Strada Per L'inferno
58 Eu prometo
Notas iniciais
Acordei gradativamente e desnorteada. Por vários instantes, pensei que estivesse em minha cama, acordando para mais uma manhã sem Aaron ao meu lado, embora ela ainda estivesse amassada e com seu cheiro. A percepção de que estava enganada veio aos poucos. Estava deitada em uma cama, mas não era mais uma manhã ordinária. Não vestia minha camisola, e sim algo mais justo, longo e desconfortável.
Abri os olhos.
Estava deitada em uma cama, com meu vestido do baile, num quarto estranho. Estava escuro, embora a pouca luz que entrava pela janela fosse o suficiente para observar alguns detalhes e concluir certas coisas. O lençol e as cobertas eram todos brancos e com um leve cheiro de amaciante. O quarto era muito arrumado e impessoal. Não havia malas, mas era claramente um quarto de hotel.
Sentei na cama, lembrando aos poucos. Fora pega durante o baile de Callum. Meu pescoço doía, bem na área da traqueia. Fora apagada. Fora sequestrada. Mas, olhando ao redor para o conforto e luxo daquele hotel, estava confusa. Levantei-me, tocando os pés no chão frio. Meus saltos estavam ao lado da cama, colocados com cuidado, assim como a máscara no criado mudo. Muito estranho. Vi o telefone na mesinha, ao lado da máscara, e não pensei duas vezes antes de pegá-lo e começar a discar o número de Caitlin. Porém, a ligação não foi completada. Deveria ser bloqueado. Xinguei e olhei ao redor. Não havia nada ali de útil além de um vaso na mesa. Peguei-o, tirando as flores e me dirigindo a porta.
Era arriscado, mas era o único jeito.
Abri-a com cuidado, segurando o vaso em minhas mãos como se minha vida dependesse dele. De certa forma, poderia vir a depender. O corredor era curto, fazendo uma curva para a direita, e estava iluminado fracamente. Havia uma porta em frente à minha, mas o que me interessava eram as vozes vindas do final do corredor.
— ... tempo. Se não acordar logo, acho melhor chamarmos um médico.
— Uma hora. Considerando o golpe que Herrera lhe deu, era de se esperar.
— Desculpem, senhores.
— Entendemos, Herrera. Você fez sua parte, mas saiba que haverá consequências caso haja sequelas para ela.
Eram as vozes de babbo, Dom Mantovani e do homem que me sequestrou. As vozes dos dois primeiros estavam frias e sérias, como nunca vi. Falavam de mim com calma e algo que poderia ser até considerado indiferença. Essas vozes, que deveriam me acalmar por saber que não corria perigo, perturbaram-me.
Essas poucas informações fizeram minha cabeça girar e, num descuido, deixei o vaso cair no chão. O som alto que se propagou lhes chamou a atenção.
Peguei um caco grande do chão e me afastei para a parede quando ouvi passos em minha direção. O homem que me sequestrou apareceu, desarmado e curioso, e logo lhe apontei o caco. Ele abriu um sorriso, balançando a cabeça como se a minha ideia fosse absurda.
— Ela acordou. — virou-se para a sala e disse.
— Onde estou? — perguntei, segurando o caco.
Ele pressionava minha mão, machucando e quase a cortando.
— Deixe conosco, Herrera. Pode ir.
O homem me olhou uma última vez antes de se afastar. Ouvi os passos de sapato social caro no assoalho antes de ver babbo surgir no fim do corredor. Ele sorria amigavelmente para mim. Mas não consegui retribuir ou me sentir mais segura.
— Figlia, que bom que acordou.
— Onde estou? — sussurrei, apertando com mais força o caco. — Aquele homem, ele me-me...
— Sei que deve estar confusa, mia belle, mas podemos explicar tudo. Mas antes, largue esse caco. Está se machucando com ele.
Olhei minha mão ensanguentada, pingando aos poucos no piso.
— Largue, figlia. Está se machucando. Iremos te explicar tudo. — babbo insistiu.
Olhei-o e havia sinceridade em seus olhos, pelo menos na parte de se importar comigo. Larguei o caco, abrindo minha palma e vendo o corte em carne viva. Meu pai se aproximou aos poucos e pegou minha mão, colocando um lenço nela.
— Aperte bem o lenço.
Fiz o que ele pediu e, colocando a mão em minhas costas, ele me conduziu até a sala. Dom Mantovani estava sentado em um dos sofás com Herrera sentado em uma cadeira perto. Encolhi-me quando vi o homem, e babbo percebeu.
— Herrera, vá ver se o hotel possui algum serviço de enfermagem. Senão, arranje alguém que entenda disso.
Ele assentiu e saiu prontamente atrás do que lhe fora mandado. Babbo me sentou em uma poltrona, e me esquivei de seus cuidados, dando-lhe a saída para sentar ao lado de Dom Mantovani.
— Onde estou? — perguntei novamente, a voz mais firmada.
Assim como o quarto, não havia dúvidas que a sala era de um quarto de hotel.
— Está em um hotel. Mais especificamente, no quarto de hotel de seu pai. — Dom Mantovani respondeu.
— Onde estão meus amigos? Aaron?
— Nós não sabemos.
Meu coração se apertou, imaginando como eles estariam agora. Olhei para o relógio na mesinha, e ele marcava duas e meia da manhã. A explosão fora perto de uma.
— Por que estou aqui? A última coisa que me lembro é aquele homem que saiu me sequestrando e me apagando.
— Herrera. Ele é nosso homem de confiança.
— E por que ele me sequestrou?
Babbo suspirou e balançou cabeça.
— Ele só fez o que pedimos, mia belle di giorno.
Mesmo estando óbvio, não pude me conter de deixar meu queixo cair. Apertei mais o pano e senti o corte arder mais, provavelmente sangrando mais também.
— Vocês mandaram me sequestrar? — perguntei incrédula, mas surpreendentemente clara.
— Não foi bem assim, figlia. É uma história mais complicada.
— Então comecem a explicá-la, porque eu não consigo entender porque meu próprio pai me sequestraria.
Babbo passou a mão em seu rosto e levantou-se do sofá, sumindo e deixando o caminho livre para Dom Mantovani falar.
— Seu pai e eu só queríamos te proteger. Sabíamos sobre o plano de Aaron, mas Callum só contou o seu durante o baile. Ele fez a gentileza de nos contar um pouco antes de ser executado.
— A hostess foi até a mesa e lhes disse, por isso saíram um pouco antes de tudo explodir. — concluí, e Dom Mantovani assentiu, parecendo um pouco surpreso.
— Sim. Foi isso. Como sabe?
Balancei a cabeça, e ele entendeu que primeiro ele contaria sua história, e depois eu, a minha.
— Bem, assim que saímos, falamos com Herrera, que já estava nos entornos para caso houvesse alguma emergência. Pedimos então para ele te vigiar e te trazer até nós caso algo desse errado.
— Algo desse errado? — arqueei a sobrancelha.
— Caso Callum tentasse algo contra você, e seu marido não estivesse por perto.
Babbo voltou com um copo na mão, estendendo-o a mim. Encarei o copo por alguns segundos, fazendo-o bufar.
— Não há nada nesse copo, Lane. Só água. Não iria te drogar ou te fazer algum mal.
Assenti, pegando o copo e tomando um gole. Era água com açúcar. Quando menor, amava fingir algum tombo ou chorar por qualquer coisa só para tomar um copo de água com açúcar. Perguntei-me se ele se lembrava disso ou só me deu para me acalmar.
— Obrigada — sussurrei, colocando o copo de lado.
Ele só assentiu, sentando de novo ao lado de meu tio postiço.
— Então, por que esse homem, Herrera, não me falou que trabalhava para vocês? Por que ele me apagou?
— Isso só ele pode responder.
O silêncio se instalou, e olhei pela janela. Estávamos no centro de Nova Orleans, a parte moderna. Eram poucos os carros na rua, e as luzes dominavam em pequenos pontos a escuridão. Minha mente estava em Aaron e se ele estava atrás de mim naquele exato momento.
— Quero falar com meus amigos.
— Agora?
— Agora. Quero avisar que estou bem e quero saber como eles estão.
— Tudo bem. Mas isso pode esperar até Herrera voltar com ajuda para sua mão?
— Só preciso de uma mão para discar e segurar o telefone.
Babbo riu sem humor.
— Che cosa ha fatto per te, figlia?
A resposta estava na ponta da língua, porém Herrera e a ajuda voltaram e me calei. Pelo que entendi, a mulher era uma da camareiras e estudante de enfermagem. Ela olhou o corte e o suturou com um kit de primeiros socorros que, sem surpresas, babbo possuía.
Após ela sair, deixando algumas recomendações, Herrera se aproximou a pedido de Dom Mantovani.
— Herrera, Lane desejava saber por que você não lhe contou que trabalhava para nós e aplicou um golpe de luta nela.
Ele me olhou indiferente, cruzando os braços.
— Poderia haver homens de Callum no jardim e nos entornos da casa ainda. Se eu contasse para ela, ela não iria resistir, e se houvesse alguém observando, iria desconfiar. E eu a apaguei porque ela se mexia muito e podia se soltar de novo.
— Eu me soltei porque vi Colin, meu amigo! Ele não iria me fazer mal! — elevei a voz.
— Lane, se acalme.
— Eu só estava fazendo meu trabalho, senhorita.
— Senhora.
— Herrera, muito obrigado. Pode ir.
Ele assentiu e se retirou. Voltei-me para babbo.
— Agora posso fazer minha ligação?
Ele apontou ao telefone e o peguei. Ele me deu a senha e a digitei rapidamente e, em seguida, o número de Aaron. Disquei duas vezes e, em ambas, caiu direto na caixa postal.
— Alô?
Suspirei ao ouvir a voz de Caitlin, que atendeu na primeira tentativa após dois toques.
— Caitlin, sou eu.
— Ai, meu Deus! — e começou a chorar.
Senti minha garganta apertar e as primeiras lágrimas turvarem minha visão. Ouvia uma voz atrás, perguntando o que estava acontecendo. Caitlin tentava falar, mas chorava muito, até alguém pegar o telefone dela.
— Alô? Lane? — era Nick.
Sua voz estava desesperada.
— Oi, Nick.
Ele deu um grande suspiro.
— Onde você está? Você está bem?
— Sim, eu estou. Estou em um hotel com meu pai.
Ele repassou a Caitlin o que disse, que soluçou para falar comigo.
— Estávamos todos atrás de você. Colin disse que te viu ser sequestrada por um cara. Pensei que... O que aconteceu?
— É uma longa história, Nick. Mas como estão todos? Aaron? Eu tentei falar com ele, mas...
Ele suspirou e não me respondeu. Parecia que todos estavam fazendo aquilo naquela última hora.
— Lane, todos conseguiram sair da casa bem. Mas...
— Mas...?
— Mas assim que soube de você, ele saiu correndo atrás de você. E todos o seguiram. E, desde então, eu não tenho notícias.
Ele estava mentindo, senti em seu tom. Assim como senti que algo estava mesmo errado. Meu coração não estaria tão apertado por somente pontos que não funcionavam.
— Onde vocês estão, Nick?
— Na casa do Dylan.
— Estou indo para aí.
Desliguei e me virei para os outros.
— Preciso ir até a casa de Dylan, alguma coisa aconteceu com Aaron.
— O que exatamente?
— Eu não sei, mas algo aconteceu.
— Lane, está tarde. Você está exausta.
— Babbo, não comece. É meu marido.
— Só por mais um mês. — acrescentou simples, mas maldoso.
Engoli em seco, comprimindo os lábios.
— Por um mais um mês ou não, ele continua sendo o cara que, ironicamente, eu gosto. O cara que saiu correndo daquele baile por mim. E não acredito que era só para garantir "o bom cumprimento" da merda do contrato de vocês. Então, querido papai, você vai me levar até meus amigos ou não? Não ligo de ter que andar pela cidade que mal conheço às duas da manhã até achar o meu destino.
— Olha como fala comigo, Lane, continuo sendo seu pai. E se eu não quiser levá-la pelo seu bem, haverá seguranças espalhados nesse hotel que irão impedi-la de ir sob a minha ordem.
— Experimenta, babbo, fazer isso. Eu não sou mais aquela garota que você deu fácil em casamento para um estranho. Se você fizer isso, na primeira oportunidade que tiver, fugirei e nunca mais volto a olhá-lo. Afinal, pra que voltar a um pai que só soube mentir e me prender "para o meu bem"?
Ele rangeu os dentes e se levantou. Aproximou-se de mim devagar, parando em minha frente.
— Quando esse moleque quebrar o seu coração, te trocar como o tipo dele está acostumado a fazer, eu vou lhe aceitar de volta, Lane. Porque eu sou seu pai e, apesar de tudo que já lhe escondi e fiz, eu realmente te amo.
Ele se afastou e caminhou até a porta.
— Estarei lhe esperando no carro.
A porta se fechou, e me voltei a Dom Mantovani, que suspirava e balançava a cabeça com a cena. Ele imitou o amigo, aproximando-se e colocando a mão em meu ombro.
— Suo padre vuole veramente solo il vostro bene. Proprio come me.
Mordi minha bochecha, mas não respondi nada. Apenas me retirei até o quarto para pegar minhas poucas coisas.
Meia hora depois, pararmos na garagem do apartamento de Dylan. Nick já estava ali me esperando. Corri até ele assim que abri a porta, apertando-lhe forte.
— Onde está Caitlin? — perguntei assim que me separei.
— Está lá em cima. Ela brigou comigo para descer, mas achei melhor ela ficar porque não sabia como você estaria...
Assenti, entendendo-o. Babbo e Dom Mantovani estavam parados ao lado do carro, fitando-nos com suas expressões sérias.
— Senhores. — Nick balançou a cabeça.
— Nick. — eles retribuíram o cumprimento.
Afastei-me de Nick e me aproximei dos dois.
— Obrigada.
— Não confio em Aaron e nem em seus amigos, Lane. Que fique claro. Mas sei que eles não lhe fariam mal.
— Nunca — afirmei.
— Lhe deixarei aqui, mas dois seguranças meus estarão na portaria a vigiando e, caso algo aconteça, seremos avisados.
Concordei, sabendo que não havia opção. Babbo se despediu com um aceno e entrou no carro. Dom Mantovani abriu os braços e o abracei, ainda que estivesse com resquícios de chateação por sua revelação sem rodeios de mais cedo.
— Cuide-se, piccola. Estaremos na cidade por mais alguns dias, e qualquer coisa que precisar, já sabe em que hotel estamos.
Assim que eles se foram, subi com Nick, sem nenhum dos dois pronunciar uma palavra sequer. Assim que Nick abriu a porta do apartamento, senti um impacto contra mim. Caitlin me abraçava forte, fungando alto.
— Graças a Deus, você está bem.
— Eu estou bem, Caitlin. — garanti, abraçando-a de volta.
Ela me soltou e limpou as lágrimas que escorreram. Ela me analisou de cima a baixo e segurou minha mão com o curativo e pontos.
— O que aconteceu?
— Longa história. — puxei a mão de volta. — Agora acho que vocês tem algo a me contar.
Eles se entreolharam e não tive dúvidas: havia algo acontecendo.
— Lane, acho melhor você sentar... — Nick começou.
Balancei a cabeça, respirando fundo.
— Não, Nick, não tente enrolar. Por favor. Só me digam logo o que está acontecendo mesmo. Eu sei que tem algo mais errado do que só os pontos que não funcionam mais. Me digam.
Caitlin suspirou e mordeu o lábio, olhando diretamente para Nick e claramente lhe passando a bola.
— Aaron perdeu o ponto na mansão, então só estava me comunicando com os outros quando ele saiu igual um louco atrás de você. Dylan me avisou que Aaron estava indo para a fábrica onde Sienna morreu, porque essa era a única pista que eles tinham sobre o seu possível paradeiro. E um pouco antes de eu perder o sinal com a escuta de todos, deu a entender que o local estava em chamas.
Pisquei algumas vezes, minha boca escancarada de incredulidade.
— O que vocês querem insinuar com isso? Ele não pode... Ele prometeu.
Eles me olharam com pena, e eu fechei os olhos. Odiava esse tipo de olhar. Ele odiava esse tipo de olhar.
As primeiras lágrimas vieram, queimando meu rosto pela trilha que faziam. Queria negá-las, então as esfreguei para longe. Abri os olhos de novo e balancei a cabeça.
— Não, ele não morreu. Entenderam? Eu sentiria. E eu sei que ele não morreu, não ousem insinuar isso, entendido?
— Ninguém está insinuando nada, Lane. Só estamos...
— NÃO. ELE NÃO ESTÁ MORTO! DROGA! ELE NÃO PODE ESTAR! ELE PROMETEU QUE VOLTARIA E ASSIM SERÁ!
Eles assentiram e eu inspirei, soluçando involuntariamente. As lágrimas voltaram com mais força e eu me apoiei na parede, tentando respirar e me manter em pé. Caitlin se aproximou de mim, mas eu não deixei. Andei sozinha até o sofá, onde caí, olhando para a janela enquanto tentava controlar as lágrimas. Poderia ter ficado ali por horas facilmente, e assim foi.
Caitlin me preparou um chá e me entregou quando estava mais calma. Aceitei, bebericando mesmo sem vontade. No começo, tentei limpar as lágrimas, mas depois as deixei fluir até pararem junto com os soluços baixos. Nick e Caitlin me rodearam a todo momento, com medo do que pudesse fazer. Em certa altura, cansei de ser mira de seus olhares.
— Vou ao banheiro.
Caitlin abriu a boca, mas me antecipei.
— Pode ficar tranquila, eu não vou fazer nada.
— Eu só ia dizer que o banheiro é a primeira porta à direita.
Tranquei a porta ao passar e me apoiei na pia. Encarava meu reflexo. Estava um caco. Inchada de choro, borrada de maquiagem e com os cabelos desgrenhados. Lavei o rosto, tentando melhorar um pouco da situação, e prendi o cabelo em um coque. Não queria sair dali. Não queria ter que voltar àquela sala, onde não se falava nada, mas se sentia tudo.
Até ouvir vozes no outro cômodo.
Não eram só as vozes de Nick e Caitlin. Eram mais. E familiares. Destranquei rápido a porta, correndo para a sala. Colin e Dylan estavam ali. Caitlin abraçava o namorado e era abraçada de volta como se não se vissem há eras. Não os condenava. Colin e Nick trocavam palavras baixas. Porém, meus passos atraíram olhares dos dois. Colin pareceu incrédulo quando me viu e não pensou duas vezes antes de correr até mim. Ele me abraçou e o abracei de volta, sem conseguir disfarçar minha frustração por ser ele.
— Me desculpa, Lane, se eu...
Afastei-o e respirei fundo.
— Colin, não quero te magoar ou ser rude, mas onde ele está?
— Puta que pariu! — Dylan soltou a namorada e me encarou, tão surpreso quanto o primeiro.
Esse, no entanto, olhava-me engolindo em seco. Ele olhou para os outros e senti todos tensos. Odiei aquilo.
— Onde ele está?! — elevei a voz, afastando-me.
Passos vieram da porta assim como barulhos de tosse. Desviei meus olhos no momento em que ele entrou, carregado por Zack e o seu segurança chefe, Alfredo. Tossia muito, e suas roupas estavam imundas e chamuscadas. Apesar de tudo, ele estava lúcido e levantou os olhos quando entrou no apartamento. Levantou diretamente para mim.
Meus olhos se encheram de lágrimas e não pensei mais de um milésimo antes de empurrar Colin e correr até ele. Joguei-me em seu pescoço sem me importar com seu estado e comecei a chorar compulsivamente. Mesmo mal, ele se posicionou em pé sozinho e me apertou em seus braços. Apertou-me em seus braços igual eu fazia com ele: como se ele fosse a última boia salva-vidas em um naufrágio. Queria me afastar, ver seu rosto, tocá-lo todo com as pontas de meus dedos, mas tinha medo de soltá-lo.
Não queria soltá-lo.
Seus dedos acariciavam meu cabelo, sentia-os cravejados com tanta força em minhas costas que ficaria um hematoma. Seu coração estava tão acelerado quanto o meu, eu o sentia através da camiseta esfarrapada. Queria falar com ele, ouvir o som da sua voz, mas não conseguia parar de soluçar. Toda vez que tentava, as lágrimas voltavam com mais intensidade.
Mas eram lágrimas de alegria, com certeza.
Ele me afastou minimamente, mas eu voltei a grudar em seu pescoço.
— Lane, você está me machucando — sussurrou ao pé de meu ouvido.
Maravilhosa e usualmente rouca, do jeito que eu conhecia e amava. Afastei-me assentindo, e olhei para seu rosto. Havia um corte pequeno na linha do cabelo com sangue seco. Seu rosto era pura fuligem e um roxo se localizava em seu maxilar à esquerda, mas ele continuava com sua beleza arrebatadora e cafajeste de sempre. Sorri em meio às lágrimas, e ele retribuiu, limpando a trilha molhada de meu rosto.
— Nunca mais faça isso comigo. Com todos — sussurrei, apertando forte sua camisa no peito.
— Eu disse que iria até o inferno atrás de você, Lane. Quase fui, na verdade.
Ri em meio às lágrimas, vendo o seu sorriso. Bati em seu peito, murmurando algo como "bobo". Ele sorriu em resposta, deixando-me ainda mais anestesiada. Era o seu sorriso verdadeiro. Era o sorriso que mais amava. Ele beijou minha testa e me abraçou de novo, surpreendendo-me.
— Nunca mais você faça isso comigo. Prometa — murmurou, olhando-me nos olhos.
A escuridão mais doce e acolhedora de todas.
— Eu prometo.
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