Strange Things
17 Dezessete
Notas iniciais
When I lay with you, I could stay there, close my eyes
Feel you here forever, you and me together, nothing gets better
Rodolfo passou boa parte da noite observando Hermione dormir. Tinha feito isso nas noites anteriores e sabia que uma hora ou outra teriam que conversar sobre o que o Lorde das Trevas pretendia. A ansiedade o fazia consumir mais doces e isso o fazia perder o sono. Ela estava agarrada a sua cintura com a cabeça descansando no seu colo e o pijama de bichinhos fofos fazia aparecer a cicatriz no seu braço. Tinha usado um feitiço de desilusão bastante poderoso para que ela não viesse à tona durante o baile.
Tinham ficado mais próximos, percebeu. Muito mais próximos. Ainda havia uma distância segura e confortável entre eles e respeitava isso. Não seria da noite para o dia que ele daria apelidos carinhosos para ela ou ela o beijaria espontaneamente sem sequer pensar muito a respeito. Já estava passando da fase do gostar de Hermione Granger, já estava na fase de começar a sentir coisas ainda mais estranhas por ela.
Hermione se mexeu na cama e segurou a sua mão. Ela não tinha parado de ter pesadelos, mas eles se tornaram mais fáceis de lidar quando ele estava junto dela. Deslizou para debaixo dos lençóis e aceitou ser abraçado pela garota, sentindo o toque quente das mãos dela no seu corpo como se buscasse conforto nem que fosse em um afago despretensioso. Beijou a testa dela tão delicadamente que não acreditava muito que os seus lábios tivessem tocado a pele da moça.
Quando finalmente conseguiu pregar os olhos, viu que a luz começava a mudar lá fora e já era a manhã de outro dia. Preferiu dormir e ficar mais um pouco na cama mesmo sentindo que Hermione já havia levantado. Precisava dormir um pouco, toda essa pressão nos seus ombros não estava lhe fazendo bem e queria um pouco de paz e sossego pelo menos nesse dia.
Percebeu que não conseguiria dormir mais muito durante a manhã, Rodolfo se levantou e tomou um banho. Estava sendo assim desde que o Lorde disse que precisaria gerar descendência. Será que havia sido assim que o seu pai se sentiu quando lhe foi pedido o mesmo? Passou a mãos nos cabelos molhados e se viu no espelho, amargo.
Saiu do quarto e viu o seu suéter verde disposto na cadeira junto de uma calça de linho preta e vestiu a roupa íntima, apenas queria logo descer e começar a matar o tempo que tinha disponível. Desceu descalço mesmo, nunca tinha estado tão bem arrumado apenas para ficar em casa e tinha pego gosto por se arrumar um pouco mais mesmo que isso significasse que estava voltando a ter hábitos de pessoas comuns. A situação não podia ser pior para que retomasse tais hábitos.
O mundo estava de cabeça para baixo e o seu próprio mundo não poderia estar pior também. A berlinda que tinha sido colocado não tinha tamanho e aumento bastante o seu consumo de álcool junto com o de chocolates, uma maneira meio torta de aliviar a tensão que sentia. Hermione percebeu isso quando o beijou na noite anterior e o seu hálito tinha gosto de uísque de fogo.
Se sentou no sofá com as pernas esticadas na mesinha de centro e olhou para o quadro do seu pai, Radolfo. Seria esse um bom momento para que tivesse uma conversa com um quadro antropomórfico? Franziu a testa e estalou os dedos fazendo com que as cortinas fossem recolhidas para os lados da moldura. A expressão enfurecida de Radolfo Lestrange Jr. não era a melhor do mundo, tinha passado muito tempo silenciado em uma casa que era dele próprio.
“O senhor e minha mãe me tiveram logo depois que se casaram. Por que?”, perguntou ao quadro imaginando o quão maluco seria considerado por isso.
“Aconteceu com você também, então?”, o quadro de Radolfo perguntou em resposta, presunçoso como só ele conseguia ser.
“A cobrança veio quando me casei com Belatriz, mas está mais forte agora que...”, não conseguiu continuar.
“Que se casou com aquela Sangue Ruim? Eu a ouço conversando com Alef, aquele elfo traidor. Você já pode se considerar órfão de pai, não terá o meu apoio para isso. Teve para Belatriz, não terá para com essa sujeitinha imunda que está sujando a nossa nobre linhagem”, o seu pai disse.
“O Lorde das Trevas me obrigou. Ele acha que não existe jeito melhor de punir rebeldes do que obrigando-os a ser a paternidade de uma nova geração de Comensais da Morte”, bufou. “Eu não me sinto confortável em trazer uma criança ao mundo em condições normais, imagine em adversas”, disse por fim.
“Você não vai sujar a nossa linhagem com uma cria mestiça!”, Radolfo gritou. “Eu esperaria isso do seu irmão e aquela namoradinha traidora de sangue. Tão traidora quanto os Weasley e os filhos de Lucrécia com aquele inútil do Greengrass”. Ah, se lembrou que Rabastan comentou algumas vezes que a garota Mayfair era de confraternizar com mestiços e nascidos trouxa assim como o seu irmão corvino.
“A questão é o que o mestre quer que aconteça, ele não quer ficar sozinho no futuro escuro que ele planeja para todos nós”, começou a dizer em um devaneio.
Mais uma vez acreditou que seriam facilmente descartados a cada erro e realmente passou a fazer sentido o fato de não saber que seus próprios primos prestavam serviços às artes das trevas. Brincou com uma moeda de galeão que achou no sofá entre os nós dos dedos e não deu mais ouvidos ao que o quadro do seu pai dizia e fechou as cortinas. Cruzou os braços e relaxou os ombros até cair no sono.
Acordou assustado alguns minutos depois com Alef dizendo que o almoço estava pronto. Esfregou os olhos e bocejou abrindo demais a boca e andou até a sala de jantar. Hermione já estava comendo e isso era o fato de que tinha dormido muito mais do que tinha planejado. Se serviu de quiche e suco de abóbora. Ainda estava no automático e riu por isso quando percebeu.
Quando tocou a mão de Hermione, viu uma coruja marrom grande entrar pela janela com uma carta no bico. Não sabia do que se tratava, muito menos ela. Dizia Para Hermione Granger.
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Hermione abriu o envelope apreensiva e viu algo parecido com uma fotografia. Conhecia aqueles cabelos escuros, eram iguais aos de sua antecessora, talvez mais claros pessoalmente. Uma criança de colo estava nos braços dela, talvez não nem dois meses direito. Ela sorria tristemente arrumando um cachecol da Lufa-Lufa ao redor dele. Riu um pouco pois imaginou quem fosse.
Cara Hermione,
Sinto por estar nessa situação, não há um dia em que não pense em Dora ou Ted. Também sinto por Harry e sei da dor de perder um irmão.
Este é Teddy, o seu afilhado. Dora disse que queria que você e Harry fossem os padrinhos dele. Teddy Remo Lupin, um futuro lufano se um dia chegar a frequentar Hogwarts. Ele manda beijos doces a sua madrinha.
Afetuosamente,
Andrômeda e Teddy.
Ouviu rapidamente quando Remo chamou Harry para ser padrinho do bebê Teddy. Riu quando viu o cabelinho dele mudar de cor, um metamorfomago tal como Tonks havia sido.
“O que tem aí?”, Rodolfo lhe perguntou não conseguindo conter a curiosidade.
“Notícias de um afilhado que eu nem sabia que tinha”, disse sincera.
“Um afilhado? Filho de quem?”, ele parecia apreensivo agora.
“Ninfadora Tonks e Remo Lupin”, respondeu. “Remo havia chamado Harry para ser padrinho de Teddy, nunca me passou pela cabeça que Tonks queria que eu fosse a madrinha dele. Eu me lembro que ela disse que queria conversar comigo depois que tudo acabasse, a sós. Ele é tão lindo”, falou acariciando aonde o rosto de Teddy estava.
Olhou para Rodolfo e ele estava com uma sobrancelha levantada enquanto um copo de suco de abóbora se enchia sozinho ao seu lado. Conteve esse mínimo pio de felicidade, Rodolfo não parecia muito à vontade com isso, com as pessoas voltando a fazer contato com ela. Respirou fundo e percebeu que ele deveria se acostumar com isso.
“O que tem deixado você tão estranho?”, perguntou.
“Nada importante”, o ouviu dizer.
“Se não fosse nada importante você não perderia o sono”.
“Acho que tenho convivido demais com você para começar a achar que nada me tira o sossego. Hermione, não é nada”, ouviu mais uma vez e sabia que isso era uma mentira. Mas não insistiria, descobriria por si só.
O viu terminar de comer e se retirar bocejando, talvez dormisse um pouco no quarto que era do seu irmão, assim teria tempo de bisbilhotar e descobrir alguma coisa. Retirou a mesa com Alef e respondeu a carta de Andrômeda com bastante cuidado.
Queridos Andrômeda e Teddy,
Estou bem, estou viva. Sinto verdadeiramente por Ted, Dora e Remo, o meu coração pesa toda vez que penso em quantas vidas essa maldita guerra tirou.
Adoraria conhecer Teddy.
Acredito que saiba aonde fica a Mansão Lestrange, em Londres. Posso aguardar vocês para uma conversa no sábado à tarde? Aguardarei a sua coruja.
Afetuosamente,
Hermione.
Selou o envelope com a cera que tinha disponível na escrivaninha de Rodolfo e colocou no bico da coruja marrom. Viu a ave voar para longe e sentiu uma parte do seu coração se apertar por saber que Harry não estaria ali para ver Teddy crescer.
Subiu as escadas e foi até o quarto que Rodolfo passava as tardes, hora ou outra ele descobriria que receberia Andrômeda e isso a deixava apreensiva. O viu deitado no chão do quarto junto de Leaf, olhando para o teto. Ele estava definitivamente estranho.
Se sentou no chão e ele logo percebeu que estava ao lado dele. Ele pousou a cabeça no seu colo e lhe olhou com aqueles olhos verdes puros. Não tendiam para o avelã ou cinza, eram puramente verdes.
“Andrômeda vem sábado aqui com Teddy”, disse. Rodolfo demorou para responder.
“Teddy não seria o filho do lobisomem?”, ele perguntou desconfortável.
“Sim, Remo era um lobisomem. E era um bom homem, tinha um bom coração. Nem ele e nem Tonks mereceram o fim que tiveram”, falou a verdade.
“Antonio e Bela foram responsáveis por isso, eu me lembro bem”, ele falou.
Rodolfo ficou muitos minutos imóvel. O viu fechar os olhos enquanto sentia o carinho nos seus cabelos desgrenhados e roçava os dedos levemente pela sua barba. Isso parecia tão... doméstico. Tão comum. Tão verdadeiro. Isso era o mais complicado de lidar. Já tinha adquirido certa intimidade com Rodolfo, mas nada muito escancarado, tudo tinha que ser moderado. Parecia fazer sentido de algum modo estranho.
Ele tirou a cabeça do seu colo e Hermione se permitiu deitar junto dele no chão. Observou o rosto severo dele e as linhas de expressão tomando conta dele. Parecia que a cada dia deixava a aparência doentia de um prisioneiro de Azkaban e retornava à aparência do homem que viu em algumas fotos antigas escondidas na biblioteca.
Rodolfo abriu os olhos e lhe olhou diretamente, sem rodeios. Ele sorriu tristemente, notou. Algo estava acontecendo e ele não estava contando. Isso estava consumindo-o de tal forma que notou que ele não estava dormindo bem, ele parecia bem acordado todas as vezes que tinha pesadelos e ele ia a seu auxílio. Descobriria o que ele tinha e sabia que não tardaria pois já tinha notado que ele era péssimo em esconder coisas dela.
Ele se aproximou e tocou o seu rosto. Se aproximou mais um pouco e sentiu os lábios dele se encostando nos seus, roubando um beijo casto e depois beijando com mais força. Corou ao pensar no que tinha acontecido na noite depois do baile dos Parkinson, a noite que Rodolfo mais pareceu venerar o seu corpo e espírito do que qualquer outra coisa. Ele parecia estar bastante compenetrado em lhe fazer sentir coisas que abdicou do próprio prazer em nome do seu próprio daquela vez.
“Ter você aqui nessa casa trouxe mais vida a ela, Hermione. Eu sinceramente espero que possamos passar por tudo isso, de verdade”, ele disse.
Não sabia do que ele falava, mas descobriria.
(Set Fire to the Rain – Adele)
Quando eu me deitava com você, eu poderia ficar lá, fechar os olhos
Sentir você aqui para sempre, você e eu juntos, nada é melhor
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