Strange Things
8 Oito
Notas iniciais
This room without you becomes way too small
I feel its crushing my brain
Já no Salão Principal, Minerva tinha entregue os seus horários e disse que a esperava para o chá da tardinha. Teria Artes das Trevas no começo da manhã com Amico Carrow. O seu estômago se revirou por isso e sabia importunada por causa da sua condição. O homem era um Comensal da Morte e faria os mais terríveis comentários. Acordar e ser chamada de Lestrange por Simas não havia melhorado as coisas quando ele a sacudiu no Salão Comunal.
Continuou tomando o seu café da manhã e notou Draco Malfoy na mesa da Sonserina, mais pálido que o normal. Gina tinha razão, ele parecia estranho. Hermione sabia que ele tinha se tornado um deles e isso parecia mexer bastante com a sua amiga. No fim, tudo o que idealizaram havia se acabado e estavam reféns de uma nova forma de dominação.
Se levantou com o seu material em mãos e seguiu com Neville até a sala que teriam aula vendo metade das carteiras já preenchidas. Se sentou no meio da sala com o Longbottom observando Ron se sentar ao lado de Pansy Parkinson. O desconforto no seu estômago voltou quando viu essa cena e percebeu a hipocrisia nas palavras dele ao dizer que estava bem melhor que eles.
Viu um vulto negro andar depressa até a frente da escrivaninha.
“Que férias prolongadas tivemos, não?”, Amico Carrow disse com um sorriso jocoso nos lábios. “Hoje continuaremos falando sobre aquelas três maldições que tanto adoramos”, o homem riu.
Se manteve quieta. Não daria esse gostinho àquele homem.
“Vamos, vamos, não me façam escolher alguém.”, ele continuava divagando e depois direcionou o seu olhar a ela. “Você, garota. Qual o seu nome?”
“Hermione”, respondeu.
“Hermione. Mas não sei o seu sobrenome...”, ele fez uma careta.
“Granger, professor. Hermione Granger”.
“Granger? Mas não seria Lestrange? Sim, acho que há uma Hermione Jean Lestrange na minha lista de chamada”, o homem falou levitando um pergaminho até as suas mãos. “Sim, Hermione Lestrange, nenhuma Hermione Granger. Então, é você? Hermione Lestrange?”, sentiu que ele estava tirando sarro da situação.
Hesitou um pouco, mas confirmou depois de alguns segundos. “Sim, sou eu”.
“Então me responda, Lestrange: quais são essas maldições?”, ele insistiu como se a sua pergunta fosse plausível.
“A Maldição Imperius toma o controle da mente ou pelo menos interfere nas suas vontades. A Maldição Cruciatus é a tortura, é preciso que a pessoa queira causar dor. A Maldição de Morte é autoexplicativa”, respondeu no fim.
“Mas pelo que ouvi falarem, você tem bastante experiência com a segunda, não é, Lestrange?”, Amico Carrow desdenhou.
Todos os alunos da sala olharam para ela, inclusive Ron, que parecia estar mais ansioso que ela. Não sabia o que poderia acontecer se não conseguisse. Tinha ouvido com atenção tudo o que contaram sobre as torturas que os sonserinos usaram nos primeiranistas e se percebeu sendo a única nascida trouxa a retornar para Hogwarts. Respirou fundo e permaneceu imóvel, sem fazer nada.
“Vamos, levante-se para todos verem o seu rosto... e outras coisas”, o Carrow falou. Hesitantemente, Hermione se levantou. “Vamos, não seja tímida. Venha até aqui comigo”. Andou até a mesa em que ele estava apoiado e não percebeu que estava levemente apavorada com a situação. Sentiu a mão dele no seu braço e ele não era nada gentil. “A Sra. Lestrange tem algo para lhes mostrar”, o viu movimentar a varinha para silencia-la e começou a tirar a capa de Hermione, levantando a manga do seu cardigã preto. Ele revelou a marca da sua tortura. “Vejam o que ela é de verdade. Uma Sangue Ruim!”, ele disse levantando o seu braço para que vissem a cicatriz.
Neville correu até Hermione e a puxou pelo braço da humilhação que Amico Carrow a fez passar. Quando se sentou na sua cadeira, sentiu que poderia falar novamente. Passou o resto da aula calada se recompondo e observando os alunos da Sonserina serem favorecidos. Sabia que os sentimentos por Amico Carrow não eram nada amistosos.
Poções havia sido muito diferente, o prof. Slughorn lhe passou anotações sobre os NIEMs e também se confundiu na hora de chama-la pelo sobrenome. Pareceu nervoso ao dizer que apesar do seu recente casamento com um Comensal da Morte, ainda estava convidada para as reuniões do Clube do Slugue. Sabia que ele não queria ter afiliações aos comensais, mas agora metade dos seus alunos favoritos parecia estar envolvida nesses esquemas por causa da maldita Lei de Casamento recentemente aprovada pelo Ministério da Magia.
Não se falou de outra durante o almoço a não ser isso. Ao que parecia, o Ministério designaria os pares para os bruxos e bruxas de acordo com a faixa etária e interesses se eles fossem maiores de dezoito anos. Tudo isso para encobrir que haviam sido levados como reféns e sendo mantidos como quase isso. Pensou em Rodolfo e em como ele não a tratava como uma cativa, mas como uma empregada doméstica. É, podia dizer que não havia desempenhado mais faxinas nos últimos dias.
Viu a hora passar depressa na aula de Runas Antigas até que deu a hora que deveria se encontrar com Minerva para o chá. Foi até a sala da professora de Transfiguração e entrou depois que ouviu um entre, Hermione do outro lado da porta. A senhora correu para abraça-la forte e retribuiu na mesma intensidade. Se sentou no sofá e logo o serviço de chá encheu as xícaras sozinho. Provou a bebida fumegante e notou o olhar preocupado de Minerva. Não tocaria no que aconteceu pela manhã, resolveria isso sozinha.
“O que fizeram com você, minha menina?”, ela perguntou. “Com todos vocês, aliás. Sumiram sem deixar pistas, só soubemos o que havia acontecido quando li a notícia sobre esta medonha Lei do Casamento. Aonde estavam com a cabeça em juntar você e um maldito Comensal da Morte?”
“Fomos levados como reféns, professora. Ainda não sei o que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado quer com isso. Ele preza pela pureza de sangue e maculou a linhagem dos Lestrange comigo. Não faz o menor sentido”, respondeu. “Rodolfo disse que eu era valiosa demais para ficar com outra pessoa”.
“Sim, você foi a melhor amiga de Harry, confidente, e muitas vezes fez o papel de irmã para ele e o cabeça de vento do Sr. Weasley. Eu sinto tanto pelo seu casamento”.
“A maioria me parabeniza por conseguir destruir uma das famílias mais antigas da Grã-Bretanha. Ironicamente, claro”, falou. Tinha ouvido Grace Ellicoth da Sonserina dizer isso. Parabéns, Granger, conseguiu se infiltrar aonde não havia sido requerida.
“Não vejo nenhum motivo para parabeniza-la, Hermione”, Minerva falou pegando biscoitos em um prato de porcelana. “Eu me lembro de Rodolfo Lestrange. Ele foi um sonserino, um garoto estranho. O chapéu seletor levou três minutos para decidir se ele ficaria ou não na Sonserina. Eu o ouvi pedir para ir para lá por causa do pai, seria um escândalo e tanto se ele fosse para a Corvinal naquela época. Era bastante inteligente e reservado demais, pouco falava sobre si mesmo ou do irmão, Rabastan, esse sim não se importou nenhum pouco em ir para a Corvinal. Mas você deve se cuidar, Hermione, Rodolfo Lestrange ainda é um bruxo das trevas e Comensal da Morte. O que precisar, você sabe que pode pedir a mim”.
O tempo ali também passou mais rápido do que gostaria e logo chegou a hora do jantar. As duas foram juntas para o Salão Principal mais uma vez se despedindo calorosamente.
Se sentou na mesa da Grifinória e viu a interação esquisita entre Luna Lovegood e Theo Nott. Ele parecia não ter muito tato com Luna, via como ele parecia se assustar ao tocar os pulsos dela e percebeu um vinco na testa do garoto como se tivesse dito algo sobre o seu pai ou só preocupação. Se concentrou no seu prato de comida até que se permitiu pensar em Rodolfo.
Não tinha trocado algumas dezenas de palavras com o homem. Também contabilizou as vezes em que ele se aconchegou nela durante o sono, o calor do corpo dele a fazia dormir melhor quando os seus pesadelos aconteciam. Por fim, se permitiu pensar no beijo no dia anterior, com o gosto dos lábios dele ainda nos seus. Era muito para processar e ficou remoendo a sensação que teve quando ele a beijou na estação. Não admitiria nunca em voz alta que queria sentir aquilo de novo. Rodolfo estava fazendo-a sentir coisas estranhas.
Ron se sentou de frente para Hermione e não falou nada, apenas ficou ali, parado e comendo. Pansy se sentou ao lado dele para comer e fez um barulho estranho com a garganta quando o notou olhando para a sua mão esquerda. A desconfortabilidade durou até o final da refeição e quando pegou o seu caminho até a Torre da Grifiníria tomou uma decisão.
Ron parecia ter tomado a mesma decisão que ela, que deveria seguir em frente apesar de tudo assim como ele estava fazendo com Pansy sem se importar com os outros.
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Rodolfo sentia que tinha passado três dias dormindo muito mal. Sentia que faltava alguma coisa na sua cama e ela tinha nome e sobrenome de casada. Suspirou e se levantou, já era a noite do quarto dia e não conseguia dormir mais sem a sua companheira de quarto.
Desceu para a sala de visitas e viu que o quadro do seu pai ainda coberto pela grossa manta carmesim. Não estava com muita paciência para discutir com ele, muito menos com a sua avó, Leta. Com um aceno de varinha viu que ainda eram quatro da manhã. Andou em direção à cozinha e viu no armário em cima da pia uma caixa de chocolate amargo em pó. Olhou na geladeira pequena e viu um pouco de leite em uma garrafa de vidro transparente, não faria mal se tomasse um pouco de chocolate quente. Só não sabia como fazer.
Viu em cima da sua cabeça o que parecia ser uma panela muito pequena para que fosse cozinhada comida, então lembrou-se que viu Alef colocando água nela uma vez. Colocou a no que parecia ser um fogareiro em cima de uma estrutura de ferro e acendeu o fogo com a varinha. Deveria colocar o leite ali para esquentar? O fez e esperou até que borbulhasse, lembrou-se disso por causa das vezes que precisou fazer poções. Não sabia o quanto de chocolate usar, achou que duas colheres pequenas estavam de bom tamanho para uma caneca quase cheia de leite. Adicionou uma terceira por via das dúvidas. Com um pouco de temor levou a caneca aos lábios e viu que não tinha nenhum talento em especial para cozinhar. Se Hermione estivesse lá, poderia pelo menos ter pedido que ela fizesse uma caneca de chocolate quente decente para ele. Continuou bebendo o líquido fumegante e deixou a caneca suja na pia para depois voltar para o quarto.
Notou que Leaf estava deitado no lado de Hermione da cama. Se deitou ao lado do cão e olhou os olhos dele, tristes.
“Você está com saudades dela?”, perguntou. “Eu também estou começando a sentir. Era a minha única companhia além de você e Alef, garoto”.
Esperou o sol nascer e se vestiu. Decidiu que iria até a Mansão Malfoy para colher um pouco de informações já que o Lorde das Trevas estava sumido desde que o chamou pela última vez para perguntar sobre Hermione.
Desaparatou nos jardins e subiu até a porta de entrada. Girou a maçaneta e percebeu que a casa estava demasiadamente clara para um quartel general de Comensais da Morte. Antonio havia retornado para o seu chalé antigo no quinto dos infernos, mas fora ele, que provavelmente deveria estar adulando Lúcio, não haviam mais hóspedes indesejáveis lá. Sempre teve livre acesso por causa de Bela e o seu status de marido, isso o fazia cunhado dos Malfoy. Mas agora não era mais nada deles a não ser amigo.
Estranhou andar por ali e não ver os cômodos cheios de bruxos misteriosos. Estranhou o fato de que Draco não estava ali para olhá-lo com pavor por causa da tia dele estar sempre o atormentando. Andou mais um pouco e viu uma bruxa alta com um saco de Gringotes em um braço e uma criança de colo no outro. Sentia que a conhecia. Lembrou algum tempo até reconhecer que era Eufemia Rowle.
Viu que Cissa estava sentada no sofá, assustada.
“Você vai levar a menina e acho que isso é o suficiente para mantê-la por alguns anos. O Lorde das Trevas não a quer aqui, Eufemia”, a Malfoy falou severa.
“Você vai ter interesse por ela algum dia, Narcisa?”, a bruxa alta perguntou.
“Seria um escândalo e tanto se alguém soubesse. Ninguém pode saber que Belatriz deu à luz a uma criança, ainda mais sendo ela filha do Lorde das Trevas. Agora vá e suma com Delphi”, Cissa insistiu e viu a Rowle ir embora com os seus dois embrulhos.
Levou alguns segundos depois de soltar a respiração para ir de encontro a Narcisa. Respirou fundo e foi como se nada tivesse acontecido. A olhou nos olhos com alguma insolência e se fez ser realmente notado.
“Vai me dizer que a queria para si e a sua esposa de sangue ruim?”, ela perguntou ríspida. Poucas vezes havia visto Cissa tão fora de controle como agora. “Eu fiz isso para preservar o pouco de dignidade que ainda resta a esse lado da família”.
“O Lorde sabe que você vendeu a filha dele para Eufemia Rowle?”, tinha que perguntar.
“Ele mandou que eu desse um jeito na menina ou a mantivesse como minha e de Lúcio. Eu não poderia fazer isso, seria humilhação demais para o meu marido”, a ouviu dizer. “Pelo menos você não precisa mais ouvi-la chorando quando estiver aqui”.
“Ela é sua sobrinha Narcisa, não se importa nenhum pouco com ela?”
“Claro que me importo com Delphini! Se não me importasse não teria entregue a garota a quem eu sei que vai cuidar muito bem dela. Eu só... não poderia deixa-la aqui. Não é seguro para ninguém”.
“O Lorde reapareceu?”, perguntou como quem não quer nada.
“Continua trancado no quarto que me despojou, só aceita a companhia de Severo”, ela respondeu com um leve bufo.
“Não seria isso o luto por Bela?”, riu amargo.
“Não seja tolo, Rodolfo!”, Narcisa falou se virando para sair da sala. Pelo menos já tinha alguma informação do que estava acontecendo e poderia voltar para casa e lá ficar até o dia seguinte.
Usou a rede de flu da casa e não demorou muito para que se visse saindo pela lareira da sua biblioteca. Bateu a fuligem das suas vestes e deixou o casaco em cima do sofá, amarrotando-o.
Se sentou na poltrona que um dia pertenceu ao seu pai, levitou uma caixa de sapos de chocolate e começou a mordiscá-los quando se lembrou que o dia seguinte era o sábado e que iria para Hogsmeade visitar Hermione. Pelo menos pararia de pensar um pouco no que estava acontecendo ou não em Hogwarts e verificaria se ela estava sendo bem tratada lá já que os Carrow estavam lecionando e isso não era coisa boa.
Fechou os olhos e apoiou a sua cabeça no encosto da poltrona, sentindo um pouco do cansaço lhe consumir devagar. Imaginou a casa aonde tinha crescido, não a que tinha se transformado no que era agora. A casa de sua infância. Pode sentir vividamente o cheiro dos biscoitos de açúcar que a sua tia fazia para ele e o seu irmão quando estavam por lá, também sentiu o cheiro do perfume da sua mãe, seguidos do aroma de móveis bem lustrados que a sua avó tanto prezava. Depois sentiu um cheiro diferente, de sais de banho franceses e caros, claramente o aroma de Belatriz, algo que gostou até certo ponto porque sabia que pelo menos a sua esposa era bem asseada além de maluca. Por último, sentiu o cheiro de pergaminhos novos e folhas molhadas, vindo na sua frente a imagem de Hermione porque associava essas coisas a ela.
Acordou sobressaltado e com o coração descompassado. Tinha sonhado com as cinco mulheres que marcaram a sua vida: a sua mãe, Amélia Selwyn, a mulher mais enigmática que conheceu; a sua tia Geraldine, que lhe mimava até o último fio de cabelo, irmã do seu pai; a sua avó Leta e toda aquela baboseira de que ele deveria ser o melhor em tudo; Belatriz, a sua falecida esposa que o fazia sentir simpatia nenhuma pelo matrimônio; e Hermione, que sabia que tinha marcado a vida em tão pouco tempo por ser mais corajosa do que qualquer pessoa que conheceu.
Se levantou e começou a se preparar para o dia seguinte na sua visita ao povoado de Hogsmeade, veria a sua garota. Poderia levar alguns livros de casa para ela, ela poderia estar precisando de alguma coisa, talvez algum casaco ou coisa parecida. Poderia leva-la a Madame Puddifoot, tinham lhe contado que ela reabriu o seu estabelecimento assim como alguns outros que foram obrigados a ter as suas portas abertas por causa de Hogwarts tanto lá quanto no Beco Diagonal. Separou o seu antigo cachecol da Sonserina, ela poderia usar se conseguisse transfigurar as cores para o vermelho e dourado da Grifinória.
Estava definitivamente ansioso para ver Hermione e, quem sabe, beijar aqueles lábios novamente.
(Crushing Room – Angra)
Este quarto sem você se torna tão pequeno
Eu sinto que ele esmaga a minha cabeça
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