Strange Things
3 Três
Notas iniciais
Much has changed since the last time and I fell a little less certain now
You know I jumped at the first sign, tell me only if it’s real
Rodolfo acordou com a chuva caindo lá fora, fazendo barulho suficiente para que acordasse. Era incomum para maio, geralmente já estava fazendo calor anunciando o verão. Estralou os dedos das mãos e dos pés e notou um peso por cima das suas pernas. Levantou um pouco a cabeça e viu que uma das pernas de Hermione estava por cima das suas, flexionada, assim como o cotovelo esquerdo dela lhe cutucava as costelas. Engoliu a seco esse momento e bocejou.
Se desvencilhou do toque de Hermione Granger até conseguir sair da cama, indo em direção ao banheiro. Se trancou lá dentro no intuito de tomar banho e escovar os dentes, sabia que o dia poderia ser longo e isso lhe incomodava um pouco.
Respirou debaixo do chuveiro tentando entender porque havia acordado com o dedo ainda enrolado nos cabelos dela. Se enxugou e destrancou a porta, percebendo que ela ainda dormia pesadamente. Se perguntou há quanto tempo ela não dormia de verdade. Os seus anos em Azkaban não lhe foram gentis nesse quesito, tinha dormido uma semana quase inteira depois da primeira fuga, queria aproveitar ao máximo o conforto das camas da Mansão Malfoy. Se vestiu de negro e calçou as botas por cima da calça de tecido grosso que vestia, eram de couro de dragão. Usou um feitiço de tempo e viu que ainda era muito cedo, nem bem seis da manhã. Saiu do quarto e deixou a garota sozinha, Alef a acordaria quando chegasse às sete em ponto.
Desceu as escadas indo em direção à biblioteca, estava fazendo pesquisas ao Lorde mesmo isso não sendo o seu melhor campo, era inteligente, mas tinha consciência de que Rabastan era mais. Entrou no cômodo e viu Leaf deitado sobre as patas, dormindo. Como poderia ser possível que um filhote dormisse tanto? Estava quase na hora de dar comida a ele e Alef depois faria isso.
“Vamos acordar, amiguinho? Já é manhã e você precisa conhecer uma pessoa”, disse se sentindo idiota ao conversar com um cão. O cachorrinho bocejou e se deitou com a barriga para cima, esperando um afago do tutor. “Você é muito manhoso, Leaf, Rabby acostumou você muito mal enquanto estive fora”. O cão era grande, um filhote enorme de labrador negro que havia sido presente de Narcisa quando ele caiu da vassoura enquanto buscavam por Harry Potter há quase um ano, ela achou que ele precisaria de companhia e um cachorro poderia ser uma opção segura. Não podia negar, sempre foi afeiçoado a animais, eles transmitiam mais confiança que seres humanos.
Chamou e o cão de sentou no sofá aonde ele mesmo ficaria depois de achar algo que considerasse interessante para a sua pesquisa, algo lhe dizia no seu íntimo que o Lorde estava tramando algo e que só conseguiria quando tivesse tudo planejado. Passou os dedos pelas prateleiras e notou volumes que não estavam lá antes. Haviam alguns manuais de magia de Hogwarts, exemplares recentes, fora alguns outros livros de feitiços que sequer tinha visto, tais como edições de colecionador da obra de Gilderoy Lockhart, Feitiços de Proteção: Um Guia Completo Para se Proteger Contra Bruxos das Trevas, Como Aumentar a Sua Mala Por Dentro e Os Contos de Beedle, o Bardo. O último era um livro de contos infantis, a sua mãe mesmo contou alguns deles para ele quando era criança.
Ouviu um pop na sala e percebeu que Alef estava lá. “O que esses livros estão fazendo aqui, Alef?”
“São os livros de senhora Hermione, ela os tirou da bolsa ontem e os trouxe para cá assim que ela dormiu”, o elfo falou abaixando a cabeça. “Posso retirá-los se o senhor quiser, levar de volta para o quarto”.
“Não, pode deixar aqui, agora ela é tão senhora desta casa quanto eu”, falou indiferente. “Já são quase sete da manhã, vá acordá-la. A partir de hoje ela vai ajudar você”.
“Mas por quê, mestre? A senhora Belatriz não fazia os afazeres domésticos”, o ouviu perguntar.
“Mas Hermione os fará, criatura!”, falou firme. “Ela precisa fazer alguma coisa nessa casa, não só ficar trancada no quarto criando teias”. Bom, isso a manteria ocupada e cansada, então ela não pensaria tanto nos amigos rebeldes e dormiria uma noite inteira sem pesadelos.
Escolheu um volume qualquer e se sentou, nem sabia mais o que estava procurando. Leaf colocou a cabeça no seu colo e então correu os dedos pela cabeça do animal, acarinhando até ouvir um ronco baixo vindo da sua perna: ele tinha dormido de novo. Riu e leu até achar que a fome estava lhe incomodando. Não precisou chamar, Alef materializou uma cesta de pãezinhos, um pote de geleia, queijo branco e chá. Não era segredo que aquele era o seu lugar favorito da casa, então não mudaria os seus hábitos pela garota.
Provou o chá que estava na xícara e pelo menos ela sabia fazê-lo decentemente. Pegou um dos brioches e passou a geleia de mirtilos, era a sua favorita. Comeu até se sentir saciado, mal tocou no queijo.
Alguns pensariam que estava se escondendo ali, sem querer fazer contato com o mundo. Era melhor assim, apreciava o silêncio da sua biblioteca ou o barulho da chuva caindo lá fora, eram as pequenas coisas que sempre gostou durante a sua vida toda e quase não tinha. Assim, não gostava mais tanto da chuva por causa de Azkaban, lá chovia o tempo todo e não era mais tão prazeroso ouvir, mas aquele chuvisco caindo fora das janelas sempre dava muito o que pensar.
Ouviu um barulho vindo da lareira, não estava fagulhando nada, não entendeu. Aconteceu mais uma vez e mais alto. Se aproximou e viu Astolfo Greengrass nas chamas, não sabia o que o homem poderia querer consigo.
“Oh, Rodolfo, como vai?”, ele perguntou sério e talvez até um pouco desconfortável. “Eu, er, queria saber se podemos marcar um jantar entre as nossas famílias... apenas se você quiser, claro, para começar a socializar esses novos membros à nossa comunidade”, o ouviu dizer incerto. Greengrass não parecia ser do tipo de homem que estaria a serviço do Lorde e isso o deixava curioso.
Ponderou alguns segundos e obteve a sua resposta. “Sim, pode ser”, disse indiferente.
“Ah, que bom, então. Aguardo você e a sua, er, sua nova esposa à noite. Falarei com Gemma para começarmos os preparativos. Até mais tarde”.
Não sabia direito o que Astolfo Greengrass pretendia, mas estava intuindo que de lá não sairia algo normal. Olhou no seu relógio de pulso viu que já tinha se passado algum tempo desde o café da manhã. Estava tão concentrado em reler sobre fungos e ervas mágicas que não viu a comida ser retirada da mesinha. Gritou por Alef e o elfo logo apareceu na biblioteca.
“A garota tem alguma roupa decente para vestir? Vamos sair hoje à noite para a casa de Astolfo Greengrass, temos um jantar lá”, falou ao elfo enquanto recolocava o livro no lugar.
“Bom, ela tem um bocado daquelas roupas dos trouxas, mas trouxe um vestido vermelho consigo, parecer ser para ocasiões especiais. Vou limpá-lo com mais esmero e estará pronto até a hora de ela se arrumar”, viu a criaturinha desaparecer novamente.
Saiu da biblioteca e andou até a sala de estar. Viu de longe a garota com um espanador nas mãos subindo em um banquinho. Ela iria limpar o retrato do seu pai e aquilo não seria bom.
“Sua idiota sangue-ruim, o que pensa que está fazendo aqui? Algum dos meus filhos ficou maluco? Saia desta casa antes que minha nora, a adorável Belatriz, mate você”, o quadro de Radolfo Lestrange berrou. Ela se desequilibrou e quase caiu do banco.
Estalou os dedos e a cortina se fechou, deixando o quadro grunir baixo. Ela olhou em sua direção e a última coisa que sentiu antes de subir as escadas foi o olhar dela penetrando as suas costas enquanto subia os degraus.
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Bom, agora era mais que certo que Rodolfo Lestrange não fazia questão dela ali. Achava que ele a tinha pego para servir de elfo doméstico. Também começou a formular a teoria de que ele a ignoraria pelo resto da vida, seria melhor assim. Teve certeza de que havia sido ele a fechar as cortinas do quadro quando o viu subir as escadas. Já estava quase na hora do almoço e Alef tinha dito que ela deveria limpar a sala enquanto ele cozinhava. Se dependesse somente dela, já teria libertado Alef.
O elfo lhe explicou que ela deveria fazer as tarefas domésticas junto dele já que a casa era muito grande e o seu mestre não tinha outro elfo. Era o seu instinto de sobrevivência dizendo que se ela não fizesse, talvez não durasse mais muito tempo ali. Já tinha limpado a sala de jantar, a sala de jogos, polido a prataria e logo limparia a sala de estar, não era muito grande mesmo, eles utilizavam mais a antessala para as comemorações pelo que Alef contou.
Ouvir insultos daquele quadro não seria muito diferente do que voltar a ouvir o quadro de Walburga Black naquele verão em que passou no Largo Grimmauld. Assim que terminou, retornou à cozinha e viu que o almoço estava pronto, com Alef começando a materializar as coisas para a sala de jantar.
“O mestre disse que vai comer no quarto, a senhora pode ir para a sala de jantar”, o elfo disse calmo.
“Eu acho que vou ficar por aqui mesmo, Alef”, disse quieta.
“Não, não vai. A senhora vai comer na sala de jantar”, o elfo insistiu e sabia que dali não sairia algo bom se continuasse a se negar como no café da manhã. Andou sozinha até a sala de jantar e viu a mesa posta. Quando ia se sentar na cadeira à esquerda da cabeceira, Alef a conteve. “Não, senhora! O mestre Rabastan se sentava nesse lugar. Sente na frente dele, por favor”.
Seguiu até o outro lado da mesa e se sentou. “Belatriz se sentava aqui, não?”, perguntou.
“Sim, se sentava. Esse é o lugar a Madame Lestrange, por tradição. Você é a Madame Lestrange agora”, ele falou enquanto estalava os dedos fazendo uma porção generosa de comida fosse para o seu prato. “Coma bem, a senhora vai sair com o mestre hoje à noite”.
“O seu mestre disse para onde vamos?”, perguntou temerosa.
“Vão jantar na casa de Astolfo Greengrass. O seu vestido estará pronto até a hora de se arrumar. Com a sua licença”, e o elfo desapareceu.
Comeu e se levantou, retirando o seu prato, mas sendo impedida na metade do caminho por Alef. Ele disse que deveria subir e descansar para o jantar de logo mais. Não tinha a sua varinha e estava refém dessas pequenas e incômodas situações. Subiu as escadas e viu que mais uma vez o Lestrange estava no quarto ao lado do seu. Dessa vez estava deitado na cama, com um livro sobre o peito. Ouviu um choro vindo do corredor e se virou, olhando um cachorro grande sentado.
“Quem é você, amigo?”, perguntou curiosa. Andou até ele e se ajoelhou, vendo um pingente pender da coleira de couro. Leaf. “Você é dele, então”. O cão chegou mais perto do seu rosto e lambeu a sua bochecha, depois colocou a pata na sua coxa e uivou baixinho. Os cães faziam isso quando estavam chamando o resto do que pensava ser o seu grupo. O animal disparou em direção ao quarto em que o seu tutor estava e se deitou elegantemente na cama. Sorriu com isso e rumou o seu quarto.
Ainda não sabia fazer magia sem varinha direito e isso a deixava muito mais chateada do que pensava, os seus últimos treinos tinham sido antes do sexto ano n’A Toca. Se sentou na poltrona grande que havia no quarto e apenas olhou para o nada, se lembrando que as coisas de Harry ainda estavam na sua bolsa. Seria doloroso demais ir até lá ver tudo aquilo, já bastava se lembrar a cada momento que ele não estava mais lá. Não soube por quanto tempo dormiu, mas acordou sendo chamada por Alef com ele dizendo que deveria tomar banho para começar a se arrumar. Andou até o banheiro e fechou a porta.
Deixou a água cair pelo seu corpo e levar as lágrimas com ela, o banho tinha se tornado o seu refúgio, nele poderia chorar à vontade. Escovou os dentes e prendeu os cabelos de forma simples, estava com sorte de eles não estarem tão revoltosos nesse dia. Quando saiu, viu em um cabide o vestido vermelho que tinha usado no casamento de Gui e Fleur, lavado e passado junto com o seu par de sapatilhas pretas. Se vestiu e se calçou, descendo logo em seguida.
Viu que o Lestrange estava com um copo de uísque de fogo na mão, não se importando muito com o que ela estava fazendo. Ele levantou as sobrancelhas quando a viu, como se estivesse dizendo nada mal por dentro.
“Venha, vamos aparatar lá fora”, ele falou para segui-la. Desceu as escadas do jardim e foi até próximo de uma árvore. Sentiu ele segurando o seu braço e se percebeu em outro lugar depois que a soltou.
Era uma casa normal, por assim dizer, bem parecida com as que ficavam nos bairros residenciais trouxas. Pintada de marfim e cinza claro, viu Rodolfo Lestrange bater com uma bengala três vezes na porta. Uma garota da sua altura abriu, viu o sorriso dela morrer quando percebeu quem era. Astoria Greengrass pediu que entrassem e depois fechou a porta atrás deles. Era uma casa bonita, talvez tivesse algum tipo de feitiço de expansão porque parecia realmente maior por dentro. Andou até a sala de estar, vendo Olívio Wood e Jorge, acabado, sentado em um canto. Quando a viu, Jorge Weasley correu até a castanha e abraçou até tirá-la do chão.
“Você está bem, achamos que poderia ter sofrido alguma coisa ou até mesmo morrido, Hermione”, Olívio disse abraçando-a depois de Jorge.
“Sim, estou bem. Eu não sabia que vocês tinham ficado com as irmãs Greengrass. Vocês já conseguiram ir à Toca? E Luna, Neville, Ron e Gina? Como estão os seus pais, Jorge?”, sabia que estava perguntando demais e isso poderia ser mal visto por todos. Olhou para trás e viu Rodolfo olhá-la severamente e uma mulher, julgou ser a senhora Greengrass, lhe sorriu simples.
“Estávamos somente esperando vocês dois chegarem, a mesa já está posta”, a mulher falou. “Sou Gemma, querida, mãe das garotas. Venha, vamos ter um excelente tempo juntos”.
Se sentou entre Jorge e Rodolfo, com o gêmeo tocando a sua mão. Ele parecia tão abatido em seu luto por Fred e ainda por cima estava passando por isso sozinho. O jantar foi servido e todos comeram em silêncio, salvo por um comentário ou outro de Astolfo e Gemma Greengrass em relação às filhas, aos casamentos das duas. Descobriu que Jorge e Astoria estavam apenas noivos devida a idade dela. Olívio e Dafne estavam oficialmente casados e ouviu que eles não pararam de discutir um minuto por causa de quadribol. Pelo menos ele tinha achado alguém parecido com ele. Alguns pares pareciam que não funcionariam nunca, tipo ela e Rodolfo Lestrange, um dos mais fiéis servos de Voldemort.
Eventualmente o jantar acabou e todos foram para a sala de estar para jogar conversa fora. Se escorou na parede quando viu Jorge subir as escadas depois de lhe abraçar fortemente mais uma vez. O seu amigo não estava nada bem. Sentiu uma cutucada no seu braço e se virou, vendo Astoria lhe chamar para uma saleta que havia perto dali.
“Como ele é, Granger? Jorge, quando ele está normal, não o conheço direito”, ela perguntou envergonhada, sentiu que ela estava genuinamente preocupada com ele pelo modo como mordeu o lábio inferior.
“Cheio de vida, Greengrass. Não é fácil perder alguém, para Jorge deve ser pior ainda perder alguém com quem passou a vida toda. Eu não vou mentir, me deu um desconforto ver o meu amigo assim, desse jeito. Ele está sofrendo tanto, eu sinto. Eu não vou poder estar sempre aqui, cuide dele por mim, certo?”
“Certo, Hermione. Nenhum de nós queria estar nessa situação, mas eu agradeço por ter sido colocada com Jorge. Ele e Fred me fizeram rir uma vez quando estava em Hogwarts porque eu estava chorando por conta do que Dafne disse”, ela falou.
“O que a sua irmã falou?”, perguntou.
“Disse que eu não deveria me misturar com sangues-ruins por causa da minha amizade com uma lufana. Ela morreu durante a batalha, era uma boa amiga, Hermione. E depois, eles acenderam fogos de artifício no lago para mim, acho que Jorge nem se lembra disso”.
“Ele vai lembrar, Astoria”, sorriu simples. “Cuide dele, por favor. O que ele mais precisa agora é cuidado e carinho, você pode dar isso de sobra, eu sei”.
Passou mais alguns minutos conversando com a garota até que Olívio apareceu dizendo que ela Rodolfo já deveriam ir. Andou até a sala de estar e se despediu dos dois, os Greengrass, estranhando tamanha acessibilidade. Foi até o exterior da casa e se sentiu sendo puxada para dentro de Rodolfo, assim como da primeira vez.
Desaparataram no jardim e entraram na Mansão Lestrange pela mesma porta do dia anterior. Rodolfo Lestrange mais uma vez subiu as escadas e não disse mais nada.
(Buried Alive – Avenged Sevenfold)
Muito tinha mudado desde a última vez e eu me sinto mesmo certo agora
Você sabe que eu pulei no primeiro sinal, me diga apenas que isto é real
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