Strada Per L'inferno
17 Touché
Notas iniciais
Acordei lentamente com o som de vozes cochichando ao fundo. Abri os olhos aos poucos e me deparei em meu quarto. Quero dizer, o quarto que dividira com Henry na mansão. Eu estava deitada na cama com camadas de cobertores e lençóis me mantendo aquecida, já que só vestia a lingerie da noite anterior. A janela estava fechada impedindo a entrada de uma corrente de vento e a cortina também se encontrava fechada, mantendo uma escuridão agradável no cômodo. Eu me lembrava de ter sido carregada até o quarto por Henry na noite anterior, já que eu adormecera no carro. Os cochichos que eu escutara assim que acordei vinham do corredor, captados por meu ouvido graças à porta encostada. Quem conversava era Henry e Miranda.
–Você tem que contar tudo a ela, meu filho! Quantas vezes eu tenho de repetir que a pobre coitada tem o direito de saber? – Miranda sussurrava exaltada, encarando o filho.
Eles estavam frente a frente, mas eu só os via de perfil.
–E quantas vezes eu vou ter de repetir que é melhor ela não saber de nada? – Henry argumentava no mesmo tom da mãe.
–Meu filho, ela já desconfia e sabe do começo da linhada! Você não pode simplesmente inventar uma lorota qualquer e depois manda-la de volta para aquela casa no interior! Ela vai vir, com toda a certeza, atrás de você de novo a procura de respostas condicentes, se ela for para lá pra começar! E se ela voltar atrás de respostas, dessa vez, ela pode flagrar muito mais do que dessa ultima vez. Ela não é tão ingênua assim quanto você pensa, querido! – Insistiu Miranda cansada.
–Mãe, isso tudo não é lugar para ela! Se fosse, a mentira não teria começado na família dela...! – Insistia Henry.
Tinha um pressentimento que o tema da conversa era eu. Fiquei mais curiosa ainda para ouvir a conversa, seguindo, claro, meu instinto que dizia que eu era a tal “ela” da discussão.
–Além do mais – Henry voltou a falar, aparentando irritação – Você viu como ela reagiu quando viu só uma amostrinha do que é: saí por aí igual uma desvariada e me fez virar a cidade do avesso pra descobrir ela num puteiro sendo quase estuprada por um idiota. Além do que, me fez matar uns dez e quase matar mais um aos socos! Ela é fraca, mãe. Ou vai tentar fugir pro paizinho de merda dela ou vai me enlouquecer com perguntas e me fazer dar um fim nela!
Engoli em seco, tendo certeza ser o tema da conversa. Pegara-me desprevenida essa fala de Henry, magoando-me mais do que eu deveria permiti-lo fazer. Senti lágrimas se formaram atrás de meus olhos, mas não permitiria que estas escorressem. Poderia ser fraca, mas com certeza também orgulhosa. Ouvi Miranda argumentar com o filho, mas não prestei atenção às palavras em si. Sentia-me mal e, por mais que estivesse provando a Henry ser exatamente o que ele dissera de mim, joguei as cobertas para o lado e sentei-me na cama, como intuito de catar minhas coisas e sair dali. Porém, o barulho que exerci ao executar essas ações foi alto o suficiente para despertar a atenção de Miranda e Henry. Levantei-me da cama no momento que a porta do quarto era aberta e ambos entravam no quarto, assustados e supressos.
–Querida, você acordou! – Miranda sorriu sem jeito – Mas, não é melhor voltar à cama? Deve estar cansada e fraca por...
–Não, Miranda, eu estou bem, obrigada – Agradeci da maneira mais educada que pude indo ao mancebo pegar um robe.
Estava na dúvida se o robe permanecera ali todo esse tempo ou se fora posto ali a pouco com a intenção de que vestisse assim que despertasse.
–Querida, você deve estar com fome, não acha melhor eu lhe trazer o café e você toma-lo na cama? – Miranda voltou a sugerir, o nervosismo oculto em sua voz.
–Eu estou bem, Miranda. Muito obrigada, mas não precisa – Voltei a afirma, tirando meus cabelos de dentro do robe.
–Se você está bem, então você pode ir com suas próprias pernas até a cozinha tomar café – Henry concluiu com um tom frio e firme.
–Ou eu posso andar porta a fora dessa casa e fugir para meu paizinho – Olhei-o severa, com as palavras sendo cuspidas de forma dura e magoada.
Miranda gelou em seu lugar, olhando ao filho. Henry, do contrário, encarava-me encostado no batente da porta, com uma expressão corporal serena em contraste com os braços cruzados e os olhos frios. Ele parecia querer matar-me somente com o olhar, mas tudo que fez foi molhar os lábios. Eu, do contrário, estava nervosa, com os punhos fechados fortemente o suficiente para esbranquiçar minhas juntas.
–Mãe, você pode ir até a cozinha e pedir para preparam o café de Lane? – Ele pediu a mãe, sem desviar seus olhos de mim.
Miranda, que estava com os cabelos presos num coque frouxo e aparentava cansaço, com olheiras enormes e a boca seca, olhou de mim ao filho e suspirou.
–Claro, voltarei logo com uma bandeja para você, querida – Ela sorriu-me fraco e olhei-as, sorrindo da mesma maneira e assentindo.
Ela foi à porta e parou, encarando o filho. Não pude ver que tipo de olhar enviou-o, mas pude ver os olhos dele rolarem e ele sair para o lado, dando-lhe passagem. À saída da mãe, ele fechou a porta, voltando novamente sua atenção a mim. Ele voltou a cruzar os braços, me olhando de perto da porta enquanto eu o encarava tentando controlar a raiva e a sensação de nervosismo.
–Você vai responder minhas perguntas ou serei mandada de volta para aquele fim de mundo? – Finalmente me pronunciei, quebrando o silêncio afiado e gelado como estacas de gelo.
–Você vai voltar à cama ou vai ficar parada aí como estatua? – Ele respondeu-me com uma pergunta indiferente.
–Vai fazer alguma diferença?
–Tirando o fato que seu robe está entreaberto, deixando aparecer sua lingerie e isso está me desconcentrando, não – Ele respondeu sem emoção, dando de ombros, descendo os olhos por meu corpo.
Olhei para meu robe e de fato estava entreaberto mostrando parte de minha lingerie e corpo. Corei de leve e passei minha mão na frente da peça, fechando-a e levantando a cabeça sem jeito. Henry olhava para meu rosto, mas ainda indiferente e com a mesma postura. Suspirando, andei até a cama e tirei meu robe, sentando-me e puxando rapidamente as cobertas a mim. Henry soltou um riso pelo nariz, sem vida.
–Agora você vai falar? – Perguntei a ele, cruzando os braços.
–Depende do que você quer saber – Ele respondeu calmo, botando as mãos no bolso.
–Tudo – Fui direta, sem hesitar.
–Tutto è molto, il mio amore – Ele sorriu frio, sem vida com seu deboche habitual.
Estreitei meus olhos a ele, mas este não parou de olhar-me com deboche e seu ar de que sabia algo que eu não. Ou muitas coisas que eu não sabia. Virei minha cabeça e olhei para o outro lado, lembrando instantaneamente da noite do assalto a casa. O vidro estilhaçado no chão de madeira, o vento balançando as cortinas com suas brisas frias, e principalmente, um par de olhos ocultos na escuridão. Arrepiei-me involuntariamente e voltei a olhar para Henry, que já não sorria. Invés disso me observava atento.
–Você mandou concertar a janela – Comentei.
–Não poderia dormir com uma rajada de vento no quarto – Ele respondeu debochado.
–Será que algum dia você me dará uma resposta direita? – Perguntei irritada por suas respostas sempre zombeteiras, frias e irônicas.
–Um dia quando eu estiver com muita paciência... – Ele deu de ombros.
–E eu posso fazer o que eu fiz para tirar sua paciência? – Perguntei endireitando-me na cama.
–Que tal me fazer procurar por você pela cidade toda durante três malditos dias para encontrar...
–Espera, eles me apagaram por três dias? – Cortei-o surpresa.
Ele não pareceu feliz em ser interrompido.
–Não acho que eles já tinham em mente que iam encontrar uma garota na rua que fosse burra ou ingênua o bastante para cair no papo deles e já terem em mente o plano de vendê-la pra um babaca qualquer – Ele comentou sarcástico, sua expressão dura como pedra.
–Acordei de madrugada e deduzi que não passara tanto tempo... – Comentei inocente, ignorando seu comentário grosso.
–Bom, foram três dias para achar somente a sua maldita bolsa e o carro. Sem a chave, aliás. Ainda bem que eu tenho a reserva... – Ele comentou a última parte mais para si do que para mim como um consolo.
–Então eu desapareço e você se preocupa com a chave? – Perguntei, sem me conter.
–Aquele carro saiu caro demais e está intacto demais para não ser mais usado só porque você perdeu a chave... – Ele comentou, dando ênfase ao assunto como se fosse de extrema importância.
Bufei e abaixei a cabeça, sem dizer nada. Olhei para minhas mãos, agora jogadas nas cobertas em meu colo. Passei os dedos pelo tecido macio e grosso, recriando por eles os desenhos da estampa.
–Então aquela preocupação comigo naquele... Lugar horrendo foi mais uma farsa para a sua lista? – Perguntei baixo, sem desviar meu olhar dos cobertores.
–Finjo tão bem que você não sabe quando atuo ou falo a verdade? – Ele pareceu num misto de orgulho e ironia.
Levantei os olhos, olhando-o séria e suplicante por uma resposta direta.
–Fui uma das únicas vezes que fui sincero com você – Ele admitiu, sem mudar de postura.
Assenti agradecida pela verdade, abaixando o olhar. Por dentro, sentia-me mais leve por saber que alguma vez o vira ser sincero e contente por vê-lo ser alguma vez gentil para comigo.
–Então você admite que mentiu para mim? – Perguntei retoricamente, após segundos de silêncio.
–Só se você achar uma desculpa melhor para a mudança entre engomadinho e isso... – Ele apontou para si mesmo.
Voltei a subir o olhar a ele, pedindo seriedade com os olhos.
–Sim – Ele disse exasperado.
–E agora você pode me dizer a verdade? – Pedi beirando a suplica – Porque sinceramente, eu não sei quem você é: se é aquele cara que foi até minha casa e pediu minha mão usando roupas formais ou aquele... Vadio que estava se agarrando a uma garota na minha frente há três dias – Admiti sincera.
Ele abriu um sorriso irônico ao dizer:
–Touché.
Fale com o autor