Strada Per L'inferno
52 Lafayette
Notas iniciais
A porta do quarto abriu, mas não me dei ao trabalho de virar ou vestir-me rápido. Ouvi seus passos marcantes e leves no piso. Quando eles cessaram, sabia que ele parara encostado ao portal que dividia o closet e o quarto e me observava com seus olhos predadores e sua expressão impassível. Decidi ignorá-lo e continuei a me trocar, colocando somente uma blusinha por cima da lingerie.
— Você vai ficar assim?
Pelo seu tom, sabia que ele estava com as sobrancelhas arqueadas e uma pitada de sarcasmo. Ignorei-o de novo, penteando o cabelo e pegando a toalha, passando por ele. Ouvi sua respiração pesada, tentando controlar-se.
Mais do que ser desafiado, ele odiava ser ignorado.
— Você vai continuar me ignorando mesmo, Lane? Vai continuar com essa palhaçada infantil?
— O que você quer que eu faça, Aaron? — perguntei indiferente, voltando ao closet.
— Fale qualquer coisas, porra. — admitiu sem elevar-se, mas não tão calmo como antes. — A essa altura você já estaria jogando as coisas na minha cara e gritando comigo.
— Pois é, Aaron. Mas isso é cansativo e eu estou exausta de gritar e chorar por ainda não ter me acostumando contigo.
— O que você quer dizer?
Suspirei e me virei, encarando-o pela primeira vez. Ele estava com o maxilar trancado e segurava com força no gabinete de centro. Bastava um empurrão para o estopim, ou seja, para voltarmos à mesmice de nossas brigas. E eu estava sendo sincera quando disse que, de gritaria seguida de sexo, eu estava cansada.
— Eu quero dizer, Aaron, é que eu estou cansada de brigar. No final, é sempre pelo mesmo motivo: você ainda guarda segredos. Porque, se parar para pensar, nossas brigas se resumem a algo que me esconde ou não me deixa ver, entender ou intervir.
Ele não disse nada e eu passei a mão no cabelo, como ele sempre fazia, e me encostei ao armário de braços cruzados. Foquei em seus olhos negros, fascinantes e sugadores.
— Eu estou farta disso, Aaron. Não quero mais gritar para depois irmos para a cama e esquecer tudo. Eu não quero mais tentar mil e uma formas de brigas de diferentes com você. Até isso, essa conversa "pacífica", nós já tivemos. Tudo conosco é um déjà vu. E eu não quero mais isso. Eu quero paz. Paz de verdade. E não o fingimento que vivemos até vir mais uma briga e acabar com tudo de novo. Mas para isso, para nossa relação dar certo, precisamos ser honestos um com o outro. Nunca vai funcionar se só um lado for aberto. Não vai funcionar enquanto você continuar a esconder as coisas de mim.
Ele fechou os olhos e se voltou à parede, socando-a com o pulso, como fazia quando estava nervoso. Eu podia não o conhecer totalmente, ou o seu passado, mas me orgulhava de, por vezes, identificar o significado de suas expressões corporais. E desta vez, seu gesto e músculos tensos evidenciaram que não era cólera cega que o tomava, mas sim a mais pura das confusões.
— Você sempre quer mais do que pode ter. Não é, amore mio? — disse cansado e irônico.
— Isso, ter mais de você do que posso, é você que define. Eu só estou dizendo que não está mais funcionando para mim e também não sei por quanto mais tempo vou conseguir fingir que sim.
— Não é como se você tivesse escolha também. — debochou, rindo da maneira que me aterrorizava no começo e me enojava agora.
Ele virou-se e o sorriso sarcástico que o desfigurava estava estampado. Meu estômago revirou-se.
— Você enjoa, fica cansada dessa nossa "relação" e faz o quê? Você não tem o que fazer, Lane. Está presa a mim e sabemos bem isso. Ou prefere voltar pro seu papai querido? Se sim, só me deixe te lembrar algo antes: ele mentiu a vida inteira para você e mentiria mais se pudesse. Eu tentei ser o mais sincero que pude, mas não posso dizer tudo para você. Porque não quero e porque seria perigoso para você. Será que entende agora?
Engoli em seco e abaixei a cabeça, mordendo o lábio. Ouvi seus passos rápidos, e ele parou em minha frente antes de pegar em meu queixo e levantá-lo. Ele forçou minha cabeça para trás, fazendo-me olhar diretamente em seus olhos duros.
— Entendeu, Lane?
— Entender não fará ser menos doloroso, Aaron. E a essa altura, você deveria saber que eu não ligo mais para o perigo.
— Mas eu ligo e você não está preparada para ele. Nem o conhece, pois eu e seu pai sempre tomamos o cuidado para isso.
— Então talvez seja a hora de pararem.
Ele apertou mais o maxilar diante de minhas palavras firmes e baixas. Soltou o meu queixo e deu um passo para trás, como se minhas palavras o abalassem. Fechou os olhos antes de girar os calcanhares e recuar para a porta. Antes de passar para o outro cômodo, no entanto, interrompeu-se. Sem virar para mim, com a voz seca e indiferente, deu o recado:
— Seu pai reservou uma mesa hoje à noite no "Commander’s Palace" às oito. Esteja pronta.
Seus passos voltaram a ecoar pelo piso, e a porta bateu com força antes mesmo de eu reagir a seu recado.
Suspirei e joguei a cabeça para trás, encostando-a ao armário. Encostei meus pulsos na madeira também e o esquerdo doeu. Abaixei os olhos e vi que estava roxo e inchado. Lembrei-me de quando o batera na parede durante o treino. Colin ainda me avisara... Nem sabia como Aaron não notara, mas ficava agradecida por isso. Não precisava de mais um problema para resolver ou desculpa para inventar.
Por isso, a primeira coisa que se passou em minha cabeça depois disso foi que teria te usar um vestido de mangas longas.
(...)
Olhei no relógio e faltava meia hora para as oito. Não sabia onde ficava este restaurante, e mesmo sabendo que Aaron iria correr pelas ruas independente da distancia, não queria correr o risco de nos atrasarmos.
Com pesar e incerteza grandes, mascarados com a falsa confiança que desejava mostrar a Aaron e meu pai, peguei minha bolsa e saí do quarto.
Aaron esperava-me na sala, sentado no sofá com um copo em mãos. Preocupava-me com seu hábito de beber. Eram raros os dias que me lembrava de vê-lo acordar e dormir sem uma única gota de álcool na boca. Devaneava naquele momento, observando-o chacoalhar o copo meio cheio, se o hábito sempre existira ou fora agravado após a perda de Sienna.
Ele virou a cabeça em minha direção ao ouvir meus saltos clicando nas escadas e se levantou, observando-me hipnotizado. Gostava da maneira que me olhava. Lembrava-me das vezes que o tivera sob o meu controle, como na noite em sua boate. Mas, principalmente, agradava-me porque mostrava alguma reação positiva sua para comigo. Ainda que fosse de maioria sexual.
— Você está linda, Lane.
Assenti, murmurando um agradecimento. Seus olhos continuaram a percorrer-me, desta vez com mais atenção e delongas. Não me encolhi ou senti desconforto. Aprendera a gostar de seu apreço por minhas curvas, a prezar a sensação de ser admirada e desejada.
Seus olhos chegaram aos meus, e ele notou que observava seu copo. Um sorriso surgiu em seus lábios.
— Não é bebida. É água.
— Não acredito. — fui sincera e polida.
Ele encolheu os ombros e me ofereceu o copo. Balancei a cabeça, negando.
— Você não precisa provar nada para mim, Aaron.
— Mas eu quero. — afirmou convicto, sem abaixar o copo.
Engoli em seco, e hesitando por um segundo, estiquei a mão e peguei o copo. Ao levá-lo aos lábios, constatei que ele não mentia.
— Nunca o vi bebendo água. — devolvi-lhe o copo vazio.
Ele pegou o objeto e colocou sobre a mesa longa de vidro atrás do sofá.
— Há muitas coisas que você não sabe sobre mim. — levantou os olhos para mim, sem nada além de uma seriedade e intrínseca que me fizeram engolir em seco. — Como você mesmo fez questão de realçar mais cedo.
O caminho até o restaurante foi tenso e silencioso. Aaron não ligou o rádio e nem eu fiz questão. Observava a cidade que não era mais desconhecida e estranha para mim, mas familiar e aconchegante, enquanto me lembrava da última vez que saímos juntos. Fora para a boate e o clima estava tão leve, tão risonho, tão bom; mesmo nós somente tendo feito as pazes poucas horas antes. Mas desta vez era completamente diferente. Aaron não me dissera só um "não", ele mentira feio sobre um assunto que pensava já ter entendido tudo.
Isso não era tão fácil de perdoar. Fosse porque envolvia uma parte nublada e dolorosa da minha história ou fosse porque ele mentira ainda mais para e sobre mim. No final, nenhuma agressão ou dano físico era pior do que a sensações de enganação, deboche e traição que sentia agora.
Aaron parou na frente de um grande casarão reformado, de onde vozes altas e incontáveis luzes vinham. No entanto, o que me chamou a atenção primeiramente foi o terreno à frente. Era muito famoso e visitado. Diziam que...
— Vamos, amore mio.
Aaron abriu minha porta e estendeu a mão para mim. Pisquei os olhos, livrando-me da paisagem às suas costas, que estava impregnada em minha mente. Fixei nele e em seu rosto sereno, mas que, para mim, não encobria sua carranca de irritação e impaciência. Peguei sua mão e só depois processei seu gesto cavalheiro, que se creditava ao ambiente.
O restaurante era razoavelmente grande, mas certamente luxuoso. O salão principal não possuía um pé direito alto, nem escadas de mármore grandiosas ao fundo e um lustre de cristal magnífico no topo. Mas possuía um papel de parede bem vintage, janelas em toda a parede para a rua que combinavam com o teto baixo e poltronas estofadas que denunciavam a história do lugar muito bem.
A hostess nos guiou à mesa de babbo assim que Aaron deu nossos nomes. Notei o sorrisinho que ela o deu, mas não liguei. Nem ele.
Babbo estava sentado de costas na mesa com uma taça de vinho nas mãos. A visão era tão saudosa quanto assustadora. Ele virou a cabeça para nós e me lançou um sorriso carinhoso, fazendo-me ficar enjoada.
— Estava começando a duvidar se viriam.
— Sua filha estava quase indo no shopping, no cabeleireiro, o caralho a quatro para poder escolher um vestido e pentear o cabelo.
Aaron estendeu a mão e apertou a de meu pai. Os dois falavam com tanta calma e naturalidade. Isso me assustava e me surpreendia. Babbo se virou para mim com os braços abertos e me abraçou, mas eu não tive reação. Deixei-me ser abraçada, mas não retribuí. A sensação ficava no limbo entre o carinho e o amor confortáveis de outrora e a frieza e desconhecimento de hoje.
Soltou-me e logo desviei o olhar, não querendo ver suas expressões. Aaron achou-me a tirar o casaco e puxou a cadeira para me sentar. De novo, ficaria surpresa pela gentileza se não estivéssemos em público e de volta ao status de relação tensamente indefinida.
— O que irão beber? Aqui eles têm aquele vinho verde que você tanto gostava, belle di giorno.
— Eu quero tinto. Seco. — afirmei olhando para o cardápio, não para ele.
Ouvi-o fazendo o pedido pela garrafa de um dos melhores vinhos da adega, tinto e seco como eu pedira. Os pedidos ficaram para depois, uma vez que ninguém havia decidido o que comer.
Se é que alguém teria paladar para isso.
O garçom havia ido e eu continuei um bom tempo com o cardápio enfiado no rosto, somente como uma desculpa para não olhar para os dois homens. Não me sentia preparada para confrontá-los e ouvir o que tinham para me dizer. Fosse a mais pura verdade ou somente mais uma mentira descarada.
— Lane... — meu pai começou me chamando.
Suspirei e abaixei o cardápio. Mas ao invés de olhá-lo, peguei minha carteira em meu colo e afastei a cadeira.
— Vou ao banheiro. Com licença.
E antes de ouvir suas respostas, já saía andando sobre meus saltos pelo salão. Não sabia em que direção era o banheiro, mas felizmente achei a placa indicando que seguia o caminho certo. Entrei no cômodo de mármore claro com iluminação enfraquecida e logo me apoiei em uma das pias. A sensação que tinha era de falta de ar e fraqueza.
Ao olhar para meu reflexo, encontrei-me pálida e aterrorizada. Se antes não tinha certeza se vir a esse jantar era uma boa ideia, agora tinha certeza que não. Porque, por mais que precisasse e ansiasse para que esse véu de fingimento caísse e me deixasse na luz, talvez eu não estivesse pronta para isso. Sentia que carregava muitos fardos e meu emocional e físico estavam esgotados por, principalmente, o plano para o baile. Eu estava focada e concentrada nele, anestesiando tudo ao meu redor. Mas veio essa descoberta acidental que teve a sensação de um balde de água fria em mim, trazendo-me de volta à realidade.
As mulheres passavam e me olhavam esquisito e até feio. Sabia que, no meio dessa gente esnobe e metida, nunca encontraria palavras de educação ou preocupação por meu estado, como as clássicas "você está bem?". Portanto, refiz-me e ajeitei as costas. Abri a bolsa e peguei o batom, engrossando a coloração intocada. Arrumei-me em frente ao espelho de corpo todo, ajeitando meu vestido preto da cor de meu humor e alma no momento e me certifique de que meu pulso estava bem escondido antes de voltar.
Babbo e Aaron pareciam conversar civilizadamente. Suas expressões não mostravam nenhum traço de emoção, com o que, a essa altura, já me acostumara. Graças a Aaron, claro. No entanto, quando viram eu me aproximando, calaram-se e ambos puseram os olhos em mim.
— Você está muito linda, belle di giorno. — Babbo elogiou assim que me sentei.
— Obrigada. — agradeci baixo e seco.
Não era assim que pretendia que soasse, mas uma vez que sim, não me senti mal. Ele suspirou e pegou sua taça de vinho.
— Experimente. É um vinho muito bom.
Assenti e peguei também minha taça. Era extremamente seco e forte. Odiava esse tipo de vinho, mas só o pedira por birra, com a intenção de confundir meu pai. Fazê-lo pensar, a partir das pequenas coisas, que não me conhecia mais. Pois, afinal, essa era minha sensação e opinião.
— É bom. — menti sem emoção.
Aaron me olhava sabendo que mentia. Ignorei-o e tomei mais um gole do vinho, já sentindo sua quentura se espalhar por meu corpo e bochechas quando abaixei a taça manchada de batom.
— E como está se sentindo aqui em Nova Orleans? Gosta da cidade?
Levantei os olhos para meu pai, incrédula por suas palavras. Ele não podia mesmo estar pensando que teríamos uma conversa cordial e trivial após tudo.
— Por favor, não aja como se o objetivo deste jantar fosse nós conversarmos sobre como eu me sinto sobre a cidade e minha nova vida como se ela fosse a mais normal e pacata do mundo. Eu vim para saber da verdade e quero que seja direto. Do contrário, me retirar desse jantar torturante e artificial não será nenhum sacrifício.
Babbo me olhou por longos segundos antes de balançar sua cabeça e tomar um gole de seu vinho. Ele estendeu a taça a Aaron, abrindo um sorriso irônico.
— Parabéns. Você realmente a transformou.
Aaron abriu a boca para responder, mas coloquei minha mão sobre seu punho fechado. Ele me olhou, assim como meu pai, que era o meu objeto de observação.
— Ele não me transformou, pai. Você e suas mentiras, junto às dele, me transformaram.
Seus olhos ficaram fixos em mim, procurando por algo. Mantive a seriedade, disposta a não ceder a nenhum olhar, palavra ou gesto seu. Por fim, ele abaixou o olhar e deu uma risada que conhecia nos lábios de Aaron: sem vida e falsa.
— Você nunca me chamou de pai antes.— Eu sei.
Ele suspirou e pegou sua taça mais uma vez, girando-a entre os dedos. Olhava-o paciente e Aaron, que sempre gostava de estar no comando, estava calado, só observando junto comigo. Quando Babbo levantou os olhos para o homem ao meu lado, havia frieza e mistério.
— Quer fazer as honras?
Aaron suspirou e eu me voltei a ele. Minha mão continuava em cima da sua, agora esticada e relaxada na mesa. Ele as olhou antes de pegar a minha na sua e fechar. Isso me surpreendeu. Aaron não era de demonstrar carinho, ainda mais em público. Meu pai percebeu o gesto, olhando-o com a cara fechada e certo desgosto.
Fingi não ver seu semblante e me foquei em Aaron encarando a taça de vinho em sua mão.
— Eu precisava de aliados para derrotar Callum. Mas a maioria dos traficantes do país já estavam do lado dele e a outra do meu. Consegui "roubar" alguns, mas ainda não era o suficiente. Então eu decidi procurar ajuda fora.
— Aaron veio até mim, e para sua sorte, Don Mantovani e eu estávamos interessados em forjar aliança com alguém daqui.
— E como eu entrei nesta história?
Os dois se entreolharam e Aaron soltou minha mão, bebendo o resto de sua taça. Voltei-me para meu pai e ele parecia impassível.
— Isso foi sugestão de Aaron. Ele queria que tivéssemos uma aliança mais... forte. Então sugeriu que se casasse com uma de minhas filhas.
— E você permitiu isso assim? — debochei.
— Eu fui contra no começo. Mas depois de muito analisar, pensei que fosse o melhor para você. Eu nunca permitiria que se casasse com alguém comum, mesmo que esse realizasse seu conto de fadas. Eu gostaria de poder, mas agora você sabe que tenho muitos inimigos e se eu deixasse você sem segurança, ou tivesse que ser o mais discreto possível sobre eles, se tornaria um alvo fácil contra mim. E Aaron, apesar de tudo, lhe daria toda a segurança que precisasse. Além de que, aqui, longe de casa, sua segurança seria maior também.
Balancei a cabeça, fechando os olhos com força. Não estava engolindo aquela estória e não acreditava que eles esperassem que eu fizesse exatamente isso. Eu sabia, eu sentia, que eles mentiam. Babbo pensava que eu não o conhecia e estava certo; mas havia uma única coisa que vira durante todos os anos nele e que aprendera a reconhecer muito bem. E reconhecia-a agora com facilidade. Ele estava me olhando com zelo e auto decepção por me desapontar. Porém, havia também aquele ar que não conseguia explicar, mas via em todos os seus olhares para Don Mantovani em suas conversas. Era pesado e leve ao mesmo tempo, e por mais que parecesse verdadeiro, havia certa apelação para que assim fosse, que o desmentia todo.
Resumidamente, eu sabia que ele mentia por sua expressão.
Levantei-me abruptamente da mesa e peguei minha bolsa, vestindo meu casaco. Aaron e meu pai me olharam assustados.
— Eu disse que não hesitaria em ir embora caso não fosse sincero.
— Lane, querida, eu sei que a verdade é forte, mas...
— Mas eu não sei! — gritei, descontrolando-me. — Porque você não está a dizendo.
Todos no restaurante se viraram para mim com os narizes tortos, não agradados com a cena. Não liguei. Fiz menção de sair de novo e Aaron segurou em meu pulso. Meu olhar para ele foi de pura raiva.
— Não ouse. — silabei entredentes.
Dei um tranco em meu braço antes mesmo que ele pudesse me soltar e saí clicando sobre os saltos até a porta de entrada, sentindo os olhares de todos em mim.
A noite estava fria, apesar de ser uma estação quente. Abracei-me mais ao casaco e me perguntei que diabos faria agora. Conhecia a cidade melhor do que a onze meses atrás, mas ainda me perderia fácil por aqui. A única certeza que tinha era que não voltaria àquele restaurante para ouvir mais mentiras e ver mais dissimulação.
Então meus olhos foram para o outro lado da rua e minhas ideias clarearam.
Caminhei pelo asfalto enquanto os carros ainda estavam longe e circulei os portões de ferro até a entrada. Surpreendendo-me, não estava trancado. Empurrei-o, ouvindo-o ranger e entrei na escuridão. Abri a bolsa e peguei o celular, ligando a lanterna para começar a avançar.
Todos os detalhes das tumbas me fascinavam. Os mausoléus que pareciam verdadeiras "casinhas", por assim dizer, eram cheios de detalhe e esmero. A cidade de Nova Orleans era famosa pelo Jazz, o Mardi Gras, o voodu e os cemitérios. Esse último contava mais de trinta espalhados pela cidade, e todos tinham uma história particular para contar. E o Cemitério Lafayette não era diferente.
Entrei em um corredor, visando sair do principal e da visão das pessoas na rua. Os mausoléus ali não eram menos majestosos e alguns tinham direito até a esculturas de querubins e figuras mitológicas. Apontei a lanterna para os detalhes e os observei com cuidado. Era perceptível o contraste que o tempo dera ao mármore, o granito e as outras pedras dos túmulos; mas o que poderia parecer decrépito e depreciativo, era simplesmente encantador e fascinante para mim. As raízes de plantas enroscando-se nas paredes e no chão, as rachaduras aqui e ali, a opacidade dos mausoléus, tudo dava um glamour, uma intensidade, que eu não conseguia explicar.
Cemitérios sempre me acalmaram. Desde minha infância, ouvia o temor nas vozes de crianças e até adultos ao falarem sobre eles. Eu os temia também, seguindo suas opiniões, até estar de fato em um. A partir dali, descobri que não havia lugar mais calmo que um cemitério para se pensar. Ainda mais um lugar tão histórico e isolado numa cidade e país louco e agitado como este.
Passei olhando os nomes nas tumbas e um me chamou a atenção. "Giordano" estava gravado em cima de um portão ornado e enferrujado de ferro. As letras eram delicadas e marcadas na pedra nobre. Não era um sobrenome incomum na Itália, mas do outro lado do globo, talvez. Atiçada pela curiosidade, empurrei os portões, que rangeram ainda mais do que os de entrada. Uma vez dentro, senti o cheiro agridoce de decomposição juntamente ao de mofo. Olhei em volta e vi somente um túmulo erguido no meio da sala espaçosa. As paredes de pedras tinham rosas entalhadas de modo a enfeitá-las, mas o desgaste do tempo tirara um pouco da graça original. O chão que antes fora liso e limpo era coberto de poeira e gordura. Ao fundo, havia um grande vaso com flores agora mortas, que davam o aroma ao lugar. Todos estes detalhes foram ofuscados pelo túmulo que parecia me chamar até ele.
Coloquei-me ao lado e observei que, por cima da tampa de mármore, havia palavras entalhadas. Porém, a poeira me impedia de lê-las. Passei os dedos a fim de limpá-la, sem me importar em sujá-los.
— Ninguém lhe disse que não deveria andar sozinha por esse cemitério à noite?
Dei um pulo para trás, colocando as mãos sobre meu coração acelerado. Voltei o celular para a porta e o vi. Aaron estava na porta com as mãos abaixadas. Em uma delas, seu celular voltava a lanterna para baixo. Estava tão concentrada, que não notei o brilho de outra lanterna. Olhei em sua face e a mesma estava séria e inelegível.
— Esse cemitério é conhecido por relatos de atividades paranormais. Até na luz do dia. Muitos se cagam de medo só em ouvirem as histórias.
— Eu não sabia disso. Ou se esqueceu de que se certificou que ficasse muito bem trancada na mansão e só saísse de lá contigo ou para o shopping com um comboio de seguranças?
Ele não mudou a expressão, apesar de ter cruzado os braços. Suspirei e me voltei ao túmulo de novo.
— De qualquer forma, não veremos nada aqui. Isso são só histórias.
— Não é você que é cheia da fé? Pensei que na sua religião houvesse os dois lados da moeda.
— Há. Mas não sei se acredito nos dois. Na verdade, nem sei se acredito em um.
— Está tentando me dizer que acordou para vida?
Virei-me para Aaron e encarei-o com os dedos sujos e encostados na pedra fria. Ele debochava, abandonando completamente a postura passiva e quieta de minutos atrás.
— Sim, Aaron. Eu acordei e percebi que Deus sempre estará lá, mas não é uma fada madrinha que me trará meus desejos e preces em um piscar de olhos. Porque se fosse assim, esta não seria a vida que levaria.
Sua expressão foi como a de quem levou um tapa na cara. Não me demorei nela e rapidamente voltei a raspar as sentenças na tampa. Logo sentia seus relevos até conseguir lê-las. Aproximei a lanterna, usando o dedo para guiar minha leitura.
"Mia Valenti.
Gli angeli cantano al vostro arrivo al cielo e il diavolo tenere lontano dal tuo cammino."
A frase pareceu me atingir de uma maneira inexplicável. Faziam todo e nenhum sentido.
— "Que os anjos cantem sua chegada aos céus e que o diabo mantenha distância de seu caminho".
Virei a cabeça e encontrei Aaron um pouco atrás de mim, inclinando a cabeça sobre meu ombro para ler a frase iluminada pelo celular.
— Não faz sentido... — murmurei, passando os dedos pelo nome gravado.
— O que não faz sentido? — perguntou.
Sentia seus olhos atentos em mim.
— A entrada do mausoléu diz "Giordano". Mas aqui diz que a dona do túmulo se chamava "Valenti". Algo está erro.
— Vai ver colocaram a morta errada aí... — sugeriu, dando de ombros.
Balancei a cabeça, negando. Meus olhos estavam focados nas gravações. Elas pareciam ficar mais fundas e íntimas cada vez que meus dedos passavam sobre elas.
— Não é isso. Acho que é alguma história do passado. É algo sobre ela.
— Tipo?
— Não sei. Talvez ela amasse e fosse amada por um homem, mas morreu antes de poder se casar com ele. Então a colocaram no mausoléu da família. Mas ele, indignado pela morte precoce da amada que nunca pôde ter como esposa, quis se despedir dela podendo chamá-la ao menos uma vez de sua. Então colocou seu sobrenome junto ao nome dela na tampa do túmulo.
Ouvia a respiração pesada de Aaron em meu ouvido. Esperei pela risada, pelo deboche, pelo divertimento com minhas palavras tolas. Mas nada disso veio. Ele somente se aproximou e se colocou ao meu lado, encarando a tampa. Seus dedos também deslizaram pelas palavras, tornando-se engordurados e pretos de sujeira.
— Mas ele a chamou de sua. — murmurou, levantando os olhos para mim.
Olhei-o confusa antes de ele abaixar o olhar para seus dedos e eu fazer o mesmo. Seu indicador estava bem abaixo do primeiro nome dela: "Mia". Minha. Aaron estava certo. Ele a chamou de sua. Ele sempre a chamou de sua.
Engoli em seco e olhei novamente para ele, recebendo um olhar de volta. Seus olhos estavam intensos e escuros. Mas eles eram assim. A diferença é que não era o negro habitual ou o que o tomava durante a excitação. Era a escuridão que poucas vezes vira. Era a que menos compreendia e mais desejava que pudesse. Seus olhos pareciam envoltos por camadas de sentimentos, confusões, pensamentos e emoções que ele mal entendia também. Mas havia um, um único e minúsculo mistério daqueles que me chamava a atenção de cara e me prendia mais do que qualquer outro podia. Eu só não sabia, no entanto, defini-lo.
Aaron aproximou-se mais de mim e colocou a mão em minha nuca, colando nossos lábios num calmo e delicioso beijo. Eu poderia ter facilmente empurrando-o para longe, mas não queria. Aceitei seu gesto e o correspondi de bom grado. Porque por mais que tentasse negar, seus beijos e ele sempre seriam algo que desejaria.
— Eu sinto muito por seu pai.
Sussurrou após se afastar e nos dar tempo para respirar. Abri os olhos, surpresa pela segunda vez na noite com ele. Mas ao encarar sua expressão intensa, suspirei e abaixei as pálpebras de novo. Senti sua mão subindo por meu pescoço até estar em minha bochecha, afagando-a.
— Por que ele mentiu de novo?
— Ele não está preparado para dizer toda a verdade ainda, Lane. Nem eu. É muito complicado para você entender. E mesmo que ele não seja a pessoa que imaginou, ele ainda se importa contigo. Não quer que saia magoada ou ferida. Nenhum de nós dois quer.
Abri os olhos e vi a veracidade de suas palavras neles. Não que tivesse duvidado delas só ao som de sua voz: acreditara nele mesmo de olhos fechados.
— Um dia irá me contar tudo?
— Eu nunca faço promessas, Lane. Você sabe.
Assenti, sentindo um inesperado desapontamento, apesar de já esperar por isso.
— Mas eu prometo que, um dia, saberá de tudo.
Seu corpo pareceu se aproximar mais do meu e nossos olhos estavam tão próximos quanto nossas bocas. Via a honestidade e a urgência para que acreditasse nele.
— Não prometo por Deus, por minha mãe ou por qualquer outra merda. Prometo por você, prometo para você.
Engoli em seco e balanceio a cabeça rapidamente, querendo apagar o seu desespero visível. Encostei nossas testas e peguei em sua nuca, acarinhando-a. Nossas respirações pesadas e puxadas do fundo do peito se colidiam e batiam na face um do outro. Seu polegar fazia movimentos circulares em minha bochecha carinhosamente.
— Mia Lane. Mia.
Suas palavras bateram em meu rosto num fiapo de respiração e me arrepiaram. Palavras simples, com uma intensidade imensurável e genuinidade inegável. Seus olhos só acentuavam tudo, balançando-me ainda mais. Ele sabia e eu sabia que...
— Il tuo. Solo tuo.
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