Strada Per L'inferno
53 Máscaras - Parte I
Notas iniciais
Mais dez minutos.
Respirei fundo, travando o celular. Notei que meus dedos tremiam de leve. O nervosismo tomava conta, mesmo que desse voltas no quarto para extravasá-lo. Porém, não era só ele que me incomodava. Sua combinação com uma sensação ruim e pesada no peito era o que me inquietava.
Parei na frente do espelho e me olhei de novo. Não acreditava que aquele era meu reflexo. Passei a mão na renda com swarovski, admirando o vestido. Ele cairá perfeitamente em meu corpo. Parecia ter sido moldado nele. Comprimi meus lábios vermelhos e abaixei os olhos para o celular em minhas mãos.
A necessidade oprimida pelo orgulho vinha me consumindo há um bom tempo. Eu precisava ouvir sua voz, saber que estava tudo bem. Saber se ele estava bem.
Digitei os números rapidamente, engolindo e sufocando a parte racional que dizia para não fazer aquilo e aproximei o aparelho do ouvido.
— Alô.
Suspirei aliviada, ainda que não soubesse o porquê. O perigo nem havia começado de verdade.
— Oi. — disse tímida, como se o tivesse a minha frente.
— Lane? — perguntou um tanto que surpreso. — Aconteceu alguma coisa?
— Não. Está tudo bem.
— Então por que tá ligando?
Seu tom foi brusco, podendo até ser rude a novos ouvidos. Mas eu o conhecia e sabia que era só seu jeito.
— Por nada. Eu só queria saber se estava tudo bem...
— Está. Ainda estamos aqui no galpão. Vamos sair daqui a pouco.
— Hmmm... Está todo mundo aí?
— Falta o Colin. Mas ele está dando as últimas instruções para a Kimberly. Assim que acabar, ele nos avisará e partiremos, encontrando-o no caminho.
— Entendi.
— Já tá na casa do Dylan?
— Sim. Vamos passar a noite vendo filmes e conversando.
— Nada de aulas de sacanagem. Se eu descobrir que você e Caitlin andaram colando velcro, mato as duas.
— Se tiver lugar pro papai aqui, eu não iria me importar! — gritou Dylan ao fundo.
Ri fraco, apertando mais o telefone em minha orelha.
— Não irá acontecer nada, Aaron, pois já tenho um ótimo professor.
— Non tentarmi, il mio amore.
— Non lo farò , l'amore.
A linha fica silenciosa pela primeira vez. Nenhum dos dois sabia o que dizer, mas havia algo que nos impedia de desligar.
— Boa sorte.
As palavras saltaram da minha boca como num impulso. Ele riu baixo.
— Não preciso de sorte, Lane. Preciso só que tudo...
— ... saia do seu jeito. Eu sei.
A linha ficou muda por mais alguns segundos antes de ele suspirar.
— Eu tenho que ir.
— Aaron...
— Ãh?
Mordi a bochecha, hesitando por alguns segundos.
— Toma cuidado. Volta inteiro... Volta pra mim.
A pausa foi a maior e mais torturante. A única coisa que me dava certeza de que ele não desligara era sua respiração baixa e quase inaudível do outro lado.
— Eu vou voltar.
E dito isso, ele desligou. Abaixei o celular e olhei para a tela para confirmar que ele havia mesmo encerrado a ligação. O sentimento que me tomou, mesmo com sua interrupção abrupta, foi de alívio.
Aaron dera sua palavra. Ele prometera do seu jeito. Ele voltaria, porque ele não descumpria o que prometia.
A porta do quarto abriu e Caitlin sorriu sem dentes para mim. Suas roupas confortáveis e largas pareciam desleixadas perto do meu vestido. Seu rosto estava livre de maquiagem e o cabelo, solto com as ondas naturais que ela ocultava com a chapinha. Ela não estava produzida como eu, mas poderia facilmente bater minha beleza.
Sentou-se na cama, tomando cuidado com o braço, que se via livre do gesso desde ontem.
— Colin?
Balancei a cabeça, mordendo o lábio.
— Aaron.
— Aaron? — ela pareceu surpresa.
— Eu liguei para ele.
— Lane, não me diga... — ela começou a me repreender em tom e olhar.
— Eu não disse nada, Caitlin. Eu só queria falar com ele. Saber se estava tudo bem.
Ela calou-se, contraindo os lábios. Seu cenho franziu e seu olhar mudou; compreensivo e presunçoso, eu diria. Virei-me para o espelho, alisando o vestido novamente só para não ter que encarar aqueles olhos.
— E o que ele disse?
— Que está tudo bem.
Bati os olhos nela pelo espelho, vendo um sorrisinho em seus lábios.
— Ele vai voltar, Caitlin. – disse num suspiro, por razões desconhecidas até para mim.
Ela, no entanto, parecia mais ciente de meus próprios atos do que eu ao sorrir e balançar a cabeça afirmativamente.
— Eu sei que vai.
Voltei-me para ela e sorri nervosa. Seus olhos percorreram-me de cima abaixo antes de ela levantar-se e abraçar-me com cuidado, por seu braço e pelo meu vestido.
— Você está maravilhosa, Lane. Estou orgulhosa do meu trabalho.
Ri baixinho, mordendo meu lábio e me voltando de novo para o espelho.
— Estou tão nervosa. – sussurrei vendo-a se deitar na cama com os olhos para o teto.
— Relaxa. Vai dar tudo certo.
O celular apitou em minhas mãos e olhei.
Estou aqui em baixo.
[...]
O motorista parou o carro na frente da grande mansão e a observei, impressionada. Ela era ainda maior do que a de Aaron. O jardim bem cuidado levava a uma fachada de mármore iluminada com holofotes amarelados. A casa repetia, por fora, a Casa Branca.
— Me espere aqui. Consiga uma vaga por perto e estacione aqui na frente assim que me ver saindo.
Ele olhou-me pelo retrovisor e assentiu.
— Nick? — perguntei pelo ponto.
— Estou na escuta, Lane.
— Ótimo.
— Eu acho que isso é loucura. O Aaron vai nos matar quando souber.
— Talvez. Mas se tudo der certo, temos chance.
Ri nervosa e Nick soltou um rápido riso pelo nariz.
— Boa sorte, Lane.
— Eu não preciso de sorte, Nick. Só preciso que as coisas saíam do meu jeito.
Ele riu.
— Agora está falando como uma verdadeira senhora Aaron Walker.
— É o que é sou afinal.
Coloquei minha máscara e saí para a noite fria. O ar gelado cortava minha pele nua e desejei intensamente ter comprado um casaco de pele para me envolver. Mas na pressa e desejo de parecer o mais sexy possível, esqueci-me deste detalhe. Andei até os dois armários que guardavam a porta e dei-lhes meu melhor sorriso.
— Convite.
— Eu fui convidada pessoalmente pelo senhor Madox. Não tenho convite.
— Sem convite, não entra. — disse, implacável.
— Oh, por favor. Ele ficará muito chateado se não me ver.
— Com licença, senhores.
Uma mulher baixa em um vestido preto tão justo que seus peitos saltavam, os cabelos loiros presos em um coque frouxo e uma prancheta nas mãos apareceu entre os dois homens. A hostess.
— Qual o seu nome?
— Ava Wilde.
A mulher abriu um sorriso profissional antes de passar os olhos rapidamente pela lista, fingindo procurar meu nome. Ele estava lá, é claro. Mas ela já sabia disso e aguardava minha chegada.
— A senhorita Wilde está na lista. Deixem-na entrar.
Sorri vitoriosa enquanto era me dado passagem.
— Obrigada.
— Só estou fazendo meu trabalho. Por favor, me acompanhe até sua mesa.
Passamos por um hall limpo e luxuoso e seguimos por um corredor repleto de quadros de arte.
— Jennifer, temos problemas na acomodação.
Outra mulher, vestida de maneira parecida com a tal Jennifer e também com uma prancheta, apareceu. Elas trocaram algumas palavras, paradas no meio do corredor, deixando-me esperando.
— Desculpe, senhorita Wilde. — ela sorriu sem graça no modo profissional. — Eu tenho que resolver um problema.
— Eu acho minha mesa sozinha, sem problemas.
Outro sorriso tomou seus lábios: um falso agradecimento. Terminei de cruzar o corredor, que se abria em um grande salão lotado de pessoas. Suas vozes ecoavam pelas paredes de pé direito alto e faziam parecer que havia o dobro de pessoas presentes. Todos muito bem vestidos e com máscaras no rosto. Meus olhos percorreram rapidamente o salão antes de encontrar o que procurava. Os meninos estavam sentados com mulheres aos seus lados. Prostitutas de Aaron, é claro. Havia uma com uma cadeira vazia ao lado. Não precisei olhar duas vezes para saber quem faltava na mesa.
— Champanhe?
Um garçom apareceu ao meu lado com uma bandeja com duas taças. Peguei uma delas, sorrindo agradecida. Ele se afastou para me dar novamente visão da mesa dos meninos. Dessa vez, eles me olhavam chocados, e Dylan levantava-se e seguiu para o lado oposto do salão. Um sorriso de divertimento me tomou. Movimentei-me mais para o leste, seguindo o namorado de minha amiga com os olhos. Ele parou e sorri ainda mais ao constatar que babbo e Dom Mantovani ocupavam a mesa em que meu marido estava. Depois de algumas palavras trocadas, a postura de Aaron endureceu sob o terno e ele se levantou. Mal se afastou cinco passos e os olhos dele procuraram pelos meus. Não demorou a me achar e muito menos a controlar a expressão de choque. Sua demonstração de que poderia ter emoções não calculadas me deleitou.
Sorri com os lábios na taça e entrei no corredor as minhas costas.
— Nick, congele as imagens do corredor três e desligue as câmeras e as escutas da sala de estar dois. — sussurrei perto do microfone no colar.
— Pode deixar. — respondeu-me rápido.
O corredor era repleto de quadros à esquerda e portas à direita. Abri a segunda e fechei-a rápido atrás de mim, ligando a luz. A sala de estar era moderna e fria. Toda em couro e vidro, até o tapete liso e felpudo não transmitia calor. Aproximei-me da enorme mesa de vidro ao fundo, repleta de pequenas esculturas de artes e flores secas. Pousei a taça e a bolsa ao meu lado e cruzei os braços, encarando a porta.
Ela abriu-se não muito depois, e ostentei meu melhor sorriso soberbo. Aaron fechou a porta após sua passagem e me encarou de maxilar travado. Ele estava puto, eu sabia. Não disse nada, apenas tomei um gole do champanhe. O líquido borbulhou em minha boca e desceu do mesmo jeito por minha garganta. Ele quebrou a distância em poucos passos até ter meu braço envolvido com força por seus dedos.
— Que porra você pensa que tá fazendo? – grunhiu com o rosto a centímetros do meu.
Ampliei meu sorriso, sabendo que o irritaria ainda mais.
— Estou salvando sua pele, amore.
Soltei-me de seu aperto e afastei-me para o espelho mais próximo.
— Você pirou? Se o Callum descobre...
— Aaron, eu não estou aqui como eu. — cortei-o sem cerimônias.
Retirei minha máscara e me virei para ele.
— Estou aqui como Ava Wilde, convidada especial de Callum Madox.
— Onde está Kimberly? — perguntou entredentes.
— Está no quarto de hotel que você está pagando para ela. Provavelmente desmaiada no sofá.
— Você a dopou?
— Eu não. Meu parceiro.
— E quem é?
Sorri falsa.
— Conto o milagre, mas não conto o santo.
Dei-lhe as costas e sabia, antes mesmo de ele o fazer, que seria puxada até si. Agarrando em minha cintura, ele girou-me e afastou meu cabelo, olhando minha orelha. Um sorriso torto, que desfigurava seu rosto, tomou-o.
— Nem precisa mais responder.
Soltei-me com um solavanco e voltei a esconder o ponto com o cabelo.
— Nick só soube de tudo hoje, depois de doparmos Kimberly.
— E eu sou a porra da chapeuzinho esperando uma merda de um príncipe qualquer vir me beijar pra me tirar de uma maldita torre.
— Bom ver que seu humor não foi afetado, apesar de ter confundido tudo. — fui até minha bolsa e a abri, pegando meu batom.
— Que se foda, Lane! Se Nick não te ajudou, quem foi o bosta que fez isso? O Colin?
— Aaron, eu já disse que não vou falar. Já foi. Está feito. Você não tem nenhuma opção além de confiar em mim.
— Como? Você fudeu todo o plano! Você nem tem treinamento!
— É aí que você de engana, meu querido. Eu sei tudo o que preciso. — sorri pelo espelho, guardando o batom.
— Você não está entendendo como isso é perigoso, não é? — riu, bagunçando o cabelo.
— Eu entendo perfeitamente como isso é perigoso.
Abaixei sua mão e ajeitei seu cabelo novamente. Puxei-o pela gravata e dei-lhe um selinho rápido. No entanto, Aaron não deixou por isso e me puxou de volta. Segurando possessivamente em minha cintura, invadiu minha boca com sua língua. Derreti-me com seu toque, como de costume. Minhas mãos pousaram em seu peito coberto pela camisa de linho branco e passearam até seus ombros e costas.
— Vou ter que mandar Nick apagar tudo isso depois.
— Já fiz isso.
Peguei o lenço no bolso de seu paletó e afastei-me até o espelho de corpo todo. Desamassei meu vestido e limpei a boca toda borrada de batom. Retoquei-o e voltei a Aaron, jogando o lenço para ele.
— Limpe-se. Sua acompanhante não vai ficar feliz em lhe ver borrado de batom de outra.
Ele riu rouco e limpou a boca. Ajeitei sua gravata e olhei em seus olhos, as mãos descansando em seu corpo novamente. Ele olhou-me alisando sua camisa e suspirei, levantando os olhos para os seus. Eles estavam mais suaves e receptivos a meu pedido suplicante.
— Confie em mim, Aaron. Tudo vai dar certo. Eu sei o que estou fazendo.
Ele fechou os olhos, esfregando-os irritado e cansado.
— Mas que merda, garota. Eu não quero que nada te aconteça.
— Não vai. Te terei logo ali para me proteger. Ou quer desobedecer as ordens de babbo de cuidar bem da menininha dele? — sorri com segundas intenções.
Ele retribuiu na mesma moeda e aproximou o rosto do meu, já pegando em meu rosto. Afastei-o gentil e insistentemente, evitando o carinho.
— Não quero borrar meu batom de novo.
Ele revirou os olhos, bufando. Voltei a ajeitar a máscara e a pegar minhas coisas.
— Primeiro eu ou você?
— Vai na frente. Ainda tenho que me preparar para te ver do outro lado do salão, sendo comida com os olhos enquanto não posso sacar uma arma e atirar no meio da testa de cada um.
— Se você se comportar direitinho, talvez eu deixe você fazer o que os outros tanto desejam.
Aaron jogou a cabeça para trás numa gargalhada. Sorri sentindo-me arrepiar pelo som puro e musical. Estava tensa, mas sua risada teve um efeito relaxante sobre mim melhor do que qualquer remédio. Ele voltou a se aproximar e pousou as mãos em minha cintura, afastando uma mecha de cabelo do rosto.
— Eu não preciso de sua permissão para te comer. Sabemos que se entrega para mim antes mesmo de pensar. E nesse vestido, sendo uma puta de uma gostosa, com certeza eu vou te foder até não conseguir mais por sua insolência.
— Não sabia que isto havia virado uma relação sadomasoquista.
Ele riu baixo junto comigo e balançou a cabeça com seu sorriso mais sedutor e misterioso.
— Não curto essas paradas. Só gosto de te ver sofrendo em cima do meu pau, pedindo por mais.
Rolei os olhos com sua obscenidade, ainda que sentisse minha bochechas esquentarem. Ele se inclinou para tentar me beijar de novo e deixei-o se aproximar. Rocei nossos lábios, provocando-o, e mordi seu inferior com força. Afastando-se rápido, levou a mão à boca para ver os dedos manchados com gotas de sangue. Ri sozinha, andando rebolando até a porta como forma de provocação.
— Avise meu pai sobre mim. Diga-o para não se aproximar de mim e entregar o plano.
Toquei a maçaneta, mas o braço de Aaron surgiu ao lado da minha cabeça, a palma apoiada contra a porta. Girei nos calcanhares para encontrá-lo cercando-me com os braços como numa jaula. Seus olhos pretos queimavam intensos sobre mim. Não havia sorrisos ou indícios de brincadeira em sua face. Desviei o olhar, não suportando toda sua eloquência.
— Toma cuidado, Lane. Você pensa que sabe com quem está lidando, mas não sabe. Aquelas pessoas naquela sala são piores do que você imagina, mas ainda assim não chegam aos pés do que Callum pode fazer. E se você estiver sozinha com ele, por mais que odeie admitir, será por sua conta. Ainda que não meça esforços para caçá-lo até o inferno caso algo aconteça, eu ainda prefiro ver essa missão fracassar e você estar bem.
Engoli em seco, sem palavras diante de sua declaração. Aprenderá a ler Aaron e, nesses últimos tempos, a entendê-lo. Ele não seria romântico e faria declarações tradicionais com palavras doces e amorosas. Dizer que caçaria alguém no inferno por mim era sua declaração.
— Eu sei. Mas você prometeu para mim antes, e agora eu prometo para ti: eu vou voltar. Eu vou voltar para você.
E saí da sala antes que pudesse ver qualquer esboço de emoção, positiva ou negativa, em seu rosto.
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