Strange Things
16 Dezesseis
Notas iniciais
Give your life and soul to me and life will always be
Will be la vie en rose
Hermione acordou nua ao lado de Rodolfo e com o braço dele sobra a sua barriga. Se levantou da cama e foi até o banheiro para se lavar e colocar um pijama decente já que ainda parecia ser madrugada, não estavam mais na Idade Média para que dormisse nua. Fechou a porta atrás de si e logo acionou ambos os registros do chuveiro para que a água caísse morna. Deixou que a água levasse as lembranças físicas da tórrida noite que teve com Rodolfo.
Tomou o seu banho pacientemente sentindo algo escorrer pelas suas pernas. Disso a sua mãe não havia lhe contado. Respirou fundo e saiu do box com os cabelos molhados depois de lavá-los com um shampoo de ervas. Precisaria saber aonde Alef conseguia tais coisas. Escovou os dentes de vestiu um roupão fofo.
Se lembrou de algo curioso: Rodolfo havia colocado algo no bolso do casaco quando estavam no cofre depois que descobriram que Harry havia lhe deixado uma módica fortuna em Gringotes. Ouviu os sussurros dos dois e percebeu que se tratava de algo para ela o conteúdo do envelope. Começou a travar uma luta interna sobre mexer ou não no casaco de Rodolfo. Sabia que ele havia bisbilhotado as suas coisas algumas vezes e poderia ser essa a sua pequena vingança pelo que ele fez.
Andou na ponta dos pés e apalpou o sobretudo preto que estava na poltrona. Viu o papel do envelope começar a embaralhar as letras perguntando quem era que estava tentando abri-lo. Sussurrou o seu nome e o lacre se rompeu, fazendo com que uma folha saísse de dentro e parasse diretamente nas suas mãos. Realmente engenhoso isso, acreditava que isso tinha sido ideia de Remo Lupin.
Querida Hermione,
Se está lendo isso, acredito que eu já esteja morto e não conseguimos destruir todas as horcruxes. Remo me trouxe a Gringotes para que eu fizesse um testamento de precaução, apenas para que as posses que meus pais me deixaram não parem em mãos erradas se algo acontecer. Eu não me perdoaria se tudo o que está aqui parasse no cofre de Belatriz Lestrange, por exemplo.
Eu separei o que tinha em três montantes iguais. O primeiro deve ficar com Luna, depois explico o porquê. O segundo deve ficar com a sra. Weasley. O terceiro fica com você.
Caso aconteça algo comigo nos próximos meses, quero que saquem esse dinheiro e fujam. Usem para se protegerem até onde der.
Afetuosamente,
Harry.
Ah, Harry. Ironicamente, o dinheiro havia ido parar no cofre dos Lestrange, mas com ela sendo uma Lestrange agora. Sentiu o estômago revirar com tal fato e começou a sentir culpa por estar seguindo com a sua vida. Sufocou o choro pelo tempo que conseguiu até não ser mais capaz de conter um único suspiro pesado.
Harry tinha pensado, com a ajuda dos amigos, no que aconteceria quando ele não estivesse mais lá para eles. Não soltou um único som, chorou em silêncio porque isso quebrou toda a redoma que tinha construído ao redor de si. Harry tinha cuidado para que eles enfrentassem isso e parecia um pouco egoísta se sentir tão confortável assim com Rodolfo, vivendo com ele. Guardou a carta de volta no casaco e vestiu um pijama comum e voltou a se deitar, agora com a culpa ao seu lado.
Se cobriu com o lençol e sentiu o braço de Rodolfo passar pela sua cintura, ele se aconchegando ao seu corpo com o dele ainda nu. Deixou escapar um suspiro pesado e os lábios dele alcançaram o seu pescoço. Fechou os olhos pois havia conseguido acordar o homem.
“O que houve, Hermione?”, o ouviu perguntar entre um bocejo.
“Nada, volte a dormir”, falou.
“Se fosse nada, como você alega, você não estaria chorando depois de mexer no meu casaco. Você achou a carta, não foi?”, ele perguntou. Se virou para Rodolfo e o olhou nos olhos. “Eu ia entregar a você pela manhã”.
“Harry preparou tudo para que eu estivesse bem longe de todos agora. Cuidou para que fossemos para longe mesmo sendo impossível. Ele podia ser meio cabeça de vento e distraído, mas era o meu melhor amigo e cuidou de mim até o fim”, disse sentindo a visão embaçar por conta das lágrimas.
“Vocês eram família. E agora a sua família sou eu, Hermione. Cuidarei de você tão bem quanto eles cuidariam”, Rodolfo tornou a bocejar enquanto falava. Ele se aproximou e sentiu o calor dos braços dele lhe confortando. Harry conseguia ainda acreditar que eles conseguiriam fugir caso Voldemort vencesse a guerra.
“Você também considera aquelas pessoas a sua família?”, perguntou se referindo aos Comensais da Morte já que considerava a Ordem da Fênix a sua família do mesmo modo.
“Alguns são a minha família, de fato. Você já deve ter percebido que todas as famílias de sangue puro são relacionadas de algum modo. Embora Astolfo e Ronan não estejam no círculo interno do Lorde das Trevas, eles prestaram algum serviço a ele alguma vez na vida. Eles são relacionados aos Lestrange pelo sangue e pelo casamento, respectivamente. A minha tia-avó Lucrécia se casou com Nestor Greengrass eles tiveram dois filhos, Astolfo e Delena. Astolfo se casou com Gemma Brown e Delena com Ronan Parkinson. É tudo muito confuso, fico com dor de cabeça às vezes quando penso. Os Crabbe, Goyle, Carrow e Selwyn também. Selwyn é meu tio, irmão mais jovem de minha mãe. Por que a pergunta?”
“Por que você se tornou um Comensal da Morte, em primeiro lugar?”, desafiou mesmo em lágrimas.
“Era esperado que acontecesse. O meu pai havia sido um dos primeiros Cavaleiros de Walpurgis, era esperado que meu irmão e eu seguíssemos os passos dele nos tornando Comensais da Morte”, ele respondeu com a cara não muito boa.
“Mesmo sabendo que ele pode descartar vocês facilmente?”, perguntou mais uma vez.
“Ele não nos descartaria, Hermione. Durma, espero que não acorde com tais pensamentos amanhã, é o baile na Mansão Parkinson e você não vai repetir o que fez na sua formatura”, Rodolfo disse depois de soltá-la. Ele se virou e se cobriu com o lençol branco. “Durma, Hermione”.
Tinha conseguido tocar em um ponto sensível dele. Talvez realmente fosse o que esperavam que ele fosse, talvez não. Tinha conseguido irritar verdadeiramente Rodolfo pela primeira vez nos últimos tempos e isso não parecia ser bom. Não conseguiria dormir, mas não por terem tido este tímido desentendimento, mas porque a sua cabeça estava tão cheia de pensamentos que começava a dar sentido às palavras de sua mãe: nós mesmos nos púnhamos em situações assim por pensar demais, pensar tanto e se propor tantas questões que realmente chegava uma hora que não sabia mais como se responder sobre aqui. A humanidade não se propõe questões as quais não consegue resolver.
Pensou em tudo o que poderia ter acontecido se Harry tivesse vivido. Imaginou que um dia ele se casaria com Gina e eles teriam vários filhos ruivos. Imaginou como seria a sua própria vida com Ron, o seu futuro como funcionária do Ministério da Magia, os seus filhos: primeiro a estabilidade profissional, depois as crias. Queria ter dois, um de cada, talvez ruivos como Ron e os outros Weasley. Imaginou Luna com qualquer outro rapaz, imaginou Neville com Ana Abbott porque eles faziam um bom par juntos. Nada disso seria possível mais.
Continuou pensando tanto no que poderia ter acontecido se Harry tivesse sobrevivido que conseguiu ver o sol nascendo. Só aí conseguiu dormir. Se aproximou do corpo de Rodolfo e se aninhou nele do mesmo modo que ele fazia de madrugada. Ficou ali, apreciando o que tinha a partir de agora e pelo resto da vida.
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Odiava essas camisas que Alef fazia, elas pinicavam e passaria a noite inteira se coçando. Já sentia a gola incomodando e isso era o fim. Já teria que ficar uma noite toda em pé e mais isso para completar esse tormento.
Hermione não havia trocado mais tantas palavras com ele durante o resto do dia, estranhou o fato. Um silêncio assim era sinal de que ela poderia estar tramando algo como o seu discurso na festa de formatura. Nenhuma coisa assim seria permitida e sofreria a consequência.
Viu Hermione descer as escadas com o seu vestido negro e cabelos bem arrumados, parecia uma princesa, de fato. Ela ainda parecia aborrecida pela tentativa de briga que tiveram durante a noite. Se tivessem continuado aquela conversa, sabia que não conseguiriam se controlar e brigariam de forma épica, talvez até levantando as varinhas um para o outro. Fechou os olhos e respirou fundo. Quando os abriu, viu que Hermione estava há passos longe e lhe ofereceu o braço.
“Você também não quer ir”, ela disse.
“Não mais do que você”, completou. “Falta apenas uma coisa”. Conjurou o estojo de veludo negro que continha o colar de esmeraldas de sua família. Abriu e tirou a peça para soltar Hermione e colocá-lo ao redor do pescoço esguio dela. Notou a coloração das pedras quando o colar tocou a pele dela atingindo um tom de verde suave como se fosse a cor das írises de alguém. “Surpreendentemente elegante”.
A tomou pelo braço e logo foram para a parte de fora da casa para poder aparatarem. Tinha comido bastante durante a tarde então sentiu um pouco de enjoo quando reapareceram no jardim da casa de Ronan. Há anos não ia lá, nem para visitar Delena. Se dava muito melhor com Astolfo, embora soubesse que ele tinha as suas ressalvas quando se tratava dos seus primos Lestrange. Alisou as saias do vestido de Hermione e andou calmamente até as escadas da entrada. Não sabia o porquê desse baile já que sabia que Ronan não gostava de festas e isso implicava que ele teria que convidar a irmã dele, seria confusão atrás de confusão e isso já o cansava antes mesmo de começar todo o protocolo social que deveriam ter.
Um elfo doméstico estava recolhendo casacos e outros adereços que usavam. Ele levou a encharpe de Hermione e a deixou somente com a varinha presa à meia que sabia que ela estava levando.
“Monsieur e Madame Rodolfo Lestrange de Londres!”, o elfo gritou e conseguiu atrair todas as atenções para eles. Olhou para Hermione e a viu mais vermelha que o pijama grifinório que usou na noite passada.
Muitos olharam com repulsa, outros simplesmente ignoraram. Rodolfo fez o que teria de fazer: andar com a cabeça erguida até o fim. O fez e fez Hermione fazer o mesmo por tabela. Se estabeleceu no fundo do salão, na mesma mesa que estavam Nott pai e filho e a garota loira que o rapaz tinha se casado. O olhar desconfiado de Nott o deixava desconfiado também.
Direcionou o seu olhar até onde estavam os seus outros companheiros, parecia realmente que era o mais bem vestido da festa. Se distraiu mais um pouco quando viu o resto das pessoas ocupar as mesas e não sabia de onde tinham saído tantas pessoas.
“É chegada a hora. O Lorde nos aguarda na antessala para uma reunião”, Nott pai disse enquanto se levantava.
Se levantou junto dele e percebeu que o garoto, Theo, havia ficado com as duas. Talvez isso fosse uma tentativa dele de conter Hermione. Andou atrás de Nott até a porta da antessala após a biblioteca e o círculo íntimo estava completo agora, só faltavam os dois.
“Que bom que se juntaram a nós, Rodolfo e Doran, só faltavam vocês”, ouviu a voz do seu mestre dizer. “Ronan nos trouxe grandes notícias, realmente excitantes. A jovem Pansy está à espera de uma criança. A primeira gestação confirmada desde que a Lei de Casamento foi posta em ação”, o Lorde disse em alto e bom som. Olhou para Ronan e confirmou que era verdade apenas pela feição rubra que tomou conta do rosto dele e os vincos na testa se tornaram mais aparentes. “Pergunto-me quando será a sua vez com a sua sangue ruim”.
“Nós, ahm, não conversamos sobre isso ainda, mestre”, disse depois pigarrear.
Não queria filhos e não teria filhos se dependesse dele e somente dele e de Hermione. Nem conversariam sobre isso. Não era justo colocar uma criança no mundo com tudo virado do avesso.
“Então não se demore para fazer isso acontecer. Precisarei de boas companhias quando vocês se forem”.
Hermione tinha razão, no fim estava mais que certa. Todos eles eram descartáveis em determinado ponto. Passou a mãos nos cabelos bagunçados e deixou um suspiro baixo escapar, quase imperceptível.
“Sim, mestre, claro. Não tardaremos a anunciar tal notícia”, replicou.
Foi o primeiro a deixar a antessala, um pouco atordoado com a notícia ainda. Foi até a mesa que Hermione estava e Ronan logo falou do motivo pelo qual foram reunidos naquela noite. A expressão caída de sua esposa denunciava que ela realmente tinha sentimentos mal resolvidos por Ronald Weasley. Se sentiu um pouco em fúria com isso, ela deveria ser sua e lhe direcionar esse tipo de sentimento, não para aquele garoto inútil. Querendo ou não, agora eram família e estavam fadados a ficar juntos até o fim, algo do tipo somente facilitaria a convivência.
Não houve jantar e nem dança, então não sabia porque Delena chamou aquilo de baile. Só gastou dinheiro com roupas de gala novas e um terno que continuava pinicando. A sua prima poderia ter feito isso por carta, seria mais barato e menos incômodo. O que mais queria era sair dali e tirar aquela camisa terrível. Assim o fez.
Depois de saírem da casa, não demorou muito para que voltassem para casa. Se viu no meio da sua sala de estar com Hermione se encostando no sofá. Parecia desolada, mais ainda que na noite anterior. Mas mesmo desolada ainda parecia bonita. Reconhecia que ela tinha uma beleza magnética, que atraía olhares de quem a olhasse de verdade. Ela era a sua garota e não era justo com ele que estivesse chateada por causa de um rapaz estúpido como Ron Weasley.
Se aproximou de Hermione e a puxou pelas mãos até o centro da sala. Todos tinham notado o colar que usava, como se ela não fosse digna de usar uma joia como aquela. Tirou a varinha do bolso do paletó e mirou na vitrola para que tocasse algo digno da noite que teriam. A melodia era de Édith Piaf, mas a voz masculina era americana.
“Posso saber por que a minha esposa está com essa expressão de que o chão sob os seus pés desmoronou?”, perguntou quando estava perto o suficiente do rosto dela.
“Não é nada”, ela respondeu.
“Nunca é nada, Hermione. Pode ser pelo menos sincera ao dizer que está assim pelo anúncio de Ronan? Eu não sou cego, tampouco sou insensível. Talvez um pouco pão-duro como gosta de me chamar, mas não sou tapado”, disse. “Você é minha: minha esposa, minha mulher. E eu não admito que a minha mulher fique assim por outro homem que não seja eu mesmo, só espero que eu nunca chegue a decepcionar você desse modo”.
Hermione levantou o rosto e olhou com os olhos brilhando, segredando a ele um pouco de vergonha pelo que sentia.
“Ron não me teve nunca, pode ter certeza disso. Só fiquei surpresa com o quão rápido isso aconteceu. Ele seguir em frente, digo. E em pensar que ele tentou fazer eu me sentir culpada por eu estar seguindo em frente com você”, ela disse.
“Não há razão para você se sentir culpada por estar seguindo em frente comigo, você mesma disse que tínhamos que nos ajustar a nossa nova realidade. E você é minha, Hermione Lestrange”, sussurrou a última parte a trazendo para mais perto. “Não sei como Delena e Ronan chamaram aquilo de baile. Não teve música, não teve dança, não teve chocolates... mas podemos ter o nosso baile em casa, aqui mesmo”.
Agitou a varinha e o vestido de Hermione se agitou subindo em chamas para depois mudar de cor, tinha atingido um tom de verde igual ao que estava nas pedras que estavam no pescoço dela.
“Verde realça os seus olhos castanhos”, disse quando ela olhou para a roupa.
Puxou Hermione para uma dança, não poderia perder essa noite nem com toda a carga que o Lorde das Trevas depositou em suas costas. As suas mãos se tocaram e logo a outra foi até a cintura de Hermione. Ainda se lembrava de como se dançava e isso não era de todo ruim. O disco voltou a tocar La Vie en Rose pela voz de Louis Armstrong e teve um excelente momento até que a faixa terminou.
“Você é minha, sim, Hermione. E ainda será mais ainda, de modos que ainda não pensa que acontecerá”, disse distante, se lembrando do que o Lorde disse.
Hermione se colocou na ponta dos pés e passou os braços ao redor do seu pescoço. Ela beijou suavemente os seus lábios e não demorou muito para passar os seus braços ao redor da cintura da sua esposa e beijá-la com mais vontade. Andou mais um pouco a ponto de colocar Hermione contra a parede. Apartou o beijo e ela não entendeu nada do que aconteceu. Pegou a sua mulher no colo como o protocolo do casamento mandava. Ela se segurou no seu pescoço e riu.
“Vamos subir pois a noite será longa, mon petit”, disse depois que ouviu o barulho dos sapatos de Hermione atingindo as escadas. Riu mais alto ainda.
(La Vie en Rose – Édith Piaf por Louis Armstrong)
Dê a sua vida e alma a mim e a vida sempre será
Será a vida em rosa
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