Strada Per L'inferno
51 Tudo claro
Notas iniciais
Duas semanas depois
Colin parou o carro na frente da casa e olhei-o, sorrindo.
— Não quer entrar?
— Eu não acho uma boa ideia... — ele sorriu de lado. — Aaron está em casa.
Olhei para o lado de fora e notei o carro de Aaron parado em frente à garagem. Xinguei em italiano por não ter percebido antes e observei mentalmente o quão estranho era ele estar em casa a essa hora.
— Bem! outro dia, então?
— Não sei...
— Ora, vamos, Colin! — empurrei de leve seu ombro. — Eu sempre te convido e você recusa. Aaron só está em casa hoje. Nos outros dias não...
— Eu sei. — sorriu de lado com a minha cara de brava. — Mas Aaron e eu não nos damos e você sabe disso.
— Mas você é meu amigo e eu estou te convidando. — cruzei os braços, fazendo bico.
Ele riu, coçando a barba por fazer.
— Tudo bem. Depois de amanhã pode ser? Amanhã eu tenho um compromisso...
— Um compromisso? — arqueei a sobrancelha, abrindo um sorrisinho.
— Nada de mais. — deu de ombros. — Só um homem atendendo suas necessidades com uma velha amiga.
— Urgh! — contorci o rosto em uma careta. — Eu não precisava saber disso.
— E nem eu sobre você e Aaron.
— Eu nunca disse nada!
— Dylan disse.
— Peste. — revirei os olhos.
Ele concordou com um riso fraco e sorri de soslaio, olhando para a casa com preocupação.
Aaron estar em casa não era nada bom.
Voltei-me para dentro do carro para despedir-me e encontrei-o olhando-me sério. Sorri a fim de tranquilizá-lo, sabendo que em sua cabeça passava as mesmas suposições que na minha. Falhei em minha missão, pois ele pareceu endurecer ainda mais as feições.
Não podia mentir: tinha medo sim de que Aaron pudesse estar desconfiando de algo.
— Você acha que ele está suspeitando de algo?
— Eu não sei... — admiti, mordendo o lábio. — Brad está nos ajudando muito e Caitlin também, mas Aaron sabe esconder bem as coisas quando quer. Se ele desconfia de algo, primeiro ele vai bolar um plano para depois dar o bote.
— A cara dele. — riu sem humor com o olhar perdido. — Bom, nós nem olhamos um para o outro, então...
Suspirei assentindo, sabendo que, se eu que dormia com ele não tinha ideia se ele desconfiava, Colin, que não se dava bem com ele, teria menos ainda. Despedi-me com um beijo na bochecha e peguei minha bolsa no banco de trás, saindo do carro. Os seguranças abriram imediatamente os portões e o carro preto arrancou dali.
— Senhora Lane?
Brad, meu segurança particular, pareceu surpreso ao me ver.
Brad era um dos únicos simpáticos entre aqueles armários. Se não o único. Ele me acompanhava para todos os cantos e logo ganhou minha simpatia e confiança. Ao ponto de ajudar-me muito com o plano com Colin, ainda que não soubesse do que se tratava.
Sorri a ele, ainda que achasse sua atitude estranha.
— Olá, Brad. Aaron já está em casa?
— O senhor Aaron chegou faz algum tempo.
Mordi a bochecha, sentindo o nervosismo começar a partir das pontas de meus dedos.
— Hm, tudo bem. Obrigada, Brad.
— Senhora!
Ele chamou-me quando dei-lhe as costas, e me voltei de novo a ele.
— Se eu fosse a senhora, não iria incomodá-lo. Ele chegou possesso.
Assenti, sorrindo leve. Ele sempre era um amor e me avisava qual era o humor de Aaron no dia, caso o tivesse visto antes de mim. Mas hoje, seu aviso não parecia natural e gentil. Soou estranho, assim como ele estava se comportando. Quando fiz menção de seguir, ele me impediu de novo.
— Aquele era o senhor Colin no carro?
— O que eu já disse sobre perguntas, Brad? — repreendi-o como uma mãe faz com o filho.
— Desculpe senhora, mas me pareceu familiar...
— Sim, é ele. Mas Aaron, em hipótese alguma, pode saber. Estamos entendidos?
— Claro.
Sorri e virei-me de novo para ser chamada. Olhei-o e, desta vez, foi com desconfiança. Ele definitivamente estava anormal. Artificial. Estreitei as sobrancelhas.
Ouvi um barulho abafado dentro da casa e assustei-me. Parecia vir do segundo andar. Instantaneamente, preocupei-me. Mil e uma hipóteses passaram por minha cabeça e a maioria envolvia Aaron e mais uma de seus ataques inconsequentes.
Fiz menção de seguir, mas Brad colocou-se na minha frente.
— Brad, me deixe passar.
— Eu não posso, senhora.
— Como assim não pode?
— Senhor Aaron deu ordens...
Ouvi um grito feminino.
Olhei chocada para Brad, que pediu desculpas com uma expressão lamentosa e um encolher de ombros, ambos sinceros. Ele se afastou e andei até a porta em passos apressados. Encontrei-a aberta e adentrei sem pensar duas vezes.
Alfredo estava num canto, parado, olhando para a frente com urgência. Mas ele foi tacitamente ignorado quando meus olhos passaram ao meio da sala. Aaron estava apertando o braço de Kimberly com uma expressão de fúria. Ela parecia só assustada e decepcionada. Mas atrás deles, a cena ficava ainda mais estranha. Meu pai saia do escritório de Aaron, ajeitando seu paletó com normalidade.
A mala em minhas mãos caiu no chão com um baque.
POV Aaron
Parei o carro na frente da garagem e desci, com Kimberly imitando-me pelo lado do passageiro. Mal tirei os óculos escuros e vi Alfredo movendo-se em minha direção.
— Patrão, temos um problema.
— É com Lane? — perguntei a primeira coisa que me veio à cabeça.
— Não, senhor. A senhora Lane saiu e está bem. É outra coisa.
— Seja direto. Sabe que não suporto enrolação. — pedi gesticulando com a mão.
Abri a porta da casa e encontrei alguém sentado no sofá de costas para mim. Estreitei os olhos no momento em que a figura virou-se e mostrou seu rosto.
— Como vai, Aaron?
Apertei o maxilar.
— Há uma visita para o senhor. — Alfredo avisou inutilmente, colocando-se entre mim e Kimberly.
— Pode ir, Alfredo. Mais tarde nós conversamos.
Ele assentiu. Antes de retirar-se, porém, voltei a chamá-lo.
— Se Lane chegar, dê um jeito de me avisar antes de deixá-la entrar.
Ele voltou a concordar antes de desaparecer de vez. Adentrei o cômodo, fixando Antenore de pé ajeitando o paletó sobre a barriga crescente. Kimberly me seguiu, fechando a porta da sala.
— Kimberly, vá para o jardim e fique lá.
— O senhor é que manda, patrãozinho.
Ela havia concordado muito facilmente; mas, quando a notei sorrindo insinuante para Antenore e rebolando para os fundos, soube o porquê.
— Lane sabe sobre essa sua amiga? — apontou a figura curvilínea que desaparecera pela porta.
— Ela não é minha amiga. É minha empregada. E sim, ela sabe, porque não há nada entre eu e Kimberly.
— Oh sim. Caso houvesse, minha filha não saberia. Certo? — levantou a sobrancelha.
Bufei e ignorei sua pergunta, descendo os dois degraus que delimitavam a sala e a porta de entrada e seu pequeno hall.
— O que você está fazendo aqui, Antenore? Lane podia estar em casa.
— Eu tinha uma pessoa de olho. Me encaminhei para cá assim que me avisaram que ela saiu.
— Claro que tinha.— ri pelo nariz, coçando o queixo. — Ela sabe que você está aqui?
— Não.
Balancei a cabeça, rindo de novo.
— Vamos para o meu escritório. Lá é mais calmo.
Ele assentiu e seguiu-me até o cômodo. Dei-lhe passagem e fechei a porta atrás dele, que se ajeitou confortavelmente em uma das cadeiras em frente a minha mesa. Parei na mesinha de bebidas, sabendo que precisaria de uma boa bebida para esta conversa.
— Onde minha filha está? — perguntou depois de segundos de silêncio.
— Achei que você, com seu homem no encalço dela, saberia.
— Meu homem não estava vigiando-a, mas sim a casa.
— Claro. — revirei os olhos, ainda de costas para ele. — Bom, eu não sei onde Lane está. Ela deve ter ido ao shopping ou à casa de Caitlin.
Estendi-lhe um copo de uísque com gelo, e ele agradeceu com um aceno.
— Caitlin é a prostituta?
— Diga isso para sua filha e ela com certeza lhe dará uma resposta afiada e te olhará feio pelo resto do dia.
— Só digo a verdade.
— Você pode dizer tudo, Antenore, menos a verdade. — sentei em minha cadeira, tomando o primeiro gole da minha bebida.
— Não é como se você fosse fraquíssimo, meu caro.
— Eu conto a verdade até onde é possível. — dei de ombros.
— Bom, não vamos entrar nesta pauta, porque ambos não somos prestigiados nela.
— Justo.
— Como andam as coisas na América?
— Refere-se aos negócios ou a sua filha? — arqueei a sobrancelha.
— Aos dois. Não pense que não percebi aquela palhaçada dela ligar-me e tentar me persuadir a dizer algo.
— Bom, ela estava no meu pé e eu precisava de uma distração para ela.
— Muito esperto. Lane sabe ser insistente quando quer e parece que você só aflorou esse lado dela.
— Parece que eu aflorei muitas coisas nela, Antenore.
Ele sorriu, um sorriso antipático e frio.
— Mas vamos parar de rodeios e vamos ser diretos, porque eu não tenho tempo e imagino que você também não: o que você veio fazer aqui propriamente?
Ele pousou seu copo na mesa e observei-o com as mãos juntas, encostado na minha cadeira. Antenore não era de rodeios, mas também não era o mais direto dos homens. Ele era difícil de ler e entender e pensei que, conhecendo sua filha, teria avançado metade do caminho. A verdade, no entanto, era que ambos não poderiam ser mais diferentes.
— Daqui a dois dias, será o baile de Callum. E tenho certeza de que você não deixará esta data passar batida.
— O que quer insinuar com isso?
— Que você está tramando algo para essa festa.
— O que te leva a pensar assim?
Fechei os dedos ao redor do copo, chacoalhando levemente enquanto franzia a sobrancelha.
— Assim você me subestima, Aaron. Ou esqueceu que não sou só eu o chantageado da história? Eu sei bastante sobre ti também. E sei que você e Callum se odeiam. Seria muita burrice sua, portanto, deixar esta data passar em branco. E, infelizmente, sou obrigado a reconhecer que você não é burro.
Soltei uma risada fraca, tomando um gole de bebida.
— Fico lisonjeado com seu reconhecimento óbvio.
— Vai me contar ou terei de descobrir?
— Eu planejo algo contra Callum sim.
— Minha filha está envolvida nisso?
— Não. Como o combinado.
— Isso irá afetar minha família em algo?
— Depende de como as coisas saírem. Se tudo sair como quero, sim. Nossa aliança estará forjada até o final do mês, o que acredito que afeta sua família em algo.
— Um ano, Aaron. Tempo demais, não acha?
— Bom, não teria levado tanto tempo se não fosse por sua filha. Andei meio ocupado com ela. Salvando-a e fodendo-a.
— Me poupe de sua vida conjugal sórdida com minha filha.
— Sórdido mesmo é o que você escondeu e esconde dela, Antenore.
— Não aja como se fosse o santo da história, Aaron. Sabemos que você também não contou toda a verdade para ela.
Preparava-me para lhe dar uma resposta afiada, quando um barulho alto ecoou pelo andar superior e me interrompeu. Não havia ninguém na casa além de nós. Os seguranças não eram autorizados a entrar na casa a não ser que eu desse meu aval, o que só deixava uma alternativa viável e clara.
— Vadia desobediente. — rosnei.
Antenore riu e acabou sua bebida.
— Tenho que ensinar uma lição a minha empregada. Já volto.
Saí do escritório e cheguei à sala, pegando-a descendo as escadas apressada, enquanto Alfredo abria a porta da frente, afobado.
— Senhor, a...
— O que você estava fazendo lá em cima, Kimberly?
Agarrei seu braço sem dó e ela gritou de surpresa, fazendo-me apertar mais.
Ouvi um estalo grande na porta e virei a cabeça. Lane estava estática, com uma mala caída ao seu lado. Ela tinha os olhos arregalados e numa troca louca entre eu e acima de meu ombro. Virei-me e vi Antenore saindo do escritório calmamente.
Ele parou ao ver a filha, parecendo tão surpreso quanto a própria. Voltei-me de novo a Lane, soltando o braço de Kimberly.
— O que está acontecendo? — murmurou, com os olhos agora fixos em mim.
Molhei os lábios e me voltei para Antenore. Ele sabia tanto quanto eu que a farsa fora por água abaixo.
— Alfredo, leve Kimberly para a boate.
Olhei-o concordar e pegá-la pelo mesmo braço que apertara segundos atrás. Ela voltou a gemer de dor.
— Patrãozinho... — miou em seu tom enjoativo.
— De você eu cuido mais tarde, Kimberly. Alfredo, leve-a agora.
Ele arrastou-a para fora sob seus protestos de dor. Lane saiu do caminho da porta e vi a troca de olhares de animosidade e nojo entre as duas. A porta fechou-se às costas de Lane e ela olhou de volta para nós.
— Onde você estava? — perguntei, olhando a bolsa caída ao seu lado.
Era grande e cheia demais para uma simples bolsa de mulher. Mas ela me ignorou, olhando o pai atrás de mim.
— Babbo... O que faz aqui? — soou confusa.
Seu olhar me percorreu inteiro e sabia que ela analisava minhas roupas. Roupas de Aaron, como ela chamaria.
— Eu vim vê-la. Mas você não estava, então eu estava conversando com...
— Aaron. — completou sem emoção na voz.
O pai trocou mais um olhar comigo. Ele hesitava entre dizer logo a verdade ou inventar mais uma merda. Mas eu estava cansado dessa baboseira e avisei-o disso com um simples olhar. Lane não era mais tão ingênua como ele supunha, e eu não era mais tão filho da puta com ela para continuar a procrastinar a verdade. Suspirando, ele balançou a cabeça afirmativamente a pergunta de sua filha. A mesma voltou-se então a mim com seu olhar gelo e a boca escancarada.
E mais um ponto para minha lista de merdas que fiz que a deixaram chocada. Boa.
Sua boca abriu e fechou-se várias vezes, mas nenhum som saia dela. Seus olhos eram a única parte de si que se movia, indo do pai para mim. Até ela fechá-los com força, cessando a incredulidade e negação estampados neles.
— Lane... — aproximei-me esticando a mão para tocá-la.
Ela abriu os olhos e recuou na hora.
— Não, Aaron. Não... diz nada. Não chega perto de mim. Eu estou tão decepcionada e irritada com vocês dois que...
Ela interrompeu-se bufando e passando os dedos trêmulos pelo cabelo. O cabelo que gostava tanto de enrolar entre meus dedos e brincar. Quando voltei a ver o azul de seus olhos, eles estavam cheios de cólera e decepção. Foi como um soco na boca do meu estômago, um soco com gosto novo e saudoso ao mesmo tempo.
— Vamos conversar no meu escritório — pedi o mais suave que consegui.
Ao ouvir minha voz ressoando na sala, no entanto, pareci mais autoritário e babaca do que pretendia.
— Conversar o quê, Aaron? Não tem o que conversar. Eu fui feita de boba de novo por você e por meu pai. — seu olhar voltou-se para o pai, agora cheio de lágrimas raivosas. — Não bastou meu próprio pai mentir a vida inteira para mim e me casar com um bandido; ele ainda teve que continuar inventando baboseiras e histórias para crianças dormirem.
— Figlia, eu posso...
— Explicar? Eu já disse que não tem o que explicar. Está tudo bastante claro. Tanto que eu nem sei por que demorei tanto pra sacar. Ou por que estou surpresa. Afinal, vocês dois não são o que se pode chamar de melhor índole.
— Lane...
Ela me mandou um olhar mortal e calei-me na hora. Não adiantava falar; seria só mais uma discussão acalorada com Antenore no meio para colocar mais lenha na fogueira.
Ela pegou a mala no chão e passou por mim sem me olhar, subindo as escadas rapidamente.
Passei as mãos pelos cabelos, bufando irritado e frustrado.
Estava me tornando um frutinha com ela.
— Nota-se muita influência sua sobre o comportamento dela. — Antenore comentou calmo, colocando as mãos dentro dos bolsos da calça de alfaiataria feita sob medida.
Porque, aparentemente, esses mafiosos metidos à besta deveriam ter roupas caras feitas sob medida para parecerem ainda mais babacas poderosos e filhos da puta donos da verdade.
— Acho que isso se deve aos genes italianos oprimidos por anos.
Peguei um copo na mesinha da sala e enchi de vodca pura, virando tudo em um gole.
— Se sua filha fizer uma besteira e eu perder a paciência com ela, a culpa será inteiramente sua. — avisei, enchendo o terceiro copo do dia.
Antenore ignorou minha fala com um aceno e voltou a ajeitar o paletó. Estava começando a achar que isso era um tipo de tique irritante.
— Conheço minha filha, embora esta esteja inegavelmente mudada por ti. Então não insistirei em prosseguir essa conversa. Havia feito uma reserva pela manhã no "Commander’s Palace" para hoje às vinte horas com a intenção de revê-la. Agora, penso eu, esta reserva servirá para uma conversa menos agradável. Estejam lá, portanto.
— Claro. Se sua filha não tiver um ataque e nós não estivermos ocupados fodendo para fazer as pazes, será um prazer.
Abri meu melhor sorriso falso e saboreei um pouco de sua carranca contrariada. Andei até a porta e a abri, limitando-me a acenar para fora com o copo. Ele passou dando-me uma última olhada desagradável e fechei a porta com força às suas costas. Virei o restante de bebida na garganta observando o topo vazio das escadas.
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