Notas iniciais
Prometi que voltaria logo e assim fiz. Bom, não tenho muito a dizer a não ser que, embora pequeno, esse capítulo é importante. Sei que ainda está meio confuso para vocês entenderem, mas no fim, tudo sobre o plano será esclarecido. http://minilogs.com/egldkw0 Godere

Voltei a descer as escadas, ainda mais ocupadas por devoradores de bocas e apreciadores de outras partes do que quando subi. Que a paixão é como um trem irrefreável, enorme, e impactante, é fato, mas que todo trem possui um freio para se usar também. Além de que aquilo não era paixão, mas sim luxúria descarada. E, ultimamente, eu entendia bem de ambas.

De cabeça baixa, passei por Riley, ambas fingindo que não nos notamos. Ela deveria saber que conseguira, mas não podia abrir um enorme sorriso confirmando, por mais que desejasse sair o mais rápido possível das nuvens de drogas e poças de bebida. Não, só mais meia hora de atuação, como pediram, e então céu azul e oxigênio puro.

As bebidas expostas na bancada da cozinha, usufruídas aos montes, eram nojentas. A única coisa que me atrevia a tomar era cerveja, e foi isso que peguei, ainda que estivesse quente. As vodcas baratas e outros destilados ruins não eram tentadores a ponto de me fazer importar com a temperatura da fermentada em minha mão. Com os sábios conselhos de festa de Caitlin me rondando, abri a cerveja e fingi tomar um gole antes de virar uma quantidade razoável na pia. Os bêbados e os afogueados ali já tinham seus pares para reparar.

Saí para os fundos, para a praia, vendo a fogueira e o pessoal dançando e se drogando ao redor dela. Aquilo ainda era estranho, mas não mais impactante. Não que tivesse me acostumado também, só aceitado que aquilo era parte do meu mundo. Sempre fora, somente mais maquiado e escondido. Me apoiei no parapeito da varanda o mais longe que pude de um casal que fazia sexo. Era nojento e vergonhoso a falta de pudor ao redor. Subitamente, isso me levou a Aaron. Claro que não éramos assim e nunca seríamos: já éramos mais, na verdade. Mas isso não tornava menos louco o quanto já sentia sua falta, falta de nós, me sentia feito uma árvore sem flores ou frutos: nua, crua, só. Os galhos vazios, o tronco exposto, as cores pálidas e tristes, em contagem regressiva para a volta da primavera.

Brisas suaves de vida cercaram minha cintura e quis pensar que era a sua volta, mas o meu racional falou mais alto. Abri os olhos e vi o homem do casal desinibido perto de mim. Ele sorria bêbado e não via nem a sombra da garota por perto. Sabia o que ele queria e, de novo, desejei a volta da estação florida.

— Uma garota com essa saia não pode estar sozinha — “idiota”, sorri forçada.

— Estou com amigas — me soltei de suas mãos. Não poderia ser grossa, tinha que desempenhar meu papel, mas não estava disposta a facilitar.

— Elas devem estar ocupadas — voltou a colocar a mão em mim. Voltei a afastá-lo e tentar sair de seu cerco.

— Hoje não, gato.

— Se não quisesse, não viria com essa roupa — roçou a barba em meu pescoço, cheirando-me. Essa foi a gota d’água.

Pisei com o salto em seu pé e ele se afastou o suficiente para me permitir mover os braços, lhe dando uma cotovelada nas partes íntimas. Ele se curvou e, graças à dor e ao reflexo retardado, consegui escapar. Saí andando o mais rápido que pude, sem correr para não cair ou chamar atenção. Voltei à sala esbarrando em outros abobados de bebida e drogas, procurando Riley como fazia um leão com a presa. Ela estava suada no meio da pista, dançando para um cara. Me aproximei o mais casual que pude, deixando-a me notar sozinha enquanto dançávamos.

— Vamos embora — disse o mais baixo que pude em sua orelha, apertada contra ela enquanto nossas mãos brincavam uma na outra para o cara.

— Vamos terminar a dança.

Os quase obscenos movimentos terminaram em pouco tempo. O homem enlouquecera com as “lésbicas”, que piscaram e saíram de mãos dadas para fora. Ele teria nos seguido se não fosse pela amiga de Riley que, com um sorriso e uma apontada discreta de cabeça, tomou nosso lugar em seu campo de visão. O celular balançava em meu sutiã e minhas pernas seguiam para fora o mais rápido que a expressão leve de diversão bêbada em meu rosto permitia. Riley ainda segurava minha mão quando passamos pela porta de entrada e por alguns poucos gatos pingados ali, sussurrando e apontando para um segurança estrategicamente parado perto de seu carro para nos levar para casa. Atravessamos a rua com trocas de olhares e sorrisos maliciosos previamente planejados. Gracejávamos os seguranças, pois outro se juntou ao primeiro, quando um ronco de motor soou distante na estrada. Meus olhos e os dos outros se grudaram em um carro esporte azul marinho, seguido de uma picape preta, ambos luxuosos. O primeiro carro parou com graça na frente da casa, numa vaga que já parecia destinada a ele. A porta azul subiu e minha curiosidade sobre o homem aparentemente importante no banco do motorista aumentou. Riley, no entanto, bloqueou minha visão.

— Aquele é o Mike. Vamos — sussurrou, se colocando na minha frente como uma amiga que cochicha à outra as possibilidades.

Assenti e ela saiu de minha frente já sorrindo para o segurança, fazendo-o levá-la para o banco de trás. Segui-a, mas não sem antes olhar por cima dos ombros. Mike conversava com um homem de modo sério. Ele não era tão bonito quanto Aaron e Callum e era mais velho, mas o dinheiro e uma genética razoável não lhe faziam feio. Observava o conjunto forte e o porte superior quando seu olhar fugiu para o meu, como se sentisse que era observado. Ou soubesse.

Ao invés de desviar logo, continuei sustentando o olhar, segurando a porta já aberta. Não houve sorrisos, nem nada de olhares severos, mas sim curiosos. Sorri sem receio, não como uma puta, mas uma cativante e fatal mulher. Talvez tenha funcionado, talvez não, Riley me chamou para entrar e não quis descobrir se já começara a enrolar o alvo na teia.

POV Aaron

Apertei meus dedos dentro dos bolsos do casaco, sentindo a pele fria raspar na lã das luvas, que pinicavam e não funcionavam como deveriam, por isso, a cada três minutos, tinha que baforar dióxido de carbono em minhas mãos para não congelarem. Ainda assim, tinham mais vantagem do que meu nariz. Esse, eu apertava a cada um minuto e meio. Meu corpo todo se movimentava a cada cinco minutos, fossem cinco passos para frente ou nove para a esquerda e direita. Observava a água como quem observava sua presa. As águas negras e calmas, tão abaladas pelos ventos quanto uma rocha pelo mesmo. Não havia o espetáculo da fúria do mar, a luta d’água contra si mesma, com braçadas desesperadas para fugir da própria corrente.

Estava voltando para a mesma posição de seis minutos atrás quando Dylan se aproximou. Ele esfregava as mãos e xingava tanto quanto eu.

— Eu quero ma-tar você e aquele viado nerd — gaguejou abafado, os dentes trincando. — Porra, não tinha uma noite mais fria?

— O navio vai passar por aqui hoje. Não tinha outro dia. Ou você queria que mandássemos que atracassem 100 mil toneladas no meio do nada por uns dias até o clima melhorar e perceberem que milhões sumiram no mar?

— Preferiria que tivessem me deixado dormindo — resmungou, voltando a andar.

Esfreguei meu rosto, deixando o cachecol se misturar com o outro. Cuspi a lã para o lado, ajeitando a peça sobre a boca, voltando ao visual ridículo e quente. Se fosse uma festa à fantasia, com certeza seria o bandido das temperaturas negativas. Apertei os olhos contra o horizonte, vendo a luz branca e chamativa dos holofotes jogarem claridade na direção que eu queria, mas sem mostrar o que eu queria. Tirei as mãos do bolso e olhei o relógio colocado sobre duas mangas longas e coberto por outras duas.

01:57 AM

Queria checar o horário de novo, saber que estava tudo certo, conferir com Nick que logo veria algo, mas ele só me xingaria e seria xingado de volta. Agora, o jogo era de paciência. Eu tinha que esperar, olhando para o horizonte preto até o despontar da grande embarcação que continha a esperança de todos. E a esperança só veio aparecer depois de meia hora de vários passos em todas as direções e inúmeras baforadas.

— Consegue ver o que eu consigo?

— Quantos minutos até chegar aqui?

— Meia hora, acho. Tudo pronto aí?

— Tudo — voltei a enfiar o walkie-talkie no bolso traseiro.

03:57 AM

O contêiner estava sendo içado do gigante de aço à altura de um prédio de cinco andares. Havia holofotes por toda parte, deixando a área fácil para localização aérea, terrestre e marítima. E exatamente por isso que os relógios ali estavam todos expostos: eram bebês observados com temor por suas mães com mais frequência do que o necessário. Todos tremiam ao redor do guindaste, ricocheteados por -2°C à espera da troca de carga. O tempo não era crucial somente pela nossa exposição, mas também pelo atraso da navegação na chegada ao porto. O GPS ter quebrado misteriosamente e a tempestade não eram o suficiente para sustentar um atraso muito grande. E, claro, cada segundo contava.

Os dois contêineres estavam lado a lado. Vermelho e vermelho, os escritos da empresa ao lado. Quilos e quilos lado a lado, com interiores idênticos, por uma pequena exceção. Exceção essa que estava gerando aquele trabalho todo. A pequena exceção que valia milhões e muito mais. Muitas coisas estavam em jogo por um pouco mais de um quilo de pó misturado a quilos de roupas.

Contemplamos o contêiner B subir, balançando no ar negro iluminado por caixas de luz, e ser depositado no lugar onde antes estava o contêiner A.

— Desliga os holofotes 1, 3 e 4 — acenei, me livrando parcialmente de um dos problemas.

A carga foi amarrada às demais na mesma velocidade em que a outra foi desamarrada. Meia hora se passou até os motores do navio serem ligados de novo, depois de checar que tudo estava no lugar.

4:57 AM

O navio era um ponto distante sumindo na imensidão marítima. O contêiner estava sendo revirado, dissecado e esvaziado. O outro contêiner, azul de mesmo tamanho, mas logo diferente, estava sendo preenchido com os restos do outro. Agora, o trabalho era chato e trivial, sem a adrenalina extasiante de esperar ouvir as sirenes no ar e as balas zumbindo nos ouvidos. Não tirei os olhos dos fardos até o ouro oculto estar fechado e em cima de um caminhão com destino a Miami e Nova Orleans. E então, o caminhão era um ponto desvanecendo na estrada sinuosa.

— Da próxima vez que inventar de roubar a si mesmo, me deixa de fora, tá? — Dylan se aproximou batendo os pés e esfregando as mãos. Ele conseguia ser o mais ridículo e mais bichinha.

Caitin fazia falta pra caralho.

— Daria tudo para estar lá quando Callum descobrisse.

— Nick, é melhor que você consiga uma gravação disso.

— Eu faço questão disso — garantiu com a voz abafada e eletrônica do outro lado do aparelho.

— Festa, drogas e mulheres em Miami? — Zack esfregou as mãos, me encarando à espera de uma resposta. Sorri de lado.

— Só há uma trindade em Miami para mim.

Notas finais
Quanto a postagem regular, decidi que será na quinta, pessoal. PORÉM, não sei se nessa já começo. Então fica de aviso. Sei que parece sacanagem, mas ando em provas e tudo mais, então nem tempo para escrever ando tendo. Então me deem um desconto. Xoxo