Strada Per L'inferno
15 De uma maneira ou de outra
Notas iniciais
Eu acordei num quarto escuro e com cheiro de mofado. A pouca iluminação que tinha ali vinha de uma fresta mínima da janela aberta. Eu me encontrava jogada no chão, deitada. Minha roupa não estava mais em meu corpo. Eu estava só de lingerie. Meu pescoço doía bem aonde me aplicaram a injeção. Poderia estar drogue, mas ainda me lembrava da ruiva e do que ela fizera o suficiente para condenar a mim e a ela. A porta abriu e outra mulher, uma loira de cabelos quase brancos de tintura, peituda e com um vestido justo vermelho com um batom da mesma cor, sorriu para mim.
–A bela adormecida acordou? – Ela perguntou sorrindo sínica.
Eu a encarei com raiva.
–O que vocês fizeram comigo? Onde estou? Onde estão minhas roupas? – Perguntei de uma vez, num tom de fúria e medo.
–Oh querida, não se preocupe, você está muito bem cuidada aqui! – Ela sorriu sonsa – As suas roupas, bem, elas eram meio cafonas para o que você vai fazer então as doamos para a caridade... – Ela informou-me com cara de falso lamento – Uma pena, pois eram de marca, e das boas. Mas você terá outras – Ela garantiu-me jogando um pedaço de pano a mim.
Era, na verdade, um mini vestido preto que deixaria, sem sombra de duvida, boa parte de minhas coxas expostas e marcaria todas as minhas curvas. Sem contar que saltaria meus seios. Era horrível.
–Não vestirei isso! – Olhei com repugno para o pedaço de pano a minha frente no chão.
–Não tem problema, pode ir pelada. Será melhor até! – A mulher sorriu, se virando para a saída – Ah, e quando você decidir se vai pelada ou se vai vestir o vestido, bata na porta para virem lhe buscar – Acrescentou ela se retirando, voltando a me deixar na completa escuridão.
Encarei os contornos daquele pedaço de pano. Eu nunca vestiria aquilo. Porém, olhando em volta, engolindo em seco ao sentir lágrimas se formarem atrás de meus olhos, percebi que não tinha muita opção. Deveria haver um segurança na porta, impedindo que pudesse fugir pela porta; as janelas eram fechadas com barras de madeira, deixando somente um trechinho mínimo de iluminação para eu saber que ainda era de madrugada. Em resumo, dentro daquele quartinho eu não tinha chances de fugir. Quanto a ser resgatada, eu não acreditava nisso. A única pessoa que poderia e deveria sentir minha falta era a última pessoa que eu gostaria de ver, certamente também a mais feliz com minha fuga.
Vesti o “vestido” e percebi, mesmo no escuro, que estava certa quanto a ele: repugnantemente apertado e vulgar. Bati na porta e como deduzira, um segurança careca abriu a porta. Ele pegou-me pelo braço, com força e sem cuidado, e me levou daquele quarto escuro. Fui praticamente carregada até paramos em frente a uma porta. Sem nem bater na porta, com brutalidade mesmo, ele abriu a porta e jogou-me ali dentro. Eu caí ao chão de quatro e ouvi a porta fechar atrás de mim. Burburinhos à frente podiam ser captados por minha audição. Levantei a cabeça e olhe para a sala aonde fora jogada.
Era uma espécie de camarim. Várias outras meninas se encontravam arrumando-se nesta. Umas tinham o semblante de pavor, transparecendo o medo e receio que eu também sentia. Outras, porém, estavam tranquilas e até riam. As assustadas vestiam trajes como os meus, acompanhados de acessórios e maquiagem, assim como as outras. Todas repararam minha presença ali quando a porta foi batida com força, olhando-me com um misto de curiosidade e pena. Ou até desprezo. Uma das garotas mais à vontade ali caminhou até mim.
–Carne nova...! – Ela sorriu, me puxando pelo braço para levantar-me.
Relutante, ajude-a a me levantar do chão. Puxando-me pela mão, enquanto continuava enrijecida, fui empurrada pelos ombros a um banquinho de frente a uma penteadeira com espelho. A penteadeira estava cheia de maquiagens e pinceis, além de acessórios para cabelo, escovas de cabelo, perfumes baratos e até balas de menta.
–Onde estou? – Perguntei confusa enquanto mais duas mulheres, que também riam antes, vinham até mim.
As garotas ririam da minha pergunta.
–Querida, relaxa que será melhor! – A loira que me puxou até ali botou a mão nos meus ombros, me olhando pela penteadeira.
–Senão você vai ter consequências feias... – Uma morena, que se juntou logo após, acrescentou. Seu tom não foi de ameaça, e sim conselho.
–Como assim “consequências feias”? – Perguntei confusa enquanto elas mexiam nos estojos em cima da penteadeira.
–Vamos te explicar – A outra morena, de cabelos cacheados, começou – Você vai ser leiloada daqui a pouco por ser carne nova aqui. Eles sempre fazem isso com as novatas. Na verdade, as que têm mais cara de virgem, como você. O cara que te comprar no leilão vai ter duas opções: passar a noite com você e depois ir embora, ou decidir que seu sexo é muito bom e vale a pena te comprar. Se o cara te comprar, você vai embora daqui. Senão, continuará aqui, só que como nós: se prostituindo na boate lá em baixo. Isso se você for boa tanto na cama como no comportamento. Se você comportar-se mal e não fizer o que eles mandam, você apanhará e ficara com umas marcas horríveis. Ah, e se você também for péssima na cama, com os clientes reclamando de você, você também ganha umas surras para aprender. Caso você não vire uma vadia comportada e boa na cama, eles te matam.
Eu engoli em seco enquanto elas pegavam pinceis e batons de em cima da penteadeira. A mulher ditara de uma maneira tão natural, tão indiferente, que tenho certeza que isso contribuiu para mais embrulhos de meu estomago.
–O que vocês farão comigo? – Perguntei temerosa quando as vi andando pela sala atrás de sapatos e bijuterias.
–Vamos arruma-la para o leilão – Respondeu despreocupada a morena de cabelos lisos.
–Por quê? – Questionei as vendo voltarem ao meu redor.
–Porque nos foi mandado – A loira respondeu indiferente – Agora silencio para você ficar bem linda e conquistar um alto preço.
Fiquei em silencio e elas começaram seu trabalho. As garotas que estavam assustadas foram levadas do camarim separadamente por dois brutamontes durante meu “embelezamento”. Elas estavam aflitas e não pude deixar de sentir por elas. Depois de uma meia hora ou mais, as mulheres acabaram. Elas passaram uma maquiagem forte em meus olhos, um batom vermelho vivo na minha boca, botaram unhas postiças vermelhas compridíssimas, pentearam e alisaram todo o meu cabelo, botaram argolas de prata falsas em minhas orelhas e calçaram um sapato altíssimo de salto vermelho. Para finalizar, elas prenderam minha franja para trás com uma presilha.
–Prontinha! – Disse a morena cacheada.
Eu me olhei no espelho e não consegui me alegrar. Feia não estava, mas estava parecendo uma baldracca. As meninas sorriram e começaram a arrumar a bagunça que se gerara na minha arrumação. Eu me encarava no espelho sem saber o que aconteceria comigo a partir dali. Mas minha pergunta não permaneceu muito tempo sem resposta.
A loira que me levara o vestido que eu trajava entrou como um furacão no camarim. Ela me olhou sentada na penteadeira e sorriu. Eu a encarei através do espelho, sem expressão.
–Você vai me render muito dinheiro! – Ela disse animada, indo até mim e puxando-me pelo braço.
Levantei, a contragosto e assustada. As meninas que me arrumaram gesticularam com os lábios “boa sorte” a mim. Eu saí do camarim arrastada e fui levada até a parte de trás de um palco. As cortinas estavam fechadas e a mulher se virou para mim e me admirou sorrindo má.
–Que pena que teremos de borrar esse batom... Ficou tão bom em você! — Ela lamentou sonsa, tirando das costas um lenço e me imobilizando.
Ela amarrou o lenço na minha boca, impedindo-me de protestar. Ela estava prestes a amarrar meus braços quando pulei nela, jogando-nos ao chão e subindo em cima dela lhe enchendo de arranhões. Se conseguisse deixa-la desacordada poderia sair dali. Ela estava surpresa com minha reação, mas foi receber as minhas primeiras unhadas que a surpresa deu lugar a raiva. Fui jogada ao lado com força e ela sentou em meus quadris, dando-me um tapa na cara estalado que foi aliviado pelo pano em meu rosto.
–Sua vadia, você me marcou toda! –Ela olhou para seus braços e colo todo marcado, olhando-me com raiva em seguida.
Ela levantou de cima de mim e botei o pé em sua frente para tropeçar, o que acabou acontecendo. Ela caiu ao meu lado e aproveitei para tentar fugir, porém postei-me de pé e ela agarrou meu tornozelo, fazendo-me de frente no chão. Ela puxou-me pelos cabelos e fez ajoelhar-me. Meus braços foram puxados brutalmente para trás e ela me imobilizou amarrando-os.
–Agora, a vadia vai ficar bem quietinha se não quiser levar coisa pior – Ela sussurrou no meu ouvido.
Engoli em seco e ela puxou-me pelo braço para levantar-me. Uma vez de pé, ela passou a minha frente e observou-me. Com um sorriso nojento nos lábios, ela arrumou meu cabelo e roupa. Ao fim, ela se afastou um pouco e observou-me sorrindo satisfeita consigo mesmo. Senti seu aperto em meu braço de novo e ela postou-me de frente as cortinas.
–Agora, eu quero que você fique parada exatamente aqui, comportada, caso não queira sofrer as consequências – Ela sorriu maldosa.
Engoli em seco, encarando-a com toda a repugna que conseguia juntar. Fui deixada naquele palco com cortinas abaixadas sozinha, amarrada e de pé, enquanto a loira gingava para longe vulgarmente. Pensei em corre dali no instante que ela sumiu de minha vista, já que meus pés não estavam imobilizados. Porém, sem aviso, as cortinas começaram a subir e me dar visão do que se encontrava em seu outro lado.
Uma série de homens apareceu sentados em mesas de madeira, em grupo ou sozinhos, fumando e bebendo bebidas alcoólicas diversas. Era uma sala grande, com iluminação fraca e proposital. O cheiro de bebida e fumo ali era grande e garçons eram visto a todo tempo trazendo mais bebidas e cigarros para os clientes, contribuindo ara a piora do cheiro. Foi a cortina subir para os olhos de todos ali se fixarem em mim com luxuria. Assobios, risadas e sorriso maliciosos, além de mordidas de lábios, eram unanimidade naquela sala impregnada de presença somente masculina.
“E essa é a garota numero 27, nossa nova mercadoria. Ela é virgem, senhores. As ofertas começam agora com um lance a partir de mil dólares. Então, quem será o primeiro? Quem será o sortudo que terá a honra de ser o primeiro dessa morena aqui?”
A voz, no microfone, era da loira. Olhei para o lado, para a coxia, e lá estava ela, no microfone e sorrindo vitoriosa a me olhar. Enojei-me a vê-la, virando-me para observar a sala lotada de homens pouco depois. Perguntei-me internamente como ela sabia que ainda era virgem. Lembrei-me, porém, do que a morena dissera no camarim: ”Você vai ser leiloada... Eles sempre fazem isso com as novatas... As que têm mais cara de virgem, como você”.
As apostas se iniciaram. Os homens gritavam quantias cada vez mais altas para poderem tirar-me a virgindade. Era um absurdo. Tinha de observar tudo quieta, enquanto suportava ouvir tratarem-me como um pedaço de carne. Pensei em correr daquele palco, porém assim que acortina levantou, um cara musculo e com cara de mau se postou ao lado da loira, estalando os dedos e avisado com o olhar o que aconteceria se tentasse. Os lances pareciam não ter fim, também. Toda vez que pensava que estava prestes a ser vendida para um homem, outro dava um lance maior na última hora. Até que um homem, de uns quarenta anos, moreno, com o biótipo em dia, olhos escuros e sorriso pervertido estampado no rosto, deu o lance final. Era uma quantia alta, que nenhum outro se arriscou a cobrir.
“LEILOADA para o senhor da mesa 6. Parabéns senhor, você terá a chance de ser o premiado com uma noite espetacular com a morena 27!”
A loira que narrava sorriu satisfeitíssima e mandou baixarem as cortinas com um aceno. Assim feito, a loira veio até mim rebolando vulgar e retirou o lenço de minha boca, desamarrando minhas mãos em seguida. Mas não antes de cochichar em meu ouvido:
–Gostou garota? Viu quanto você me rendeu?
Eu me virei para ela, olhando-a com nojo. Ela riu e pegou meu rosto com a mão, fazendo-me olha-la com biquinho de peixe. Ela apertava sem pudor, gostando de saber que estava fazendo-me sentir dor, apesar de tentar não demostrar isso.
–Escuta aqui garota, agora você vai entrar no quarto que lhe botarei e vai gemer bastante. O mais alto que puder! Não me importa se você vai gostar ou não da coisa, tudo que o cliente pedir você faz, senão... – Ela ameaçou perigosamente, olhando-me estreito com verdadeira raiva – Bom, acho que as garotas do camarim te contaram o que acontece com quem é desobediente né?
Eu engoli em seco e ela sorriu triunfante. Ela me soltou e me pegou pelo braço, puxando-me para as coxias em direção a um novo corredor. Novamente, a ideia de fugir por aquele corredor surgiu, mas assim que pensei em dar um chute na canela dela, o homem musculoso que me intimidara no palco surgiu atrás, fazendo-me abortar o plano de novo. Tudo que me restou, então, foi rezar. Pedindo silenciosamente para que fosse salva deste pesadelo. De uma maneira ou de outra.
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