Strada Per L'inferno
18 Tudo em você me atrai
Notas iniciais
–E então, eu mereço a verdade? – Perguntei calma.
–Bom, na verdade não... – Ele disse calmo e sarcástico – Não acho que fugir, confiar nas pessoas erradas, ser leiloada e quase ser estuprada, além de me fazer procurar por você em toda a cidade como um louco e quase desfigurar um cara de tanto bater em um cara, seja merecer...
–E você me diria a verdade se eu tivesse esperado você terminar de beijar uma garota numa casa cheia de outras garotas agarrando homens como se fossem os últimos pedaços de carne do mundo? – Respondi interrogando-o a altura, sem perder a calma.
–Provavelmente não... – Ele respondeu despreocupado, franzindo o cenho.
Ele passou as mãos nos cabelos e abaixou a cabeça, rapidamente voltando à posição anterior.
–Você não iria acreditar na verdade, Lane – Ele sorriu-me de lado, frio e sarcástico – Além também de que não é seguro lhe contar. Você iria correndo para seu “babbo” no instante que terminasse – Ele acrescentou dando de ombros.
Respirei fundo, voltando a não me agradar a maneira como ele se referia a mim e a babbo.
–Por que você não tenta? – Sugeri e ele levantou uma sobrancelha – Babbo está à milhas daqui e você é a única pessoa que tenho. Querendo ou não.
Henry analisou-me por um tempo antes de dar de ombro e abrir um sorrisinho arrepiante.
–Tudo bem – Ele disse levantando as mãos ao alto, em rendição – Se você insiste.
Ele andou até o closet, encostando-se ao portal do mesmo. Ele cruzou os braços e olhou para o teto e eu me ajeitei na cama esperando a resposta dele. Ele abaixou a cabeça e olhou-me tranquilo, sorrindo levemente de lado.
–Para começar meu nome não é Henry. É Aaron. Aaron Drew Walker – Ele comentou na maior calma.
Meus olhos piscaram sequencialmente e meu queixo. Estava tão chocada por descobrir que a única coisa que tinha certeza conhecer sobre ele era mentira também.
–Você... Mentiu sobre seu próprio nome? – Perguntei chocada.
–Foi necessário – Ele deu de ombros como se fosse algo usual.
–Necessário como? – Perguntei não entendendo.
–Necessário para ganhar a confiança de seu pai – Ele respondeu tranquilo.
–E mentido seu próprio nome você teria mais chances? – Levantei as sobrancelhas.
–Bem, eu acho que pai nenhum concederia a mão da filha a aquele cara que você viu a três dias que se vestisse desse jeito e ainda fosse metido com o crime – Ele observou a pontando a si mesmo – A não ser que o pai esteja querendo se livrar da garota ou querendo vende-la para alimentar algum tipo de vicio – Ele completou sarcástico.
Não achei a mínima graça, porém tinha de concordar com ele. Babbo nunca daria minha mão em casamento àquele Henry. Ou melhor, a Aaron. A um homem infiel com aparência de bad boy e... Metido com o crime?
–Espera, você disse que era metido com o crime? – Perguntei calmamente torcendo para ser engano meu.
–Sim – Ele confirmou natural.
–Metido quanto? – Perguntei engolindo em seco a informação.
–Metido até o pescoço.
Encarei-o com a expressão aboba. Ele riu baixo de minha cara, balançando sua cabeça.
–Lane, você estava mesmo acreditando que toda a minha grana vinha de um negócio de família? – Ele perguntou divertindo-se, levantando uma sobrancelha.
Não o respondi e ele abriu um sorriso maior.
–Foi o que eu pensei – Ele comentou vitorioso.
Abaixei a cabeça, mirando minhas mãos em meu colo. Uma lembrança, do nada, aflorou em minha mente.
–Uma vez – Comecei a falar com a cabeça ainda baixa – Eu ouvi um barulho no piso de baixo e fui ver o que era. Achei que eram bandidos, mas encontrei você e seus amigos rindo e conversando sobre mim e sobre eu não desconfiar de nada em relação a você chegar tarde e tudo o mais – Levantei meu olhar, encontrando o seu castanho – Era sobre o seu trabalho que discutiam?
Ele abriu seu sorriso frio que a essa altura, já me era familiar.
–Eu sabia que não ouvia coisas... –Ele comentou mais pra si do que para mim, sorrindo presunçoso – Você quer a verdade ou a versão mais leve dela?
–A verdade vai doer-me? – Perguntei hesitante, encarando-o da mesma maneira.
–Depende – Ele encolheu os ombros, sorrindo arrebatadoramente.
–Então eu quero arriscar-me – Optei convicta.
Ele sorriu uma vez mais frio, dando de ombros como dissesse “A opção é sua”.
–Estávamos falando sobre meu trabalho, mas também sobre as mulheres que costumam cercar a mim e a ele – Ele respondeu numa calma que parecia ser calculada a machucar-me.
–Cercam de que forma? – Perguntei inutilmente, uma vez que sabia muito bem a resposta.
–Você quer mesmo que eu responda? – Ele levantou uma sobrancelha.
Neguei com a cabeça, abaixando-a. Não me envolvera com ele o suficiente para dizer que me doía vê-lo com outras. No entanto, não era cética ao ponto de negar que ainda assim sentia-me traída ao saber de suas relações paralelas.
–Com o que... Você trabalha? Especificamente – Perguntei olhando para a colcha de novo.
–Tráfico de drogas. Mas tenho também boates de prostituição e roubo bancos uma vez ou outra – Ele respondeu naturalmente.
Levantei meus olhos, encarando-o perplexa.
–Você trabalha com o tráfico? – Perguntei pausadamente.
–Na verdade, eu controlo o tráfico – Ele corrigiu – Na maior parte do tempo, pelo menos.
–Você controla o tráfico? – Perguntei piscando.
–Você ouviu bem para eu ter que repetir – Ele observou frio.
Virei a cabeça, olhando para o chão a direita. Era tão surreal processar que o que acabara de ouvir de sua boca.
–Você disse que... Trabalha também com... – Interrompi-me, engolindo em seco e abaixando a cabeça a meu colo – Boates de prostituição.
–Aquela da qual eu te resgatei não era minha – Ele respondeu-me parecendo ler meus pensamentos – Era uma casa de leilão de mulheres. As que não são compradas acabam sendo forçadas a se prostituir numa boate anexada. As minhas boates não são casas de leilão. E as minhas prostitutas estão lá porque querem.
Arregalei meus olhos, subindo meu rosto para encara-lo. Ele riu de minha expressão. E o som de sua risada, de uma maneira estranha, acalmou-me. Por mais fosse chocante ele ter boates e prostitutas, era um alivio saber que não fora quase estuprada graças a um negócio dele. Sorri de lado ao passo que sua risada e sorriso morriam e sua expressão tornava-se de novo fechada à procura de novas dúvidas minhas.
–Uma coisa que não entendi – Retomei a conversa olhando a meu colo e apagando o sorriso – É o porquê de você ter tido tanto esforço para não ser quem você é somente para ganhar a aprovação de meu pai para casar comigo...
Subi os olhos a ele, encarando-o fixo em seus olhos.
–... Porque eu sei que não é por você sentir atração por mim ou qualquer sentimento do tipo – Conclui serena.
Aaron abriu um sorrio de lado, frio e ao mesmo tempo canalha.
–Ma è qui che ti sbagli, amore mio – Ele abriu mais o sorriso – Ogni parte del tuo corpo mi attira; ardente di desiderio ogni volta che la vedo.
Arrepiei-me, puxando as cobertas para mais junto de meu corpo. Aaron soltou uma risada boa com meu gesto. Uma risada verdadeira, calorosa. Podia jurar que os pelos de meu corpo enrijeceram ao seu som tão humano.
–Mas sim – Ele voltou a falar, após parar de rir e recobrir a ironia e seriedade – Eu não me casei pelo fato de você ser atraente.
–Você se casou comigo por que então? – Perguntei levemente corada.
–Bom, uma vez dentro da família, minha entrada na máfia seria mais fácil... –Ele deu de ombros.
–Máfia? – Repeti sem entender. Ou pelo menos não querendo – Como casar-se comigo iria ajuda-lo a se meter em mais... Ilegalidades?
–Ajudaria porque você é filha de um “ilegal” da máfia italiana – Ele argumentou com um sorriso vitorioso estampado.
As palavras deixaram minha boca, ficando somente a incredulidade e descrença em suas palavras em minha cabeça. Filha de um “ilegal”... Babbo não era metido com essas coisas. Ele era um homem honesto. Ele tinha de ser.
–Você ficou louco? – Foi tudo que consegui dizer após segundos de puro silêncio desdenhoso.
–Bom, não é como se eu não desconfiasse que “babbo” não tivesse lhe contato como obtém a renda familiar... – Aaron riu botando as mãos no bolso – Bem, Lane, “babbo” e Don Mantovani são integrantes da máfia. Na verdade, eles são a máfia.
–Você enlouqueceu de vez! – Concluiu em voz alta.
–Na verdade, não – Ele negou calmo – Eu só estou lhe revelando àquilo que seus pais te esconderam a vida inteira. Ou você acha que seu “babbo” nunca te deixou sair de vista porque era só muito protetor? Ou preferiu te arranjar um casamento arranjado com um cara rico, “herdeiro de um negócio prospero de família” com seguranças na casa porque era somente um bom casamento?
Não o respondi. Somente balancei a cabeça em negação, fechando os olhos e contraindo fortemente os lábios. Joguei as cobertas para o lado assim que parei com meus movimentos e botei minhas pernas para fora da cama, levantando-me. Peguei o robe ao pé da cama e vesti-o sob o olhar atento dele.
–Aonde você vai? – Ele perguntou quando passei por ele e entrei no closet.
–Vestir-me e ficar o mais longe o possível de você – Respondi-o fechando meu robe – Você é louco.
Senti um puxão forte em meu braço e ele girou-me, deixando-me virada a si. Sua expressão não era mais debochada. Era perigosamente fechada. Seu aperto ao redor de meu braço era forte o bastante para conter-me, mas não o suficientemente forte para machucar-me.
–Eu não estou louco, Lane. Eu estou lhe dizendo a verdade – Ele silabou irritado – Pare um pouco de acreditar nas mentiras de seu pai que tornavam sua vida “perfeitinha” e pense. Você acredita mesmo que toda a fortuna que se pai fez foi honesta? Você nunca ousou pensar o quão estranho era o modo como ele e Don Mantovani agiam? Ou como parecia que você nunca estava sozinha, aonde quer que fosse?
Olhei-o e nos olhos. Pela primeira vez, não via a nuvem nublada que os pairava. Ele parecia estar sendo totalmente sincero pela primeira vez desde que o conhecera. Virei meu rosto bruscamente para o lado, não querendo encara-lo mais. As coisas que ele dizia poderiam até ter fundamento, mas eu não queria aceita-las. Já era doloroso demais pensar que seu pai e o homem que você considerava parte de família eram criminosos.
–Eu não quero ouvir mais – Murmurei, não sabendo definir se a mim ou a ele – Eu não quero ouvir absolutamente mais nada.
–Por que, Lane? – Ele perguntou baixo e desafiante, aproximando sua boca mais de minha orelha – Por que a verdade dói, Lane? Por que descobrir que o homem que você idolatra é uma farsa? Que ao longo dos anos ele viveu ganhando seu dinheiro de maneira desonesta? Por que até sua mãe era ciente de tudo e você, a doce e amada filha para a qual ele jurava ser...?
–Pare! – Praticamente gritei, virando meu rosto inundado em lágrimas a ele.
Suas palavras doíam-me. Somadas à fadiga metal e física na qual me encontrava eram insuportáveis para aguentar sem corroer-me por dentro. Ele calou-se e encarou-me. Fechei os olhos com força e deixei as lágrimas molharem mais meu rosto. Elas escorriam sem pudor nem medo. Por fim, entreguei-me à fraqueza e meus joelhos cederam. Só não desabei ao chão porque fui amparada. Aaron segurou-me e puxou-me para cima. Ele botou-me no colo, como na noite anterior, porém não transpassei meus braços por seu pescoço. Deixei-os moles, esparramado por mim ou caído ao ar. Senti ser posta à cama e abri fracamente meus olhos. Fui coberta gentilmente enquanto ele notava-me de olhos abertos.
–Não diz nada, não faz nada. Só fica aí parada – Ele mandou num tom autoritário.
Assenti fracamente e ele se virou, indo a porta.
–Aonde você vai? –Perguntei tão baixo a ponto de ser um sussurro.
–Lembrar-me o porquê de ainda não ter demitido todos esses empregados – Ele respondeu indiferente, abrindo a porta e saindo sem a menor cerimônia.
Encontrei-me sozinha, sentindo-me ligeiramente tonta. Minha pressão baixara, algo que não era de totalmente estranho tratando-se de mim. Fechei os olhos novamente na esperança da tontura passar. Mas pareceu, ao longo dos minutos, que ela estava determinada a não me deixar. Minha cabeça rodava também por tudo que ouvira há pouco. E quanto mais pensava em tudo, mais me sentia mal. Ao fim, ouvi o som da porta ser cuidadosamente afastada e abri lentamente as pálpebras. Miranda entrava no quarto com uma bandeja generosa de café de manhã. Fiz menção de sentar-me, mas Miranda mirou-me um olhar de censura.
–Não faça nenhum movimento, querida. Eu lhe ajudo – Ela manifestou-se prestativa.
Concordei com a cabeça, achando-me fraca demais para argumentar. Miranda botou a bandeja ao meu lado e deu a volta na cama. Ela deu-me a mão para eu sentar-me mesmo eu sendo capaz de fazer isso só. Ela ajeitou também os travesseiros de modo confortável em minhas costas e puxou a bandeja para mim, botando-a em meu colo.
–Prontinho querida. Por favor, coma tudo – Ela pediu como se tivesse três anos, afastando-se.
–Sente-se ao meu lado – Pedi com certo fervor.
Ela sorriu e assentiu, dando a volta na cama. Ela sentou-se na ponta da cama, ao lado de meus pés, observando-me calma. Olhei a bandeja, concluindo ser mesmo bem farta.
–Pedi à cozinheira que preparasse somente coisas saudáveis e ricas em variados nutrientes – Miranda comentou – Depois de tudo pelo que andou passando, achei que um reforço na refeição não seria demais...
–Obrigada Miranda. Parece-me ótimo – Agradeci pegando os talheres e cortando um pedaço de manga descascada.
Levei-os aos lábios e estava deliciosa. Ainda assim, não conseguia aprecia-la bem. Cai em meu estomago como algo insosso e pesado. Não estava com paladar para comer.
–Está ruim querida? – Ela perguntou ao ver minha cara.
–Não, pelo contrário – Sorri-lhe contida – Mas é que não estou como paladar para comer...
–Ah, sim, Aaron disse que está com tontura e fraqueza! – Ela lembrou-se levando as mãos à testa – Creio eu que sua pressão baixou. Mas também, não é de se admirar com tudo que você passou... Espere um pouco, vou lhe pegar um remédio no banheiro.
Ela levantou-se e andou até o banheiro. Ouvi ruídos baixos serem emitidos de dentro do mesmo e logo em seguida Miranda voltou com uma cartela de remédio em mãos.
–Este remédio é ótimo para tonturas e tudo mais. Além de ter um efeito rápido – Ela mostrou-me a cartela – Mas para toma-lo, você precisa comer um pouco mais.
Sorri-lhe e ela voltou a ocupar seu lugar na cama. Consegui, a muito contragosto, comer a manga e tomar uma vitamina que a cozinheira preparara. Miranda cedeu e me deu o comprimido, que foi engolido junto a um copo de água. Após alguns segundos de silêncio absoluto, empurrei a bandeja um tanto em minhas pernas.
–Não vai mais comer, querida? – Miranda perguntou atenciosa.
–Não consigo Miranda – Confessei virando-me para olha-la.
Ela olhou-me pesarosamente, sabendo o que se passava comigo. Seus olhos eram parecidos com o do filho, sendo difícil olha-la sem lembrar-me de tudo que o filho dissera-me.
–Ele te contou tudo? – Ela perguntou após alguns segundos.
–Ele contou-me quase tudo... – Comentei pesarosa – Não suportei e nem suporto supor o que seja tudo.
–Eu sei que é doloroso – Ela passou sua mão a minha perna em sinal de solidariedade.
–Como você suporta? – Perguntei rápido, não me contendo – Digo, como você suporta a ideia dele, seu filho que você criou ensinando-lhe a distinguir o certo e errado, leve uma vida dessas debaixo de seu nariz?
Miranda abaixou a cabeça parecendo momentaneamente ofendida. Percebi o quão rude pode ter soado meu comentário e desculpei-me, porém ela fez um gesto com a mão como se pedisse para eu ignorar.
–Não, querida, você não disse nada errado – Ela levantou a cabeça sorrindo triste – Eu sei que parece absurdo eu aceitar tudo isso, mas é a única maneira de ficar perto de meu filho. E acredite, nada é pior do que um filho longe de você.
Eu assenti mesmo não sabendo com isso seria, mas podendo ter uma vaga ideia.
–Ele disse que é... Traficante – Comentei baixo, voltando meu olhar a minhas mãos – Além de trabalhar com boates de prostituição e assaltos a bancos.
–Sim, ele trabalha com tudo isso junto aos garotos – Ela confirmou tristemente – Você deve ter conhecido Nick dentre todos os meninos, creio.
Concordei com a cabeça sem despregar meus olhos de meu colo.
–Ele também disse... – Fiz uma pausa, descobrindo que me doía dizer mais do que pensava – Que tinha certo envolvimento com as garotas dessas boates... Eu até flagrei-o com elas quando vim para cá.
–Ele contou-me – Ela comentou o mais delicada que pode.
Subi meus olhos a ela, na esperança que pudesse indicar-me algo que me fizesse importar-me menos ou não importar-me de vez. Mas tudo que recebi foi um grande sorriso lamentoso.
–Infelizmente, meu filho não é mais o que costumava ser em termos de fidelidade... – Ela comentou pesarosa.
–Não é mais? – Comentei confusa.
–Oh, não, querida, não sei se é hora de lhe contar coisas desse tipo – Ela balançou a cabeça – Você não está bem, deve descansar agora – Ela levantou-se.
Tirando a bandeja de meu colo e botando-a ao meu lado, Miranda cobriu-me com o cobertor. Logo ela deixou o quarto com a bandeja em mãos. Fechei os olhos sem hesitar, esperando e sendo atendida pelo sono de que tanto precisava.
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