Strada Per L'inferno
42 Sem mais brincadeiras
Notas iniciais
Colin fechou a porta atrás de si. A sala mergulhada no silêncio virou-se ao novo ocupante. Ele acenou com a cabeça a todos num cumprimento silencioso. Senti seus olhos procurarem por mim e assim que me acharam sentada no colo de meu marido, acenou com a cabeça quase imperceptivelmente. Mordo o lábio, sem disfarces, e aceno de volta antes de desviar o olhar. Aaron, abaixo de mim, tinha os olhos grudados ao colega. Eram olhos predadores, no pior sentido da palavra. Semicerrados e o maxilar com certa rigidez, definindo seu desprezo e irritação com a nova presença.
– Podemos começar?
Aaron perguntou a sala em seu tom todo poderoso calmo. O tipo de calma fria que lhe era exigido e invejado. O tipo de calma de anos de treinamentos e de tamanha falsidade que me chegava curiosidade.
Os meninos, Nick, Zack e Colin, ao fundo da sala acenaram positivamente com a cabeça. Dylan, encostado a parede à esquerda, continuou a fixar Caitlin. Ele o fazia desde que entrara na sala. Ela olhava suas costas sem piscar em um olhar doentio se não fosse irritado e observador. Não movimentou nem um único músculo a pergunta de Aaron. Caitlin fechou os olhos e assentiu com a cabeça também, mas ainda mais discretamente do que os meninos.
Ele remexeu-se na cadeira e acompanhei seus movimentos. Seu braço ao redor de minha cintura colava minhas costas a seu tronco. Sua postura era rígida e ereta e um de meus braços estava ao redor de seu ombro, acariciando sua nuca. Podia sentir a elevação tensa dos músculos dos ombros e a rigidez de seu corpo, que relava um pouco ao meu toque.
– Vou ser direto porque todos sabem do que se trata e não temos tempo a perder. – seus olhos, pretos sérios e frios, focaram em Caitlin de queixo elevado e olhar fixo na estante de livros.
– Você aceita nossa proposta, Caitlin?
O ar na sala parecia parado, pesado. Todos tinham olhos fixos e ansiosos em Caitlin. Seu peito subiu e desceu lentamente e o barulho de sua respiração pesada preencheu o cômodo. Ela virou a cabeça e antes de encarar sua face inexpressiva, bati os olhos em Dylan. Ansiedade exalava e vi algo mais profundo e oculto em seus olhos: angústia.
– Eu aceito. – as palavras pelas quais aguardávamos foram proferidas em um contato direto entre Caitlin e Aaron.
Não houve comemorações. Nem suspiros de alívio nem troca de olhares leves após o peso carregados. Na verdade, a temperatura parecia ter caído. Os meninos sorriram tristes e meus olhos se fixaram chocados e admirados em minha amiga. Sabia o autocontrole que lhe era exigido para poder encenar essa pose firme para Aaron, o mais calmo e contente entre todos.
Dylan era o mais devastado, por outro lado. Ele tinha os olhos arregalados e fixava as costas de Caitlin em choque. Ele pareceu notar meu olhar, pois balançou a cabeça em negação e abaixou-a bagunçando os cabelos. Ele desencostou-se da parede para virar de costas, atordoado. Todos se voltaram a ele, menos a figura motivadora de suas ações.
Novamente, como amiga, sabia que todas suas forças estavam reunidas nesse pequeno gesto de não virar o pescoço. A rigidez de seu corpo e seu olhar fixo no nada não eram nada se comparados ao que aconteceria caso encarasse Dylan. Pois ela engana e ele brinca, mas todos sabem que ainda havia algo entre eles. E era mais forte do que ambos supunham.
– Isso não tá certo. – por fim Dylan quebrou o silêncio e a tensão no ar sobre quais seriam suas próximas palavras e ações.
Seus olhos queimaram sobre os de meu marido. E mesmo que soubesse que ele o olhava, a proximidade entre seu foco e eu era grande o suficiente para deixar-me assustada.
– Não vejo nada de errado, Dylan. – Aaron rebateu em sua calma fria e calculada.
Seu tom de calmo voltou a bater na minha porta de curiosidade. Há quantos anos ele a vinha praticando, aperfeiçoando, até chegar nesse ponto? Era algo tão artificial, tão debochado, irritante. Tão... alfa. Aaron era um líder e impunha respeito, além de temor. E um das principais características que lhe davam essa nomeação era seu tom. Por ele, transmitia sua superioridade, inteligência, persuasão. Se o mundo estivesse acabando e não houvesse saída alguma, mas Aaron usasse esse tom, poderia ir atrás de uma solução mesmo sabendo que não existia. Porque havia respeito, admiração, convencimento, e acima de tudo, medo para com ele.
– Nada de errado? Você não pode deixa-la fazer essa loucura! Eu não a quero fazendo isso! Eu a proibir.
Caitlin finalmente virou-se. E seu olhar não foi comovido ou desesperado: foi abismado e furioso.
– E quem é você para mandar em mim, Dylan? Você não é meu pai nem nada meu. Não tem autoridade sobre mim.
– Eu me preocupo com você, porra! Não te quero naquela casa daquele louco com um monte de gente mafiosa por perto. Eu me importo contigo e não quero que nada te aconteça. Eu ficaria louco se sim.
Vi-a engolindo em seco. Dylan encarava-a quase suplicante. Sua voz implorava e meu coração cortava-se com a cena. E o de Caitlin parecia despedaçar-se também. Ela respirou fundo e abaixou a voz, tentando acalmar-se.
– Essa escolha é minha, Dylan. E eu já a tomei.
Dylan negou com a cabeça e esfregou o rosto com as mãos. Ele parecia pensar e nada hesitou quando as abaixo e firmou os olhos em Aaron. Olhos decididos.
– Eu não a quero na equipe.
Caitlin encarou-o total e abaladamente pasmem. A áurea da sala escurece ainda mais. Dylan encarava Aaron a espera de uma reação. O último o analisava pensativo.
– E o que você quer que eu faça? – perguntou Aaron enfim, remexendo-se calmo abaixo de mim.
Minhas costas em seu peito suavam, grudando o tecido a pele. O dia era agradável, mas de maneira nenhuma quente. A sala estava um tanto abafada e ninguém sequer pensava em ligar o ar condicionado. Sua mão subiu ligeiramente a minha cintura e me mexi esparramando os dedos em seu ombro.
– O que eu quero que você faça? – riu sarcástico. – Que a tire da equipe é claro! Você disse que se um da equipe não concordasse com ela, não haveria acordo. Então, eu não concordo.
Um sorriso medonho enfeitou o rosto de Aaron. Seu sorrisinho irônico usado nas piores horas. Aquele sorrisinho que criava surpresa por seu aparecimento nos primeiros segundos, mas depois despertava repugno e raiva. Como um tapa na cara. Não conhecia bem Dylan, mas conhecia os efeitos daquele sorriso e pela expressão em seu rosto, sabia que fora um tapa bem dado.
– Isso foi antes. Se todos não concordassem, não a chamaríamos para propor o que propomos. Mas uma vez feito, só cabe a ela. E ela aceitou, então não posso fazer nada.
Dylan trincou os dentes.
– Claro que não. – rosnou. O lábio superior curvado para cima de forma irritadiça. – Se tivesse concordado com a porra da ideia original, não estávamos aqui discutindo essa merda. Mas a primeira dama é intocável; inimaginável e indiscutível sua participação numa porra dessas.
Ele saiu batendo a porta e deixando-me surpresa e confusa. Olhei a Aaron e ele não parecia tão confuso assim. Ele tendia mais ao irritado, com o maxilar travado. Ouvi o arrastar de cadeira e vi Caitlin de pé em minha frente. Ela arrumou a bolsa no ombro antes de seguir o mesmo caminho que Dylan. Sem o bater de portas, porém.
– Tenso. – Zack assobiou afundando mais no sofá.
Continuava a encarar Aaron. Ele sabia que o olhava, então fechou os olhos e apoiou a cabeça no encosto da cadeira.
– Sobre que plano original ele falava, Aaron? – perguntei calma e firme.
Uma ideia pairava em minha cabeça. E se fosse isso, não tinha certeza se meu humor permaneceria tão bom assim para com ele.
– Acho melhor irmos atrás deles... – Nick disse levantando-se do sofá.
– Não.
Aaron abriu os olhos e disse tão subitamente que assustou-nos. Ele olhava aos amigos e colega à frente. Ignorava-me totalmente, ainda que meu corpo estivesse colado ao seu.
– Ainda temos que resolver alguns detalhes do plano. Com ou sem Dylan e Caitlin.
– Cara, deixa pra mais tarde...
– Concordo com o Zack. Você viu a maneira como os dois saíram. É melhor a gente dar una checada se eles estão bem.
– Estão. – cortou grosso. – Agora...
– Vão atrás deles. – pedi o interrompendo e me dirigindo aos meninos. – Mais tarde vocês voltam com eles e discutem o que seja.
Eles estavam um tanto surpresos comigo e deixavam transparecer. Trocaram olhares entre mim e Aaron, que estava enfurecendo-se com minha atitude. Seus olhos queimavam e sabia que estava a um fio de cometer besteira.
– Podem ir, meninos. – reforcei sorrindo leve.
Fio arrebentando.
– Podem ficar. – Aaron disse entre dentes e apertou minha cintura.
Finalmente olhei-o. Ele estava enraivecido e olhava-me num aviso: ou eu parava de bancar a toda poderosa ou sofreria as consequências. Levantei a sobrancelha.
Aaron ainda pensava que lidava com a velha Lane.
– Eles vão ir descansar e depois voltarão com notícias de Dylan e Caitlin. Ou quem sabe, com os dois em pessoa. – disse calma, abrindo um sorriso falso.
Aaron rosnou entre dentes. Levantei-me e andei até a porta. Abri-a e olhei dos meninos para Aaron.
– Então, o que vai ser querido marido? Eles ou eu?
– Lane, não precisa... – Nick começou a dizer, mas interrompi-o ao levantar a mão.
– Ainda estou esperando, Aaron. – apoiei-me a maçaneta.
O lábio de Aaron tremeu de raiva. Ele afastou a cadeira e levantou-se. Seus olhos queimavam de cólera enquanto ele andava até mim e parava em minha frente.
– Vamos conversar.
Sorri forçada e sai com ele atrás fechando a porta. Andei até a sala e parei atrás do sofá.
– Que porra você pensa que tá fazendo? – pegou em meu braço e puxou meu corpo.
Nossos rostos ficaram a centímetros. Seu hálito de cigarro batia em meu rosto e ele apertava bem seus dedos em meu braço. Mordi o lábio, contendo um gemido de dor e um rosnado de raiva.
– Me solta, Aaron.
– Quem você acha que é pra poder me desmandar na frente de minha equipe?
– Que plano original era esse que o Dylan estava falando? – levantei a sobrancelha
– Não muda de assunto...
– Mudo sim! – levantei o queixo e ele apertou mais meu braço.
Dei um solavanco e ele soltou. Afastei-me passando as mãos no rosto.
– Díos! Você sempre me esconde as coisas, Aaron! – abaixei as mãos e olhei-o irritada. – Sempre que damos um passo pra frente, voltamos três. E tudo porque você tem essa sua mania de guardar tudo pra si!
Aaron me encarava em silêncio, somente respirando pesado.
– Nós discutimos isso ontem mesmo e você continua a me fazer de boba. Eu não sou boba, Aaron. Eu não sou a velha Lane que você dava a volta de olhos fechados. E você poderia parar de me tratar assim e começar a se abrir. Somos casados. Casamento é você dividir sua vida com alguém. Sua felicidade, suas conquistas, suas tristezas, seus fardos. Mas você continua a ver isso como um negócio quando ambos sabemos que não é mais. Por quê?
Ele molhou os lábios, mas permaneceu no silencio. A esperança mínima que possuía de receber uma resposta morreu. E seu olhar fixo em mim que mais parecia me acusar como culpada de tudo não melhorava nada. Balancei a cabeça e virei, dando-me por derrotada.
Ele não mudava.
Subi as escadas, pensando que ele fosse me interromper, mas na verdade eu mesma o fiz: parei no meio da subida e me virei para baixo, achando-o a me observar.
– Eu estou aqui contigo e disposta a levar isso em frente. Não quero mais brincar, Aaron. Só pense nisso. Não é a primeira vez que te digo.
Terminei a subida e me tranquei no quarto. Sem passos atrás de mim ou ruídos que indicassem que ele me seguia.
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