Straight Razor
1 True friends lie underneath
Mesmo que ela não estivesse atrasada, a garota andava o mais rápido que pôde. Hiyoka sentiu seu coração batendo rápido dentro de seu peito enquanto seus olhos observavam o corredor, procurando pela sala de aula 1-A.
Ela bocejou mais uma vez, sentindo as consequências de não dormir tão bem por causa da ansiedade. Bem, mas quem não estaria ansioso? Estamos falando da U.A. afinal!
Olhando para os estudantes passando pelo corredor, ela ficou confusa. Haviam olhares nela e ela podia sentir isso. Olhares de julgamento? E ela realmente não sabia o porquê.
Talvez seja por causa de sua aparência? Mas ela não era nada fora do normal. Talvez houvesse algo em seu rosto? Não podia ser, ela já verificou duas vezes.
— Não é ela a garota que começou a sangrar muito no exame de admissão? Aquilo parecia um filme de terror — disse um dos alunos para outro. Ambos a encaravam com estranhas expressões.
Ah, então era isso. Aquele banho de sangue sempre assustava as pessoas, e Hiyoka estava um pouco acostumada com isso. Mas ela tinha que admitir — o que aconteceu não foi algo normal. E não era sua intenção.
— Qualé, dane-se o capitalismo — ela disse entre respirações profundas.
Nada bom, a respiração dela estava mais pesada do que ela gostaria que estivesse. Hiyoka mal conseguia ficar em pé por mais tempo e ela sabia que seu corpo estava quase no limite. Ela conseguiu derrotar alguns robôs rapidamente, mas não fazia ideia de quantos pontos havia ganho. O tempo estava passando e ela praticamente já desistiu. Talvez o fracasso fosse seu destino, assim como tudo em sua vida.
O chão de repente começou a tremer, trazendo sua atenção de volta para seus arredores.
— Quê? Um terremoto? — ela se perguntou confusa. Até que seus olhos pousaram na enorme figura que vinha em sua direção.
O robô de zero pontos. Aquela coisa era enorme.
Hiyoka estava se preparando para fugir quando ouviu uma voz vinda de alguns metros a frente, bem mais perto do robô gigante. Lá havia um menino de cabelo vermelho que tentava se arrastar desesperadamente — ele aparentemente machucou a perna e não conseguia correr. Ele ia ser totalmente esmagado!
— Ora, mas que legal — ela tentava se acalmar. A garota sabia o que tinha que fazer. Não importava se ela estava quase no seu limite, ela não deixaria o garoto se machucar ainda mais. Não na presença dela.
— Ai, meu Deus. DANE-SE O CAPITALISMO! DANE-SE TUDO!
Suas pernas começaram a se mover por conta própria, logo alcançando o garoto. Ajoelhando-se em frente a ele, ela segurou seus ombros suavemente.
— Por favor, fique calmo! Meu nome é Tominaga Hiyoka e eu vou te proteger!
Ele ficou um pouco surpreso, mas assentiu rapidamente, não tendo outra escolha a não ser confiar naquela garota.
— E-eu sou Kirishima Eijirou.
A garota rapidamente assentiu também, e se levantou, virando-se para encarar o enorme robô; perguntando a si mesma se ela deveria apenas proteger os dois ou tentar derrotar o robô. Respirando fundo, sua mão direita apontou para o alvo enquanto ela estreitava os olhos ameaçadoramente.
— Vá se ferrar, robô.
O chão sob o robô começou a tremer — e não era apenas por causa de seus grandes e pesarosos passos. De repente, uma parede de grandes árvores e raízes brotou do chão ao redor do robô, o abraçando e paralisando seu corpo metálico.
Ambos os adolescentes suspiraram de alívio. A garota, no entanto, não tirou os olhos do robô.
— Talvez isso resolva, sequóias gigantes são bem fortes, sabe. Mas eu não posso ter certeza ainda, esse é o exame de admissão da U.A.
E Hiyoka estava certa em pensar assim. O robô logo começou a se mover novamente, libertando-se do abraço das árvores e começou a andar em direção aos dois adolescentes.
— DROGA! Como diabos essa coisa tá passando?! — ela gritou com bastante raiva.
— Tominaga, eu acho que o único jeito é derrotá-lo! E por mais que eu odeie admitir, eu não sou másculo o suficiente para fazer isso agora! — Kirishima disse se colocando atrás do corpo da garota e cerrando os dentes afiados.
— Mas que merda, cara, eu queria que você estivesse errado, mas tudo bem — a garota acrescentou, não tendo escolha senão derrotar o grande robô. Ele estava perto demais. — Vai que é tua, lixo humano!
Ela respirou fundo, sentindo a adrenalina fluir em seu corpo. Logo, uma nova parede de árvores e raízes envolveu o robô novamente, mas desta vez começou a esmagá-lo.
A garota sentiu um líquido escapar do nariz, olhos, boca e orelhas. Sangue, e era muito. Hiyoka estremeceu, sentindo a dor dentro de seu corpo ficar mais forte. Ela estava tremendo, tentando o seu melhor para se manter em pé. Mas o robô ainda estava se movendo, então ela tinha que tentar mais.
Hiyoka soltou o que soou como um grito de guerra, disposta a dar tudo de si para proteger tanto ela quanto o garoto. Uma última onda de poder fluiu através dela, um poder que ela nunca soube que tinha.
Assim que Hiyoka se forçou uma última vez, as árvores responderam seus comandos e esmagaram o robô como se fosse feito de papel. O agora derrotado robô caiu em pedaços e as raízes e árvores desapareceram de volta ao chão.
Kirishima assistiu a cena com admiração, nunca percebendo outros adolescentes longe deles — eles observavam aquilo um tanto horrorizados sobre o estado da adolescente e seu poder incrivelmente destrutivo.
— I-isso foi incrível, Tominaga! — ele exclamou entusiasmado, mas Hiyoka não respondeu nem se moveu. Por estar atrás dela o tempo todo, ele não percebeu todo aquele sangue. — Uh, Tominaga?
Seus olhos se arregalaram ao ver a garota cair no chão, parecendo quase sem vida. Ele se arrastou para ela, agarrando seu corpo e ficando extremamente preocupado.
— Mas o quê? Você tá sangrando tanto! — ele disse sacudindo-a levemente, mas ela continuava imóvel. — Alguém, por favor, ajuda!
Segundos depois houve um anúncio dizendo que o tempo tinha acabado.
Pensando sobre o que aconteceu, Hiyoka se sentia confusa. Parte dela desejava não ter feito tal coisa e a outra parte se sentia feliz por poder salvar alguém. Como um verdadeiro herói.
De volta à realidade, ela finalmente encontrou seu destino. A garota respirou fundo, parando na frente de uma grande porta com um 'A' nela.
Uma nova era começou.
Quando a garota silenciosamente abriu a porta, seus olhos imediatamente se encontraram com um par de olhos heterocromáticos. Do outro lado da sala, basicamente isolado, estava um menino que lhe dava uma aura estranha.
Ele tinha uma expressão tão estóica e fria — era claro que ele não dava a mínima para nada. Mas olhar diretamente em seus olhos era certamente de tirar o fôlego, e de alguma forma parecia familiar para ela.
Eles ficaram olhando para os olhos um do outro por apenas um momento, mas para Hiyoka parecia uma eternidade. Era quase como se fosse uma cena em câmera lenta.
Sua atenção foi logo direcionada para um garoto familiar, também no fundo da sala — perto do garoto de cabelo bicolor -, conversando com outros dois garotos.
Assim que ele a notou, ele se levantou da cadeira chamando pelo nome dela animadamente, pulando acima de algumas mesas para chegar até ela o mais rápido possível.
Isso fez todos os estudantes curiosamente olharem para ela, o que obviamente a deixou um pouco nervosa.
— Kirishima? — ela disse baixo, uma mistura de confusão e alegria em sua voz.
Quando Kirishima finalmente a alcançou, ele agarrou as mãos dela e deu um sorriso largo, mostrando seus dentes perigosamente afiados.
— Não posso acreditar que a gente tá na mesma sala, Tominaga!
A garota piscou algumas vezes para processar o que estava acontecendo — ela ainda estava um pouco surpresa por causa do garoto de cabelo bicolor, que ainda estava estranhamente encarando ela.
Hiyoka tentava esquecer aquilo, mostrando ao ruivo um sorriso simpático com os olhos fechados.
— Não é uma coincidência? Mas estou feliz por ter aqui alguém que eu já conheci antes!
Olhando em volta, ela notou que a sala de aula estava bastante cheia, com cerca de dezesseis alunos incluindo ela. A garota lamentou que os melhores lugares já foram ocupados.
— Eu também! — o ruivo soltou as mãos dela e esfregou a nuca.
Ele então olhou Hiyoka diretamente nos olhos, mudando sua expressão para uma mais suave, mas ainda sendo alto o suficiente para toda a classe ouvir.
— Sabe, você quase me matou de susto lá! Eles me disseram que você ia ficar bem, mas, cara, eu tinha certeza que você tava morrendo. Quero dizer — cê tava sangrando tanto! E foi só por minha causa.
A garota podia sentir um pouco de arrependimento na voz dele, mesmo que ele estivesse tentando ser alegre — isso partiu seu coração completamente.
Um pouco nervoso para olhar nos olhos da garota por mais tempo, Kirishima continuou:
— Eu não tive a chance de te agradecer antes, então... Obrigado por arriscar seu próprio bem apenas para me salvar, Tominaga! Você é uma verdadeira heróina — ele se curvou respeitosamente.
Esta última frase deixou Hiyoka sem palavras e também silenciou a sala de aula por alguns segundos. Até que a garota riu alto, logo colocando as mãos nos ombros dele e sorriu tranquilizadoramente. Ela tentava sacudir a sensação de que todos olhavam para ela — uma das coisas que ela mais odiava era ser o centro das atenções.
— Kirishima, não precisa me elogiar assim! Foi a coisa certa a se fazer! — ela disse como se fosse óbvio — e na verdade era — e cruzou os braços sobre o peito. — Como eu posso pensar em me tornar uma heróina se eu não estiver disposta a dar tudo de mim para ajudar quem precisa?
O garoto ruivo apenas encarou sua — aparentemente — nova amiga quando muitas lágrimas começaram a cair de seus olhos.
Isso surpreendeu Hiyoka, que ficou imediatamente preocupada.
— Eh, Kirishima? Por que você tá chorando? Tá tudo bem?
O garoto mencionado apenas cerrou os punhos e fechou os olhos, com um sorriso orgulhoso.
— Isso foi tão másculo de sua parte, Tominaga!
— Másculo? — ela perguntou rindo baixinho do jeito de Kirishima, achando extremamente engraçado. — Muito obrigada, senhor...
— Tch, como se essa merda fosse grande coisa! — interrompeu um garoto loiro obviamente irratado, trazendo a atenção de todos para ele.
Ele colocou os pés em cima mesa e olhava para Hiyoka e Kirishima com uma expressão de nojo.
— Quase morrer para proteger o idiota que não conseguiu sequer fazer uma prova sem se machucar? Vocês dois são uns fracos do caralho.
Rapidamente, um garoto alto, de óculos, levantou-se de sua mesa e caminhou até o irritadinho.
— Por favor, não ponha os pés na mesa! — ele disse de uma maneira muito formal.
— Huh?! — o loiro sorriu. Talvez ele gostasse de ser o centro das atenções. Ah, não.
Algo despertou dentro de Hiyoka e ela sabia o que estava por vir. Ela começou a caminhar até a mesa do garoto raivoso enquanto ele ainda discutia com o garoto de óculos, deixando Kirishima apenas a observando confuso.
— Você não acha que isso é desrespeitoso com os veteranos e com as pessoas que fizeram a mesa?
— Claro que não! — ele gritou grosseiramente, ainda sorrindo. — Para qual escola você foi, seu personagem secundário?!
O garoto de óculos ia responder quando Hiyoka de repente deu um soco na mesa do garoto zangado e o agarrou pelo colarinho, aproximando seu rosto do dela. A classe inteira basicamente engasgou com suas ações, incluindo o irritadinho, absolutamente não esperando aquilo acontecer.
Os olhos de Hiyoka encaravam o loiro de uma forma ameaçadora, o sorriso amigável que uma vez lá estava simplesmente desapareceu.
— Você não acha que tá sendo excessivamente rude, seu imbecil?! — ela gritou irritada, sacudindo o garoto violentamente. — Quem caralhos você pensa que é para tratar as pessoas assim, hein?!
— O que foi que você disse, vadia?! — o agora mais bravo garoto agarrou os pulsos dela, tentando se libertar de seu aperto, mas não conseguindo realmente; deixando-o ainda mais irritado, se é que isso era possível.
O loiro explosivo notou que a força de aperto de Hiyoka era quase a mesma que a dele — e ele absolutamente não gostava disso.
— QUEM É A VADIA AQUI, SEU SACO DE MERDA? — Hiyoka o sacudiu de novo, mais violentamente do que antes.
— HUUUH?! VOCÊ QUER MORRER TANTO ASSIM?!
Os estudantes estavam tão imersos na briga que sequer notaram as três figuras na porta: dois estudantes parecendo chocados e um certo professor não impressionado.
— VOCÊ É QUEM VAI MORRER AQUI, CARA DE CU!
Quando eles estavam prestes a socar os rostos um do outro, uma voz muito familiar interrompeu.
— Vejo que você já entrou em uma briga.
Todos voltaram sua atenção para a entrada da sala de aula, de onde veio a voz. Exceto por Hiyoka. Ela apenas congelou, abruptamente soltando o garoto irritado.
— Por favor, Deus, me poupe — ela orava, mas nenhum deus poderia salvá-la agora.
A garota lentamente virou a cabeça para a porta, seu pesadelo se tornando real. Seus olhos — os verdadeiros olhos julgadores do Diabo — olhavam diretamente para ela, ela sentia arrepios na espinha.
Sua expressão podia parecer indiferente para qualquer um que não tenha passado tanto tempo com ele, mas Hiyoka sabia que ela estava ferrada.
Ela tentava fingir um sorriso inocente, mas seu nervosismo era claro para qualquer um.
— T-tio Shouta, não é o que parece!
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