m six feet from the edge and I’m thinking
Maybe six feet is so far down
Sentiu saudades de como era bem acolhida n’A Toca. Os abraços quentes da sra. Weasley eram tão reconfortantes, assim como os do sr. Weasley. A casa parecia tão vazia sem aquele mundo de jovens com seus caldeirões hormonais fervilhando.
“Você parece estar bem alimentada, meu amor”, a sra. Weasley disse. “Parece mais saudável também. Como você está, querida?”
“Eu estou bem. Dadas as circunstâncias, claro. Mas bem”, respondeu.
Molly Weasley parecia ligeiramente abatida. Há poucos meses perdeu um filho e logo todos os outros lhe foram tirados na marra, sobrando nenhum acalento para o seu coração enorme. Nos seus pulsos, assim como nos do marido dela, estavam tatuagens estranhas. Pareciam correntes, grilhões. Seria de uma insensibilidade sem tamanho perguntar como ela estava, era autoexplicativa a cena que presenciou quando foi recebida do lado de fora.
“Tem tido notícias de Ron?”, perguntou.
“A única coisa que sabemos é que os nossos filhos estão vivos. Aqueles homens que vem nos ver toda semana nos ameaçam o tempo todo dizendo que se fizermos algo, vamos ter o mesmo sangue que eles nas mãos. O sangue dos meus filhos. Você sabe de algo?”, a mulher perguntou esperançosa.
“Poucas coisas. Eles meio que não nos deixam interagir uns com os outros”, confessou. “A senhora vai ser avó”, as suas palavras quanto a isso agora eram de indiferença. “Ron engravidou Pansy Parkinson e eles esperam o primeiro filho para logo”.
Molly colocou as mãos na boca e escondeu um sorriso ínfimo. “O meu bebê tendo um bebê”.
“Jorge está lidando do seu jeito com tudo isso, com a... perda de Fred e tudo mais”, tentou escolher as palavras certas, mas não conseguiu ir em frente com as que tinha pensado. Seria demais para uma mulher como Molly Weasley saber que o seu filho estava afundado em depressão. “Gina está na Mansão Malfoy, ela está somente noiva de Draco Malfoy por enquanto”.
“Isso não faz sentido, querida, juntar vocês com Comensais da Morte ou os filhos deles. Isso não suja a maldita linhagem pura deles?”.
De fato, ainda pensava muito sobre o porquê disso. Não fazia sentido algum manchar uma linhagem que Voldemort considerava tão importante. A sua cabeça doía todas as vezes que pensava nisso.
“Sinceramente, eu ainda não consegui enxergar bem fundo o que isso quer dizer. Não faz o menor sentido me juntar com Rodolfo Lestrange”, falou por si, pelo seu casamento.
“Falando nisso, como está sendo, querida? Rodolfo não fez nada que você não quisesse?”, o sr. Weasley perguntou no seu tom de preocupação de pai.
“Rodolfo é uma pessoa estranha. Ele tem hábitos de leitura piores que os meus, come doces demais para alguém da idade dele e é... muito solitário. Ele gosta da solidão, de ficar sozinho sem ser incomodado, gosta de ficar em um ambiente silencioso. E ouvir Édith Piaf”, riu na última parte. “As primeiras semanas foram difíceis, mas acho que agora conseguimos chegar a um nível de pelo menos uma amizade de ocasião”, tentou tranquiliza-los.
Não poderia dizer que gostava dele, de verdade, e que já havia confessado a si mesma que tinha sentimentos em desenvolvimento pelo seu marido. Vê-lo ali, quase morto, lhe fez refletir bastante sobre o que estavam fazendo e como estavam conduzindo essa relação. Era fato: algo dentro de si havia mudado em relação a Rodolfo Lestrange.
“Ele sente falta do irmão, Rabastan”, disse. “Eu nunca pensei que um homem assim, como ele, um Comensal, tivesse sentimentos tão verdadeiros e intensos quanto o que ele sente pelo irmão”.
“Os Lestrange são conhecidos por serem apegados à família, aos amigos verdadeiros. Eles só escolheram caminhos tortuosos”, o sr. Weasley falou.
Isso fazia sentido. Muito sentido.
Molly fixou os olhos muito tempo no seu corpo. Isso estava começando a ficar desconfortável e não sabia o que fazer. Arthur pediu desculpas, mas disse que tinha que fazer algumas coisas no piso superior da casa. Algo estava estranho, com um aroma diferente. Parecia que o cheiro de canela estava mais forte e impregnando suavemente todo o ambiente.
De algum modo, aquela situação estava começando a se tornar extremamente estranha. Era o que mais queria, encontrar os Weasley e de algum modo se reconciliar com eles se havia algum motivo para isso. Se sentia um pouco culpada por estar se entregando os pouquinhos a Rodolfo.
Rodolfo estava do lado de fora, esperando que saísse.
Tudo isso o que estava sentindo era confuso demais e a sua cabeça dava voltas sobre como deveria se comportar em relação ao que estava passando. Se levantou para buscar um copo com água e viu tudo girar. Se sentou sendo amparada pela sra. Weasley.
“Há quanto tempo, Hermione?”, ela perguntou.
“Quanto tempo o quê?”, não sabia do que ela falava.
“Há quanto tempo está grávida, foi isso que eu perguntei. Lembra quando eu disse que você está mais saudável? A barriga não é a primeira coisa que aparece em uma mulher grávida”, Molly lhe deu um sorriso maternal com uma pontada de tristeza.
Isso explicava Rodolfo estar estranho. Ainda estava lidando com essa possível desconfiança há dois segundos quando Molly Weasley voltou a falar. Ainda estava processando a informação de que alguém achava que ela estava grávida. Desde os seis anos sabia de onde vinham os bebês e os pontos começaram a fazer um pouco de sentido.
“Eu não queria que fosse assim para nenhum de vocês, meu bem. Mas com o casamento vêm as responsabilidades e acho que no caso do de vocês, um filho pode representar mais do que uma vida posta no mundo”.
Ficou minutos calada, sendo observada por ela. Não tinha se olhado no espelho, mas sabia que devia estar com a feição desconfiada e incrédula. Os seus olhos deveriam estar ligeiramente arregalados, os sentia assim. Começou a prestar atenção na sua própria respiração ansiosa. Estava confusa, não sabia o que fazer, o que dizer.
“Meu amor, eu já carreguei sete crianças no ventre. Eu sei como é a sensação de ter uma vida crescendo dentro de si”, mais um sorriso veio dela.
“Eu preciso ir”, foi a única coisa que conseguiu dizer. “Eu vou voltar, não se preocupe”, disse antes de abraçar Molly Weasley rapidamente e correr em direção à porta de entrada d’A Toca.
Ouviu os apelos de Molly enquanto se direcionava para o horizonte. Não estava conseguindo conectar os seus pensamentos direito, estava confusa.
Viu Rodolfo do outro lado, perto de algumas árvores. Estava encostado na motocicleta. Nada disse, apenas montou nela junto dele e rumaram para casa. Não falaria nada até o momento que estivesse pronta para conversar sobre isso.
.
.
.
.
Percebeu que Hermione estava trancada no banheiro há bastante tempo, muito mais do que achava que seria saudável. Não sabia e não queria saber o que tinham conversado durante os minutos que ela passou na casa dos Weasley. Não tinha sido muito tempo, isso estranhou muito. Eles não pareciam ser o tipo de pessoas que viravam as costas para os amigos.
A cama parecia mais quente nessa noite de início de verão e o vento fresco do lado de fora denunciava que a chuva londrina chegaria em breve à sua casa. Cobriu os seus pés e ainda nada de Hermione. O seu pijama cinza e macio estava lhe provendo aconchego enquanto ela não voltava do que quer que estava fazendo.
Um fato curioso sobre esse dia é que Hermione não falou muito depois que saíram de Ottery St. Catchpole. Ela entrou em casa e perguntou a Alef aonde ficava o armário de poções e tinha um pressentimento não muito bom. Não a viu durante o jantar, só sabia que ela estava no banheiro porque teve que tomar banho no do quarto que era do seu irmão. Não sabia a que se devia essa demora, mas não esperava algo muito bom vindo disso.
Fechou os olhos e imaginou como estaria o Castelo L’Etrange a essa época do ano. As memórias mais doces de sua infância tinham acontecido dentro daquelas paredes de pedra. Os verões mais deliciosos da sua vida passou com Cannes. A sua avó fazia chocolate quente à noite mesmo com aquele calor, o que provocava ter que dormir sem camisa e sem cobertas.
Ouviu a porta ser destrancada e abriu os olhos.
Hermione estava com a cabeça baixa, deixando os cabelos volumosos caírem sobre o seu rosto. Quando ela levantou o olhar, um pouco envergonhado pelo que notou, havia alguma coisa diferente nela. Com ela.
Ela se deitou na cama sem dizer nada. Parecia fria. Pela primeira vez em semanas Hermione não tinha nada a dizer antes de dormir. Os braços dela agarraram a sua cintura como que se pedisse por conforto. Passou nos dedos pela cabeça dela, acariciando.
“O que houve, Mione?”, perguntou.
Nada. Ela responderia que tinha sido nada. A coisa que passava pela sua cabeça no momento é que ela teria descoberto que estava esperando um filho dele. Por um momento o seu coração disparou junto com o dela. Agora os dois pareciam terríveis.
O seu coração gelou. Tudo parecia desmoronar agora mesmo e não sabia lidar.
“Eu... eu estou grávida, Rodolfo”, ela sussurrou. Torcia para que não fosse isso que ela lhe diria.
Não houve mais nada depois disso, só silêncio.
Desvencilhou Hermione do seu abraço, se acomodou direito na cama e a trouxe de volta para o seu peito. Acarinhou a costa dela e viu como se acomodou no seu abraço tão calorosamente que suspirou no momento.
“O que você acha disso?”, a ouviu perguntar.
Não sabia o que responder. Ou melhor, tinha uma resposta pronta para isso, mas não deveria nunca dizê-la. Nunca.
“Honestamente, eu não sei o que dizer ou o que falar. Uma sentença perpétua em Azkaban tira isso de qualquer pessoa. Eu não sei se estou pronto para esse passo”, era verdade. Não se sentia pronto para assumir uma responsabilidade tão grande quanto a de cuidar de uma vida que não fosse a sua.
“Eu nunca imaginei que isso fosse acontecer tão... rápido. Filhos não estariam inclusos na minha vida até que eu estivesse profissionalmente firmada ou tivesse mais maturidade emocional para lidar com uma vida nova crescendo dentro de mim”, a ouviu confessar. “Me perguntou por que você nunca teve filhos”.
“Um casamento de fachada não requer filhos, Hermione. Eu não traria para o mundo um filho sabendo que a situação entre os pais dele não seria a melhor possível”, disse.
“E você acha que estamos em uma situação agradável?”, aquela pergunta o pegou de surpresa.
“De certa forma, sim, estamos. Mas eu nunca tive muitos planos de construir família, gerar descendência. Eu tinha deixado essa parte com o meu irmão. Agora tudo mudou”.
“Agora tudo mudou”, Hermione repetiu.
“Quando você descobriu?”, perguntou.
“Molly Weasley teve sete filhos. Bastou ela pôr os olhos em mim para ver que o meu corpo está mudando”, ouviu. Depois veio o silêncio por alguns segundos. “As nossas vidas mudarão a partir de agora, não tem mais volta”.
“A ideia de construir uma família com você não me parece ruim. É algo bom, na verdade. Você tem um coração puro”, falou.
“O que vamos fazer agora?”
“Agora, neste exato momento, vamos dormir. Estamos cansados do dia que tivemos e você, mais do que nunca, precisa descansar. Amanhã faremos o que esperam que façamos. Por agora, vamos dormir”, respondeu.
“Boa noite, Dolfo”, ouviu entre bocejos.
“Boa noite, chérie. Durma bem”, disse vendo a moça fechar os olhos.
Passou minutos observando o sono de Hermione até ter coragem de fazer algo que queria há semanas. No dia de hoje, nesta noite, não seria estranho fazer isso nem seria recriminado.
Colocou Hermione delicadamente com a cabeça no travesseiro dela e descobriu parte do corpo dela, deixando à mostra o pijama que ela vestia. Suavemente, subiu um pouco a blusa de quadribol que ela vestia apenas para ver a barriga ainda lisa da sua esposa. Dali a algumas semanas o filho deles estaria muito mais desenvolvido e talvez já pudesse sentir o que ele faria. Com a mão leve, tocou a pele de Hermione um pouco abaixo do umbigo e desceu o toque até chegar no ventre dela. Se sentia um completo idiota por fazer isso, mas era algo que queria demais, era uma sensação que nunca sentiu igual.
Ainda verificando o sono dela, desceu um pouco na cama a ponto do seu rosto estar bem perto do baixo ventre de Hermione. Quase sem respirar, levou os seus lábios até lá, deixando um beijo no local aonde sentia que o seu filho crescia nela.
“Eu ainda não sei como, mas eu não vou deixar você viver o mesmo que eu vivi”, disse.
Precisava de Astolfo. Agora mais que nunca.
(One Last Breath – Creed)
Abrace-me agora, estou a seis pés de distância da borda e estou pensando
Talvez seis pés seja fundo demais
Fale com o autor