Strada Per L'inferno
19 Você vê apenas o que você quer
Notas iniciais
Abri os olhos o mais lentamente que pude e a escuridão do quarto ajudou-me a constatar que dormira mais do que o previsto. Já deveria ser madrugada, pois conseguia sentir o sereno no ar. Sentei-me calmamente na cama para não provar tonturas, uma vez que elas tinham ido embora e não desejava que voltassem. Esfreguei os olhos e olhei para o espaço vazio da cama ao meu lado. Suspirei não querendo imaginar onde ele estava ou o que fazia a essa hora da noite. A janela estava fechada, ajudando-me a sofrer menos com as brisas geladas que corriam pelo quarto e beijavam minha pele. Levantei-me e caminhei ao escuro até o banheiro, adentrando-o apalpando a parede em busca do interruptor. Acendi a luz e fechei a porta. O espelho logo refletiu minha imagem, fazendo-me encarar-me assustada. Minha pele parecia mais pálida, combinando com meus lábios rachados e secos; meu rosto estava borrado de maquiagem, mesmo que sutilmente; meus cabelos estavam desgrenhados e sujos, caindo soltos por minhas costas. Porém, pior do que meu estado físico era aquela lingerie em meu corpo. Era tão vulgar, oprimindo meus seios e cobrindo quase nada de minha bunda, que me sentia imunda ao vê-la em meu corpo. Saí da frente do espelho e livrei-me da lingerie o mais rápido que pude. Após joga-la ao chão sem hesitação, abri o armário atrás da solução demaquilange. Achei-a intacta e molhei generosamente um tufo de algodão, levando ao meu rosto e esfregando-a desnecessariamente. Queria-me ver logo livre de tudo que lembrasse aquele lugar. Livre da maquiagem, tirei também todos os acessórios, jogando-os por cima da lingerie.
Entrei no chuveiro com a água numa temperatura morna. Demorei mais do que de costume no banho. Esfregava a esponja em meu corpo com tanta força que minha pele estava ficando marcada em vermelho. Até meus cabelos estavam sendo levando mais doses de shampoo do que o normal. A água foi somente desligada quando me julguei totalmente limpa. Havia uma toalha pendurada e peguei-a, secando-me e enrolando-me a ela. Saí do banheiro, deixando a luz ligada e a porta aberta para guiar-me pelo quarto escuro. Entrei no closet com o cabelo pingando em minhas costas e andei para o closet até a parte que lembrava pertencer-me. Encontrei todas as roupas que deixara para trás do mesmo jeito, sentindo-me um pouco aliviada. Escolhi a peça intima, vesti-a e botei uma camisola de algodão de alcinhas finas por cima. Sequei meu cabelo com a toalha e penteei-o com sacrifício uma vez que estava muito embaraçado. Voltei ao banheiro e pendurei a toalha ali mesmo. Peguei a lingerie com os acessórios do chão e saí do banheiro apagando a luz.
Abri a porta do quarto lentamente e senti uma rajada de vento bater em meu corpo. Estremeci, porém não voltei ao quarto para buscar um casaco ou robe. Saí ao corredor lentamente, tocando a madeira do piso suavemente com meus pés de bailarina. Segui pelo corredor em direção as escadas do fundo, descendo-as e encontrando-me na área de serviço. Ali, procurei um saco de lixo e encontrei-o, botando a lingerie e tudo mais dentro. Fechei-o e andei para a cozinha. Assim como todos os cômodos da casa àquela hora da noite, a cozinha era inundada pela luz da lua que entrava pelas janelas gradeadas. Deixei o saco na bancada de centro e abri a geladeira atrás de água gelada. Achei a jarra e peguei um copo, enchendo-o e guardando a jarra novamente na geladeira, fechando-a logo após.
–Assaltando a geladeira de madrugada? – Aquela voz conhecida cheia de sarcasmo soou em meus ouvidos.
Assustei-me, soltando um grito e virando-me para a entrada da cozinha. Henry/Aaron estava parado, encostado ao portal da porta de braços cruzados e sorriso irônico aos lábios. Ele estava sem camisa e com uma bermuda, além dos fios bagunçados e os pés descalços. No calor do susto, acabei deixando o copo cair ao chão, espatifando-se e molhando o piso.
–Dios! – Exclamei ao olhar o estrago.
–Não se mexa – Aaron mandou.
Obedeci-o e ele aproximou-se. Contornando os cacos de vidro, mesmo estando também descalço, ele aproximou-se de mim, praticamente colando seu corpo ao meu. Subi meus olhos a ele, encarando seu rosto. Mas mal pude olha-lo direito, pois fui surpreendida por ele pegando-me pela cintura e sentando-me na bancada. O som dos cacos de vidros que caíram de meu pé tlintou no piso frio.
–Você cortou o pé – Ele disse olhando para um corte no peito de meu pé.
–Não foi nada – Comentei, fazendo careta ao senti-lo arder.
–Diga isso quando este corte inflamar e me fizer ter que te levar no hospital – Ele comentou sério saindo de perto de mim.
Observei-o sair da cozinha e voltar logo depois com um kit de primeiros socorros em mãos.
–Vem aqui – Ele pediu do lado oposto da bancada.
Arrastei-me pela bancada até estar em sua frente. Sentia-me desconfortável, mas ao mesmo tempo gostava. Ele estava sendo atencioso. Ele abriu a maleta e pegou um desinfetante de machucados. Ele molhou um algodão e passou com uma delicadeza estranha em meu machucado. Após isso, um band-aid simples foi posto por cima. O corte não era fundo.
–Obrigada – Agradeci enquanto ele fechava a maleta.
–O que você fazia aqui há essa hora? – Ele perguntou ignorando meus agradecimentos.
–Vim tomar água – Respondi-o dando de ombros enquanto ele saía da cozinha com o kit.
Voltando logo depois, ele encarou-me da porta, pousando os olhos no saco ao meu lado.
–Eu espero que não seja minha mãe dentro deste saco – Ele comentou apontando para o saco com a cabeça.
Olhei confusa para o saco, entendendo o que ele queria dizer logo depois. Virei-me para ele com uma careta e ele riu pelo nariz.
–Miranda está aqui? – Perguntei balançando os pés.
–Em um dos quartos lá em cima – Ele respondeu-me cruzando os braços.
Levantei as sobrancelhas e virei-me para encarar o saco novamente.
–Por que eu faria algum mal para Miranda? – Voltei-me a ele novamente, perguntando interessada.
–Não sei. Diga-me você – Ele encostou-se ao portal da porta.
–Eu nunca faria mal para ela – Afirmei convicta.
Ele levantou as sobrancelhas, abrindo um sorriso de lado.
–Você não disse ainda o que há dentro do saco – Ele observou.
–Só algumas coisas que quero queimar – Comentei olhando de relance ao saco.
–Presumo que seja a lingerie que usava – Ele comentou olhando para a cozinha, distraído.
–E algumas bijuterias que usava também – Acrescentei.
Ele parecia sempre estar à pá das coisas, então resolvi não gastar meu tempo perguntando ou revirando meu cérebro em possibilidades de como ele sabia. Ele levantou as sobrancelhas e parou sua revista pela cozinha, como se procurasse algo de estranho, para fixar seu o olhar em mim.
–Uma pena você querer queimar. Eram úteis – Ele comentou olhando-me de cima a baixo com um sorriso malicioso de como se ele tivesse acabado de encontrar-me ali e tivesse gostado.
Fiquei envergonha, corando. Ele aproximou-se calmo e estremeci tentando imaginar o que ele tinha em mente. Parando a minha frente, seus olhos desceram de meu rosto ao meu corpo. Sentada na bancada, estava poucos centímetros mais alta que ele, tornando sua linha reta de visão os meus seios. Olhava-o atenta passar seu polegar em meu braço, estremecendo-me.
–Non si può strofinare la pelle delicata troppo duro, il mio amore – Ele sorriu frio a mim, voltando a encontrar meus olhos.
Sua mão passou ao saco em meu lado e ele afastou-se com o objeto as costas. Desci da bancada, seguindo-o para a área externa. Observei-o chamar um dos seguranças e entregar-lhe o saco, dando-lhe instruções em voz baixa que não pude ouvir. O segurança assentiu e retirou-se com o saco. Meu marido virou-se para mim sorrindo satisfeito. Ele aproximou-se logo, passando a mão em meu braço.
–Está frio aqui para alguém tão frágil – Ele sussurrou ao pé de meu ouvido.
Trinquei os dentes, de frio e irritação. Como já dissera antes, era orgulhosa. Voltei a cozinha pisando mais duro e ele seguiu-me rindo.
–Espere apressadinha – Ele segurou-me pelo braço, fazendo-me virar-me a ele.
Olhei-o duramente enquanto um sorriso brincava aos seus lábios. Porém, não encarei muito seus olhos travesso porque os mesmo desceram por meu corpo de maneira nada inocente. Correi e quando ele voltou a subir seus olhos aos meus, seu sorriso só se expandira.
–Eu disse que estava frio lá fora – Ele apontou com sua cabeça para a porta, fixando logo depois seus olhos em meus seios.
Olhei-os e estes estavam rijos e, consequentemente, meus mamilos apareciam por debaixo da camisola que usava sem sutiã. Corei mais ainda e soltei-me de seu aperto, abraçando-me sem jeito. Ele soltou uma risada baixa e subi meus olhos vergonhosamente a ele.
–Pensei que não estivesse em casa... – Comentei olhando para suas roupas.
–Por que não estaria em casa? – Ele levantou uma sobrancelha e cruzou os braços numa expressão divertida quando voltei encara-lo.
–Bem... O que não se acha em casa, procura na rua – Comentei olhando momentaneamente aos meus pés.
–Mas eu tenho em casa – Ele sorriu malicioso, analisando-me de baixo a cima.
Corei um pouco mais. O silêncio abateu-se sobre nós, enquanto encarava nos encarávamos. Seus olhos queimavam de malicia em meu corpo enquanto eu preferia tentar ignorar isto e observa-lo silenciosamente com anotações mentais. Seu rosto não mudara nada em relação aquele garoto que pedira minha mão em casamento há oito meses. Ainda assim, ele era outra pessoa aos meus olhos agora.
–Eu quero uma prova – Pedi firme após longos minutos em silêncio.
O sorrio em seus lábios alargou-se. Ele sabia ao que me referia.
–Siga-me – Ele pediu, dando-me as costas e seguindo pelo corredor em direção à sala.
Segui-o e adentrei seu escritório logo após ele. Nunca estivera ali antes. Era grande com paredes cobertas por um papel de parede pardo e liso que contrastava bem com seu piso de madeira escuro envernizado. Havia um sofá grande bege confortável ao lado da porta, assim como uma prateleira que cobria quase toda a parede esquerda. A parede direita era enfeitada com um quadro e um vaso de planta enorme ao lado de uma mesa comprida de madeira com alguns enfeites em cima. Uma janela enorme fechada por persianas se encontrava na parede ao fundo e uma mesa de madeira elegante se posicionava à frente. Era uma mesa enorme, estilo presidente dos Estados Unidos, onde diversos papéis encontravam-se espalhados em cima. Atrás da mesa, uma cadeira de couro confortável e giratória se encontrava, enquanto na frente, duas cadeiras de madeira duras.
–Bonito escritório – Elogiei.
–Obrigado – Ele agradeceu seco.
Ele andou para trás da mesa, jogando-se em sua cadeira. Continuei parada a porta, já fechada atrás de mim. Ele levantou uma sobrancelha e apontou para cadeira a sua frente. Caminhei até ela, puxando-a e sentando. Ele mexeu em seu notebook, já aberto a sua frente, enquanto eu observava mais seu escritório. A prateleira era cheia de livros, desde ciências extas até clássicos da literatura mundial. Porém, desconfiava que os livros nunca nem foram tocados. Se é que eles eram reais de verdade, uma vez que a casa já possuía uma biblioteca. Fui desperta destes pensamentos pelo som do notebook virando ligeiramente na mesa, dando-me uma visão parcial de sua tela.
–Essa é uma das poucas conversas que eu consegui grampear do seu pai com Don Mantovani – Ele anunciou sem cerimonias antes dar o “play” no áudio.
“Não, não Mantovani, o carregamento de safiras só chega sábado. Não há como antes desta data...!” – Dizia babbo na gravação.
“Antenore, eu preciso desse carregamento para dois dias. Os japoneses estão pressionando. Ou é no prazo deles ou sem trato feito com a Watanabe” – Don Mantovani parecia irritado e irredutível.
“Andreoli garantiu-me que é impossível para antes de sábado. Graças à alfandega, não tem como”.
“Irá de ter. Nem que tenha que molhar um pouco mais a mão daqueles dos alfandegários para eles agilizarem. Porque aqueles japoneses não vão aceitar um dia sequer de demora. Essa é ética dele, Antenore, você sabe”.
A conversa continuou por mais um tempo e ficou claro que eles estavam discutindo sobre uma troca de “favores” entre máfias em beneficio de uma possível aliança: ou a máfia de Don Mantovani e de meu pai conseguia o tal carregamento, ou eles não conseguiam uma aliança com uma máfia japonesa nomeada “Watanabe”.
–Chega! Está bom! – Disse atordoada com a verdade bem diante de mim.
Ele pausou a gravação e fechou o arquivo com um sorrisinho no rosto. Um sorrisinho de vitória. Meu estômago estava revirado, parecendo que alguém estava com suas mãos nele a redobra-lo inteiro. Passei meus dedos por meus cabelos, abaixando a cabeça em meu colo. Não poderia ser verdade. Isso significaria que não conhecia a pessoa da qual sempre chamara de pai. Significava que nem conhecia a minha própria história. Senti as primeiras lágrimas malditas escorrerem e molharem minhas pernas. Eram silenciosas, deixando-me pensar que somente eu tinha consciência delas, mesmo que tivesse ciência de que o homem a minha frente notava-as tanto quanto eu. Endireite-me na cadeira, virando a cabeça para o lado da estante. Minhas mãos foram inconscientemente ao meu rosto, enxugando-o. Virei-me para encara-lo com a expressão fechada.
–Eu só não entendi até agora quais são seus objetivos – Comentei clara, firmando a voz na tentativa dela não parecer emaranhada.
Sua expressão serena de aguardo transformou-se no esboço de ironia que já conhecia.
–Simples: casando com você, meu ingresso na máfia fica mais fácil – Ele deu de ombros, pegando uma caneta da mesa e observando-a – Conhecendo os chefões e tendo a confiança deles, entrar na máfia será um pulo raso e fácil.
–Então babbo e Don Mantovani são os chefões? – Perguntei, observando seu comentário atenta.
–Don Mantovani não te lembra nada? – Ele perguntou sorrindo, dando ênfase à primeira palavra.
Não o respondi, dando-lhe a entender como um “sim”. Meu silêncio foi recebido por sua parte com um ligeiro aumento de seu sorriso.
–Don Mantovani é o líder da máfia desde que você era uma garotinha, Lane – Ele prosseguiu – E seu pai é seu principal braço direito desde então.
Fechei a os olhos, respirando fundo e virando a cabeça para o lado à medida que abria os olhos e encarava vaga a prateleira. Várias lembranças começaram a correr por minha cabeça. Lembranças que, analisadas com a dor da verdade, denunciavam que algo sempre estivera errado. As reuniões a porta fechada de meu pai e Don Mantovani; o dinheiro exorbitante de babbo que nunca bateu com seu negócio expressivamente pequeno; os sussurros estranhos de meus pais na sala na hora em que eu supostamente deveria estar dormindo; até mesmo a arma que achara uma vez no escritório de babbo e que elejustificara ser para a segurança da casa.
–Mio Dio, non ho mai notato nulla? – Perguntei a mim mesma, levando a mão à boca.
–Si vede solo quello che vuoi, amore mio – Aaron sorriu sarcástico a minha frente.
Levantei da cadeira subitamente, começando a andar de um lado ao outro no cômodo. Um filme de minha vida rodava em minha cabeça. Houve tantos momentos para desconfiança e mais ainda para averiguação, no entanto, deixei todos passarem despercebidos. Como pude ser cega a minha vida inteira? A ficha caia aos poucos e tudo que podia fazer era lamentar por minha ignorância.
–Sabe, Lane, eu sou homem. E como tal, tenho minhas necessidades. Seu desfile de um lado ao outro de meu escritório com essas roupas, não ajudam a controlar-me – Meu marido, se é que poderia chama-lo assim, manifestou-se cafajestemente irônico, lembrando-me de voltar ao presente.
Parei de andar de um lado ao outro, cobrindo meu rosto com minhas mãos. A ficha então caiu de vez e toda dor de minha ignorância caiu sobre meus ombros. Curvando-me ligeiramente para frente, soltei um grito contido de raiva, frustação, tristeza e dor.
–Olha, eu sei que você está surpresa por tudo, mas acordar a vizinhança e a minha mãe não vai ajudar em nada – Ele continuou a comentar sarcástico de sua cadeira, brincando entretido com a caneta entre os dedos.
Desabei no choro novamente, desta vez sem nada de silencioso. Curvei-me mais em um choro de desespero que nem ao certo sabia de onde vinha. Meu rosto era um rio de lágrimas, assim como minha garganta a passagem de ida ao mundo exterior dos sons vindos de meu pulmão.
–Não sei se já comentei, mas o som de choro não é o meu favorito – Ele continuou a manifestar-se irônico.
Porém, não reagi a suas falas. Estava ocupada demais em minha própria dor para prestar atenção e atender a ele.
–Lane, você está começando a irritar-me – Ele manifestou-se de novo, desta vez, irritado.
De novo, não lhe dei atenção. Suas falas, na verdade, eram como sons ao fundo que ouvia abafadamente. Abaixei-me, ajoelhando no chão enquanto pressionava minhas mãos abaixo de meus seios. Lágrimas já começavam a encharcar e transparecer o tecido de minha camisola. Meus olhos permaneciam fechados, pois não tinha como abri-los. Pude ouvir Aaron queixar-se mais uma vez, mas nem as palavras consegui distinguir. Estava literalmente cegada de dor. Ouvi um barulho ligeiramente alto, como algo se arrastando no piso, e em seguida senti uma mão em meu braço puxar-me para cima. Mesmo de olhos fechados, soube quem era. Cedi à força da mão dele e levantei-me, jogando-me em seu peito antes que ele tivesse reação. Como previ, ele não soube como agir. Por alguns instantes, fora somente eu agarrada a ele como se ele fosse uma espécie de boia salva-vidas enquanto ele continuava a segurar meu braço e permanecia tenso. No entanto, ele cedeu também. Soltou meu braço e de maneira acanhada e receosa que desconhecia, ele abraçou-me. Um abraço duro, sim, mas ainda assim um abraço.
Permanecemos assim por um bom tempo. Aos poucos, as lágrimas iam secando e os sons paravam de chegar a minha garganta. A calma foi retomando meu corpo e consegui abrir meus olhos inchados. Sem coragem sequer para olha-lo no rosto, fui afastando-me dele lentamente de cabeça baixa. Ele não resistiu; chego a pensar que até foi um alivio. O silêncio era consumidor, porém ambos não tínhamos o que falar. Eu pelo menos ainda não. Atrevi-me então a subir um pouco meu olhar. Encontrei-o encarando-me com as mãos no bolso. Ele analisava-me com os olhos levemente estreitos, mas não numa expressão severamente.
–Eh...desculpe pelo molhado – Apontei para seu peito, quebrando o silêncio.
Ele abaixou os olhos ao corpo, observando impassível. Ele deu de ombros e voltou a olhar-me. Sorri sem mostrar os dentes. Seu escritório, por mais bonito que fosse, era gelado. Mais uma corrente de vento adentrou-o e fez-me tremer. Levei minhas mãos aos braços, esfregando-os.
–Você está com frio – Ele afirmou indiferente – Deveria ir para cama.
Concordei com a cabeça, abaixando o olhar.
–Você irá? – Perguntei inocente, olhando-o com o olhar baixo.
–Fará diferença? – Ele levantou uma sobrancelha.
–Iria me sentir menos sozinha – Afirmei baixinho jogando a cabeça ao lado.
Um sorriso, provavelmente debochado, esboçou-se em seu rosto. Tirando as mãos do bolso, ele deu a volta na mesma e postou-se atrás dela. Observei-o silenciosa desligar o computador e fecha-lo. Os papéis continuaram do mesmo jeito enquanto ele apontava-me a saída, sorrindo de forma forçada. Segui para a porta, abrindo-a e saindo. Senti sua presença logo atrás de mim, após a luz ser desligada e a porta de seu escritório ser fechada. Ainda assim, não sentia cem por cento de certeza de sua presença, então virei-me para trás. Péssima ideia. Ele estava tão perto de mim que assustei-me ao virar-me, só não indo ao chão porque ele segurou-me pelos braços. Arfei surpresa e olhei-o. Seu sorriso marca abriu-se, tornando-se medonho e pervertido a pouca luz.
–Non si dovrebbe trasformarsi di nuovo improvvisamente in un corridoio buio, amore mio, se non volete essere sorpresi – Aaron sorriu sussurrando ao escuro.
Encarei-o alguns segundos mais e sem dar-lhe resposta virei-me de novo. Escolhi ir pela sala, subindo as enormes escadas somente com a luz que entrava pelas janelas. Os meus passos e de Aaron eram tão silenciosos que me assustavam. Abri a porta do quarto, encarando o cômodo fantasmagórico. Entrei e logo após a porta bateu. Pulei de susto, virando-me para vê-lo rir de minha reação. Um riso baixo e bom. Calorosamente humano, nada de friamente alienígena. Esbocei um sorriso de lado e caminhei ao banheiro. Entrei nesse, encontrando-me no espelho. Meu rosto estava com os olhos avermelhados e inchados, como deduzi, e lavei-o com água gelada na esperança de alguma melhora. Voltei ao quarto satisfeita com o pouco que conseguira. Aaron não estava à vista e o escuro não ajudava.
–Eh... Henry? Aaron? – Chamei-o receosa, não sabendo bem porque nome chama-lo.
–Sim? – Ele levantou uma sobrancelha na minha direção, saindo do closet de cueca.
Corei ao escuro. A vantagem era justamente ele não ter notado esse fato.
–Como devo lhe chamar? – Perguntei confusa, jogando meus cabelos pouco úmidos em um ombro só e passando meus dedos por eles.
–Aaron, por agora – Ele deu de ombros.
–Tudo bem... Aaron – Comentei abrindo um pequeno sorriso.
Ele sorriu também, porém forçado. Senti um gelo instalar-se entre nós. Caminhei lentamente para a cama, passando por ele para deitar-me de meu lado. As cobertas ainda estavam jogadas do jeito que as deixara. Enfiei-me na cama, cobrindo-me ao olhar atento de Aaron. Ajeitei os travesseiros, sentando-me para encara-lo também.
–Você não vai deitar? – Perguntei constrangida.
–Vou dormir no quarto do lado – Ele respondeu sem emoção.
Levantei as sobrancelhas e minha boca abriu-se num silencioso “ah!”. Confesso que no fundo senti-me aliviada por ele não dormir ali.
–Posso fazer uma pergunta antes de você ir? – Arrisquei calma, mordendo o lábio inferior.
–Já está fazendo... – Ele encarou-me de braços cruzados.
–Por que você quer entrar na máfia? – Ignorei seu comentário, seguindo em frente com cuidado.
Jurei notar uma leve mudança em sua expressão, mesmo a pouca luz. Pareceu que por meros segundos, a sombra de algo passado tomou seu rosto. Uma lembrança ou um sentimento. Não saberia especificar também, pois, se eu estiver certa sobre o que vi, estou mais certa ainda que se dissipou num piscar de olhos. Logo sua expressão retornou ao sério, frio e insensível de sempre.
–Digamos que seria vantajoso para os negócios – Ele respondeu seco.
Concordei com a cabeça, não querendo entrar em detalhes. Não naquele momento.
–Eh... Posso fazer outra pergunta também? – Arrisquei mais, olhando-o mais incerta.
–Depende – Ele semicerrou os olhos.
–Se você quer entrar na máfia... Italiana – Engoli em seco, evitando a palavra “máfia de babbo” que apareceu em minha mente – Por que não permanecemos na Itália ao invés de morar aqui?
Seu sorriso debochado, definitivamente, abriu-se em seu sorriso.
–Primeiro que isso seria muito bom para você, não para mim – Seu sorriso brilhou a luz do luar, assim como seus olhos – E eu não sou o que se diz de “melhor esposo do mundo”. Sou egoísta. Segundo que, vivendo na Itália, seu pai poderia vigiar-me mais de perto, caso desconfiasse de algo. Ou seja, eu estaria fodido, porque seu pai não é bobo, Lane. Terceiro porque meus negócios são aqui e não posso deixa-los na mão de outra pessoa por tanto tempo senão quiser perder tudo – Ele parecia sério listando seus vários motivos – E quarto, e mais importante, se vivêssemos na Itália, eu não poderia fuder...
–Qualquer mulher que visse em suas saídas a noite por conta da vigilância de babbo – Completei olhando para minhas mãos em meu colo e fazendo uma leve careta pela palavra que ele empregou: “fuder”.
–Na verdade, eu iria dizer que eu não poderia fuder minha bela esposa porque acho que não agradaria em nada a meus sogros ouvirem os altos gemidos dela enquanto tentam dormir – Ele corrigiu-me.
Levantei o olhar e encontrei seus olhos e sorriso safados destinados e fixados em mim. Corei violentamente. Limpei minha garganta e abaixei rapidamente minha cabeça de novo.
–Hm... Boa noite? – Desejei olhando-o hesitante.
–Sogni d'oro, Lane – Ele desejou-me tão frio quanto gelo.
Vi-o dar-me as costas e sair do quarto, fechando a porta num piscar de olhos. Novamente encontrei-me sozinha naquele quarto. Ajeitei-me na cama, deitando e puxando os cobertores mais para mim. A noite poderia não ser a mais fria, mas o frio de minha alma com certeza nunca fora maior. Como num flash, as coisas que Aaron contou-me voltaram a minha mente, assombrando-me. Fechei os olhos, mas pareceu só piorar. Minha cabeça funcionava a mil por horas. Abri de novo os olhos, encontrando o cômodo vazio. Sabia que custaria a dormir aquela noite.
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