Stracci famiglia: Liberdade e corrupção
60 Traições e reencontros
Notas iniciais
Desde que se mudara de sua antiga residência, Hector passara a frequentar diariamente o cassino da cidade ao lado. Ficar em meio à multidão o ajudava a ignorar os barulhos destrutivos em sua cabeça, e ultimamente, a adrenalina das apostas tornara-se o melhor remédio para mascarar sua solidão. Voltar à uma vida pacata e livre de perigos deixava seu dia-a-dia mais vazio, e ao menos, sentar-se todas as noites naquela mesma mesa de pôquer amenizava parte de sua miséria.
— A aposta foi aumentada, o senhor gostaria de cobrir? — A voz do crupiê retirou-o de seus devaneios, fazendo com que, em um movimento rápido, ele direcionasse o olhar para as cartas já viradas.
Quatro de espadas, rei de paus e valete de paus.
Três pessoas já haviam se levantado, restando apenas ele e um outro homem que aguardava ansiosamente sua resposta enquanto fumava um cigarro e batia levemente os dedos nas cartas como se quisesse mostrar confiança nelas. Ele tinha uma aura familiar; algo que o fazia imaginar já terem se encontrado no passado, embora não fosse capaz de recordar-se de quando ou aonde.
Em sua mão possuía apenas um quatro de paus e uma dama de ouros. Nada além de um par baixo que perderia para qualquer outra coisa que o sujeito tivesse. Mas a questão era: será que ele realmente tinha alguma coisa? Vez ou outra ele deixava escapar uma leve curva nos cantos dos lábios que o faziam imaginar ser um blefe, mas não dava para afirmar com certeza.
— Quanto? — Perguntou, sem desviar a atenção do oponente.
A resposta veio como um simples murmúrio: "Quarenta mil dólares".
Não era um valor muito alto, e nem muito baixo. Um valor seguro que poderia gerar um lucro significativo, mas que também não faria muita falta se perdido. Isso apenas aumentara suas dúvidas, e como sua intuição não costumava falhar, ele assentiu e cobriu a aposta sem hesitação.
A próxima figura revelada fora uma dama de paus. Interessante porque lhe davam um novo par, mas perigoso porque eram três cartas altas de mesmo naipe em série, e ainda que a possibilidade de uma sequência real fosse mínima, ela existia. O montante aumentara novamente. Cem mil dólares. Diminuía as chances de um blefe vindo da parte contrária, mas sua curiosidade falara mais alto e ele pagou para ver.
Dama de copas. Um full house.
Era exatamente o que ele precisava ver acima daquela toalha verde para assegurar-se de que tinha uma combinação forte, então por que seus instintos gritavam perigo e lhe alertavam para não aumentar a aposta? Existiam poucas mãos que ganhassem da sua, entretanto o brilho vitorioso no olhar do homem contra quem estava jogando o fazia se sentir como um animal indefeso caminhando cegamente em direção à uma emboscada cruel. Não era um simples apostador filantrópico que estava ali pela diversão; parecia buscar algo a mais só por estar naquela mesa, e o único problema era que Hector sentia estar envolvido nesse "algo a mais". Isso deixava sua guarda alta.
Saindo dos negócios ou não, ainda era um criminoso procurado.
— Passo. — Soou estranhamente malicioso, apoiando o tabaco no cinzeiro.
Era suspeito. Por que passar se visivelmente possuía tanta confiança em sua mão? Seria um blefe para incitá-lo a apostar em seu lugar? Normalmente tinha facilidade em ler por trás das expressões alheias, porém ele era indecifrável. Se fosse compará-lo a algum conhecido, diria que algo nele remetia à personalidade de Alice; uma pessoa insana que exalava sede de sangue enquanto mantinha o semblante impassível. O pior tipo de se lidar.
Cedeu. Já tinha percebido que aquilo deixara de ser uma mera partida de pôquer há tempos, e como jamais agia imprudentemente, não se permitiria cair de forma patética em uma armadilha descarada dessas.
— Também passo. — Jogou suavemente as cartas no centro da mesa, viradas para cima demonstrando não ter nada a esconder. Se era um desafio, o aceitaria de bom grado.
Para sua surpresa, o oponente esboçou um sorrisinho e levantou-se da mesa após negar com a cabeça e entregar as cartas como se atestasse sua derrota. O crupiê encarou-o abismado, seu olhar transmitia uma sensação de "você tem certeza de que vai desistir?", porém qualquer interferência da banca era extremamente proibida, e sendo assim, não tinha o direito de dar conselhos aos jogadores ou opinar em suas decisões.
— Considere uma cortesia da casa para um velho amigo. — Murmurou com os olhos fixos em Hector; um sorrisinho suspeito nos lábios, desaparecendo entre a multidão, deixando o assassino com mil perguntas sem resposta.
"Um velho amigo"? Admitia tê-lo achado familiar à primeira vista, mas sem dúvidas se recordaria de alguém com quem construíra um vínculo amistoso. Seu círculo de conhecidos era amplo, mas o de amizades nem tanto. Sempre amaldiçoara a si mesmo por ter uma boa memória, já que era ela a causadora de sua insônia diária, e sendo assim, não o esqueceria se fossem próximos.
Droga. Havia vencido, então por que tinha um gosto tão amargo de derrota em sua boca?
Pediu licença para os outros jogadores e saiu da mesa rumo ao bar, disfarçando suas intenções de vigiá-lo de longe ao esconder-se atrás de um bom copo de uísque com gelo. Ao menos cem pessoas já o haviam parado para cumprimentá-lo naqueles míseros dez minutos em que se prontificara a focar em suas ações. Observá-lo trazia-lhe uma nostalgia, revivia as memórias dos eventos em que acompanhava seu Don, porque em lugares lotados normalmente costumavam pará-lo para conversar de segundo em segundo sem descanso. A desconfiança aumentou. Quem era esse miserável, caramba?
A multidão ao seu redor se dissipou e uma mulher loira sentou-se em seu colo. O rosto parcialmente coberto pelos cabelos dourados tornou impossível de identificá-la, mas algo em sua silhueta o fazia imaginar já tê-la visto antes. Outra vez essa maldita sensação de familiaridade.
— Ela é muito bonita, não é? — O garçom puxou assunto, lustrando um das taças para mascarar sua vontade de jogar papo fora com os clientes ao invés de preparar os pedidos. — Se destaca de longe.
Hector o encarou pelo canto dos olhos e assentiu à contragosto apenas para ser educado. Bom, considerando o padrão social ela era certamente impecável, mas para ser honesto, femme fatales perfeitinhas e chamativas não o encantavam. Já havia lidado com uma boa parcela delas durante sua vida e todas acabavam sendo extremamente difíceis de se lidar no final, porque estavam acostumadas a terem todos aos seus pés e ele nunca estivera interessado em um relacionamento sério. Era uma dor de cabeça tremenda.
— Quem é ela? — Demonstrou curiosidade sobre a moça, empenhado em descobrir sobre seu acompanhante. Se fosse cuidadoso, talvez conseguisse arrancar-lhe uma informação ou duas.
— A nova namorada do patrão. — Sorriu convidativo, alegre em ter recebido atenção. Parecia do tipo fofoqueiro sem papas na língua, e como queria juntar dados, isso era uma vantagem. — Eles começaram a sair meses atrás, mas ela evita aparecer por aqui.
"Patrão". Ele era o dono do hotel, interessante.
— Estranho. Tem algum motivo para isso?
— Ninguém sabe. Ela é muito misteriosa. — Deu de ombros e buscou outra vidraria para limpar. — Se não me engano, o nome dela é Pietra. — E aí estava a resposta que não esperava ouvir, apesar de ser muito conveniente.
Pietra, sua antiga colega de trabalho e a mulher com quem tivera uma briga nada bonita graças aos seus sentimentos incontroláveis por Pan. Caramba, não era à toa que uma sensação nostálgica lhe invadira somente por observar sua silhueta de longe, mas o que diabos ela fazia em território inimigo, e principalmente, quem era seu suposto parceiro romântico que há pouco o ameaçara na mesa de pôquer? Teria ela contado sobre a discussão e agora o tal sujeito lhe odiava? Não, isso não era de seu feitio. Sempre fora muito discreta sobre a relação casual que tinham, portanto não a via abrindo o bico sobre isso.
O número de perguntas aumentava à medida que se aprofundava no assunto.
— Seu patrão é bem ocupado pelo visto. — Bebericou seu uísque, dispondo-se a analisá-lo sutilmente. Não o interrogaria diretamente sobre o nome do homem em questão pois levantaria suspeitas. Agir com cautela seria o ideal.
— Desde que ele investiu nessa rede de hotéis e cassinos na cidade os negócios andam ocupando muito tempo. — Concordou, pegando uma flanela para começar a limpar a bancada. — Ele é muito gentil com todo mundo, apesar de ser o segundo filho de uma família rica.
"Segundo filho de uma família rica." Isso diminuía consideravelmente a busca por suas origens, contudo nessa região todas as opções que se encaixavam nessa descrição eram preocupantes. Justo quando decidira se afastar de todos os problemas e viver pacificamente, inferno.
— Ah, é? Eu não conheço os grandes nomes daqui. — Forçou um semblante que indicava não ter segundas intenções, como se estivesse indagando apenas por mero desejo de seguir dialogando. — Me mudei há poucos dias. — Acrescentou à lorota, tornando-a mais convincente. Se tudo seguisse de acordo com seu plano, não demoraria para descobrir com quem estava lidando.
— O patrão não gosta muito de usar o sobrenome por aí e pede pra mantermos sigilo, mas você não parece ser um cara ruim. — Murmurou cautelosamente, olhando para os lados. Era o dono do local, todos deveriam saber, certo? Por que o mistério? — Enfim, ele é o filho do meio dos Romano. — Terminou em uma entonação baixíssima.
Pelo amor de Deus, era a pior das hipóteses. Precisava ser especificamente dessa família?
— Nunca ouvi falar. — Mentiu impassível e o sangue ferveu. Primeiro porque, agora, tinha ciência de que aquelas palavras na mesa de pôquer foram um aviso de vingança pela morte do irmão mais novo, e segundo, porque havia descoberto que Pietra estava traindo o antigo Don a quem ele servia. Sua eterna lealdade por ele não o permitiria ignorar algo assim.
— Senhor, me desculpe a indiscrição, mas... — o barman iniciou tímido — você por acaso tem namorada? — mudou o tópico rapidamente, evidenciando a razão pela qual se aproximara inicialmente.
Hector admirou-se com a abordagem. Não esperava lidar com flertes tão cedo e se interessava apenas por mulheres, porém o rapaz havia lhe providenciado informações tão úteis que cogitava mantê-lo com esperanças ao menos por enquanto. Poderia necessitar de sua ajuda no futuro.
— Não, eu... — pigarreou, se esforçando para não ser grosseiro como de costume. Era bem famoso pelo fato de não ser nada amigável com foras, então conteria sua personalidade antissocial desagradável por uns minutos — viajo muito a trabalho e como consequência acabo não tendo tempo para me relacionar. Prefiro ter casos aqui e ali. — Explicou sereno, elogiando-se mentalmente por ter mantido a compostura uma vez na vida.
— É uma pena. Se mudar de ideia, sabe aonde me encontrar. — Piscou galanteador, servindo-lhe outro copo por conta da casa. — Você trabalha com o quê?
— Negócios. Também estive pensando em abrir um hotel pelas redondezas.
— Ah, você deveria se aproximar do patrão. Ele quem comanda toda essa rede por aqui.
— Provavelmente, mas é difícil conseguir ficar à sós com ele. — Apoiou os cotovelos na bancada e direcionou o olhar até Pietra, curvando sadicamente os lábios. — Pode mandar um coquetel de frutas para ela na minha conta, por favor? É mais fácil começar fazendo amizade com a namorada dele. — Alegou, recebendo um aceno afirmativo antes de vê-lo partir para atender ao seu requisito.
Não passava de um pretexto para descobrir suas intenções ao mudar de lado e começar a namorar com um dos Romano. Estava curioso para escutar o motivo de sua traição, e ainda que pudesse existir uma explicação plausível, desejava puni-la severamente por ter ousado virar as costas para o homem que um dia salvara sua vida. Era uma questão de honra. Independente de seus desentendimentos no passado, a considerava muito competente e leal no quesito trabalho; ao menos até aquele momento.
Seus olhares se cruzaram através do salão e ela sorriu de canto, tomando um gole de seu drinque. Segurou o copo e se levantou, caminhando lentamente em sua direção, o som dos saltos ecoando em meio aos ruídos do recinto, um após o outro.
— Se não é o cachorrinho abandonado dos Stracci... que surpresa te ver por esses cantos. — Soou irônica, passando a língua pelo canto da boca ao acomodar-se próxima a ele. Cruzou as pernas elegantemente e o analisou intrigada, dando duas leves batidinhas na taça para acrescentar: — Ainda por cima pagando coquetéis para as mulheres no bar. Nem parece você.
— O que foi? Não posso pagar uma bebida para uma velha amiga? — Ajeitou a postura no banco e desviou a visão para o outro lado. Queria evitar provocações ao dono do recinto por ora.
— Eu tenho todo o direito de achar isso suspeito. — Virou-se de costas, compreendendo o pedido de discrição. — No último contato que tivemos você deixou bem claro que não era mais pra eu aparecer na sua frente.
— São águas passadas. Não tenho mais nada contra você agora que parei de trabalhar com os Stracci.
Ela deu um longo gole, fitando-o de cima à baixo, tentando encontrar sinais de hesitação para descobrir se estava mentindo sobre não se importar mais com seu antigo lar. Conhecia seu lado ridiculamente leal, portanto tinha suas dúvidas, mas como sempre, ele era indecifrável.
— Quer ir para um lugar mais reservado? — Sinalizou sutilmente que estavam sendo monitorados pelos informantes dos Romano. Bom, era a namorada do chefe, e nesse caso, chamar atenção em seu território tornava-se inevitável, especialmente se tão perto do homem que matara seu irmão mais novo. — Não vamos ter privacidade em lugar nenhum, mas aqui dentro é pior.
— Tenho minhas dúvidas sobre isso. — Retirou alguns dólares do bolso e escreveu um endereço em uma das notas, vendo-a guardá-la entre os seios sem que notassem. — Se até hoje eles não sabiam que eu estava morando na cidade, então é por que tem um limite até aonde a jurisdição da famiglia chega. — Recolheu sua carteira da bancada e despediu-se do barman com quem conversara mais cedo, informando-lhe que iria embora para uma reunião. Tecnicamente não era mentira, e uma boa desculpa para estar apressado o livraria de suspeitas.
O ponto escolhido por ele fora um casebre abandonado, localizado há apenas alguns poucos quilômetros de seu chalé, bem afastado da civilização para que os conhecidos do cassino não os rastreassem. As paredes de madeira rangiam, perigando desabar a qualquer instante; as teias de aranha nos quatro cantos da construção davam um aspecto de cenário montado para a gravação de um filme de terror, e bem no meio de um dos cômodos, na frente da espatifada janela de vidro central, existia uma cama mofada que mais parecia um antro de insetos, inclusive peçonhentos.
— A madame quer se sentar? — Hector apontou com as sobrancelhas o colchão esverdeado, divertindo-se ao vê-la franzir o cenho enjoada. — Por que essa cara? Nós dois já tocamos em coisas muito piores. — Buscou pelo maço de cigarro nos bolsos, puxando um e colocando-o entre os lábios. — Tem um isqueiro?
— Só um minuto. — Abriu a bolsa e buscou pelo objeto requisitado, acendendo seu tabaco e guardando-o de volta. Ele agradeceu com um aceno de cabeça e deu uma baforada. — Sabe, você costumava ter bom gosto para escolher os lugares dos nossos encontros. — Olhou ao redor, esboçando um sorrisinho cheio de escárnio — O orçamento ficou baixo depois que parou de ser o cãozinho de estimação dos Stracci?
— Cuidado com o que fala. Desdenhando assim da família que te tirou das ruas, dormindo com o maior inimigo do homem que salvou sua vida... — deu duas batidinhas no dedo para retirar o excesso de cinzas — você não tem vergonha?
Pietra engoliu seco. Pensou em dizer a famosa frase "não tenho medo de você" após ter sido repreendida, contudo seria uma enorme mentira. Ele sabia que seria.
— Ele também te salvou e você desobedeceu as ordens dele. Não é hipocrisia sua me julgar assim depois de ter sido expulso?
— A diferença entre nós é que eu assumi meus pecados e estava disposto a dar minha vida para pagar por eles. Não que valesse de algo, mas eu não tenho essa cara de pau de continuar mentindo abaixo do nariz de quem me acolheu quando mais precisei.
— Essa guerra vai piorar, e eu quis ficar do lado vencedor. — Cruzou os braços, fitando-o com desdém. — Não do lado de um Don frouxo que toma decisões baseadas nas vontades da filha mimada.
— Eu não entendo todo esse ódio que você tem por ela. Qual o seu problema com a Pan? Ela nunca te fez nada.
— O problema não é especificamente com ela, só não suporto esse estereótipo de patricinha mimada que tem tudo entregue de bandeja em uma colher de ouro e só faz reclamar da vida. — Ponderou se deveria ser honesta, porque tinha noção de que a pessoa citada era um tabu. Ainda assim, decidiu colocar todas as frustrações para fora e seguiu: — Se a princesinha nunca tivesse descido da torre, o Don não teria amolecido. E nem você.
— Ela tem todo o direito de reclamar. — Aqui sua entonação engrossou; ficou mais firme, e a expressão tornou-se sombria. — Ninguém quer perder toda a juventude dentro da porra de uma casa sem poder sair enquanto a única coisa a se fazer é invejar os outros se divertindo do lado de fora e ver seu precioso tempo de vida passar bem diante dos seus olhos sem capacidade nenhuma para mudar essa situação. — Cerrou os punhos. Lembrar-se da miséria de sua amada há anos atrás trazia-lhe de volta sentimentos que gostaria de ter enterrado junto com a esperança de tê-la para si.
— Uau, vossa majestade sofreu tanto presa em uma mansão enorme com todas as regalias do mundo. — Revirou os olhos, negando veemente com a cabeça por achar tudo aquilo uma enorme estupidez. — Quer que eu sinta piedade dela por isso? Não chega nem perto de uma prisão de verdade.
— Não, claro que não. É impossível comparar, até porque uma prisão é lugar para gente como nós, que realmente cometeram algum crime e precisam se redimir por isso. — Estalou a língua, já internamente alterado pelas memórias. — Uma criança que não tem nem ao menos noção do que fez de errado acabar sendo presa pelo próprio pai é muito pior. Como você se sentiria no lugar dela? Se te privassem de dez anos da sua juventude e depois te jogassem ao mundo sem preparo algum, te obrigando a ser um fantoche dependente de outras pessoas para ficar viva porque muitos te querem morta?
Pietra apertou os dentes, recusando-se a ter empatia. Vivera nas ruas durante um bom tempo de sua existência antes de ser resgatada por Hans, apreciava muito sua liberdade e independência, portanto tinha plena noção de que, nessas condições, ficaria miserável. Não aguentaria ser vedada por tantos anos, e muito menos de subordinar-se às vontades de outrem.
— Bela merda. — Rosnou. — Ela é rica, tem dinheiro para comprar uns dois países se quiser. O que são dez anos comparados a isso? Agora ela pode viver sem preocupação nenhuma, enquanto alguns precisam sujar as mãos todos os dias só pra terem um pedaço de pão na mesa ao fim do dia.
— Não é o seu caso. E, honestamente? Eu queimaria todo o meu dinheiro em uma fogueira sem pensar duas vezes se isso significasse voltar dez anos no passado e recomeçar a minha vida. — Vidrou-se no horizonte, perdido nos próprios devaneios. Voltou a si cabisbaixo e acrescentou em um sussurro: — Tenho certeza de que ela também faria a mesma coisa.
— Você se arrepende de ter entrado nessa vida? — Amaciou, soando estranhamente compreensiva. Ele ainda era seu ponto fraco, afinal de contas. — De ter virado um peão que só serve para fazer o trabalho sujo no lugar do chefe?
— Não, eu sou muito grato por tudo o que o Hans me proporcionou. — Murmurou, com sinais de exaustão em seu timbre. — Mas não nego que às vezes fico me perguntando como seria se as coisas tivessem sido diferentes. Como teria sido a minha adolescência, se minha vida teria sido menos conturbada, e se... — proibiu-se de terminar aquela maldita frase, crente de que ponderar seu relacionamento com Pan Stracci caso houvessem se conhecido em outros termos não lhe traria nada senão dor. — Nada, esquece. — Pigarreou, mascarando seu desconforto.
— Ainda dá tempo de deixar tudo isso pra trás. — Comentou esperançosa, aproximando-se dele para segurar sua mão. Embora desapreciasse o gesto, ele não recuou, apenas pela curiosidade de ver até aonde iria essa cena. — Nós podemos recomeçar juntos, fugir dessa vida de crimes. — A entonação ficara ainda mais sonhadora; parecia uma adolescente tagarelando sobre sua primeira paixão.
— Você enlouqueceu? Além de namorar o Ezio Romano você ainda traiu seu Don. Quem confiaria em qualquer palavra sua? Só se eu estivesse louco.
— Se você aceitar eu ligo agora mesmo pro Ezio e termino com ele. — Insistiu. Colocou os dedos entre os dele, e acariciando sua palma com o polegar continuou: — Você não é um inútil como o Don Stracci. Estou disposta a te perdoar por tudo, porque mesmo depois de tanto tempo eu ainda te amo.
O sangue dele ferveu ao ouvi-la ofendendo o homem à quem devia sua vida. O respeitava profundamente, portanto estava fora de cogitação permitir que isso passasse. Traidores nunca duravam muito nesse mundo, de qualquer forma.
— Pietra... — chamou-a com ternura e um sorrisinho bobo nos lábios, desvencilhando-se ao fitá-la diretamente nos olhos. Vagarosamente colocou as mãos atrás das costas e deu dois passos para frente, cessando por completo a distância entre seus corpos. — Vou te contar um segredo. — Sussurrou ao lado de seu ouvido, e ela arrepiou animada.
— S-sim? — Gaguejou cobiçosa, esperando por uma resposta afirmativa à sua declaração.
No entanto, todas as suas ilusões de uma fuga romântica se esvaíram e deram lugar a um pavor imensurável no instante que notou o metal frio posicionado entre seus cabelos e ouviu o som de um clique, percebendo ter uma arma apontada à sua cabeça. Perdeu a força nas pernas, ciente de que qualquer movimento brusco a faria perder os miolos. O problema não era o revólver em si, mas sim quem o segurava. Ficara sem reação; sua falta de coragem não a permitiria arriscar a sorte e reagir. Estática, suava frio com os olhos arregalados de medo, torcendo para se manter de pé enquanto seus joelhos não sucumbissem de vez.
Com a outra mão, Hector agarrou brutalmente seu queixo, obrigando-a a encará-lo, apreciando sua respiração descompassada e o pavor estampado em sua face.
— Eu sei que você só está tentando limpar a sua barra depois de ter sido descoberta como uma traidora, mas isso não é um conto de fadas aonde a donzela em perigo se declara para o cara mau e ele se transforma em um gentil príncipe encantado montado em um cavalo branco. — Apertou ainda mais os dedos contra a pele dela, ouvindo-a grunhir de dor. — Essa é a vida real, e na vida real... — puxou o gatilho impiedosamente, sentindo o respingo das gotas de sangue contra seu rosto. Os olhos dela começaram a gradativamente perder a luz, e o último resquício de equilibro restante em seus músculos desapareceu com o suspiro final que saíra de seus lábios ao espatifar-se contra o chão gélido. — Um desgraçado vai continuar sendo um desgraçado pelo resto da vida.
Cheio de empatia, mirou-a por um átimo e ajoelhou-se ao seu lado no intuito de rezar que sua alma encontrasse amparo e redenção. Querendo ou não, sua cultura prezava muito pela religião e certos costumes era incapaz de deixar de lado, embora não fosse mais o garotinho simples e sonhador que ordenhava vacas no pequeno sítio dos parentes em Catania.
Odiava arrumar a bagunça no final de cada assassinato, porém era essa a especialidade pela qual era tão conhecido no submundo, não era?
Felizmente escolhera uma área afastada que lhe desse mais tempo para concluir o serviço, considerando sua falta de vontade em enterrar uma antiga companheira. Obviamente tiveram desentendimentos por inúmeros motivos no passado, mas independente de ser um cretino, não trataria com indiferença a morte da amiga que o mantivera com a sanidade intacta mesmo em seus momentos mais miseráveis.
Por ser um assassino procurado, estava sempre preparado para trabalhar. Retirou as luvas do bolso e vestiu-as antes de fechar os olhos do cadáver. Não para evitar marcar suas digitais, porque provavelmente já estavam presentes em sua face, mas sim por respeito a ela. De qualquer forma, era uma criminosa, e os oficiais responsáveis pela segurança do local não davam a mínima para qualquer um que fosse morto entre as guerras constantes de facções rivais do tráfico, de gangues ou simples cobranças de dívidas que acabassem mal. Alguns milhares de dólares nas mãos do xerife fariam o trabalho sujo em seu lugar.
Depois de respirar fundo e acalmar os ânimos, desencaixou algumas tábuas soltas do chão para certificar-se de que o solo abaixo da casa era puramente feito de terra. Seguro disso, utilizou uma pá desgastada e cavou um buraco fundo o suficiente para que não a encontrassem ou profanassem seu corpo sem vida. Assim que feito, buscou na plantação mais próxima um saco de esterco para juntá-lo ao barro e cobri-la, intencionando disfarçar o possível aroma insuportável de carniça que exalaria do solo em breve. Possuía experiência mais do que o bastante para saber que o cheiro da morte era muito mais forte do que simples fezes de animais, contudo alguns sítios ao redor eram utilizados de vala comum pelos criminosos da cidade e a cova feita era bem profunda, então outras medidas seriam apenas mera formalidade e precaução. Satisfeito, a sepultou e retornou as tábuas no lugar, aproveitando para virar de cabeça para baixo aquelas manchadas com o sangue de sua vítima, escondendo as evidências ainda que infimamente.
Um dia tão cheio e exaustivo o desgastara física e mentalmente. Ansiava somente por chegar em casa e tomar um longo banho depois de queimar suas vestes no quintal, e foi exatamente isso o que fizera antes de se deitar confortavelmente com a cabeça no travesseiro e fechar os olhos com um coração pesaroso, torcendo para não ser atormentado pela face da recente assassinada colega em seus sonhos.
Era seu aniversário de 16 anos. Ao passo que todos festejavam a sua passagem de ano, Hector estava sendo guiado até os fundos da mansão dos Stracci, em Palermo, para seu ritual de iniciação. O corredor que antecedia o cômodo parecia infinito; o som dos sapatos sociais dos três homens que caminhavam à sua frente estava mais estridente do que nunca. O nervosismo era tamanho, e podia jurar que o coração sairia pela garganta a qualquer minuto.
Foi então que a porta finalmente se abriu, e ele encontrou-se ajoelhado no centro de um círculo desenhado no chão para beijar o anel de seu Don, mostrando-lhe eterna lealdade.
A imagem daquele santo queimando em suas mãos no quarto escuro enquanto o sangue escorria pelos seus braços trazia-lhe calafrios. A lembrança de sua iniciação na máfia ainda muito jovem; a memória do rosto frio e impiedoso de Hans Stracci de pé à sua frente após ter lhe cortado a pele da mão como ponto inicial do pacto para a entrega de sua vida à famiglia...
— Traição fará com que sua alma e a de suas próximas sete gerações queimem no inferno, assim como o santo que você tem em mãos. Ciente disso, você jura agir como um homem de honra e conceder sua lealdade eterna à família?
— Sim, eu juro.
O santo foi jogado ao chão para completar sua transformação em cinzas, e no seu lugar, fora entregue um comprimido de cianureto, que ele guardou em meio ao punho cerrado.
— Se for capturado, você promete não passar nenhuma informação, e se necessário, concorda em retirar a própria vida, tendo como opção esse comprimido ou uma bala em seu pente, que deve sempre ser guardada para si mesmo?
— Sim, eu prometo.
— A partir de agora, sempre que perguntarem suas origens, você deve dizer que seu pai é o sol e sua mãe a lua. Você entende isso?
— Sim, eu entendo.
— Então, criança, me diga seu sobrenome. Quem são seus pais?
— Não tenho um sobrenome. Meu pai é o sol, minha mãe é a lua.
— Muito bem.
Hans estendeu uma última vez a mão em sua direção para que a beijasse ainda de joelhos, antes de levantar-se e ser prontamente recebido com abraços e cumprimentos dos outros membros ao seu redor.
Seus batimentos se descompassavam cada vez mais, gradativamente aumentando o ritmo até que se equiparasse aos estrondos alcançados por seus ouvidos e perdesse o fôlego. Em poucos segundos, Hector encontrou-se na própria cama, apertando sua camiseta do lado esquerdo como se quisesse cessar a dor ali presente.
— Outro pesadelo? — Rumorejou assustado para si mesmo, buscando pelo relógio na intenção de averiguar quantas horas conseguira dormir essa noite.
Seis e meia da manhã. No fim, mesmo exausto, foram apenas três horas de sono.
Parecia que sua cama o estava empurrando para fora dela, atraindo-o até a porta aonde alguém batera inúmeras vezes nos últimos minutos. Não tinha certeza se o barulho insuportável martelando incansavelmente em sua audição era de seus próprios pensamentos turbulentos ou então da realidade, mas se seguiam mesmo após seu despertar, dava para ter uma ideia.
Com os cabelos emaranhados, levantou-se sem vontade alguma e partiu para escovar os dentes, pegando seu revólver para atender quem quer que fosse. Não era normal que batessem à sua porta tão cedo, e por ser um sujeito procurado, todo cuidado era pouco.
Cautelosamente girou a maçaneta e destravou sua arma, revelando sua visita de braços cruzados e já impaciente.
— Nada melhor do que começar o dia sendo calorosamente recebida pelo cano de uma pistola apontado pra minha cabeça. — Soou debochada, esboçando seu usual sorrisinho ladino que conhecia perfeitamente. — Bom dia pra você também, Hector.
— Alice? — Abaixou a guarda e pôde respirar aliviado, posicionando o pedaço de metal na mesinha ao lado da entrada. — Como me encontrou?
— Você fala isso como se tivesse se esforçado um mínimo para se esconder. — Revirou os olhos, e à contragosto, ele precisou concordar. — Mas pra ser sincera, pensei que fosse enfiar o rabo entre as pernas e correr de volta para a Itália. Nunca imaginei que te acharia no meio do território inimigo, você é louco mesmo. — Sorriu novamente, achando graça.
— Olha quem fala. — Estalou a língua em desaprovação. Nunca se deram bem, e ter que aturá-la tão cedo após uma nada agradável noite de sono lhe parecia o inferno na Terra. — Se só veio jogar conversa fora, vai embora. Não tenho tempo para você.
— Quanta grosseria. É assim que você trata as mulheres? Se for, acho que vou dar para outra pessoa o pacote que vim te entregar.
— Pacote? — Franziu o cenho em estranheza, porém instantaneamente deu de ombros e suspirou como se não desse a mínima. — Faça isso. Eu não trabalho mais para os Stracci. — Começou a fechar a porta, contudo Alice o conteve ao colocar seu pé no meio e mantê-la aberta.
— Tem certeza? — Algo em sua entonação o deixava com a guarda alta. Odiava seus joguinhos e encontrava-se muito desgastado para cogitar participar deles. — Acho que você não vai querer que eu entregue esse para outra pessoa.
— Mamãe, eu sei que vocês precisam ficar anônimos aqui, mas a gente não pode mesmo ir pra um hotel? — Uma voz familiar e especificamente muito apreciada por ele ecoou a distância, fazendo-o ter dúvidas sobre o fato de estar acordado.
O universo acinzentado criara cor; parecia ter parado de girar no instante que seus olhos se encontraram. Não era possível, certo? Sua visão definitivamente estava lhe pregando peças. Claro, sua mente deveria estar criando ilusões devido ao cansaço, portanto esfregou o rosto e chacoalhou brevemente a cabeça para desanuviar os pensamentos antes de averiguar uma segunda vez.
Não deu certo, a imagem seguia lá. Era a mesma de seus sonhos mais felizes; os fios escarlate que tanto amava, esvoaçando contra o vento, brilhando contra os fracos raios de sol matinais, trazendo-lhe de volta sentimentos que imaginava ter trancafiado às sete chaves no fundo de sua miséria.
Ele então engoliu seco, abrindo os lábios trêmulos para, desolado e incrédulo, chamar em um murmúrio sôfrego e completamente arrastado:
— Pan? É... você mesmo?
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